sexta-feira, 26 de março de 2010

“A Lula o que é de Lula’. Preconceito feroz

Nunca votei no Lula e provavelmente não votarei na Dilma Roussef porque não conheço sua cabeça. Mas um pouco de justiça no julgamento das pessoas, até mesmo de presidentes, não faria mal a ninguém. É natural que os partidos e seus seguidores — todos eles, sem exceção —, anseiem o poder, com suas irresistíveis benesses. Querem coisas bem variáveis: cargos, sensação de importância, relacionamentos úteis, riquezas, proteção da prole já adulta e seus cônjuges (nomeações) e, por vezes, até mesmo o bem da comunidade; ou daquele segmento com o qual se sente mais identificado. Por que não? Seria a união do agradável ao útil. Em um patamar bem mais alto, frio e quase deserto, estão algumas poucas almas penadas, mordidas por puro idealismo, dispostas a penetrar no arriscado serpentário com botas de cano alto mas sabendo que, mesmo assim, não estarão livres das picadas venenosas da calúnia e falsas interpretações. Como disse, aves raras, atormentadas por um sentimento de justiça que nasceu com eles e nunca morrerá. Uma espécie de doença moral incurável.

Nenhum Presidente da República escapou, escapa ou escapará da crítica, seja ela mentalmente honesta ou desonesta. Não é que os críticos sejam monstros morais, jararacas de duas pernas. São pessoas normais, “incapazes de matar uma mosca” mas ansiosas de ver o “maldito obstáculo”, digo, o presidente, preso ou desmoralizado; ou, pelo menos, humilhado pelo insucesso. Isso ocorre porque entre a gula mental de todo político de alto coturno e a ambicionada cadeira de ouro existe um “sujeitinho insignificante”, ou “grandalhão desengonçado” — Lincoln, de alta estatura, era chamado de “macaco” por alguns americanos, proprietários de escravo. Como, no geral, presidentes não têm pressa em morrer no cargo — seria uma mão na roda... — e além disso podem fazer seu sucessor, o jeito é caprichar na crítica para que qualquer mancha que nele grude diminua, futuramente, o número de votos no candidato de sua escolha . Como não é possível a existência simultânea de dezenas de presidentes da república — só aí todos ficariam satisfeitos (a contragosto ...) —, não há como escapar à necessidade de fustigar o “arrogante”, ou “mole”, ou “imbecil”, ou “ignorante” ocupante da ambicionada cadeira.

O presidente Lula não é exceção na sua posição de alvo no campeonato de flechadas, algumas envenenadas por interpretações tendenciosas. E é sobre esse pequeno detalhe — as distorções — que aqui conversaremos. Não há espaço, claro, para uma análise minuciosa de sua atuação como presidente. Limitar-me-ei às conclusões; as minhas, claro, que ninguém será obrigado a aceitar.

Nada a opor quanto ao direito de crítica contra presidentes da república, governadores e prefeitos, desde que fundamentadas na verdade, isto é, na interpretação honesta da realidade. Alguém poderá argumentar que não tem sentido — na dura realidade de nosso mundo — membros de um partido, tradicionalmente contrário ao partido do presidente, ficar elogiando o adversário. De acordo, mas uma coisa é deixar de aplaudir os acertos do inimigo político; outra, criticá-lo de má-fé, distorcendo os fatos ou o contexto de declarações.

Por que tanto furor contra Lula, na imprensa, na internet e nas conversas particulares? Por muitas razões, mais e menos respeitáveis. Entre estas últimas, sua figura e seu estado de origem: baixinho, nordestino, rechonchudo. Uma senhora, minha conhecida, por sinal inteligente e culta mas incapaz de dominar seu pétreo preconceito, diz que nunca confiou no Lula porque não só ele não estudou, quando adulto (teve oportunidade), como também porque “tem um olhar de demônio de pintura de igreja”. Não suporta suas metáforas futebolísticas, seu habitual “a gente...”, “nunca antes na história deste país...” e sua vocação de humorista amador, usando bonés e deixando-se filmar fazendo gracinhas. Acha que, sendo presidente, seria preciso uma compostura “à altura do cargo”. E não aprova, nem um pouco, a tendência dele de improvisar em seus discursos. Revolta-se com a ampliação de bolsas-famílias e ajudas similares, que, no entender dela, “fornecem o peixe mas não ensinam o pobre a pescar”. Considera que essa política de amparo “excessivo” estimula a ociosidade do pobre e o aumento do número de filhos. Acha, finalmente, que ele tem a intenção secreta — “pero no mucho” — de empurrar o Brasil rumo a um socialismo estilo Fidel Castro. Entende, ainda, que o presidente gosta demais da pinga e iguala presos políticos cubanos, em greve de fome, com marginais cumprindo pena em prisões brasileiras. Finalmente, censura a “megalomaníaca pretensão” de Lula em querer fazer o que ninguém ainda conseguiu, nem os EUA: a paz entre israelenses e palestinos. Finalmente, revolta-se contra a prática presidencial de não ler jornais, como já confessou.

Analisemos, não a “vôo de pássaro”, como se dizia antigamente, mas a “vôo de jato”, os argumentos da referida senhora, que chamaremos, hipoteticamente de “Dna. Helena”. O que ela diz, é o que dizem, mais extensamente, os jornais de oposição.

Quanto à figura física de Lula, nada o que dizer porque ninguém pode escolher as características que herdou. Quanto às metáforas futebolísticas, em matéria de gosto estou com Dna. Helena. Nunca gostei de futebol, embora goste de esportes bem mais brutais, como “vale-tudo” no “octagon”; lutas que assisto com viva curiosidade quando os dois lutadores estão equilibrados em força, técnica e agressividade. Quando um dos lutadores só apanha, mudo um pouco de canal, porque gosto de lutas, mas não de torturas e humilhações. Como disse, se não gosto de futebol — e consequentemente de suas metáforas — a falha deve ser minha, porque é um esporte admirado por milhões. E sendo admirada por milhões não é de surpreender que as metáforas presidenciais agradem e atraiam votos do sofrido “povão”, que não teve oportunidade de estudar mais, adquirindo gosto por metáforas mais intelectualizadas.

Ressalte-se que uma coisa é inteligência e bom senso: outra, a freqüência às escolas. Há pessoas, sem instrução regular, com muito mais bom-senso que outras, de formação superior. Por vezes, uma espécie de loucura branda aloja-se, sutilmente, na mente de um Ph.D. Inicialmente, ele impressiona, mas com o tempo seus colegas de profissão percebem que o evidente “brilho” não passa de um sintoma de que algo vai mal, queima a mente do admirado. Evidentemente, a loucura branda pode se alojar também na mente do ignorante. Por outro lado, sempre me impressiona a rapidez com que simples “manobristas”, que nem possuem automóveis, aprendem rapidamente como movimentar, com habilidade, todos os carros que chegam ao estacionamento. Finalmente, como a finalidade principal da democracia é amparar o maior número de cidadãos, é dever de todo presidente se preocupar mais com os pobres do que com os abonados, que sabem se defender perfeitamente, desde que não escravizados por um socialismo tipo stalinista.

Lula teve — está em fim de governo — a intenção de transformar o Brasil em um país comunista? Não, porque procurou beneficiar as camadas mais empobrecidas e, fazendo isso, tornou o socialismo “puro” menos viável e atraente. Pessoas das classes “C” ou “D” que sobem de categoria, tornando-se proprietárias — seja do que for —, tornam-se automaticamente, no geral, mais “conservadoras” — querem “conservar” os seus bens. Não teria havido a revolução socialista de 1917, na Rússia, se a maioria da população tivesse casa própria e um bom padrão de vida. Como, no Brasil, a classe média foi ampliada, com ajuda governamental, o país ficou menos receptivo à causa socialista.

Quanto à alegada propensão de Lula para o aguardente, parece-me que a crítica é exagerada, interessada em prejudicar. Se ele fosse um alcoólatra, isso já estaria bem provado, tendo em vista a constante vigilância da mídia. Ele não cambaleava em cerimônias, como Boris Yeltsin, o primeiro presidente russo da era pós-comunismo. Winston Churchill, político inglês de imenso prestígio, Prêmio Nobel de Literatura, que ousou enfrentar Hitler quando toda a Europa se agachava, apavorada com o poderio nazista — poucos sabem que foi a Grã-Bretanha que declarou guerra contra a Alemanha, não o contrário — bebia muito mais (e fumava charutos) que Lula, sem que isso afetasse sua lucidez. Pelo contrário, entre suas frases selecionadas está — cito literalmente para que não se alegue que distorço suas palavras —: “All I can say is that I have taken more out of alcohol than it has taken out of me” —, isto é, “Tudo o que posso dizer é que eu extraí mais do álcool do que ele extraiu de mim”, ou tradução assemelhada (“The Wit &Wisdom of Winston Churchill”, de James C.Humes).

Quanto à pretensão de Lula, de apressar um acordo entre israelenses e palestinos, e provocar um abrandamento nas posições de Ahmadinejad, não há nada de “megalomaníaco” nisso, porque o mundo árabe e persa vê com simpatia o atual presidente brasileiro. E essa simpatia pessoal, por mais que se pretenda o contrário, exerce uma forte influência nas decisões políticas. Lula trabalha com o que tem, com o bom-senso e a boa-vontade; não com a cultura clássica, e geral, que não tem. A grande crítica da oposição e de alguns eruditos vem do medo de que ele consiga o que pretende: impulsionar a conciliação e levar mais paz ao Oriente Médio. Eruditos dessa área sentirão uma certa sensação de injustiça pessoal se um cidadão de pouca instrução conseguir, com base na mais “simplória” argumentação, conseguiu algo ainda não alcançado por brilhantes especialistas da política internacional.

Quanto a Lula não ler jornais — nem, suponho, internet —, isso é verdade e, particularmente, me sinto prejudicado. Vários meses atrás sugeri, em sites da internet, que o atual governo — se fosse do PSDB eu faria o mesmo — criasse, no hemisfério sul, no Brasil, um centro de estudos de Direito e Relações Internacionais que, à semelhança de uma Sorbonne, ensinasse não só o Direito Internacional tradicional, mas desse alguma ênfase ao estudo da criação de um governo mundial, em forma obviamente democrática e federativa. Um centro de estudos dessa natureza, no Brasil, atrairia não só a mocidade brasileira mas também a mocidade da América Latina que, falando espanhol, teria mais facilidade de acompanhar as aulas do que estudando essa matéria em universidades de língua inglesa ou francesa. E muitas aulas seria dadas em francês e inglês, com acompanhamento de professores brasileiros, para que profissionais — advogados, por exemplo — pudessem, depois de aqui formados, trabalhar em tribunais internacionais, de onde estão quase ausentes por falta de uma razão prática para isso e também porque não estão preparados para argumentar nas duas línguas oficiais nesses tribunais. Essa sugestão foi, pelo que fui informado por um jornalista , encaminhada ao governo Lula mas não houve qualquer resposta. Espero que eventual ciúme de algum assessor de Lula não seja a explicação de porque essa proposta não chegou aos ouvidos presidenciais. De qualquer forma, agora é tarde para seu governo iniciar um estudo a respeito. Quem sabe o próximo governo — federal ou estadual — terá interesse pelo assunto. Uma universidade desse tipo projetaria o Brasil, em termos acadêmicos.

Quanto à tendência de Lula de abandonar a leitura de seus discursos, passando a fazer considerações próprias, no fundo isso é bom, embora menos elegante, para o país. Fica-se sabendo o que realmente pensa e sente seu presidente, não o que pensa e redige seu “speechwriter”, ou escritor-fantasma, os habituais autores de discursos presidenciais.

Finalmente, a distorção relacionada com a falsa equiparação de presos políticos, em greve de fome em Cuba, com marginais de prisões. Parece-me evidente que Lula não quis igualar tais situações. Seria politicamente suicida uma equivalência desse tipo por parte de um político que esteve preso por motivos políticos, quando líder sindical. O que ele quis dizer — com sua conhecida e por vezes canhestra tendência de fazer “comparações elucidativas” — foi que a greve de fome não obriga os governantes a obedecer cegamente a quem se abstém de comer para conseguir impor a sua vontade. Para dar um exemplo “máximo” de um possível abuso na utilização da greve de fome, mencionou a hipótese de tal recurso ser usado por criminosos comuns. Margaret Thatcher, quando primeira-ministra da Inglaterra, não cedeu à vontade de um mineiro líder sindical que se opunha à privatização da extração do carvão. O mineiro morreu de inanição mas nem por isso a Grã-Bretanha se ergueu em revolta contra a combativa política. Há, portanto, um deliberada distorção da intenção na fala do Lula, obviamente visando proveitos políticos.

É isso, resumidamente, o que posso responder à “Dna. Helena”, que certamente não vai gostar do que leu mas, como dama inteligente e culta que é, saberá que julgar governantes é — e sempre será —, uma tarefa inacessível à unanimidade.

