sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Pesquisas de intenção de voto podem ser fraudadas. Sem falsificar os números.



É impressionante  a credulidade , talvez fingida,  da mídia e da população — esta realmente confiante —  quando leem os últimos resultados das pesquisas de intenção de votos no segundo turno da eleição presidencial, marcada para o dia 26 deste mês.
Sinto-me até acanhado por dizer coisa tão elementar — a possibilidade da fraude —, mas como os jornais e os eleitores parecem acreditar plenamente no triunfo, ou derrota, de tal ou qual candidato, baseados nas “pesquisas” — com isso viciando o resultado de um eleição importantíssima —, sinto-me autorizado a dar um alerta, mesmo sobre algo óbvio.
De início deixo claro que se houve, eventualmente, uma “fraude” para enganar os eleitores — sempre propensos a votar “no futuro vencedor” — essa fraude dificilmente contaria com a aprovação da direção dos institutos de pesquisas Ibope e Data Folha, órgãos sérios, de boa reputação.
Isso porque se o resultado das urnas mostrar que tais prognósticos  são inconfiáveis tais institutos ficariam desmoralizados. Quem iria contratá-los, futuramente, sabendo que estão quase sempre errados? Até mesmo por considerações rasteiramente econômicas, tais pesquisas representariam a morte na credibilidade dos institutos.
Se a direção do instituto de pesquisas não pode — com um mínimo de racionalidade — deturpar uma pesquisa de grande repercussão, como pode ocorrer a farsa?
Simplesmente havendo uma “escolha” do eleitor a ser entrevistado pelo “pesquisador”, homem ou mulher contratado pelo instituto.
Desconheço como os institutos de pesquisas escolhem as pessoas que entrevistarão o cidadão que, aleatoriamente, passa ao lado. Não sei se há, ou não, um “fiscal” — do instituto — desses indivíduos contratados para indagar sobre intenção de voto.

Serão, todos esses “entrevistadores’ , pessoas totalmente confiáveis, insubornáveis e isentas de paixão política?
Um petista “roxo” pode, facilmente, “prognosticar”,  com mínima margem de erro —, pela roupa, meio de transporte usual, bairro onde reside o eleitor, modo de se expressar  e outros sinais exteriores —, se o cidadão que se aproxima é a favor da Dilma ou do Aécio. E pode mesmo, ouvindo a resposta que não lhe agrada, dispensar o voto dele. Uma senhora, amiga de pessoa de minhas relações, vendo, na rua, que um determinado cidadão estava fazendo uma pesquisa, ofereceu-se para ser entrevistada, mas o “pesquisador”, olhando para ela, como que avaliando-a — bem vestida, com aparência abonada — dispensou-a.
Não sei se existe uma ordem dos institutos de opinião de sempre rejeitar o eleitor que se oferece para dar sua opinião. E caso exista tal ordem, ela será sempre obedecida? Difícil dizer que sim.
É claro que igual distorção na atividade dos “pesquisadores” pode haver da parte dos favoráveis ao PSDB. Mas, considerando que os seguidores do PSDB são geralmente da classe média, não precisando ganhar a vida fazendo trabalho de rua — a remuneração não deve ser alta, estimulante — é bem provável que entre os “pesquisadores” existam  mais petistas que peemedebistas.
Tendo em vista que a honestidade — tanto em assuntos de dinheiro quanto em tudo o mais — é algo raro, não considero impossível que a última pesquisa de intenção de voto no dia 26 de outubro de 2014 se transforme em um dado enganador do eleitorado brasileiro.
 Por mais que os presidentes dos institutos de pesquisa, nesta eleição que tanto apaixona os brasileiros, se esforcem para um trabalho bem feito, será, presumo, impossível contar com total isenção dos pesquisadores na “escolha” de quem deve entrevistar. E também não é impossível que um partido desesperado em vencer recrute pessoas “fanaticamente fiéis” à sua legenda para que se ofereçam a tais institutos para trabalhar nessas pesquisas, alegando desemprego e urgente necessidade de ganhar o seu pão. Mesmo sendo instruídas a não “selecionar” as “pessoas certas”, essas instruções não prevalecerão contra interesses mais fortes, como, por exemplo, sua segurança alimentar.
Com base nas considerações acima, a famosa “margem de erro” não deve ficar na faixa de erro de 2% e 3%. Deve subir para entre 10% e 15%.
Em suma, e repetindo, os números de votos colhidos — ou “escolhidos” — na última pesquisa, podem viciar o resultado da votação do dia 26, com enorme influência nos rumos do Brasil. A manipulação não estaria nos números, em si — a cargo dos institutos —, mas na “escolha” feita pelos entrevistadores.
Seja qual for o resultado provável dessa eleição, o eleitor — para reforçar a autoestima —, precisa ouvir a voz interior, respeitar sua condição de ser moral e votar em quem considera mais merecedor de seu voto. Precisa provar a si mesmo que não é um animal somente gregário, incapaz de pensar com sua própria cabeça, sempre seguindo, qual um boi, a manada no fundo desprezada por quem a conduz.

(24-10-2-14)





domingo, 21 de setembro de 2014

Se J. Barbosa recusar convite de Aécio cometerá “crime de omissão”.