(25-3-10)

quarta-feira, 17 de março de 2010

A salvação está no átomo

Vou mais além: tanto para fins pacíficos quanto militares. Se a afirmação acima parece quase criminosa, ou frase de efeito, trata-se de mera aparência, como verá o leitor se tiver paciência de ler até o fim e pensar com a própria cabeça. Algo nem sempre fácil: — “O que pensarão de mim, os “bem pensantes”, se eu concordar que mesmo o “repulsivo” perigo nuclear é, em última análise, benéfico, quase indispensável para a humanidade tomar juízo?”

Quando se pensa, hoje, em usina atômica para fins estritamente civis, pacíficos, o receio de sua construção e funcionamento está imensamente reduzido. O medo de acidentes já não paralisa o cidadão comum, como ocorreu quando do vazamento de material radioativo da usina de Chernobyl. E há a dura realidade da escassez de energia limpa. Com o consumo excessivo e inevitável de combustível fóssil — petróleo, gás e carvão — produzindo o efeito estufa — leia-se degelo polar, aumento do nível do mar, instabilidade climática violenta, insalubridade do ar, etc. — a humanidade preocupa-se com o futuro energético, considerando-se as insuficientes alternativas de substituição das velhas fontes de energia que nos aquecem e fazem funcionar as máquinas indispensáveis à indústria, consumo, locomoção e tudo o mais.

A energia eólica e a solar ajudam, mas não resolvem basicamente o problema porque exigem áreas imensas destinadas a captação de suas respectivas forças. O álcool, substituindo a gasolina, também auxilia, mas não é isento de poluição. Além do mais, rouba precioso espaço, no solo, que poderia produzir alimentos. E a humanidade sonha, toda ela, não só em comer mais e melhor como também locomover-se no conforto de um veículo próprio. Com o aumento da “democracia econômica” — já não nos satisfaz a democracia jurídico-formal —, todos os povos, mesmo os hoje mais deficitários, querem gozar do padrão de vida americano. Não desanimarão enquanto não o alcançarem. Imagine-se a China com um bilhão de automóveis emitindo CO2. E o mesmo diga-se da Índia. Mesmo um “intocável” indiano — sua classificação, socialmente aceita, é uma vergonha para a humanidade —, se ainda não calejado, psicologicamente, pelo longo hábito da humilhação, deve acalentar um sonho de igualdade no conforto.

Quanto à energia hidráulica, ela não está disponível a todos os povos. Podem-se represar rios, mas não cria-los à vontade. A própria geografia justifica e recomenda a progressiva nuclearização do Oriente Médio, região pobre em recursos hidráulicos. E quando secarem os poços de petróleo? Árabes e persas vão viver do que, habitando um solo que é mais pedra e areia do que terra arável? Daí, a necessidade de maior tolerância geral quando países da região voltam-se para o desenvolvimento nuclear. Será o única oportunidade de escapar da futura, extrema e inevitável pobreza.

Dá para imaginar a objeção do leitor: — “Mas se o país, conhecedor da manipulação do átomo, passar a produzir também armas nucleares?” A resposta é que não há como evitar essa possibilidade, por sinal já aproveitada, há anos, por Israel que, além de poderosamente armado, convencionalmente, dispõe de ogivas nucleares. Todo mundo sabe e seu governo não nega esse poder, porque isso reforça a segurança do país, intimida os vizinhos árabes, ressentidos com o afluxo em massa de judeus e conseqüente expulsão de palestinos.

O mesmo hipotético leitor insistirá: “Muito bem! Concedamos que Israel possui armas nucleares, mas a proliferação atômica é, por acaso, algo desejável?! Deixando de lado o privilégio israelense, já meio antigo e consolidado — como ocorre com os demais componentes do fechado “clube atômico — conviria, por acaso, que mais e mais países dominassem a técnica de fabricar bombas atômicas? Quanto menos gente conhecer essa perigosíssima arma, melhor! Einstein dizia, sabiamente, que se houver uma Terceira Guerra Mundial, a Quarta será travada com pedras e porretes”. Um chavão que o próprio Einstein, se milagrosamente ressuscitado, reexaminaria, no atual contexto, grande amante da paz que era. Quando ele emitiu a famosa sentença, a situação no Oriente Médio não havia atingido o nível crítico atual. Quem conhece a biografia de Einstein sabe que ele jamais seria um eleitor de Benjamin Netanyahu.

É claro que quanto menos governos conhecerem os perigosos segredos atômicos, menor a probabilidade de uma guerra nuclear. Por outro lado, quanto mais sem peias o uso político do poder nuclear, por parte dos atuais privilegiados, maior sua tentação — às vezes meio inconsciente, enganando-se com o argumento de que apenas se defende — de prepotência contra países mais fracos e de poder nuclear zero. O abuso, vocação universal do bicho homem — animal especialmente perigoso porque inteligente —, sempre gera ressentimento do abusado. Se este não se sente em condições de atacar, frontalmente, o orgulhoso dono da força, ataca-o de forma oblíqua, via terrorismo.

Em suma, paz não teremos com a atual desigualdade. Além do mais, qualquer entendido em física nuclear concorda que, mais cedo ou mais tarde, novos países estarão em condições de fabricar armas nucleares, às claras ou furtivamente. Dominando a elogiável técnica de utilização pacífica do átomo — direito de todos os países — é quase impossível impedir que haja, em um momento qualquer, um redirecionamento desse conhecimento também para fins bélicos. Mesmo que os “atomicamente ignorantes” não disponham do conhecimento nuclear, tais armas poderão ser compradas, por terroristas, no mercado negro oriundo do desmoronamento da União Soviética. Não é impossível que um artefato nuclear seja detonado em uma grande capital do mundo ocidental, se o ódio for suficientemente forte para justificar tanto investimento em tempo e dinheiro, além da auto-destruição do próprio terrorista.

Disse, no início deste ensaio, que mesmo o conhecimento nuclear para fins bélicos é, paradoxalmente, benéfico à humanidade. Ouço a objeção: — “Como é possível dizer isso, contrariando o que afirmam todos os estadistas e o próprio Einstein?”. Digo, porque, primeiro, a humanidade está à beira de uma possível catástrofe, que seria desencadeada com um ataque israelense, ou ocidental, contra as instalações nucleares iranianas, com a desculpa esfarrapada de se tratar de um “ataque preventivo” contra um país capaz de produzir a bomba daqui a alguns anos. Segundo, porque o próprio Einstein, essa jóia moral humana, um judeu, em certo momento, reconheceu que a humanidade precisa ainda ser contida pelo medo.

No livro “Assim falou Einstein”, compilação de Alice Calaprice ( editora Civilização Brasileira, pág. 139), diz o grande gênio matemático — e moral — que: “Uma vez que não vejo a energia atômica como uma grande dádiva em futuro próximo, preciso dizer que no presente ela é uma ameaça. E talvez isso seja um fato positivo. Quem sabe, poderá forçar a raça humana a organizar suas relações internacionais, coisa que ela não fará sem a pressão do medo”.

À época de tais palavras, não havia preocupação com meio ambiente, e outros problemas relacionados, que hoje nos afligem. O que preocupava era a possibilidade de uma guerra nuclear entre EUA e União Soviética. Daí a dúvida do grande sábio quanto à utilidade, para fins pacíficos, da energia atômica. Mas não escapou à sua percepção a indispensabilidade da ferramenta do medo — “fato positivo”, nas palavras dele — para que o planeta ordenasse melhor suas relações internacionais. E este, agora, é o momento oportuno para melhor organizar o mundo, tendo em vista a possibilidade de um ataque contra instalações nucleares do Irã, com inevitável declaração de mais uma guerra, desta vez mais complicada que as duas outras, ainda pendentes, no Iraque e no Afeganistão.

Por onde iniciaríamos a reorganização do mundo, impedindo guerras e os abusos que conduzem às guerras? Pela ampliação da jurisdição e competência do Tribunal Internacional de Justiça, sediado em Haia, Holanda, obrigando todos os países filiados à Organização das Nações Unidas a aceitar as demandas — ou permanecer revel, com todas suas conseqüências — contra eles movidas por estados e mesmo por coletividades reunindo centenas de milhares de pessoas, como é o caso dos palestinos, ainda carentes do status de “Estado”. Não tem o mais remoto cabimento moral, jurídico ou intelectual um país, representado na ONU, se conceder o “luxo soberano” de não aceitar ser demandado na justiça internacional. Se o país sabe estar errado é evidente que não aceitará ser julgado. E com isso se perpetuam situações de injustiça que incentivam o terrorismo. Se revel, ou não revel, terá que cumprir a decisão. Tal e qual acontece com o sistema de justiça interna de todos os países civilizados. A menos que o país se retire da ONU, privado, consequentemente, de se manifestar no grande centro de discussão do planeta.

A propósito, no mesmo livro anteriormente citado, a pág.138, Einstein censura o exagerado, quase doentio conceito de soberania: — “Enquanto as nações exigirem irrestrita soberania, teremos de nos defrontar, sem dúvida, com guerras ainda maiores, que usarão armas maiores e tecnologicamente mais avançadas”. Não chegou a mencionar, claro, o que aconteceria pouco depois, com a invenção e detonação da bomba de hidrogênio, na pequena ilha do Pacífico, Elugelab, em 1º de novembro de 1952. Seu poder explosivo foi de (...)“10 milhões de toneladas de potentes explosivos convencionais. A equivalência da bomba de Hiroshima foi de meras 12.500 toneladas de explosivos.”(P.D.Smith, “Os homens do fim do mundo”, pág.33, Ed. Companhia das Letras). E armas ainda mais potentes estão sendo estudadas, com utilização dos raios laser.

Como se vê, as nações não podem sentir-se à vontade para, baseadas na força, fabricar armas poderosíssimas, enquanto impõem proibições totais a nações mais fracas. Mesmo quando Barack Obama, um homem de valor — e espero que continue assim, resistindo às pressões... — fala em diminuição de estoques nucleares de seu país, não promete mais do que uma limitação delas, jamais sua proibição. Teme a China e esta teme a ainda poderosa e eficiente nação que lidera o mundo ocidental. O planeta caminha impulsionado pelo medo recíproco e competição entre as nações. Para gáudio da indústria armamentista que suga uma riqueza que, usada de outro modo, tornaria coisa ultrapassada a existência de uma única criança subnutrida na face da Terra.

As sugestões acima conduzem a um governo mundial? Quem dera assim fosse. Por sinal, o mesmo Einstein, nunca escondeu sua preferência por um governo mundial. No mesmo livro de seus pensamentos, pág. 148, deixou expresso que “A única salvação para a civilização e a raça humana é a criação de um governo mundial, com a segurança das nações baseada na lei” – New York Times, 15 de setembro de 1945.

Se Israel teme, realmente, a besteira de ser “varrido do mapa”, deveria dar todo apoio à idéia de um governo mundial democrático que, só ele, teria o monopólio do uso da força nas relações internacionais. Tal governo daria total segurança a Israel, Irã e todo o resto. E não me venham com a ignorância de que um governo mundial significa, inevitavelmente, ditadura.

Não basta limitar as armas atômicas. As convencionais também precisariam ser limitadas. Elas também matam, em larga escala, embora com menos brilho, calor e cogumelos. Com uma agravante: são “democráticas”, disponíveis a qualquer governo, por mais louco que seja seu titular.

(15-3-10)

quarta-feira, 3 de março de 2010

Desonestidade mental + arrogância = condenação do Irã

Quem se dignar a estudar, mesmo não extensamente, a astuta campanha internacional que se faz contra o desenvolvimento nuclear iraniano só pode ficar pasmo com a tremenda parcialidade da mídia impressa contra o único país, o Irã, que teve a coragem de oferecer firme solidariedade aos palestinos, expulsos de terras ocupadas por quase dois milênios. É aí que está o foco do problema do Oriente Médio. O Irã é mero desdobramento, propício à distorções interpretativas na complexa política internacional, porque imagens de cogumelos atômicos impressionam mais que humilhações do dia-a-dia contra populações indefesas, no caso, os palestinos.

Solidariedade, a iraniana, que pode vir a custar, a seu povo, o bombardeio de suas instalações nucleares e não-nucleares, seguindo-se guerra defensiva — que será tortuosamente batizada de “ofensiva” — com conseqüente massacre de sua população. “Estadistas” envenenados de ódio, estupidez ou interesses escusos, encontram-se excitados com o cheiro de sangue e petróleo de um país fraco, se comparado com Israel e seus acólitos, inclusive os EUA.

Qual o “fundamento” para o cerco àquele país? A possibilidade, ainda remota, de que ele venha a desenvolver armas atômicas, as quais poderiam, em tese, ser arremessadas contra seu feroz inimigo, Israel, um inimigo figadal que jamais negou ser potência nuclear e desfruta do privilégio de nunca ter sido incomodado por isso. Aliás, nem mesmo se deu ao trabalho de assinar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear. E não o tendo assinado, não está sujeito à inspeções, podendo fabricar armas nucleares à vontade. Conseqüência jurídica tecnicamente perfeita mas moralmente aberrante para o mundo globalizado. Algo que precisa ser urgentemente corrigido pela Organização das Nações Desunidas, digo, Unidas, se tiver lucidez e coragem suficiente para isso. O que se afigura duvidoso, porque carneiros mentais, até com Ph.D., existem em toda parte.

Alguém poderá argumentar que, cerca de quarenta anos atrás, o Irã assinou o Tratado de Não-Proliferação e nele ficou prevista a possibilidade de qualquer país dele se retirar — bastando alegar que assim o faz por questão de segurança, sem maiores explicações. Pelo referido acordo, decorrido o prazo de três meses, a partir da informação de que se retira do Tratado, o Irã ficaria “livre” para fabricar armas nucleares, igualando-se juridicamente a Israel. Ocorre que se o Irã, hoje, pedir sua retirada do tratado, seus inimigos soltariam foguetes de euforia dizendo que esse afastamento seria autêntica “confissão” de que pretende desenvolver armas nucleares, precisando ser contido e, se necessário, destruído. É espantoso que o Irã não tenha se lembrado de simplesmente se retirar, formalmente, do TNP, escapando da acusação de que está violando normas internacionais. Esclareça-se que não existem “normas internacionais”. Existem tratados internacionais.

A mídia, quase toda ela inimiga do Irã, repete o tempo todo que o presidente iraniano, Ahmadinejad, prometeu, anos atrás, “varrer Israel do mapa” e uma bomba atômica — interpretam seus inimigos — seria a vassoura previsível para essa tarefa. Um arroubo retórico não só tolo como também de impossível realização e que só não foi renegado, formalmente, por seu emissor, por medo de parecer fraco. Sem mencionar, aqui, sua falta de astúcia. Qualquer outro presidente, mais esperto, diria, no microfone — talvez recorrendo à mentira —, que a promessa da “vassoura” foi proferida em um momento de indignação contra os abusos cometidos contra os palestinos e que jamais pensou seriamente em destruir um país de sete ou oito milhões de habitantes. Diria também que seu não reconhecimento do Holocausto também foi um exagero de sua parte e que jamais iniciaria uma guerra nuclear porque nela não haveria vencedores. Com esse “recuo”, sincero ou verdadeiro, veria melhorada, pelo menos ligeiramente, sua imagem no plano internacional. Talvez não tenha voltado atrás por saber que não seria acreditado e ainda pareceria covarde. De qualquer forma, tais sentenças bombásticas não justificam o que se pretende fazer agora contra o Irã, castigando todo o povo por causa de frases tolas de uma única pessoa, embora presidente da república.

Ahmadinejad deve saber, perfeitamente, que na remota hipótese de um ataque nuclear contra Israel, Teerã seria reduzido a cinzas quase imediatamente. E o Mossad, a eficientíssima inteligência israelense, saberia quase imediatamente do plano de ataque iraniano, tomando rápidas providências.

É evidente que o presidente iraniano, com suas “indiretas’ de futuro poder nuclear bélico, quer muito mais “impor respeito” do que fabricar armas atômicas que possam ser efetivamente usadas, neste ano ou no próximo. Especialistas da área atômica frequentemente externam a opinião de que serão necessários alguns anos para que o Irã possa fabricar e remessar armas atômicas para Israel. Não esquecer que países que fabricam armas nucleares precisam realizar testes, antes de utilizá-las. E qualquer teste atômico iraniano seria detectado por Israel e seus incontáveis aliados, solidários quando deveriam ser apenas justos, separando o joio do trigo. Nessa metáfora, Ahmadinejad, com suas bravatas, representa o joio.

Como todos sabem, Israel é portador de imensa superioridade em armas convencionais, no Oriente Médio. Para manter a hegemonia bélica não precisa de armas nucleares mas, “por via das dúvidas”, reforça seu poder com a subentendida força nuclear, jamais inspecionada. Quer continuar assim, o que lhe permitirá prolongar, indefinidamente, o impasse com os palestinos na criação de dois Estados. Tudo indica que Benyamin Netanyahu não tem intenção de concluir um acordo, apesar de dizer o contrário. Ganha tempo e, com a oportuna e “bendita” ameaça nuclear iraniana, encontra bom pretexto para esticar o impasse enquanto prolonga e amplia a ocupação na Cisjordânia. Além disso, dispõe de imbatível lobby internacional, capaz até de vergar um Barack Obama. Concede-se o direito de ser arrogante, até mesmo pressionando presidentes de países, como o do Brasil, para que não vá visitar o Irã.

A mídia internacional é tão aberrantemente parcial que chega a considerar como “desafio ao Ocidente” o fato de Teerã exigir troca simultânea, em território iraniano, de seu urânio levemente enriquecido (a 3,5%) por material enriquecido a 20%, vindo do exterior e necessário para fins medicinais. As potências ocidentais pretendem — parece piada... — que o material nuclear uraniano seja entregue, “em confiança”, à Rússia, e depois à França, para só depois, anos depois, ser devolvido ao Irã. Esquema que não impede que esse material seja “confiscado” ou retido na Europa, com tais ou quais pretextos, por forças políticas interessadas em manter total hegemonia israelense no Oriente Médio. Que autoridade moral têm os países ocidentais, useiros e vezeiros em duplicidade, para exigir tanta confiança, neles, de um país comparativamente fraco e sem aliados fortes?

A China, com poder de veto no Conselho de Segurança, tem mantido uma discreta resistência à pressão quanto a novas sanções contra o Irã. Quinze por cento do petróleo consumido na China vem do Irã. Daí a resistência chinesa ao pedido de novas sanções mais sérias. No entanto, como na área internacional não existe ética, apenas interesses, não está afastada a hipótese dos inimigos do Irã acertarem um esquema de fornecer petróleo, em condições mais favoráveis, à China, desde que ela não vete, no Conselho de Segurança, sanções mais fortes, inclusive bombardeios, contra o Irã. Isso ocorrendo, o Irã pagará caro pela solidariedade ao povo palestino.

Vejam também o que ocorre com a Rússia: inicialmente, ela se mostrava firme contra novas sanções contra Teerã. Como, agora, está precisando comprar aviões de transporte franceses e Sarkosy “condiciona” a venda de tais aviões “ao voto russo na ONU”, isto é, na questão das sanções — é o que diz a Associated Press, citada no jornal “Estado de S.Paulo, de 2-3-10, pág. A-14 — o presidente russo já aceita “sanções inteligentes”, a demonstrar que chefes de estado “ajeitam” a própria consciência conforme exigem as circunstâncias.

Dirá alguém que a postura de Ahmadinejad não se explica pela solidaridade para com os palestinos. Dirá que ele quer é exercer maior domínio na conturbada região. Concedamos que exista também essa motivação, porque é comuníssimo, na política, uma mistura habilidosa de motivações. De qualquer forma, existindo essa pretensão de poder regional, sua realização será muito problemática, porque vários países árabes não vêem com bons olhos a submissão a um país que nem árabe é, e sim persa. Ahmadinejad, como presidente, passará, cedo ou tarde. Será sucedido, tudo indica, por um governo menos “fanático” e mais cuidadoso com as palavras. Sairá do poder antes que esteja “maduro” o fruto bélico nuclear, com respectivo teste. E se conseguir fabricar a bomba, no seu mandato, não a utilizará porque não é doido para ignorar que o revide seria imediato e mortal, inclusive carbonizando o próprio presidente.

Agora, o que me impressionou, pelo inusitado, provocando minha óbvia ira, é o atrevimento de certas autoridades norte-americanas ameaçando o presidente brasileiro, quase “proibindo-o” de visitar o Irã, na excursão que fará em maio ao Oriente Médio. Arturo Valenzuela, americano, secretário-assistente de Estado para o Hemisfério Ocidental, deixou um recado ameaçador: “Queremos que os brasileiros sejam mais enérgicos com os iranianos”. E, segundo a imprensa, Hillary Clinton vai subir o tom quando vier conversar com Lula, por esses dias. Felizmente, para os brasileiros, o presidente já respondeu à altura, dizendo que conversa com quem bem entende. Lição de altivez de um simples ex-operário a muitos engravatados incapazes de não “seguir a onda”.

Por que o desespero dos políticos israelenses contra a visita de Lula ao Oriente Médio, inclusive ao Irã? A meu ver, não é porque o Brasil tenha peso nas deliberações do Conselho de Segurança. O perigo está em Lula acalmar Ahmadinejad, convencê-lo a abrandar seu discurso, retirar a intenção da “varredura”, a negação do Holocausto e a promessa de que poderá fabricar armas nucleares. E um Ahmadinejad mais brando, não ameaçador, é tudo o que os “falcões” israelenses não querem, porque com essa calma o problema da criação dos dois Estados, na Palestina, teria que ser retomado.

Povos, em geral, são assemelhados, feitos do mesmo barro. Há gente mais e menos inteligente, mais e menos culta, mais e menos inclinada à solidariedade humana. Sua felicidade, ou desgraça, depende da sorte ou o do azar na escolha de seus governantes. O mesmo ocorre com israelenses e iranianos, ambos, no momento, em maré de azar. Boa parte dos judeus, bons judeus, ótimos judeus, gostaria de viver sem apreensão, mas esta origina-se, essencialmente, do impasse com os palestinos. Enquanto não resolvida a questão, por acordo entre as partes — quase impossível —, ou por imposição do Tribunal Internacional de Justiça — feitas as modificações na Carta da ONU — viveremos à beira de uma guerra, que pode se generalizar, ou virar uma nova forma de guerrilha. Se o Irã for bombardeado, não é impossível que diplomatas israelenses sejam assassinados em variados pontos do globo, e vice-versa, porque a violência estimula a violência. Quem se sente injustiçado, e tem o temperamento forte, sempre se concede o “direito” de reagir segundo o próprio critério de justiça, mandando a lei às favas.

O mundo aplaudiria a imensa sorte de ver surgir, em Israel, um líder excepcional, à altura dos bons judeus que tanto enriqueceram a civilização. Ele já deve estar lá, mais moço que velho, um tanto anônimo e sem poder. Um político de grande envergadura moral e intelectual. Uma mistura de Baruch Spinoza, Einstein e inúmeros outros intelectuais de corajosa honestidade mental, que sabem o que seria melhor para seu país e também para os palestinos — com ou sem Hamas, mero efeito colateral de uma ferida profunda. Um novo Moisés, com nova função: a de estender a mão, sem truques, aos palestinos, primos semitas que, por viverem séculos separados, esqueceram-se, no reencontro, que continuam parentes.

(2-3-10)

''Bolões" lotéricos e outros azares

"Bolões” lotéricos e outros azares

Poucos não souberam, no Brasil, o que aconteceu em uma casa lotérica na cidade de Novo Hamburgo-RS, no dia 20-2-10. O prêmio máximo da Mega-Sena era de 53 milhões de reais. Os quarenta “felizes” sorteados no “bolão” — organizado, particularmente, pela casa lotérica, sem responsabilidade da Caixa Econômica Federal — passaram, em poucas horas, da imensa euforia à “cava depressão”, como diria Nelson Rodrigues, ao saber que tais apostas não tinham sido registradas na entidade oficial. Em suma, como não houve aposta, os “azarados-felizardos” não têm direito a um só centavo, restando-lhes apenas processar civilmente a casa lotérica, ou pedir ao Ministério Público que processe criminalmente, por estelionato, as pessoas da lotérica, se constatada a má-fé.

Obviamente, não é consolo, para os frustrados apostadores, o mero “direito” de processar civilmente a casa lotérica. A demanda será longa, com longo arsenal de recursos disponíveis para ambas as partes e se, finalmente, como é provável, for reconhecida a responsabilidade cível da casa lotérica (o patrão responde pelos prejuízos causados pelo empregado) o dono da empresa certamente não terá um patrimônio em condições de indenizar os prejudicados.

Pelo vídeo da câmara de segurança existente na loja, com imagem transmitida nos canais de televisão, a impressão que se tem é de que houve apenas uma falha humana. A funcionária esqueceu de registrar a aposta dos referidos “bolões”. No entanto, a polícia, até mesmo por dever de ofício, não pretende se contentar com a filmagem porque, em tese — apenas em tese —, infratores costumam ser muito habilidosos em se defender. E quanto maior o valor econômico em jogo, maior o talento dramático para encobrir faltas. Mas, no caso em exame, como já disse, os discretos — e por isso mesmo convincentes — gestos da funcionária ao perceber a própria falha, não me parecem uma representação teatral. Tudo indica que houve mesmo um esquecimento. E falhas humanas ocorrem em todas as atividades, sem exceção.