Li, poucos dias atrás, em edição digital da Folha de S. Paulo, que um político do PSDB convidou, ou “sondou”, o ex-Ministro do STF, Joaquim Barbosa, sobre o apoio dele ao candidato Aécio Neves na próxima eleição. Depreende-se do texto que o discutido e prestigiado ex-magistrado não teria demonstrado entusiasmo em influir —, nem mesmo de forma indireta —, no futuro político do Brasil, em um momento especialmente difícil, a exigir cabeças especialmente competentes e corajosas.
Temos excelentes juristas, nas várias áreas do Direito, tão competentes, ou, eventualmente, mais competentes do que Joaquim Barbosa. Todavia, entre todos os juristas mais conhecidos nacionalmente, nenhum tem esse “plus”: o “poder de voto” do mencionado ex-Ministro do STF.
Poder eleitoral que ficará desperdiçado, no lixo, caso esses votos — entre dez e quinze milhões — fiquem inativos, desaproveitados, por causa de uma ou duas omissões: ou pela ausência de um convite explícito de Aécio Neves —, para que J. B. seja seu futuro Ministro da Justiça —, ou pela recusa do jurista negro a um convite intrinsecamente honroso, — haja ou não mero cálculo político em sua formulação. Convenhamos, na situação quase “anormal” em que vive o Brasil, e boa parte do mundo, não tem sentido desperdiçar tanta “energia cívica” — no caso mais importante que a elétrica.
Conflitos sociais exacerbados, secas devastadoras,  pancadaria nas ruas, homicídios rotineiros, ônibus queimados, lojas saqueadas, ocupações de prédios, resistência violenta contra ordens judiciais, explosões de caixas eletrônicas, menores criminosos certos de que não serão processados,  decepção popular com a justiça e economia em recessão. Tudo isso agravado por uma conjuntura mundial especialmente incerta e atônita com estranhas “novidades”, tais como “Estado Islâmico”, Ébola, pré-guerra na Ucrânia, tudo isso compondo a grande sopa da globalização.
Após 12 anos de domínio do PT a reeleição de Dilma poderá significar igual dose temporal chefiando o Brasil. Uma revogação, na prática, da salutar recomendação de alternância do poder. Vinte e quatro anos de chefia do Governo Federal significaria uma “quase ditadura” com aparência democrática.
“Ditadura”, porque parte substancial dos votos necessários à manutenção do poder, por tanto tempo, viria de uma população sustentada — em boa parte —, por “bolsas” fornecidas pelo sempre o mesmo governo candidato, hora de saia, hora com barba. E ninguém desconhece que a preocupação com o próprio sustento — no caso o eleitor — sobrepõe-se a qualquer consideração teórica sobre a utilidade democrática da renovação dos governantes.
O “peso votante” de tais “bolsas” é tão forte, nesta eleição brasileira, que nenhum candidato de oposição se atreveu a prometer sequer “estudar” sua “redução parcial”. Cancelá-las, então, seria suicídio político, sem direito à retratação.
Não se está aqui propondo que um futuro governo, diferente do PT, deva cancelar tais “bolsas”. Isso poderia decretar até mesmo a fome súbita, tal o desamparo de milhões de brasileiros.
Apenas lembramos que uma generosa outorga de “bolsas” de todo tipo é uma quase novidade — presumo, não sou especialista — na teoria política.
Algum doutrinador antipático e impiedoso, “de direita”, poderia argumentar que um excesso de “bolsas” significa compra de votos. E, mundialmente, a “compra de votos” é considerada crime eleitoral. Penso que os estudiosos desse novo fenômeno social discutirão mais a fundo esse fenômeno que permite a quase perpetuação no poder.
No resultado oscilante e rápido das pesquisas de intenção de voto, a candidata Dilma, dias atrás, venceria no primeiro turno, mas provavelmente perderia no segundo, porque tem um firme nível de rejeição. Hoje, porém, dia 19 de setembro, já há previsão de um empate técnico entre Dilma e Marina no 2º turno, comprovação da eficácia da propaganda televisiva em um país em que pouco se lê.
Em resumo: as coisas como estão, a duas semanas da eleição, mostram a possibilidade de mais 12 anos de um partido em menor parte realmente intencionado em favorecer as camadas mais pobres da população mas “moralmente contaminado” — sem a menor dúvida —, por políticos e aproveitadores. A insuspeita Polícia Federal e a mídia mostram, diariamente, uma rede consolidada de corrupção nos subterrâneos do Governo Federal. Empresários, conversando longe dos microfones, dizem que a corrupção, e a “comissão”, nunca estiveram tão altas e difundidas. Opinião deles, não a minha, longe dos negócios.
Como os complicados “mecanismos” de desvio de dinheiro público não se criam de um dia para o outro, porque envolvem bancos, ministérios, secretarias, parlamentares, funcionários e “laranjas”, quanto mais tempo disponível para a montagem da sofisticada “máquina de engolir dinheiro público”, melhor para ela. Esse é mais um argumento em favor da alternância do poder.
Questão apenas de matemática. Em doze anos é mais fácil montar vastos e minuciosos esquemas de corrupção — quase blindados à investigação — do que em quatro anos, tempo usual de permanência no poder. Daí o papel  do ex-ministro Joaquim Barbosa na eventual função de “pausar” o PT no Governo Federal.
 No entanto, se Joaquim Barbosa for convidado para ser Ministro da Justiça de Aécio Neves  e, aceitando o convite, prometer que se empenhará, a fundo, no sentido de corrigir uma série de distorções legislativas —, principalmente restabelecendo a confiança popular na seriedade e eficácia da justiça — tudo indica que o PT terá um recomendável descanso forçado. Pelo menos por quatro anos, prorrogáveis.
Não cabe, aqui, discorrer sobre todos os pontos fracos de nossa legislação processual, cível e penal, nem sobre as questões estritamente penais, hoje cada vez mais mescladas com o Direito Constitucional e Administrativo. Mas Joaquim Barbosa e demais  sabedores desses temas delicados — ou meramente espinhosos — sabem onde estão as “brechas” e trincas que forçam os bons juízes a decidir, muitas vezes, violentando o próprio bom senso,  obrigados que são a cumprir as leis em vigor.
Em suma, e finalizando, os interessados nas virtudes inerentes à alternância do poder esperam, inquietos — faltam duas semanas apenas para a eleição — o convite, explícito e irretratável do candidato Aécio, bem como a aceitação corajosa do combativo jurista mineiro. Talvez seja uma boa coincidência o fato de ambos serem mineiros. Mas que não sigam a tradição de que “o mineiro trabalha em silêncio”. No caso do esperado convite, a aceitação não poderá ser silenciosa.
Se a Ação Penal 470 já foi uma “tourada jurídica”, ela o foi em plenário, no STF. Doravante, a batalha será travada na redação das reformas difíceis e nas discussões no Congresso Nacional.
Aguardemos, confiantes no patriotismo de ambos.
(19-09-2014)