Como o prêmio não saiu para ninguém, muito menos para a casa lotérica, o interesse da polícia é saber se a loja era useira e vezeira em recolher o dinheiro dos apostadores (em “bolões”), deixando de registrar tais apostas, confiante na raridade de se ganhar o primeiro prêmio na Mega-Sena. Não é impossível que algumas casas lotéricas, vez por outra, em situação de aperto financeiro do dono, deixem de registrar tais apostas, arriscando na quase certeza de que os apostadores do “bolão” não vão ganhar o prêmio máximo.

Lê-se, na mídia, que os revoltados “ganhadores” estudam processar a Caixa Econômica Federal porque ela, sabedora dessa prática, muito comum, nada fez para proibi-la. De um ponto de vista legal, essa pretensão não teria a menor possibilidade de êxito na justiça, se aplicada sem demagogia. Se os clientes das casas lotéricas nelas confiam, a Caixa não pode impedir essa confiança, assim como não pode impedir que apostadores particulares combinem fazer “bolões” particulares, entre amigos e parentes, prática também usual. Se o portador, particular, do comprovante da aposta eventualmente recebe o dinheiro e desaparece, lesando os amigos, a Caixa não tem nada com isso. É um caso de polícia, mas sem responsabilidade da instituição financeira oficial.

O mesmo ocorre com os “bolões” das casas lotéricas. E, no caso concreto do Rio Grande do Sul, já ouvi, na televisão, alguns apostadores habituais, ainda não lesados, afirmando que é gosto e direito deles jogar em “bolões”, tendo em vista a maior chance de “ganhar alguma coisa”. São contrários à proibição dessa prática. No entanto, é elogiável a preocupação da Caixa no sentido de desestimular esse “jeitinho” brasileiro do apostador “ganhar pelo menos uma fatia”. Desconheço se já ocorreu, no Brasil, a hipótese do dono da casa lotérica fugir do país, com o prêmio máximo de uma Mega-Sena, obtido via “bolão”. Isso, no entanto, não é impossível de ocorrer, tendo em vista a força magnética do dinheiro, capaz de causar curtos-circuitos na sistema elétrico cerebral, travando qualquer conselho do super-ego, no caso muito mais ego do que super.

Tempos atrás, a imprensa relatou — poucos leram isso — o que ocorreu nos bastidores do “jogo do bicho”. Uma determinada mulher começou a ganhar, com freqüência impressionante, o primeiro prêmio, religiosamente pago, como é usual nesse tipo de jogo que subsiste apenas baseado na confiança. A “cúpula” da contravenção, desconfiada da milagrosa felicidade no jogo, encarregou alguém de investigar a vida da “sortuda”. Descobriu que era amante de um “executivo” da contravenção, justamente o cidadão responsável pelo sorteio das apostas. Aprofundando as investigações — talvez usando métodos persuasivos não previstos em lei — foi descoberto o segredo de tanta “coincidência”: determinadas bolinhas numeradas eram colocadas no refrigerador e, depois de bem geladas, colocadas, disfarçadamente, em um saco escuro, misturadas com as outras bolinhas de temperatura ambiente. A pessoa, cúmplice no esquema, encarregada de “pescar”, “ao acaso”, o número vencedor, selecionava, pelo tato, as peças geladas que comporiam o cobiçado prêmio. Isso explicava a “sorte imensa” daquela mulher, amante do “espertinho” que vinha lesando seus companheiros de contravenção. Houve uma “convenção” dos “cardiais” para decidir a sorte do “malandro” e o veredicto foi de pena de morte, com utilização de um pistoleiro. Como, entretanto, o “réu” era parente de um dos membros da cúpula, esse parente cobriu o prejuízo. A pena de morte foi transformada em “degredo”, isto é, em expulsão da atividade, com devolução do que ainda estava em seu poder.

Essa notícia puxa outra lembrança; no caso, mera suspeita, mas que mereceria ser investigada, pela verossimilhança dos argumentos e probabilidade estatística de uma fraude capaz de derrubar governos, se constatada sua realidade.

Alguns poucos anos atrás, no jornal “O Estado de S. Paulo”, um leitor, engenheiro, A. F. Guimarães (talvez ele prefira não ver mencionado seu nome por inteiro), na seção de cartas, externou sua suspeita quanto à lisura no sorteio dos prêmios da Mega-Sena. Informou que o prêmio se acumulava e depois saía com, invulgar freqüência, para apostadores situados em perdidos rincões no nordeste e norte do país, afrontando todas as leis da probabilidade. Salientou que era raríssimo o prêmio sair para São Paulo e Rio, como seria o mais provável, considerando que nestas cidades é enorme a quantidade de apostas. Lendo e pensando no que ele dissera, até escrevi, na época, um artigo, que pouquíssimos leram, sugerindo que o assunto fosse examinado pela polícia e Ministério Público. Não sei se os argumentos do referido engenheiro estão corretos porque jamais me interessei por saber quais as cidades beneficiadas pela grande sorte.

Penso que, aproveitando a repercussão do caso do “bolão”, seria oportuno que a Polícia Federal, hoje mais auto-confiante, prestigiada e bem remunerada, examinasse o assunto da eventual fraude na Mega Sena, de alguns anos para cá. Até mesmo para tranqüilizar aqueles que nela apostam mas sem total certeza de que não está sendo iludidos, juntamente com milhões de brasileiros. Com alguns bons matemáticos, conhecedores do cálculo de probabilidades, seriam examinados os resultados dos últimos dois ou três anos de premiação. Se constatada a estranhável preferência da sorte, beneficiando exageradamente pequenas cidades, essa bofetada na lógica dos números aconselharia a investigação do percurso do dinheiro posto nas mãos dos ganhadores, talvez meros “laranjas”.

Voltando ao assunto da funcionária que esqueceu de registrar as apostas no “bolão”, cito um precedente assemelhado que ocorreu quando existia apenas a Loteria Esportiva. Quem me contou foi o advogado do apreensivo dono de uma casa lotérica situada no ABC paulista. Naquela época, as apostas na Loteria Esportiva só podiam ser feitas na Capital do Estado. Apostadores do interior, faziam suas previsões de resultado e as entregavam, em confiança, às casas lotéricas de suas cidades. Os donos de tais estabelecimentos deveriam encaminhar os palpites e registrá-los na Caixa, em São Paulo, até, no máximo, as sextas-feiras. Ocorre que, passado o prazo, o dono da lotérica, ao abrir uma gaveta, que supunha vazia, verificou que a mesma estava repleta de apostas. Falha de um funcionário. O que fazer? Apavorado, procurou o advogado. Este lhe explicou que a melhor solução seria levar à Delegacia de Polícia, imediatamente, antes dos jogos, as apostas e o dinheiro correspondente, comprovando que não houvera má-fé. Com isso, livrava o cliente de qualquer acusação criminal. “E quanto à parte cível” — perguntou o cliente —, “a indenização que terei de pagar aos apostadores, caso tenham acertado?”. A resposta foi, aproximadamente, a de que só lhe restaria rezar bastante para escapar da imensa indenização. E, de fato, nenhum dos apostadores acertou.

Pensei, à época, em escrever um conto que mereceria o título de “Guerra de Rezas”. De um lado, o dono da lotérica, ajoelhado, aflito, olhando para um céu imaginário e pedindo fervorosamente que todos os apostadores esquecidos na gaveta não acertassem nos resultados. De outro lado seria fácil imaginar vários apostadores rezando em sentido contrário

Certamente o incidente contribuiu muito para fortalecer a fé do dono da lotérica. Sem diminuição da fé dos esquecidos na gaveta, que sabem que jogo é jogo e Deus não chuta seus desígnios.

(27-2-10)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Síntese do distorcido “impasse iraniano"

Antes de mais nada, uma explicação: nada tenho, genericamente, contra “judeus”, sejam eles encarados como “raça” ou religião. Pelo contrário. Em escolas, como aluno, do ginásio à universidade, sempre senti uma natural afinidade intelectual com judeus, no geral bem humorados, valorizadores da cultura, afáveis e avessos à brutalidade. A humilhação, o sofrimento deles na Europa, vítimas de perseguições — e não só pelos nazistas — nunca me foi indiferente. Como tenho sobrenome de árvore, “Pinheiro’, e poderia se também “Carvalho” — se minha avó paterna não tivesse, com o casamento, adotado o sobrenome do marido —, cheguei a pensar, pela semelhança do temperamento, que talvez fosse descendente dos tais “cristãos novos”, que mudaram de religião só para escapar das perseguições religiosas.

Essa simpatia, no entanto, não me impede, pelo contrário, me obriga a criticar a política exterior de Israel, nas últimas décadas, no que se refere ao povo palestino e seus “desdobramentos”, um deles o Irã. Sim, desdobramento. O rancor do Irã contra Israel e a própria existência do terrorismo islâmico nutrem-se, em grande parte, do tratamento que Israel vem dispensado aos palestinos, expulsos (pelos romanos não pelos palestinos) das terras que ocupavam há quase dois mil anos. Se a questão palestino-israelense já tivesse sido resolvida — pela ONU, parece não haver alternativa, ampliando e fortalecendo a jurisdição internacional — Ahmadinejad não estaria repetindo a bobagem, sempre lembrada pelos seus inimigos, de “Varrer Israel do mapa”. Frase tola, visando a captação de votos em eleições, porque todos sabem, inclusive ele mesmo, que não mais tem sentido, no mundo moderno, “arrasar” um país, qualquer país, seja ele fraco ou forte. E Israel é fortíssimo na área militar, diplomática e de inteligência (espionagem, na nomenclatura antiga). Além disso, sua dimensão populacional não se limita a Israel. Aproximadamente 6 milhões moram em Israel, mas igual número, vive nos Estados Unidos. Segundo dados da Wikipédia, a população judia, no mundo todo, varia entre 12 milhões e 14 milhões. Entre os países europeus, está na França, terra do Sarkozy, a maior concentração de judeus.

Charles Proteus Steinmetz, um cientista judeu nascido na Alemanha mas que imigrou para os EUA — onde fez brilhante carreira na engenharia de eletricidade —, disse que “Haverá uma era de nações pequenas e independentes cuja primeira linha de defesa será o conhecimento”. Com isso profetizava a existência de Israel e sua preocupação com a chamada “inteligência”, a informação na área política, militar e até comercial. O Mossad, serviço secreto israelense, é provavelmente o mais eficiente do planeta.

Israel dispõe, em comparação com os países árabes, de enorme superioridade em armas convencionais, as mais modernas, além de um “plus” atômico de dimensões desconhecidas pelo resto do mundo porque ninguém — nem mesmo a Agência Internacional de Energia Atômica — se atreve a investigar qual o arsenal nuclear de que dispõe o país, sem ser incomodado pelas nações ocidentais. É uma desigualdade de tratamento, até mesmo de curiosidade, que revolta os iranianos. Estes podem sempre perguntar: “Se os israelenses têm o direito de ter medo de ataques árabes, e por isso estão autorizados a possuir armas nucleares, por que nós, iranianos não temos o direito de ter medo dos israelenses, que já as tem?”

O que o presidente iraniano precisa enfiar na sua cabeça teimosa é que se o “lema-choque”, varrer, pôde, anos atrás, lhe dar alguns milhões de votos, sua repetição, ou simples permanência, pode, hoje, significar a desgraça do país. A frase boba facilita, “autoriza”, um ataque contra suas instalações nucleares, tanto por israelenses quanto por forças internacionais comandadas pelos americanos. Há sinais, decepcionantes, de que Barack Obama, nesse item — espero estar enganado —, está fraquejando, incapaz de resistir a pressões do lobby israelense e de seu Secretário de Defesa, má-herança do governo W.Bush. Se bombardeado o Irã, sua população se unirá em apoio ao presidente, como é usual em todos os países. Teremos uma terceira guerra em curso, para felicidade da indústria bélica americana. Relembre-se que a indústria armamentista, em toda parte, só prospera em clima de guerra. A paz é sua penúria, sua falência, seu inferno. Em um mundo menos idiota a indústria armamentista não poderia, há muito, estar em mãos particulares, exceto no que se refere a armamento leve: revólveres, espingardas de caça e coisas assemelhadas.

Ocorrendo um ataque contras as instalações nucleares persas, e inevitavelmente em áreas vizinhas, qual o benefício que isso trará ao Irã? Nenhum. Só mais atraso e destruição. Em tudo, não só no desenvolvimento do conhecimento atômico. A energia nuclear, cedo ou tarde, será necessária ao Irã, que não dispõe de hidrelétricas suficientes. Será que o atual presidente não entende que a manutenção da frase tola só fornece argumentos e pretextos para Israel manter-se como força máxima, e em expansão, no Oriente Médio? Sob tal aspecto, seria útil, para o Irã, livrar-se de Ahmadinejad, assim como seria útil para Israel livrar-se de Benjamin Netanyahu e seu atual Ministro do Exterior, que um dia serão julgados pela História. Os “líderes”, quase sempre, é que desgraçam seus respectivos povos. Mesmo nas democracias. Isso porque a preocupação máxima deles é agradar “as massas”, que pouco se interessam, nem têm tempo para ler a enxurrada de notícias e análises conduzidas conforme o interesse de editores de jornais, revistas e televisões.

A respeito, especificamente, da possibilidade de uma série de “sanções duras’ — bombardeios contra as instalações nucleares iranianas? — analisemos o falso “perigo imediato” de que o Irã faça logo bombas atômicas e que as arremesse contra Israel.

O que será dito em seguida são informes colhidos em “O Estado de S. Paulo”, jornal que jamais poderá ser acusado de nutrir qualquer simpatia pelo Irã.

Diz o referido jornal, no dia 8-2-10, pág. A8: “O material radioativo iraniano é enriquecido entre 3% e 5%, taxa adequada para o uso civil. Ao ser processado novamente, este combustível pode chegar a 20% de enriquecimento — ideal para uso medicinal — ou até 90%, percentual requerido para a fabricação de uma arma atômica”. Um exagerado “pulo”, esse, de 5% para 90%. Em suma, o Irã ainda está muito longe de poder produzir bombas nucleares. Sua luta atual é conseguir chegar aos 20% de enriquecimento, bem distante dos 90%, necessários para produzir bombas. E na mesma notícia vem dito que os serviços de inteligência dos EUA e de países da Europa “calculam” — provavelmente exagerando — “que o Irã teria capacidade de produzir uma bomba nuclear dentro de menos de cinco anos”. Quando um notícia como essa diz “menos de cinco anos” pode o leitor estar certo que a previsão não é de um, dois ou três anos. É de quatro ou cinco, pelo menos. Portanto, a suposta “bomba iraniana” não é um assunto de importância tão imediata, que justifique bombardeios, agora, de qualquer país, desencadeando uma nova guerra.

Os falsos argumentos para, de imediato, “punir” o Irã, incluem também o fato do Irã mostrar-se relutante quanto à proposta ocidental de que o país deve enviar seu combustível nuclear para ser beneficiado na França. A desconfiança iraniana, no caso, se justifica. Qual a garantia de que a França e os países ocidentais — passado algum tempo e fortemente influenciados pela diplomacia israelense — não resolvam “reter”, “pensando melhor”, o combustível nuclear iraniano, alegando tal ou qual fundamento ou pretexto? O Irã, nesse caso, ficaria privado de um material que é seu, dependendo de uma enorme, lenta e ineficaz burocracia jurídica para pleitear, na justiça internacional, a devolução do seu combustível. E é sabido que as decisões da justiça internacional não são cumpridas automaticamente. Se a França se negasse e entregar o combustível — que não lhe pertence —, após anos de disputa judicial, e fosse condenada por isso na Corte Internacional de Justiça, o assunto passaria para exame do Conselho de Segurança, onde imperam as decisões com motivação apenas política. Além do mais, a França já deixou expresso que “...sua estatal nuclear, Areva, não teria condições de entregar combustíveis ao Irã antes de dois anos, por conta de compromissos anteriores de fornecimento” (mesma fonte jornalística).

Em suma, a França “enrola” nas suas propostas e contra-propostas. Diz o referido jornal, na edição de 10-2-10, pág. A12, que “Há cerca de um ano, Sarkozy declarou que havia duas opções: a bomba nuclear do Irã ou o bombardeio contra o Irã”. Em janeiro, o presidente francês alertou sobre a possibilidade de um ataque militar de Israel às instalações nucleares iranianas”. Sarkozy é filho de mãe judia, convertida ao catolicismo. Não é improvável que tal condição o incline para ver as coisas do modo bem parcial, em favor de Israel, que dispõe de arsenal nuclear — deixa isso sempre subentendido — ou finge ter, mas não permite gente de fora examinar.

Nesse assunto — sanções contra o Irã — nossa política externa está no bom caminho. Talvez não no “politicamente correto internacionalmente”, mas sob o aspecto moral, muito mais importante, a longo prazo, que a subserviência aos interesses dos mais espertos.

Na sua próxima viagem ao Oriente Médio o Presidente Lula será tremenda e sutilmente pressionado, pelo governo israelense, para aderir à quase unanimidade internacional que julga com extrema parcialidade — sem o menor pudor — um conflito capaz de desencadear guerra injusta contra uma nação relativamente fraca, o Irã. Esqueçam, por favor, a tola bravata do presidente iraniano. Pensem apenas no povo iraniano. O que o Irã pretende, no fundo, é criar um escudo que provoque algum respeito, ou mesmo medo, em um inimigo que se sabe poderoso e influente demais para ser contrariado em qualquer pretensão territorial. Se o medo for recíproco, há alguma esperança de acordo no conflito essencial, a questão palestina.

Espera-se que o governo brasileiro, embora educado nas suas manifestações durante as visitas, diga, evasivamente, que “vai pensar” nas sugestões e depois decida com a boa consciência, embora com voto vencido na ONU. Se outros países, por patetice, ou submissão vergonhosa, quiserem autorizar os bombardeios — sem o mínimo acanhamento pela desigualdade de tratamento dos países —, que o sangue das vítimas iranianas manche outras consciências, que não as nossas.

Resolva-se, com justiça, o conflito na Palestina — a decisão deve vir “de fora” — e inúmeros outros problemas estarão automaticamente resolvidos, ou quase isso.

(10-02-10)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A valiosa sinceridade do General

Tendo em vista a repercussão, na mídia, contra uma opinião manifestada pelo general de exército Raymundo Nonato de Cerqueira Filho — em depoimento no Senado — só nos cabe concluir que, em nosso país, a honestidade mental corre crescente perigo. Quem quiser ocupar posições de maior relevo, assumindo novas responsabilidades deve — é a triste realidade —, evitar, a todo custo, a sinceridade. É preciso treinar, em casa, antes da audiência, a técnica de mentir, agir como um ator. “Curvar-se à direção dos ventos”. Do contrário, será “boicotado” em suas legítimas aspirações. Deve responder às perguntas, não conforme sua opinião sincera — no caso acertada ou, no mínimo, muito sensata —, mas de acordo com o “politicamente correto”. Essa expressão, todos sabem, significa o oposto da verdadeira opinião.

Tudo isso vem a propósito da audiência, no Senado, em que o referido general foi sabatinado, como é de rigor, antes de ocupar uma vaga no STM – Superior Tribunal Militar.

Qual o suposto “absurdo”, proferido pelo referido general que talvez o impeça de ocupar um cargo no STM? Disse apenas que os homossexuais só deveriam ser aceitos pelas Forças Armadas “se mantivessem a opção sexual em segredo”. Vejam bem: ele não veta o ingresso, nas Forças Armadas, daquele homossexual discreto, que considera sua opção matéria de foro íntimo, não precisando ser espalhada. Não propõe que os interessados em servir na área das armas sejam obrigados a se submeter a um detector de mentiras para que não mintam sobre suas preferências sexuais. Nem pretende que, constatado que um militar é homossexual, seja ele expulso da corporação, só por isso. O ilustre oficial manifestou-se contrário à presença de homossexuais declarados nas Forças Armadas porque, como tais, não conseguirão comandar — subtende-se com a mesma aceitação —, a tropa. Essa é, porém, sua opinião, provavelmente compartilhada por grande número de experientes militares e mesmo civis. Apenas um dado da realidade social. Na controvertida declaração o ilustre general está preocupado é com a disciplina nos quartéis; não “ataca” os homossexuais por serem tais.

Realisticamente, é preciso lembrar que o nível cultural da tropa não é elevado. O preconceito popular ainda existe, é muito forte, e não anulável em curto espaço de tempo. A baixa escolaridade prepondera entre os soldados. É previsível um certo desrespeito do soldado, principalmente se iniciante, com relação ao superior que, todos sabem, sente atração pelo mesmo sexo. Isso não estimula a disciplina. Principalmente se o homossexual revela, com trejeitos, sua orientação sexual. Se, constatada uma infração disciplinar, o oficial gay deixou de punir um ou dois subordinados, com quem mantém relações especialmente cordiais, outros praças dirão — talvez injustamente —, que a benevolência explica-se pelos laços afetivos íntimos que dificultam a punição dos “queridinhos”.

A opinião do referido general não se reveste de inconstitucionalidade. Todos têm o direito de expressar seu pensamento, respondendo por eventuais abusos. No caso, depondo no Senado, o dever de dizer a verdade é especialmente exigível. Só merece elogios quem não mente em situação como essa, mesmo com o risco de não ser aprovado pela comissão que o sabatina. Não se vê abuso na opinião em exame. É apenas a visão franca, honesta, de um profissional que conhece, mais que os parlamentares, a mentalidade da tropa. Ele não está preocupado, na verdade, com a vida íntima dos soldados. Prevê e inquieta-se com a perspectiva de relaxamento em uma atividade essencialmente máscula e sóbria, que tem na hierarquia um dos seus pilares de sustentação.

No depoimento ele não se mostra hostil aos homossexuais, de modo geral. Frisa que existem outras inúmeras profissões em que podem se destacar. No mundo artístico, intelectual, empresarial, no jornalismo e nas profissões liberais há espaço de sobra para a criatividade, geralmente elevada, dos homossexuais. É questão apenas de colocar o homem certo na atividade mais de acordo com sua natureza. Se, por mero exemplo, analogicamente, um candidato à carreira diplomática tiver um gênio excessivamente irascível, violento — com antecedentes de esbofetear quem o contradiz — caso ele seja reprovado, por seu temperamento, no concurso de ingresso na carreira diplomática, nem por isso poderá alegar que foi negado o seu direito constitucional de acesso ao cargos públicos. Outros existirão, disponíveis. Não houve, no caso, “preconceito”. Houve apenas a preocupação de preenchimento de funções conforme a compatibilidade da personalidade do candidato com o cargo visado.

Quem já serviu o Exército presenciou que os locais para banho são amplos, coletivos, sem compartimentos individuais. Como todos os praças sabem que ali só há “homens”, na sua “orientação” tradicional, não há porque desconfiar do militar que está a seu lado, se ensaboando e, ocasionalmente, olhou para ele de um modo mais demorado. Se houver, porém, a certeza de que ao lado está um homossexual, surge o receio de que aquele olhar pode ter um especial significado, desagradável para quem foi criado num ambiente cultural em que os sexos devem ser distintamente definidos. Esse clima de constante desconfiança não é bom para a tropa. As piadas prosperam.

Quando a norma constitucional diz que todos devem ser tratados igualmente — não permitindo preconceitos contra deficientes físicos, raças e orientação sexual —, isso não quer dizer que todos, absolutamente todos, possam ocupar toda e qualquer função pública, sem restrições.

Já houve quem pensasse, por exemplo, que cegos poderiam ser juízes. Ocorre que o juiz — principalmente o de primeira instância —, precisa do sentido da visão. Precisa ler as petições; ler o que ele mesmo, ou alguém por ele, escreveu como despacho ou decisão; analisar a reação física da testemunha — que pode estar mentindo —; examinar a planta de um imóvel, etc. E não pode também ser nem surdo nem mudo, por razões óbvias. Para as petições e documentos serem vertidas para o código Braile seria oneroso demais. Mesmo nos tribunais superiores seria problemático admitir portadores de deficiências dos sentidos. É preciso ler petições, falar e ouvir as sustentações orais e opiniões dos colegas de julgamento. Assim, esse não-acesso de alguns à profissão de magistrado tem razão de ser. Não por “preconceito”, mas porque a natureza da função assim o exige. Cegos podem se tornar excelentes juristas, professores e conferencistas. Quem já ouviu alguma palestra do professor de direito Alberto do Amaral Júnior, que é cego, ficou certamente impressionado com o invulgar rigor lógico da exposição e profundidade de seus conhecimentos. Não podendo ler os livros, alguém faz isso por ele, lendo em voz alta.

Se houver amplo acesso de homossexuais declarados às Forças Armadas é previsível que profissão militar seja especialmente procurada por eles tendo em vista a carência afetiva dos homens que amam homens, e não mulheres. E ninguém pode negar que fatores sexuais influem nas opções profissionais. Um famoso ator inglês, Michael Caine, tornou-se ator apenas porque estava enamorado de uma bonita moça que estudava arte dramática em determinada escola. Ele mesmo é que disse isso, em entrevista. Seguindo-a algumas vezes na rua, viu que ela freqüentava aquela escola de atores. Para ter a oportunidade de, talvez, beijá-la em algum ensaio, matriculou-se no curso e acabou tornando-se um ator de sucesso. Igualmente, se houver um forte fluxo de homossexuais querendo ingressar nas Forças Armadas, á natural e previsível que, com o tempo. a proporção deles na carreira das armas seja muito maior que a existente em outras profissões. Isso porque o militar heterossexual, com freqüência — e por razões de serviço —, é obrigado a ficar longe da família, ou namorada; “vazio” sentimental que estimulará homossexuais a ocupar esse espaço.