sábado, 13 de setembro de 2014

V. Putin está sendo mal interpretado

Algo que me aborrece, quase diariamente, é quando leio os constantes ataques, carregados de distorções, contra Vladimir Putin em bons jornais — o “Estadão”, por exemplo —; boas revistas — no caso a “Veja” —  e em outros veículos fortemente influenciados pelos forjadores, digo, “formadores de opinião”.
Refiro-me, especificamente, ao que ocorre atualmente em parte da Ucrânia, isto é, na Criméia e nas províncias do Leste — talvez também no Sul, a conferir —, cujas populações se identificam mais como sendo “russas” do que como integrantes da União Europeia. Essa União foi, e ainda é, uma “boa ideia”, deve persistir coesa mas, no momento, patina na área econômica, com vários países mal administrados e com excesso de desempregados: Grécia, Itália, Espanha, etc.
 Essa dificuldade da EU provavelmente influi no desejo dos ucranianos “russófilos” de se tornarem cidadãos russos. Estivesse a Rússia, no momento, na anarquia e no desemprego, mesmo os ucranianos de língua russa talvez preferissem integrar a União Europeia.
Afinal, pergunta-se: não cabe aos próprios interessados decidir o seu futuro? Na Criméia, foram os habitantes que tomaram a iniciativa da opção pela cidadania russa, que mantiveram durante décadas, até a dissolução da União Soviética. Mesmo os mais fanáticos inimigos de Putin não têm a coragem de argumentar que os separatistas da Criméia e do Leste estão sendo coagidos a preferirem a proteção da “asa” russa.  Um referendum, na Criméia, comprovou esse desejo com altíssima votação.
V. Putin deveria fazer ouvidos surdos a esse apelo?  Fizesse isso, seria acusado de covardia.
Imaginemos — apenas para efeito de argumentação — que no México, em uma longa faixa vizinha à fronteira americana, houvesse algumas províncias habitadas por descendentes de norte-americanos, falando inglês e com hábitos americanos. Imaginemos que tais habitantes, legalmente mexicanos, insistissem em uma separação tópica, pretendendo a cidadania americana. Se tais movimentos fossem hostilizados por soldados mexicanos, com prisões e morte dos “separatistas”, é quase certeza que Barack Obama tomaria “providências”, inclusive  armadas, de proteção dos “revoltosos”.  O eleitorado americano pressionaria Obama nesse sentido, sob pena de considerá-lo “medroso”.
É o que aconteceu, e ainda acontece, com Putin, que se vê obrigado a ser solidário. Não acredito que essa rebelião dos habitantes da Criméia e dos habitantes do Leste ucraniano tenha sido forjada por Putin, tendo em vista os enormes riscos de um sangrento conflito, de resultado imprevisível, enfrentando EU, Otan e EUA. Esse pesadelo só atrapalhará a economia russa,  já vitimada por bloqueios econômicos, diplomáticos e financeiros. A indústria armamentista mundial deve estar eufórica com a perspectiva de novos lucros.
No fundo, no fundo, esse “carnaval belicoso” contra Putin esconde o mero desejo europeu e americano de não perderem uma região com peso substancial. Não é defesa de valores abstratos, jurídicos, a soberania ucraniana.
Em artigo de hoje, 11-9-14, pág. A22, no jornal “O Estado de S. Paulo”, há um artigo de Gilles Lapouge, “Desejo de independência”, em que o brilhante e experiente jornalista, que mora na França, disserta concisamente sobre os vários movimentos de independência, que assustam vários países europeus. Apesar de “separatistas”, tais movimentos são considerados normais, toleráveis. Não são “criminalizados”, “putinizados” pela mídia. Seus líderes são pouco mencionados.
No entanto, o desejo de independência dos ucranianos do Leste, e da Criméia, é considerado “prova” de que Putin quer “invadir”, “anexar’, “se apossar”, de outros países, tentado “ampliar seu império” e renovar a Guerra Fria.
É preciso muita “cara de pau”, de tais críticos, para distorcer o que ocorre na Ucrânia. Haja madeira facial... Não é sem razão que existe um movimento ecológico contra o abate de árvores.  No tópico Ucrânia, pelo menos, Putin é vítima da mentira quase geral da imprensa mundial.
Conforme nos lembra Gilles Lapouge — que não defende Putin no artigo — cerca de metade dos escoceses pretende tornar-se independente da Inglaterra. Isso será decidido em votação popular por esses dias.  Na Bélgica , a Aliança Neoflamenga se declara separatista. Na Espanha, o “País Basco” não desiste de se tornar uma nação. Chegou a empregar o terrorismo explícito para isso.
Em 9 de novembro próximo — ainda por informação do respeitado Gilles Lapouge — a Catalunha vai decidir, em referendo, se será ou não independente. No Norte da Itália, na rica região de Turim, a população também quer se separar da parte sul, pobre. Na França, a ilha de Córsega continua “fervendo” no seu desejo de independência. E nada, praticamente se publica a respeito. Por que só no caso da Ucrânia, com os separatistas morrendo às centenas, foi erigido um “vilão”, Putin?
Leitor de um grande jornal paulista, leio praticamente todos os artigos de opinião, principalmente da área internacional. Na sua maioria, tais artigos são redigidos por jornalistas, em inglês, bem traduzidos para o português. Quando o assunto é “V. Putin’, só pelo sobrenome do redator dá para prever que o articulista defenderá, no seu artigo, os interesses indiretos de Israel, hostis à Putin e à Rússia. Tudo o que Putin fala é distorcido de forma proposital. Honestidade mental zero.
Qual a explicação mais provável desse ataque midiático sistemático de articulistas, ligados racialmente a Israel, contra Putin e seu governo? É que a Rússia — portanto V. Putin — é aliada da Síria. Fornece a ela ajuda de todo tipo, inclusive — tudo indica —  foguetes semi-artesanais.  E a Síria, apoiadora do Hamas, provavelmente envia tais foguetes aos palestinos que, em Gaza, atormentam Israel, que logo revida em escala gigantesca. Se EUA, Otan e EU entrarem em combate contra a Rússia, certamente isso enfraquecerá ou fará cessar o apoio russo à Síria. E esta deixará o Hamas sem armas. Essa a explicação para a campanha de distorção da imprensa internacional, e brasileira, contra Putin.
Enfim, tudo indica que a campanha maciça, pela “imprensa internacional”, contra a postura de Putin na Ucrânia tem explicação no patriotismo dos jornalistas ligados racialmente a Israel. A guerra, em qualquer país, aumenta o patriotismo dos seus cidadãos.
Quando Israel entrou em guerra declarada contra o Hamas — como ocorreu na invasão recente da Faixa de Gaza —, mesmo os judeus mais sensatos — favoráveis à criação de dois Estados —, posicionaram-se a favor de seu país. A possibilidade, remotíssima, de ver seu país derrotado e destruído tem um peso emocional muito maior que o mero sentimento de justiça de alguns judeus, favoráveis aos palestinos, que querem também adquirir o status de Estado. Tratando-se de guerra de verdade, o patriotismo prevalece sobre tudo o mais, “obrigando” o jornalista a arregaçar as mangas e defender seu país da maneira que lhe cabe: escrevendo. Se necessário, mentindo, “em favor da pátria”. Isso explica as evidentes distorções da maioria dos artigos criticando V. Putin.
Uma das deturpações evidentes das palavras do presidente russo ocorreu quando ele disse, poucos dias atrás, em conversa, por telefone, com o português José Manuel Durão Barroso — presidente da Comissão Europeia — que “poderia tomar Kiev em duas semanas”.
Obviamente, Putin quis, com essa frase, dizer que “não tinha nem tem qualquer intenção de invadir a Ucrânia, porque — caso assim quisesse — não lhe faltaria poder militar para tanto. Já poderia ter feito isso antes, em poucos dias”.
É evidente que esse foi o espírito da frase. E o ministro russo de relações exteriores já disse que a fala de Putin foi “citada fora do contexto”. Ele não iria, tolamente, falar como um  rapazola “garganta”, dialogando com o presidente da Comissão Europeia, como que convidando para ser atacado pela tríade poderosíssima da Otan, EUA e UE. Seria um convite ao suicídio.
Como, porém, interessava à mídia, notadamente aquela favorável a Israel — presente em todos os países —  demolir ou enfraquecer a Rússia, ela fingiu entender mal suas palavras, invertendo o sentido. Nas “guerras”, a mentira é a regra. E, “data venia”, Durão Barroso deveria ter sido mais discreto. Se em dúvida sobre o sentido da frase, deveria ter perguntado, de imediato, se Putin tinha a intenção de invadir toda a Ucrânia.
Por causa de uma frase mal interpretada milhares ou milhões poderão morrer.
Como explicarei em meu novo site, www.governomundial.com.br, essas campanhas incentivadoras de guerras precisam parar, antes que seja tarde demais. Todo habitante deste planeta precisa se habituar a ler jornais, revistas e internet “com um pé atrás”, meio desconfiado, porque o bicho homem tem uma incoercível — bonita palavra em tema tão sujo... — vocação para a desonestidade mental.
Se V. Putin merece censuras, será por outros motivos.
(11-09-2014)