Analogicamente, pelo mesmo motivo, não parece ser recomendável que lésbicas dêem preferência a trabalhar como carcereiras em presídios femininos

Duas décadas atrás, perguntei a um experiente cirurgião por que havia tão poucas mulheres exercendo essa especialidade. Ele me respondeu que, em parte, isso ocorria por uma questão de mera tradição, que estava desaparecendo aos poucos. Argumentou, porém, que, na sua opinião, as médicas, por temperamento — por serem mais delicadas —, preferem cuidar de problemas menos violentos, menos brutais, menos “sanguinolentos”. Explicou-me que, por vezes, o paciente que está na mesa de operação tem uma peculiaridade anatômica, uma artéria “fora do seu lugar”, isto é, não conforme o que consta nos compêndios de anatomia. Se, por acidente, a artéria é cortada pelo bisturi, o sangue inundando o campo operatório, é preciso muita presença de espírito, “vocação”, para lidar com o súbito problema. Nesse caso o cirurgião é obrigado a agir meio no escuro, porque o sangue jorra e cobre tudo. Ele entendia que o homem — embora nem todos — tem mais “sangue frio” nessas situações. Enfim, se uma jovem médica prefere clinicar em vez de operar, é seu “direito” não ser forçada a trabalhar, como empregada, amputando pernas, operando coração, etc. Reciprocamente, a administração pública, no caso as Forças Armadas, também têm o direito de prevenir o ingresso, em suas fileiras, de homens que vão favorecer, mesmo involuntariamente, uma maior indisciplina na tropa.

Se o ilustre general Cerqueira Filho for “reprovado” na sabatina, só porque não mentiu, porque deu sua opinião — equilibrada e aceitável —, todos os futuros sabatinados ficarão doravante conscientes de que no nosso país é imprescindível mentir para ocupar cargos mais elevados. Espera-se que não ocorra tal desmoralização.

(07-02-10)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Obama é estadista. Imprescindível apoiá-lo. Bancos, etc

A diferença entre um “mero” presidente da república e um estadista é que o primeiro só se preocupa com as pesquisas de opinião pública e como se manter no poder; ele mesmo — se assim permitir a legislação — ou pessoa de sua simpatia. O que, por vezes, significa que continuará, após a eleição, como “meio-presidente”, ou outra fração qualquer de governante, conforme o grau de dependência psicológica da pessoa por ele indicada. Já o estadista, em plena acepção da palavra, relativiza a reação do seu eleitorado porque sabe que a população, no geral, é imediatista — por vezes algo imatura — , só pensa na própria sorte, não reunindo condições, nem tempo, para fazer uma análise mais precisa dos problemas de seu País. Não esquecer que os “peritos” também escorregam, porque baseiam suas previsões no comportamento humano, este saco de venetas, venenos, vaidades, simpatias, antipatias e mutáveis cálculos de interesse pessoal.

Deixo explícito, sem ironias, que o parágrafo acima não tem qualquer relação com a situação político-eleitoral do Brasil de hoje. Pensei, porém, involuntariamente, na situação da Argentina, em que determinado presidente, não podendo se reeleger, por impedimento constitucional, foi, de certa forma, “reeleito”, via esposa. Os jornais portenhos, quando se referem à decisões polêmicas escrevem, abertamente, sem intenção de alfinetar, que tal ou qual decisão presidencial foi “dos Kirchners”, em vez da presidente titular do cargo. Como se houvesse, de plantão, dois presidentes. Por sinal, acho espantoso que não exista — desconheço —, nem mesmo em países do Primeiro Mundo, uma proibição legal de candidatura da esposa do presidente quando este não pode, ele mesmo, ser candidato. Não será essa omissão uma prova de ingenuidade político-eleitoral?

Voltando a Barack Obama, sua queda de popularidade baseia-se, principalmente, em dois pontos: o nível de desemprego não baixou ao “normal”, aquele anterior à crise, e cada vez aumenta mais, no seu país, a dúvida cruel: será que vale a pena — considerando os altos custos econômicos e políticos — permanecer no Afeganistão? Quantos bilhões de dólares e quantas centenas de cadáveres de soldados americanos serão necessários para reduzir (ligeiramente) o atraso cultural — para os padrões ocidentais — de uma população alimentada, desde o berço, no “leite” de normas morais e religiosas terrivelmente rígidas, opostas à cultura ocidental? Será factível, sem pagar um preço astronômico, “transportar” , “no muque”, para o século XXI, um povo que ainda vive na Idade Média? Esse “cursinho” de atualização cultural não seria menos caro, menos sangrento, se fosse ministrado apenas com internet, ajuda financeira, propaganda não hostil, bolsas de estudo a jovens afegãos, etc. — em vez de com “professores” fardados metralhando e bombardeando, seus “alunos”, muitos deles sem querer, civis inocentes mas que estavam próximos aos alvos atacados por aviões tripulados e não-tripulados?

O muçulmano médio, assistindo filmes americanos, e também europeus, cai de costas, chocado e enojado, ao ver, de repente, cenas de sexo noventa por cento explícito, com variantes bucais — mas não verbais —, sugeridas claramente nas imagens e expressamente mencionados nas falas e legendas. Cenas “cruas”, sem aviso prévio, impossibilitando a evacuação rápida da sala muçulmana onde estão senhoras e crianças. Esse deturpado modelo de “civilização cristã” — que só envergonha os verdadeiros cristão e até mesmo os agnósticos de maior compostura —, certamente não contribui para aumentar o respeito pelos “invasores” que estão no país sem serem convidados. Como Bin Ladden nem mais está no Afeganistão, muitos americanos se perguntam: “por que, afinal, nossos jovens soldados estão morrendo por lá?” E quando digo “lá”, incluo parte do Paquistão, progressivamente envolvido no conflito.

Além do desapontamento, prematuro e injusto, dos seus eleitores — empregos não são criados por decreto —, Obama está sendo atacado agora com maior vigor pelos republicanos, excitados com a queda de sua popularidade. Sentem, no ar, o cheiro de sangue do cordeiro escuro. Nessa rejeição há alguma dose, dificilmente mensurável — e confessável — de preconceito racial, um componente instintivo difícil de ser plenamente erradicado, porque é algo relacionado com a herança genética de todos nós (isso será tema para outro artigo).

Livro recentíssimo, lançado nos EUA, cujo título não guardei, coleciona manifestações indiscretas de políticos quando falavam à vontade, pensando que ninguém estava gravando a conversa. Nesses diálogos, tentam convencer colegas de partidos. Em um deles, o ex-presidente Bill Clinton — um político de boa índole, simpático, mas sempre um político — pressiona seus colegas democratas a apoiarem Hillary Clinton, em vez de Obama, na disputa para a indicação presidencial pelo partido. Segundo o livro, Clinton teria, a certo momento, dito mais ou menos o seguinte: “...vamos lá, colegas, esse cidadão (Obama) é aquele cara que nos servia cafezinho...” Não sei se havia nisso algum implícito preconceito racista, ou apenas social, ou uma mistura das duas coisas, mas uma coisa é certa: a raça de Obama terá um peso qualquer na aceleração artificial, orientada, do nível de sua rejeição. Muita gente torce contra ele, embora se trate de um homem — quase diria “um rapaz”, pela sua aparência — que tem tudo para honrar um país que teve a sorte de “gerar” gente como Thomas Jefferson, seus colegas redatores da Constituição Americana, Abraham Lincoln, Franklin D. Roosevelt e o próprio Obama.

Até agora, pelo menos, Obama tem se revelado um estadista capaz de propor ao mundo um modelo moral e intelectual de como deve pensar o estadista do futuro. Este não pode limitar-se a pensar apenas em beneficiar o próprio país. É como um pastor que cuida do próprio rebanho mas dá uma espiada de vigilância e colaboração, não cobiçosa, no rebanho alheio, evitando, ao máximo, prejudicá-lo. Este é o impulso de Barack Obama. Não exagero. Ele pode errar, momentaneamente, mas seu erro é bem intencionado, fruto de madura responsabilidade e previsão, limpo dos subterfúgios rasteiros, usuais, de todo presidente só preocupado com seus eleitores. Presidentes da velha guarda acham-se no direito de mentir deslavadamente, se isso beneficiar o próprio país. Chamam isso de patriotismo. Dormem com a consciência em paz.

Instituições financeiras exercerão forte influência para ver diminuído o prestígio do presidente americano. Este pretende, com a insistência necessária, disciplinar a atuação dos bancos — consequentemente de seus CEOs —, impedindo que se repita a imensa crise, iniciada em 2008, que só não derrubou totalmente a economia mundial porque o governo americano injetou trilhões de dólares no socorro de bancos e grandes corporações. Tais banqueiros — há gente de todo tipo, em todas as áreas — estão querendo voltar ao delicioso lucro irresponsável, embolsando enormes bônus, “facilitando” empréstimos e outras operações mas deixando para o governo cobrir os prejuízos, se e quando a bomba estourar. Algo bem provável, eles sabem disso, mas não ligam porque dificilmente terão de devolver os “prêmios” auto concedidos.

Um ditado, hoje em moda, e muito sábio, diz que “Se você deve um milhão ao banco, você foi ‘fisgado’ por ele; se você deve um bilhão, você é que ‘fisgou’ o banco”. Este não vai atormentá-lo com cobranças. Vai tratá-lo com o máximo carinho, porque, do contrário, você pode dizer que não paga, levando o banco à falência (no Brasil, liquidação). E o ditado deve ser ampliado, como já foi: se um banco for leviano, concedendo empréstimos dificilmente reembolsáveis, o governo, pensando nos correntistas, vê-se obrigado a socorrê-lo. Não vai deixar desamparados milhões de depositantes. Bancos irresponsáveis, suficientemente grandes, “fisgam” os governos. Daí a expressão de que “os bancos não podem crescer a tal ponto que se tornem “inquebráveis”.

Obama está agora mexendo em um vespeiro financeiro que talvez ponha em perigo o próprio cargo. Quer separar duas atividades bancárias: a de guardar o rico dinheirinho do correntista — com pequena remuneração —, da atividade de investimentos envolvendo riscos. O leitor já deve ter recebido telefonemas de gerentes de banco sugerindo que tais e quais depósitos devam se aplicados em nesses ou naqueles fundos e variantes de aplicação, com nomenclatura que muda de banco para banco. São tantos os fundos e outras siglas que o cliente fica confuso, não sendo um especialista na área, como geralmente não é. Acaba aceitando a sugestão do gerente que, mesmo sendo um funcionário honesto não é um Nobel de Economia. E por que o gerente faz tais oferecimentos? Porque é exigência de seus superiores imediatos que, por sua vez, seguem orientação de umas poucas cabeças que estão no topo da organização e talvez estejam interessadas nos tais bônus.

A conclusão disso tudo é que tais conselhos dados aos correntistas acabam facilitando a prática de atividades bancárias que podem resultar em perigo de quebradeira generalizada, seguida de pesados socorros do governo, isto é, do contribuinte em geral. É salutar, à primeira vista, que os correntistas sejam advertidos de que se quiserem grandes lucros — com grandes riscos, não existe “almoço grátis” — que procurem os bancos de investimentos. Se perderem bastante dinheiro, o governo não se sentirá moralmente obrigado a intervir, pois não é sua obrigação moral salvar cassinos e seus apostadores. Em suma, bancos de depósitos merecem amparo. Bancos de investimento, não. E os bancos de depósito, a rigor — não sei como está a regulamentação nos EUA — não poderiam aplicar recursos existentes nos bancos de depósito porque, na hipótese de grandes perdas dos bancos de investimento, o dinheiro dos depositantes seriam tragados da mesma forma. Certamente estou dizendo o óbvio, mas digo assim mesmo porque o óbvio, nas altas finanças, tem algo de fugidio e misterioso.

O governo Obama criou uma comissão para tratar de reformas do setor financeiro. Trata-se da Comissão Angelides, assim chamada porque tem como presidente o democrata Phil Angelides, um economista de boa reputação, moral e técnica, que foi “tesoureiro” do Estado da Califórnia. O vice-presidente é um republicano e a comissão, de dez membros, tem representante de ambos os partidos. Espera-se que funcione, apesar de ser uma comissão. É pena que o resultado só será apresentado em dezembro de 2010. Até lá muita coisa vai rolar. Só espero que Obama ainda esteja vivo, e no cargo, e também tenha dado uma boa guinada na técnica de combater o terrorismo.

Não há espaço, aqui, para falar sobre o terrorismo internacional. Basta afirmar, sem medo de errar, que ele está sendo combatido de forma errada, superficial. Não é que os EUA e a União Européia não devam se defender contra tentativas esporádicas de ataques. Estes são sintomas, conseqüência, a febre decorrente de uma infecção. É preciso examinar o foco, a motivação profunda do terrorismo. O erro é imaginar que matando os terroristas o problema estará solucionado. Outros os substituirão, talvez com maior ressentimento.

Logo, logo, Obama perceberá, espero, que não é prático escanear todas as pessoas que se dirijam, por avião, aos EUA. Nem obrigar todos os aeroportos do planeta a examinar as idéias políticas, a aparência (árabe) e as partes íntimas de todos aqueles que se dirigem àquele país por via aérea. É burocracia demais, parcialmente inútil e que só isolará a poderosa nação americana. Quantos aviões aterrissam, por ano, nos EUA, vindos do Exterior? Milhões ou bilhões? Conjeturo se por trás dessas medias não há algum interesse econômico das empresas especializadas em segurança. É preciso, por sua vez, que as empresas de transporte aéreo reajam, também façam lobby vigoroso para cessar uma política errada, ingênua, que vai acabar arruinando seu negócio. A continuar essa tola política contra o terrorismo, Osama Bin Laden sorrirá, satisfeito, pensando: “Como é fácil forçar o inimigo a se auto-travar...”

(25-01-2010)

sábado, 23 de janeiro de 2010

O juiz deve ser um apático espectador, ou buscar a verdade real?

O prestigiado jornal “O Estado de S. Paulo”, no editorial de 18-1-10, “Lições de Direito”, externa apoio irrestrito — certamente “desapoiado”, com razão, pela maioria dos magistrados brasileiros — a um despacho do atual Presidente do Superior Tribunal de Justiça que, examinando o comportamento do juiz federal Fausto De Sanctis — no processo criminal que se seguiu à “Operação Castelo de Areia” — censurou o referido juiz paulista pelo fato de tomar iniciativas probatórias em processos sob sua jurisdição.

Em conseqüência dessa “participação” do juiz na instrução criminal — para quem não sabe, coleta de provas nos autos do processo — referido Presidente do STJ concedeu “habeas corpus” aos réus de conhecida empreiteira de obras, acusada de corrupção, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

O jornal — que tem exercido um papel valiosíssimo no saneamento das nossas instituições, “desenterrando” corajosamente inúmeras falcatruas cometidas por agentes públicos — , transcreve despacho do Presidente do STJ afirmando que o referido juiz De Sanctis age de modo arbitrário, tomando decisões contrárias à empreiteira com base em suposições, acusações genéricas e provas ilícitas — além de acolher denúncias apócrifas, o que é expressamente vedado pela Constituição. Transcrevendo o despacho, o jornal acrescenta que “É inegável o desvalor jurídico de qualquer ato oficial de qualquer agente estatal que repouse seu fundamento sobre comunicação anônima”. Diz ainda o jornal que “As escutas foram feitas por 14 meses, sem que existissem provas concretas que justificassem a autorização”.

Espera-se, “data vênia”, que o “habeas corpus” em questão — pelo interesse geral que comporta face ao perigo de formação de jurisprudência —, venha a ser reexaminado pelo próprio STJ, ou pelo STF, o qual, não obstante a ausência de unanimidade, ainda se inclina — até onde sei — pelo possível aproveitamento das provas colhidas em decorrência da denúncia anônima, se o fato é grave e acabou comprovado em sua existência. A respeito desse tema, encontrei, na internet, no site Jus Vigilantibus, um ensaio escrito pelo Dr. Rodrigo Iennaco de Moraes, professor de direito e promotor de justiça em Minas Gerais, com várias informações úteis. No entanto, tentando, depois, localizar o mesmo artigo, não o encontrei, problema técnico que talvez seja resolvido pelo leitor, com melhor sorte.

Em exemplo aventado por um imparcialíssimo ministro do STF, hoje aposentado, modesto, e que prefere não aparecer na mídia — por isso não menciono seu nome —, se uma “denúncia anônima” — na verdade, delação anônima — diz que em determinado local encontra-se enterrada uma pessoa, assassinada por Fulano de Tal, e a polícia, diligenciando, realmente encontra o cadáver — em cuja mão está um punhado de cabelos do agressor, arrancado na luta —, se o DNA do cabelo for o da pessoa indicada como o assassino, seria razoável, pergunta-se, invalidar a prova, robustíssima, só porque a denúncia foi anônima? É evidente que não. A afronta à razoabilidade tem limites. A justiça não pode viver no mundo da lua.

A delação anônima não é bem vista, genericamente, no mundo jurídico, porque, caso se trate de mera calúnia não haveria como punir o caluniador. Entretanto, se for sempre ignorada, desconsiderada, inúmeros crimes permanecerão ocultos. Principalmente se o criminoso for pessoa perigosa, seja pelo grau de violência física, seja pelo seu poder econômico ou político. O empregado, ou ex-empregado, de um patrão poderoso e vingativo (além de criminoso) raramente se atreverá a delatar crimes de seu chefe, ou ex-chefe, à polícia ou ao Ministério Público. Sentir-se-á em risco de vida, porque a qualquer tempo, um encomendado “assaltante desconhecido” poderá matá-lo, fugindo em seguida. O mesmo ocorre, em muito maior grau, quando o denunciado é um traficante ou algum cidadão de passado homicida. A imprensa, mesmo a mais responsável, certamente recebe inúmeras delações. Se for um jornal honrado, investiga o fato, nos limites do possível e, constando sua seriedade, dá a notícia. Não fizesse isso, não estaria contribuindo para o aperfeiçoamento moral do país em que atua.

Não se alegue que o Serviço de Proteção às Testemunhas resolveria o problema da falta de segurança na delação de fato verdadeiro. Somente “mafiosos arrependidos” é que aceitam viver escondidos, com outra identidade, em outro Estado ou país. O mafioso arrependido — “pentito” — só aceita denunciar seus ex-comparsas porque escolhe o mal menor: mudar a identidade, talvez o rosto e sumir, em vez de mofar na cadeia ou nela ser assassinado por outro presidiário, a mando do mafioso delatado. Pessoas de vida normal obviamente não querem trocar de casa, de nome, de profissão, de fisionomia, só pelo ideal de ver punido um determinado infrator em um mundo abarrotado de infratores. Além do mais, não há garantia absoluta de que o vingativo denunciado não consiga um dia localizá-lo, matando, eventualmente até mesmo seus familiares. Daí a tolerância de muitos juristas no aceitar a “denúncia anônima” em casos graves e quando apresentada com verossimilhança.

Saliente-se que nenhum réu será “condenado” pela denúncia anônima. Ele será condenado, se o for, pela prova em si, pelo fato apurado, ou pelo conjunto probatório, pois nenhuma prova pode ser considerada isoladamente. Será condenado pelo cadáver, pela impressão digital, pela localização do local do seqüestro, pela prova documental de que a obra pública foi feita sem licitação, pela filmagem do suborno, pela conversa gravada, pela nota fiscal, fotos e tudo o mais. A denúncia anônima nem precisa constar dos autos do inquérito ou do processo judicial. A autoridade policial agirá como se tivesse descoberto o ato criminoso sem auxílio de um anônimo. A polícia, rotineiramente, não é obrigada a detalhar como foi que ficou sabendo do fato.

Como já foi salientado em discussões judiciárias, há que se buscar o meio-termo no zelo pelos dois interesses em confronto: o direito, de todo cidadão, de não ser vítima fácil de difamações e calúnias que redundem em processo, e o interesse social de que os crimes sejam reprimidos, que os criminosos sejam julgados e, se for o caso, punidos, assegurado, sempre, o direito de defesa. Como conciliar esses dois interesses? Examinando, a autoridade policial, sem alarde, sem mídia, sem burocracias, a denúncia anônima, que pode vir por carta, telefone, e-mail, etc. Do contrário, a sensação de impunidade será ainda maior que a atual. Obviamente, qualquer delegado de polícia sensato não instaurará, formalmente, um inquérito policial contra alguém apenas porque recebeu uma carta anônima. Porém, se houver verossimilhança no relato e não se tratar de infração insignificante, certamente tomará a providência de investigar a veracidade. Do contrário, será um omisso, um irresponsável.

Com relação à postura de juízes na colheita da prova, na “instrução do processo” — no linguajar técnico-jurídico — há também duas filosofias de trabalho. Há juízes “mais”, e outros “menos”, interessados na descoberta da verdade real, isto é, na verificação do que realmente aconteceu. No direito norte-americano a tendência, pelo que se vê em filmes de júri — que provavelmente refletem a realidade — é a de uma certa indiferença em relação à prova produzida. Tal postura ensejou até a anedota de que “o júri é aquele corpo de leigos reunidos para decidir quem tem o advogado mais eloquente”.

Nosso Direito, porém, nesse ponto, parece mais evoluído, porque permite — não obriga — ao juiz se interessar pela apuração da realidade, da verdade dos fatos. É direito do juiz não ser um passivo espectador, frio, indiferente frente ao conflito entre o justo e o injusto, principalmente quando é ele, e não o corpo de jurados, que vai decidir o caso. Não quer ser “usado”, instrumento passivo, atoleimado, nas mãos de um advogado ou promotor mais esperto que seu oponente.

Diz o nosso Código de Processo Penal, no art. 156, na sua atual redação, que

“A prova da alegação incumbirá a quem a fizer, sendo, porém, facultado ao juiz de ofício:
I - ordenar, mesmo antes de iniciada a ação penal, a produção antecipada de provas consideradas urgentes e relevantes, observando a necessidade, adequação e proporcionalidade da medida;
II - determinar, no curso da instrução, ou antes de proferir sentença, a realização de diligências para dirimir dúvida sobre ponto relevante.”

Pelo nosso direito positivo, legislado, nada há de errado, portanto, quando o juiz determina a “realização de diligências para dirimir dúvida sobre ponto relevante”. Quando o julgador é interessado na verdade real, não na mera ficção jurídica, não é censurável que procure se informar bem antes de decidir. Essa atitude é até elogiável, própria de profissional responsável. Ele não quer ser leviano, condenando ou absolvendo como um simplório distraído. Se a prova está dúbia, é-lhe facultado o direito — para alguns até “dever moral” — de esclarecer o detalhe. No momento de decidir ele age como que um historiador, em pequena escala, interessado na “verdade verdadeira”. Está pessoal e profissionalmente interessado em ser justo. Pode diligenciar atrás de provas que venham eventualmente a beneficiar o réu, se perceber que o acusado está sendo vítima de uma “armação” e seu advogado — talvez dativo, gratuito e indiferente —, por motivos não esclarecidos, não está sendo suficientemente arguto, ativo ou destemido a ponto de desfazer uma óbvia “cilada” preparada pelo verdadeiro criminoso, em busca de um bode expiatório.

O juiz só merece elogios quando se empenha em descobrir a verdade. É esta que impulsiona a civilização; não as mentiras, por mais convenientes e agradáveis que sejam. O juiz só será censurável se, diligenciando e encontrando fato favorável ao réu, esconder essa prova ou agir com desonestidade mental na sua avaliação. A desonestidade intelectual, porém, é detectável pelos magistrados que julgam o recurso, os quais, por sua vez, são também obrigados a usar igual honestidade mental, indiferentes aos gritos — nem sempre bem esclarecidos — da chamada “opinião pública”, e aos agrados elogiosos daqueles interessados em proteger criminosos.

Alguém dirá que nessa busca da verdade real ele pode prejudicar o réu. Ora essa! A verdade, quando procurada pelo juiz interessado em não errar, não é condicionada, para, de antemão, beneficiar ou prejudicar. E não prejudica, realmente, quando desfavorável ao réu, porque, juntada essa prova aos autos o defensor do acusado pode impugná-la, mostrando sua fragilidade ou anexando prova contrária. O contraditório na prova é sagrado e nenhum juiz normal se atreve a afrontar esse princípio. Se isso ocorrer, com evidente cerceamento de defesa, quando do julgamento da apelação do réu isso ficará patente e o réu será absolvido ou a decisão será anulada, com novo julgamento em que o réu poderá se manifestar sobre toda a prova produzida.

O argumento de que a Constituição Federal — no art. 5º, inciso IV ( “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”) — considera nula toda denúncia anônima não se aplica muito bem ao caso. Tal garantia constitucional foi criada para regrar a difusão do pensamento na imprensa, ou na mídia em geral. Embora em toda carta anônima, em qualquer telefonema, ou até mesmo em um simples gesto, exista, implícito, algum “pensamento’, essa garantia constitucional não pode prevalecer sobre o direito da sociedade de se defender do crime, que pode ser combatido de várias formas, até mesmo com auxílio de uma denúncia anônima com visos de credibilidade. Se, como foi dito, essa denúncia corresponde a um fato verdadeiro e o réu é condenado, isso não acontece pela “denúncia’, em si, mas pelos fatos apurados, comprovados e juntados ao processo, com direito de manifestação do acusado.