                                             

   




domingo, 7 de setembro de 2014

Aécio e Marina precisam do “volume morto” (eleitoral) de Joaquim Barbosa.

Inicialmente, para quem não é paulista, uma explicação da metáfora meio chocante usada no título.
O município de São Paulo é abastecido de água por um conjunto de represas que formam o Sistema Cantareira.
Com a inesperada e longa falta de chuva nas cabeceiras dos rios que formam o referido “sistema”, a única saída possível para o governo estadual continuar fornecendo água aos paulistanos — e cidades vizinhas —, foi captar a água existente bem no fundo dos reservatórios, algo que só se faz quando a falta dela chega a uma situação alarmante. Tão crítica que essa água “escondida”, embora salvadora, recebeu o lúgubre apelido de “volume morto”, mais usado, na mídia, que a designação correta: “reserva técnica”.
Esta explicação é necessária — para os não paulistas —, porque sem ela leitores de outros Estados da Federação poderiam pensar que o “morto” do título poderia ser uma metáfora hostil ao competente e combativo ministro do Supremo Tribunal Federal que — na ativa ou aposentado —, goza de imenso prestígio popular e, consequentemente, eleitoral. É o que confirma uma pesquisa de intenção de voto, da Datafolha, na eleição de 2014.
De “morto” o incisivo ministro não tem nada. De “técnico” tem muito. Afastado, por vontade própria, do STF, pediu “um tempo” para descansar, recarregar as baterias, tratar da saúde e possivelmente entrar na política, talvez como candidato à presidência em 2018.
Toda metáfora implica alguma analogia, uma ideia sugerindo outra. Assim como a “reserva técnica” será a salvação “aquosa” dos paulistas, Joaquim Barbosa poderia ser a salvação “votante” de Aécio Neves e/ou de Marina Silva, levando renovada esperança a alguns milhões de brasileiros que não se sente especialmente entusiasmados com os atuais candidatos.
Segundo reportagem da “Folha de S. Paulo”, de 5-9-2014, “Joaquim Barbosa é o 2º voto mais influente da eleição”. O jornal baseia-se em levantamento feito pelo Datafolha em 5 de junho de 2014: “26% dos eleitores afirmam que “com certeza” votariam num candidato indicado por Barbosa, e Além disso outros 26% dizem que “talvez” pudessem votar em alguém apoiado por ele”.
Joaquim Babosa não pode receber voto na próxima eleição porque não é candidato. E também, pelo seu temperamento, não faria campanha eleitoral, discursando em palanques, ou na TV, em favor de qualquer candidato da oposição.
No entanto, se Aécio, ou Marina dissesse — a sério, olho no olho — que J. Barbosa seria seu Ministro da Justiça, para as inadiáveis reformas legislativas, atacando a impunidade, a burocracia e a lentidão judiciária — causada por leis processuais ineficazes  — essa simples promessa   acrescentaria milhões de votos a Aécio e/ou Marina. Ou a ambos, se os dois prometessem utilizar Barbosa como Ministro da Justiça pelo tempo que fosse necessário para “desratizar” a máquina pública. Quando a justiça é respeitada — ou temida e honesta — o mero temor das consequências inibe o crime violento e as variadas formas de corrupção.
Obviamente, esse “anúncio” de quem seria o Ministro da Justiça só poderia ser feito após prévia consulta a J. Barbosa que, provavelmente, não se furtaria a tão saneadora missão. Seria boa até para ele mesmo, que comprovaria, com fatos — uma legislação inteligente apresentada por iniciativa do Executivo — que não é um jurista apenas corajoso e franco, mas age como estadista, desestimulando más-condutas. Com isso poderia, talvez, se candidatar futuramente à presidência.
Sei perfeitamente que boa parte dos advogados e magistrados brasileiros não toleram J. Barbosa, por causa de sua franqueza, considerada “excessiva”. Os criminalistas, especialmente, porque ele aceita e aplica teorias perigosas para seus clientes em posição de alta chefia nas suas empresas — o “domínio do fato”, por exemplo.
A tradição de convivência, na justiça brasileira, foi sempre de circunlóquios e floridos elogios quando o magistrado discorda — com mil desculpas — de uma opinião contrária, ou quando nega um pedido. Essa “via direta”, extremamente franca de J. Barbosa, dizendo “sim” ou “não”, é o que mais agradou o povo brasileiro, cansado daquilo que descreve como sendo “um blá-blá-blá que sempre resulta em impunidade dos grandes”.
Certa ou errada essa opinião popular o fato é que se Aécio ou Marina prometerem “contratar” J. Barbosa como Ministro da Justiça, por longo período, milhões de votos destinados à Dilma Rousseff migrarão para candidato que incluiu o ex-ministro do STF no seu “programa de governo”. Só assim é que haverá, com certeza, o “descanso” do PT na condução da política nacional, pelo menos por quatro anos, ou talvez mais.
Essa a justificação da imagem de Joaquim Barbosa como o “volume morto”. Um enorme potencial eleitoral, desaproveitado na mais importante eleição dos últimos anos. Se ele fosse convidado por Dilma, obviamente não aceitaria, por razões que todos conhecem. E Dilma preferiria morrer a convidá-lo.
Não sou “expert” em coisa alguma. Muito menos em campanhas eleitorais, mas é obviamente absurda a troca de farpas entre Aécio e Marina. Quando Aécio ataca Marina, a posição eleitoral desta diminui na semana seguinte. E para onde vão os votos que seriam dela? Vão para Dilma, mais provavelmente.
Marina já foi do PT por muitos anos. Permaneceu, dessa convivência, um resquício de identificação e amizade com velhos companheiros. E quando Marina ataca Aécio, eleitores que votariam nele talvez  votem em Dilma, ou em branco. Não necessariamente em Marina.
Qualquer um vê que a prioridade agora é tirar votos de Dilma. Ela ganhando, Lula retornará em 2018. Aécio precisa se conscientizar de que, queira ou não, faz parte de uma “equipe”, de uma “missão”  de urgente renovação da política brasileira. Ele e Marina têm um inimigo comum: o PT.
Aécio é um político jovem e inteligente. Poderá se candidatar outras vezes à presidente da república.
Caso insista em atacar Marina, desapontará aqueles que querem — ou melhor, anseiam —  por um Brasil mais honesto e ordeiro.
Quanto à J. Barbosa, por favor, não desperdice seu peso eleitoral em momento tão decisivo. Torne “vivo” algo que está “morto”. Se convidado para futuro ministro, aceite, caso pretenda realizar um novo “mensalão” até mais “virtuoso” que o primeiro, porque preventivo dos crimes.
Quanto à “franqueza excessiva” de J.  Barbosa, trata-se de um problema menor, um hábito de conduta que pode ser corrigido sem muito esforço de seu portador. Sem prejuízo da firmeza necessária em suas futuras propostas legislativas , quando consciente de que em dilemas morais não é lícito transigir.
(06-09-2014)