Compreende-se que, sob o ângulo político, não é bom, para a imagem de nosso país, que grandes empreiteiras brasileiras, de reputação técnica internacional, apareçam no noticiário policial. Se aparecerem, justificadamente, a culpa não é dos agentes públicos encarregados de reprimir crimes financeiros. Se a mídia quiser preservar a imagem do país, nesse detalhe, que não difunda a notícia de tais processos. O judiciário não obriga a mídia a espalhar que tal ou qual empresa está sendo processada.

Venho dizendo, em alguns artigos, que a solução mais realista para tratar do problema da evasão de divisas seria o país discutir, corajosamente, a possibilidade de afastar, com uma lei, a dimensão penal dessa antiga prática de guardar, “lá fora”, quantias que não constam das declarações de renda, desde que se recolham aos cofres públicos, em determinado prazo, os tributos e multas relacionados com tais remessas. E daqui pra frente, a legislação seria aplicada com todo rigor.

Esse discutível “ato de bondade” poderá ser visto — notadamente pelo pensamento mais de esquerda —, como uma afronta aos pobres e ao princípio democrático de que todos são iguais perante a lei. A isso talvez se possa contra-argumentar afirmando que os pobres nunca serão processados por tais crimes pelo simples fato de serem pobres, por impossibilidade econômica. Se, em hipótese louca, os pobres de alguns anos atrás tivessem se tornado ricos, muitos deles provavelmente teriam aceitando sugestões de persuasivos doleiros e bancos dizendo que seu dinheiro estaria mais segura lá fora do que aqui. Citariam o Plano Collor e a carga tributária excessiva.

Até poucos anos atrás, manter conta no Exterior, sem menção no I. Renda, era até “sophistiqué”. Hoje, é fonte de pesadelo. Esse sonho mau, porém, não atormenta apenas os depositantes. Cai pesadamente na alma de honrados policiais federais e juízes que se atrevem a cumprir leis em pleno vigor. Em vez de promoções e elogios, o ostracismo.

Pena é que não está no sangue do brasileiro encarar de frente, suportando críticas, dilemas amargos.

(22-01-2010)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

USA no Afeganistão: persistência infeliz

Um título alternativo seria: “O que os EUA estão fazendo no Afeganistão?” E a resposta seria: mais errando do que acertando, apesar da boa-intenção. Até mesmo a normalmente elogiável virtude da persistência depende, para não ser danosa à comunidade — e ao próprio persistente, funcionando como seu caixão de defunto — da melhor avaliação de um conjunto de fatores. No mundo dos negócios essa distinção é particularmente evidente, porque o senhor dinheiro não é lá muito dado a filosofias e perdões. É impiedoso com aqueles que não sabem avaliar argutamente todos os “prós’ e “contras” de qualquer negócio. Alguém já disse que dinheiro e saúde não agüentam desaforo.

Segundo um artigo, “Lições do Vietnã”, de William P. Polk, professor de História na Universidade de Chicago e presidente do Adlai Stevenson Institute of International Affairs, publicado, em português, no “Le Monde diplomatique, Brasil”, de 28-11-09, pág. 21, calcula-se que o custo global da guerra no Afeganistão — já dura oito anos — “corresponde a uma quantia módica situada entre US$3 e US$6 trilhões, ou seja, mais de um quarto do produto interno bruto americano”.

Com metade dessa despesa, a África pobre — o adjetivo é desnecessário — daria um imenso salto de qualidade. Com a condição, indispensável, de que tais recursos, a ela direcionados, fossem vigiados de perto, em sua utilização, pelos próprios doadores, ou entidade internacional confiável. Isso porque é prática comum de alguns governantes de países miseráveis desviarem a maior parte de tais ajudas para suas contas bancárias situadas na Suíça ou outros Paraísos Fiscais. Esse problema só será solucionado quando a tão granítica “soberania” for flexibilizada em sua utilização. Hoje, o lema é, com voz empostada, o político malandro dizer: “Não admitimos estrangeiros bisbilhotando as contas de nosso país!”. Mera desculpa para impedir que os generosos doadores, geralmente americanos e europeus, possam vigiar a utilização de consideráveis remessas. Mas esse aspecto não será aqui desenvolvido porque foge ao tema principal do artigo. Só acrescento que quando do Plano Marshall, destinado à recuperação européia, após a 2ª.Guerra Mundial, grande parte das somas enviadas pelo governo americano para erguer a economia do sul da Itália acabava retornando aos bancos dos EUA, mas na conta-corrente de mafiosos de todos os matizes.

Segundo o referido William P. Polk, comparando-se as duas guerras, primeiro contra o Vietnã, (...) “a corrupção das autoridades de Saigon” (apoiadas pelos americanos) “era notória — não só os funcionários desviavam as ajudas financeiras e os alimentos destinados ao povo, como eles também vendiam para seus próprios inimigos do Norte (comunistas) os equipamentos militares e as armas fornecidas pelos Estados Unidos”. E acrescenta que “no Afeganistão, o governo nomeado por Washington está amplamente envolvido no tráfico de drogas e fatura com a venda de empregos na polícia, no exército e nos serviços públicos. Além disso, seus representantes julgam os casos jurídicos em função das propinas que recebem e chegaram até mesmo a fornecer munições aos talibãs. Para esses dirigentes, tudo está à venda. A reeleição de Hamid Karzai aparenta ser uma grande farsa...”
Para que serve os EUA investirem tanto, em dinheiro e vidas, no Afeganistão, se o governo local não é confiável e se torna cada vez mais odiado pelos afegãos? E o ódio da população contra o próprio governo acaba estendendo-se ao seu “patrocinador”, os EUA, uma “força ocupante estrangeira”, seja qual for o motivo da presença. Povo algum tolera viver sob ocupação militar.

A experiência histórica demonstra que há uma reação instintiva contra soldados estrangeiros “mandando em nosso país”. A única exceção que conheço — não sou um grande conhecedor da História — ocorreu no Japão, após sua derrota frente aos EUA. Isso porque o japonês tinha um certo complexo de culpa pelo ataque a Pearl Harbour, sem prévia declaração de guerra. Além do mais, o governo americano não abusou de seu poder como força ocupante. Certamente por eu ter nascido com uma misteriosa e instintiva propensão para me considerar uma espécie de “cidadão do mundo”, nunca compreendi bem porque existe tão violenta aversão à presença de estrangeiros. De modo geral até me agradam, se eles — e elas... — se mostram amigáveis e “não-superiores”. Essa, porém, não é a reação instintiva usual. E os EUA estimulam tal aversão afegã quando, atacando redutos dados como de terroristas, acabam matando, involuntariamente, civis. Inclusive crianças, porque muitos desses ataques são realizados por aviões não tripulados.

Por que os EUA atacaram o Afeganistão, logo após o 11-9-01? Porque lá se encontrava Obama Bin Laden, o arquiteto das agressões. E o Taliban lhe dava apoio, ou pelo menos não o restringia. Ocorre que Bin Laden — tem-se como certo —, há um bom tempo já não mais se encontra no Afeganistão. Consta que se esconde nas zonas tribais do vizinho Paquistão. Essa constatação levou os americanos a bombardear locais, no Paquistão, onde ele e seus adeptos poderiam estar. Conclusão: mais mortos, agora paquistaneses, a maioria civis não-combatentes. Nova fonte nutriente de ódio anti-ocidental. Não demora e os EUA estarão em guerra contra o Paquistão, ou pelo menos “metade” dele. E o Paquistão, com seu relativo atraso, tem poder nuclear.

De uns poucos dias para cá os EUA passaram a atacar, com aviões, adeptos de Bin Laden no Iêmen, um grande fornecedor de terroristas. Pelo que me lembro, cerca de metade dos terroristas que estavam nos aviões seqüestrados no dia 11-9-01 eram dessa nacionalidade. Se muitos civis do Iêmen forem mortos, seguidamente, em tais bombardeios, não está afastada a hipótese de os americanos se envolverem na “quarta guerra” ( Iraque, Afeganistão, Paquistão e Iêmen). Com talvez outras mais, se os terroristas migrarem para países árabes vizinhos. Isso, sem mencionar o Irã, em razão do perigo dele desenvolver armas nucleares.

(Como um parêntesis, ouso dizer que o Irã deve ter o “secreto” (não tanto...) propósito de desenvolver uma bomba nuclear, mas não para usá-la contra Israel. Sua intenção é dissuasória, de criar algo próximo a um equilíbrio de poder na região. Isso porque se usasse sua bomba o revide israelense, e talvez americano, calcinaria o Irã no mesmo dia, ou no dia seguinte. Ahmadinejad seria cadáver e coveiro de seu país, odiado por várias gerações, e ele sabe disso. O que o atrevido presidente persa realmente quer é que Israel e a comunidade internacional acreditem que com o Irã não se pode brincar, merece ser respeitado, porque já tem ou está próximo de ter o poder bélico nuclear. E seu escudo argumentativo sempre será: “Se Israel tem, ou sugere que tem, armas nucleares, e não é incomodado por isso, porque só o Irã sofrerá sanções quando nem mesmo há a certeza de que o poder nuclear não é estritamente pacífico?” Para mim, há um tanto de blefe na firmeza e mistério do presidente iraniano).

Antes que os quatro focos de incêndio se alastrem, formando uma grande e única fogueira, seria mais sensato que Barack Obama seguisse sua vocação natural — não a de seu Secretário de Defesa — para encarar os grandes problemas internacionais com a inteligente compreensão e pacifismo que vinha demonstrando na sua campanha eleitoral e nos primeiros meses de seu governo. Como disse o mesmo William Polk, “Os terroristas não precisam do Afeganistão, um país encravado nas montanhas e bastante carente em transportes e comunicações. Os ataques de 11 de setembro foram desfechados a partir da Europa, demonstrando que esses grupos podem operar a partir de qualquer lugar”. Assim, pergunto, por que permanecer no Afeganistão?

A União Soviética, depois de uma ocupação tumultuada, por dez anos, acabou se retirando do Afeganistão, só com prejuízos de toda natureza. Certamente foi essa guerra inútil que deu o impulso final para a derrocada do sonho da implantação do socialismo em escala mundial. Países socialistas não se tornam ricos. Podem até ser justos, mas não ricos. E os poucos recursos de que dispunha a União Soviética acabaram se esvaindo pelo ralo de um conflito contraproducente de longa duração.

O que foi dito acima quer dizer que devemos deixar os terroristas, esses primitivos, agindo destrutivamente à-vontade? Obviamente que não. Cabe ao mundo ocidental manter-se alerta, mais na defesa que no ataque, liderado pela mais poderosa e organizada nação do planeta — por enquanto... Ao lado dessa vigilância, dar a maior ênfase possível à tarefa de convencimento das populações dos países invadidos no sentido de que o mundo ocidental não pretende esmagá-las, nem dominá-las indefinidamente. E esse pregação deve ser sincera.

Principalmente, estimular debates pelas televisões, entre adeptos do Islã e do mundo ocidental, mas proibindo ofensas recíprocas. Só argumentos. Nesses debates de opinião, até mesmo os talibãs e jihadistas poderiam participar, com imunidades diplomáticas, garantindo o regresso deles a seus países após os debates. Essa política já está, timidamente, sendo aplicada no Afeganistão, com grande número de civis americanos entrando em contato com a população. É preciso não esquecer que os muçulmanos são doutrinados, ferreamente, desde os primeiros anos de vida. Quem é filho de muçulmano torna-se muçulmano. Quem é filho de cristão torna-se cristão. Somente uma constante troca de pontos de vista pode mudar isso, aos poucos, desarmando os recíprocos preconceitos. A BBC de Londres e algumas estações de televisão — inclusive a Al Jazira — poderiam transmitir os debates. Talvez dessa troca de pontos de vista surja um esboço de uma religião única, um grande passo para a paz mundial.

Antes de Moisés o mundo era povoado de deuses. O monoteísmo foi, aparentemente, um avanço. Só que surgiram tantos “monoteísmos” — cristianismo e islamismo — que, de certa forma, o politeísmo voltou ao planeta, ainda que em menor número. Jeová, Cristo e Maomé representam o mesmo deus, único, mas seus adeptos combatem os “demais’ deuses que, no fundo, é o próprio. Os representantes são diversos, mas o deus é um só, eles insistem.

Há muita incoerência nessas lutas. Se tais incoerências se limitassem a orações, piedosas, não haveria problema. O perigo é que tais crenças se transformam em ideologias e até disputas territoriais sangrentas. Israel insiste que Jerusalém é sua cidade, por motivos religiosos e históricos. Os palestinos dizem o mesmo. E ambos adoram um só Deus. Como, pergunta-se, se ambos garantem que só há um único deus? Isso, insista-se, não autoriza a conclusão de que o politeísmo retornou à civilização, em nova roupagem, mas recusa-se a admitir o óbvio?

Há muita coisa a dizer sobre esse assunto, mas o leitor merece descanso. Está cansado da praia, ou da chuva.

(7-1-10)