   

                        

domingo, 3 de agosto de 2014

Como justificar a fraqueza de Obama em Gaza?

“Fraqueza”, no título, é um termo delicado, diplomático, insuficiente para descrever a incompreensível passividade com que o simpático presidente americano teme contrariar qualquer decisão agressiva do atual primeiro-ministro israelense. 

A palavra mais apropriada para tanta “fraqueza”, muito mais pesada, é aquela mesma que o leitor está pensando mas que, por uma questão de respeito, não convém ser utilizada contra o suave Presidente da República de uma nação que ainda cultua algumas virtudes. Por quanto tempo, porém, continuará engolindo sapos?

Obama não é corrupto nem estúpido. É realmente um intelectual, fala “bonito’ — em estilo acadêmico — mas tem uma preocupação exagerada em não melindrar os maus bofes de seu patrão, digo, do chefe de governo de um país que massacra o Hamas e a população civil palestina com total descaso pelas opiniões em contrário, mesmo altamente fundamentadas.

Conforme notícia de 01-08-14, no jornal “O Estado de S. Paulo”, a alta-comissária  da ONU para Direitos Humanos, Navi Pillay, considerou “crimes de guerra” os ataques de Israel contra escolas, hospitais, locais de culto e uma estação de energia em Gaza. Segundo ela, 80% de todas as mortes em Gaza é de civis, e quase 20% das vítimas são crianças.

Conforme relato de Pillay, que este mês deixa o cargo, após mandato de seis anos — essa longa permanência é uma prova de ser pessoa experiente e confiável — os americanos “não apenas dão armas pesadas a Israel, mas também US$1bilhão para o sistema antimíssil que protege sua população. Mas não existe essa proteção para os moradores de Gaza”. 

E o jornalista que assina a notícia do jornal, um profissional também sério, afirma que o Pentágono confirmou o envio de munição adicional para o governo de Israel, apesar de a Casa Branca ter pedido um cessar-fogo. Acrescenta que “o Congresso americano debates nesta semana um ajuda emergencial de US$225 milhões para manter operativo o sistema antimíssil  de Israel”. Há mais: Navi Pillay declarou que os americanos também precisam respeitar as leis humanitárias. “São em instâncias como essas que normas devem prevalecer”.

           Voltando a Obama, a reprimenda mais “dura” que aparece nos seus vários pedidos de “calma” a Netanyahu, é: — “Consideramos isso inaceitável”. E nada acontece quando seus pedidos são desprezados.

          Como presidente da nação mais poderosa do mundo, por enquanto — a China só observa o declínio...  —, Obama deveria pelo menos se dirigir a Israel do seguinte modo: — “Basta, valentão! Você alega que não interrompe o massacre de Gaza porque o Hamas mantém túneis que chegam a Israel. 


Presumindo que está dizendo a verdade, é seu direito, claro, fechar ou bombardear tais buracos, mesmo porque afloram em território israelense, mas proíbo-o terminantemente de, doravante, bombardear escolas, hospitais, usinas, etc. na área de Gaza, seja por qual motivo for — mesmo porque não há prova de que sempre ali estavam escondidos armamentos. Não percebe que com isso está dizimando a população civil? São mais de mil, até agora. 

Essas mulheres, velhos e crianças não têm culpa alguma e estão morrendo ou sendo aleijadas. Não podem ser sacrificadas pela eventual presença de indignados combatentes palestinos que lançam foguetes semi-caseiros que mais assustam do que matam. 

            Quantos israelenses morreram vitimados por tais foguetes? Dois, três?”


“Como pessoa alfabetizada, Benjamin, você precisa compreender que sua política de ampliar a ocupação da Cisjordânia é ilegal, como já foi reconhecida pela Justiça Internacional. 

Contra essa ilegalidade os palestinos só poderiam reagir de dois modos: ou no estilo cordato, humilde, até “pedinte”, de Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina — que você despreza mas tolera —, ou no estilo revoltado e desesperado do Hamas”

          “As pessoas, de qualquer raça, quando indignadas e sentindo-se impotentes — por não terem um tribunal a que possam recorrer —, reagem como podem: com gritos, pedradas e foguetes artesanais. Inclusive com ideias delirantes, tais como “apagar Israel do mapa”.

          “Esse  projeto de ‘apagão geográfico’ é uma óbvia tolice promocional do Hamas porque seria absurdo, irrealizável e mesmo lamentável o aniquilamento de todo um país com cerca de oito milhões de habitantes, boa parte deles também vítimas inconscientes da propaganda amedrontadora de seu próprio governo. 


Você sabe dessa impossibilidade do Hamas, sabe que é apenas uma “tirada” demagógica, um “desabafo utópico”, mas tira proveito da frase tola para justificar sua perceptível intenção de ocupar toda a Palestina, utilizando os palestinos sobreviventes, no máximo, como serviçais.

            “Lembre-se, Benjamin, que contra a ocupação ilegal e crescente da Cisjordânia os palestinos não têm acesso à Corte Internacional de Justiça, onde poderiam solicitar providências contra a ocupação  e transformação de Gaza em imensa prisão. Não podem recorrer à Corte de Haia porque ela só julga conflitos entre “nações-estados", formalmente constituídos. E os palestinos não gozam do status de “estado” porque não têm fronteiras fixas.


E não as tem porque para isso precisam da boa-vontade de Israel, que sempre inventa pretextos para não chegar a um acordo criando dois estados, lado a lado”.

“Para o governo que você preside, Benjamin, é uma “bênção do céu” o Hamas falar em “não reconhecer Israel”, ou quando sequestra um soldado israelense, ou envia foguetes que, por falta de tecnologia, caem em qualquer lugar, quase sempre em locais desertos. “Bênção” porque tais atos, nada inteligentes, “autorizam” Israel a “se defender”. 

Não dispondo de meios legais para fazer cessar o avanço progressivo de Israel, os palestinos mais inconformados e indignados  apoiam o Hamas, que usa o que está à mão: guerra verbal, foguetes artesanais e armas mínimas, morrendo depois como moscas quando Israel revida. Se, porém, os moradores da Faixa de Gaza percebessem  real boa-vontade de Israel, concordando — com fatos — com a criação de dois Estados, os palestinos logo deixariam de apoiar o Hamas, com sua irrealizável “varredura do mapa”.

“Finalmente, meu esquentado Benjamin, não fique repetindo a inverdade de que todo e qualquer terrorismo é injustificado e ponto final. Existe o terrorismo “gangster”, em  busca de dinheiro, e o terrorismo de quem se defende contra invasão. 

Quem se suicida  de forma tão dramática, explodindo coletes de dinamite para com isso matar o inimigo, não age por ambição de riqueza. Se os Estados Unidos fossem — mera ficção exemplificativa — invadidos pela China, não há dúvida que centenas de milhares de “terroristas” americanos lutariam “ilegalmente” para expulsar os “amarelos”.

          “Israel — você não pode apagar a História, Benjamin — foi, por vários anos, aberta e patrioticamente terrorista, quando os ingleses —  então administradores da Palestina —, tentavam impedir o fluxo excessivo de judeus que chegavam, em massa, à Terra de Israel.


Os ingleses, experientes no assunto, previam que a chegada de tantos hebreus, vindos principalmente da Europa Oriental, logo ocupariam o maior espaço possível, expulsando a população árabe que estava lá há séculos”.

           “Menachen Begin, que também foi primeiro-ministro de Israel, chegando a ganhar o Prêmio Nobel da Paz, foi um confesso e orgulhoso terrorista, por volta de 1942. Israel também teve sua fase terrorista, com as organizações Hagana, Ster, Irgun e outras. 


Um prédio, Hotel King David, em Jerusalém, foi destruído por terroristas judeus em 22 de julho de 1946. Morreram 91 pessoas, até alguns judeus, que não foram avisados a tempo. Nesse hotel moravam familiares do governo britânico. Quem organizou o atentado foi o já referido futuro Prêmio Nobel da Paz”, que classificava os palestinos como sendo “baratas”.

           Lembro tudo isso não para censurar um Israel terrorista de décadas atrás, mas para mostrar que quando um povo não consegue ser ouvido em seus reclamos, recorre à violência. É o que acontece agora com o Hamas. 


Se as fronteiras entre os dois povos, judeu e palestino, forem fixadas o terrorismo desaparecerá, ou ficará desmoralizado, sem fundamento.

         Quando terminava a redação deste artigo tive a ideia de acessar, no meu tablet, um site de busca sobre o tema “terrorismo” e li, quase incrédulo, alguns artigos e notícias sobre o Mossad e outras organizações, mais ou menos secretas, que defendem Israel de todas as formas possíveis, inclusive atacando. Segundo os artigos e notícias, não hesitam até mesmo em recorrer ao assassinato, quando isso lhes parecer necessário. 


Cientistas atômicos iranianos — salvo engano cinco —, um ou dois anos atrás foram mortos quando estavam em seus automóveis, no trânsito. Dois motoqueiros grudavam, com ímã, o explosivo na lateral do veículo e logo se afastavam.     
Segundos depois, ocorria a explosão, com morte do cientista.

          Essa faceta terrorista do serviço de inteligência israelense — no estilo cinematográfico 007 — “justificada” pelo “direito de se defender”, confere uma imensa vantagem internacional às pretensões de Israel na disputa territorial com os palestinos.


Gera um difuso medo  de represália física, mortal, principalmente em países em que campeia a impunidade. Nunca se sabe se crítico político foi morto, “provavelmente reagindo a um assalto”, ou por decisão do serviço de inteligência. Além disso, qualquer crítica a Israel pode ser rotulada de “antissemitismo”, obrigando o crítico a se defender em juízo.

Espera-se que a timidez de Obama não tenha origem em alguma forma de medo de represália israelense. Seria o cúmulo se, mesmo  dispondo da CIA e do FBI o presidente americano  pudesse sentir-se ameaçado por qualquer outro serviço secreto não americano.

Para resolver o presente impasse, com cessação definitiva do extermínio de palestinos em Gaza — e tranquilidade definitiva dos habitantes de Israel — , já está mais do que na hora de Obama, homem inteligente e bem articulado, convencer as grandes potências que a ordem mundial precisa dar um passo à frente, na obrigatória busca de um mundo melhor.

Qual seria esse passo? Uma alteração na Carta das Nações Unidas, ou outro documento de mesmo efeito, declarando que quando duas nações, ou povos, não conseguem chegar a um acordo e não param de se matar, porque têm objetivos diferentes, nem sempre confessados — principalmente em questões de fronteira — a pendência será resolvida por um órgão das Nações Unidas, após ouvidas as partes interessadas. Esse órgão, ou Tribunal, já existente ou “ad hoc”, ficaria autorizado a decidir a pendência usando, em larga medida, a equidade, que se caracteriza pela valorização do bom senso e sentido de justiça. Enfim, a questão será decidida por um “terceiro”, qualificado, como acontece em todo o mundo civilizado, ao resolver qualquer conflito de interessess. 

O leitor já imaginou se em toda discórdia esta só fosse resolvida por concordância entre as partes? Quem sabe que está errado dificilmente concorda em perder algo que deseja.

Há momentos, na história de humanidade em que “alguém” precisa inovar na solução dos problemas que se mostram insolúveis. Obama poderia liderar essa avanço inovador porque preside a nação mais poderosa do mundo. 

A China não tem interesse em eternizar o conflito, o ódio e a matança. A Rússia não tem ambições territoriais na Palestina. A  França e a Inglaterra, idem. O que está esperando, meu bondoso Obama?

Mahamoud Abbas é um senhor inteligente e conciliador e, afinal, é o Presidente da Autoridade Palestina, podendo dar a última palavra em nome dos palestinos. Concordará em deixar a solução para um órgão internacional composto de juristas ou cientistas políticos confiáveis.

Resta Benjamin Netanyahu. Como ainda está vivo e forte, pode colaborar para a paz no seu país e no mundo, tornando-se, só por isso, um herói nacional e também internacional. 

Não há dúvida de que o conflito israelo-palestiniano é o estopim mais provável de uma Terceira Guerra Mundial, porque o que ali acontece repercute em países próximos e distantes.

Vejamos se Netanyahu é mais inteligente do que belicoso quando se trata de defender um povo que jura amar. Talvez ame, mesmo, mas até no amor é recomendável uma boa dose de inteligência e previsão.


(03-08-2014)

sexta-feira, 25 de julho de 2014

O massacre de Gaza


       Mais uma vez está comprovado que nenhum povo — culto ou inculto — está livre da desgraça de ser conduzido por líderes astutos, moralmente medíocres, sedentos de glória e com visão curta ou mesmo delirante. É o que ocorre com a população judia — bem educada, informada e intelectualizada — que vive em Israel, assustada com a insegurança fomentada pelo atual governo que, sem imaginação, só pensa em represálias sangrentas na solução de um velho problema: a ocupação territorial de áreas que a justiça internacional já decidiu que pertencem aos palestinos. O medo coletivo é um grande fornecedor de votos.
A Alemanha, nos anos 30 do século XX, pariu Hitler; a Revolução Russa de 1917 ovulou Stálin; Uganda abortou Idi Amin Dada e Israel produziu esse político, por enquanto sem adjetivação definitiva, chamado Benjamin Netanyahu. Inclassificável, aguardando o rotulação exata, porque ainda está  alive and kicking (vivo e chutando) — para desgraça da população palestina. Todo ser humano pode, em tese, mesmo remotamente, receber alguma inesperada “iluminação” interior antes de apodrecer no caixão, ou transformado em pote de cinzas de triste memória.
Diz a doutrina cristã que o apóstolo Paulo, antes da sua conversão ao cristianismo, no caminho de Damasco, foi um perseguidor implacável dos cristãos. Se Jeová ainda não perdeu a esperança em relação a Netanyahu — Jeová, como também o Deus cristão, respeita a liberdade de seus seguidores — certamente torce, angustiado, as divinas mãos, aguardando que um raio de lucidez e bondade, ou um curto-circuito neurológico, modifique a mentalidade do atual líder de Israel, salvando sua biografia antes que seja tarde.
Não há garantia alguma de que, mesmo entre os judeus, Netanyahu não será lembrado futuramente como um veneno de duas pernas que só prejudicou seu povo, no longo prazo, embora pretendendo beneficiá-lo.
Ninguém amou a Alemanha mais do que Hitler, embora austríaco de nascimento. E todos sabem como ele deixou a Alemanha, em escombros, quando se suicidou, em 1945, após matar Eva Braun — sua esposa de um único dia mas companheira há anos — e até Blondi, a cadela pela qual sentia terna afeição. Mesmo sendo quem era, tinha seu lado sentimental.
Hitler era um homem tremendamente patriota mas unilateralmente “bem intencionado”. Considerava inferiores os eslavos, negros, judeus e ciganos, e apenas “meio-inferiores”, os demais seres humanos. Essa visão estreitamente seletiva acabou prejudicando o que mais adorava: a raça alemã. Um fim trágico assemelhado pode ocorrer, no longo prazo, com o atual chanceler israelense, se sua agressividade não for controlada por ele mesmo ou pela pressão destemida — cada vez mais rara — das grandes potências. Como é sempre obedecido, após seus encontros com Barack Obama, convenceu-se de que está acima do bem e do mal, podendo fazer o que bem entende. Esqueceu-se de que é fácil iniciar uma agressão, ou massacre, mas nunca se sabe quais serão as consequências, próxima, ou remotamente. Filhos e netos de civis que morrem, sem culpa alguma, em Gaza, conservam na geladeira da alma, seus desejos de vingança.
Um dos maus efeitos colaterais da mera existência de governantes abusivos está generalização por analogia. Se tal ou qual líder era assim ou assado, seus apoiadores também assim eram e continuam sendo. Se Hitler tratava fria ou perversamente aqueles que não concordavam com seus planos, milhões de pessoas, em todo o planeta, concluíram que todo alemão deveria ter os mesmos defeitos do Führer: —  “Afinal, não o apoiavam? Se apoiavam, eram iguais!”
Engano. Esse “apoio” era mais uma espécie de coquetel psicológico composto de ressentimento do auditório (a derrota alemã na Primeira Grande Guerra), astuta propaganda oficial e uma espécie de hipnotismo coletivo oriundo da força oratória de um orador convicto e apaixonado. Um velho alemão que vivia em São Paulo e que, quando adolescente, esteve em comícios ouvindo discursos do Führer contou que após tais encontros as pessoas saíam meio grogues, fanatizadas, apoiando Hitler, mesmo não sabendo direito porque o apoiavam tanto.    
Quem, no Brasil, soube do comportamento — educado e benévolo — da seleção de futebol alemão, quando treinava na Baía, na recente Copa, até “admirou-se” (?!) da delicadeza de tais atletas. Isso porque os jogadores não tinham nada de “superior”. Como a Alemanha, décadas atrás, foi conduzida por um nazista impiedoso, as pessoas generalizaram sobre o caráter alemão. Tomaram o todo, desconhecido, pela parte conhecida. E o caráter do povo judeu, tão bom quanto qualquer outro, será julgado — já está sendo... — com base na agressividade exageradas do atual primeiro-ministro israelense, massacrando, desnecessariamente, palestinos inocentes na Faixa de Gaza.
Tudo começou, na atual conjuntura, com o lamentável assassinato de três jovens judeus que excursionavam na Cisjordânia, desatentos ao perigo em uma região impregnada de más lembranças. Provavelmente os autores da maldade foram palestinos marginais, ou jovens ignorantes que tiveram parentes ou amigos maltratados por soldados ou colonos judeus.
Analogamente, quem, no Brasil, transita por certas favelas corre perigo de morte. O mesmo ocorre mesmo em algumas áreas “barra pesada” de Nova Iorque e de muitas cidades em todo o mundo. A polícia palestina não pode estar em toda parte. O assassinato dos três jovens foi um caso de polícia, não de política.
Após a morte dos três jovens judeus um jovem palestino foi queimado vivo em Jerusalém, obviamente sem aprovação do governo israelense. Aí alguns palestinos irresponsáveis e enraivecidos resolveram lançar foguetes sem alvo específico que mais assustam do que matam, ou ferem. Caem, em sua quase totalidade, em lugares pouco habitados e geralmente são destruídos no ar porque Israel dispõe de um sistema avançado de defesa até mesmo individual, uma espécie de GPS que avisa a aproximação de foguetes. O que mais fere é a queda de fragmentos de tais foguetes. Aí — na infindável série de revides — Netanyahu, para mostrar valentia, resolver bombardear e invadir Gaza, seguindo sua velha e única tática sem imaginação: “olho por olho’.
Gandhi, o conhecido líder espiritual hindu, dizia, com outras palavras, que esse tipo primitivo de “justiça” vai acabar deixando todos cegos. E, até agora, segundo a imprensa internacional, morreram, na presente invasão de julho de 2014  bem mais de  600 palestinos, com milhares de feridos. Do lado israelenses as perdas não chegam a 30. Em termos militares, para cada israelense morto, perecem 20 palestinos.”  “Em compensação”, estes últimos conseguiram, ontem, fazer com que um de seus foguetes caísse próximo do aeroporto de Telavive, levando as empresas aéreas a suspender os voos para Israel.
 Como e quando terminará a série infindável de recíprocos ataques vingativos?
O “capital” de simpatia que o mundo concedeu às vítimas do Holocausto está cada vez mais desfalcado, chegando quase ao ponto zero. Por culpa da política arrogante do referido político que parte para imediatas e violentas retaliações toda vez que um cidadão israelense é morto ou capturado pelos palestinos. A represália israelense é sempre várias vezes mais violenta que o ataque sofrido, demonstrando um impressionante complexo de superioridade. Alguns meses atrás Israel libertou da cadeia centenas de palestinos em troca da libertação de um único soldado israelense, como que dizendo: — “Um judeu equivale a mil árabes”.
Esse compulsivo — ou convulsivo? — sentimento de superioridade desperta, inevitavelmente, antipatias mundiais. Poucos anos atrás li, em nota de jornal ocupando espaço mínimo — talvez de modo proposital — que em uma sessão de cinema em determinada cidade europeia — lamentavelmente não recortei a notícia — quando apareceu na tela uma foto ou cena de cadáveres empilhados, em campo de concentração, boa parte da plateia vibrou com palmas e gritos de aprovação.
Obviamente, em todos os povos e raças há uma enorme variação de níveis de inteligência e de caráter. Sempre haverá tal variação e os piores, no caráter, procuram subir no “bonde” — o governo —  que mais satisfará sua sede pessoal de poder ou de riqueza. Daí o apoio ostensivo de alguns milhares de israelense que só pensam na felicidade deles, encarando os palestinos como meros “terroristas”, ou seres inferiores que melhor fariam se abandonassem, para sempre, toda a Palestina.
Esse projeto já foi confessado por alguns políticos judeus na última eleição. Há, porém, felizmente, alguns milhares de judeus que, mais humanitários, gostariam de viver em paz, mesmo em uma Palestina dividida. Não se manifestam muito, porém, receosos de que sua discordância seja considerada como uma “traição” à pátria. A velha doença do nacionalismo, ou solidariedade racial.
Acho graça, na verdade revolta, quando leio, em jornais sérios, fingidas “análises imparciais”, internacionais, do conflito, redigidas, na vasta maioria, por jornalistas estrangeiros de sobrenome judeu, explicando que a “comunidade internacional” deve intervir para que cessem as agressões “entre as duas partes”. O tom desses textos dá a impressão de que Israel e o Hamas travam uma luta de igual para igual, ou quase isso. Descrever o conflito desse modo equivale a dizer, falsamente, que dois homens “lutam”, quando um deles, fortíssimo, bem nutrido, de pé, pisoteia o rosto do outro, magérrimo, no chão. O que está por baixo é, obviamente, o palestino de Gaza.
O que está havendo é mesmo um massacre 90% unilateral, até agora impune, porque Israel tem uma força própria e ligações internacionais que dispensam até mesmo o apoio americano. A diplomacia e as finanças mundiais estão em alta proporção nas mãos israelenses. Cerca de um ano atrás, Netanyahu foi aos EUA para fazer autopropaganda e conseguiu uma promessa, por escrito, de Obama, para receber vultosos fornecimentos de armas. E ainda obteve um tratado com os EUA pelo qual, se Israel for atacado, ou se envolver em um conflito, os EUA terão que combater a seu lado. 
Foi-se o tempo em que Israel dependia do apoio americano. Dispõe, hoje, de uma avançada tecnologia de guerra, de informática, dinheiro e poder nuclear. Poder nuclear, que nega a qualquer outro país do Oriente Médio. Portanto, do que mais precisa para dar as cartas na região? O boicote internacional contra o programa nuclear iraniano é conduzido com os fios invisíveis de Israel. Barack Obama, um homem imensamente tímido, nunca foi capaz de dizer “não” ao líder israelense. Limita-se a emitir frases de efeito mas de pouco efeito. E Ban Ki-moon não fica atrás em timidez.
Não sei por quanto tempo ainda teremos uma relativa paz no nosso planeta. Israel, potência nuclear, não permite que qualquer outro país árabe fabrique armas atômicas. Só a ele mesmo concede esse direito, porque, previdente, não aderiu ao TNP – Tratado de Não Proliferação Nuclear. O Irã, ao tempo do Xá da Pérsia, assinou o Tratado e por isso a ONU pode exigir dele o direito de inspecionar instalações iranianas, pedindo provas e mais provas de que armas nucleares não estão sendo fabricadas. Quanto a Israel, ninguém inspeciona coisa alguma.
Um fato curioso e inexplicável: segundo o referido TNP, qualquer país assinante dessa convenção pode dela se retirar desde que declare por escrito essa intenção, com uma antecedência de três meses. Está no artigo 10 do Tratado. A Coreia do Norte assinou o TNP mas alguns anos atrás, usou o direito de retirada e por isso ninguém diz que a Coreia do Norte está infringindo as “normas internacionais” quando deixa claro que possui bombas nucleares. Até chegou a fazer testes.
Por que o Irã não fez uso dessa cláusula? Em 28 de maio de 2010 houve uma revisão desse tratado interditando a posse de armas de destruição em massa no Oriente Médio. Israel está no centro do Oriente Médio mas nem ligou para a proibição. Em 2012 haveria outra reunião dos países que permitiria o exame das instalações nucleares nessa região.  Israel disse que não compareceria ao encontro e afirmou que esse tratado era hipócrita e falho. Resumindo: Israel não se sente obrigado a nada que possa de algum modo diminuir sua força. Jimmy Carter chegou a dizer, em maio de 2008, que Israel tinha pelo menos 150 ogivas nucleares. E Netanyahu vive dizendo que se “constatar” que o Irã está na iminência de construir alguma arma nuclear, bombardeará as instalações persas sem pedir autorização de ninguém.
Estou, por acaso, propondo uma proliferação nuclear? Não. Apenas observo que o privilégio nuclear israelense estimula a agressividade de seu governo, já superior em tudo.
Não há o que temer na eventual fabricação de uma arma atômica por parte do Irã. Se ele decidisse lançar uma bomba em Telavive, horas depois o Irã estaria reduzido a cinzas radioativas por obra e graça de Israel e EUA. E provavelmente o míssil iraniano nem chegaria ao alvo. Seria interceptado. E Jerusalém não seria jamais um alvo iraniano porque se ali atacasse, milhares de árabes seriam também mortos.
A única solução racional e factível para pacificar o Oriente Médio está em Barack Obama vencer a própria timidez, convencer Ban Ki-moon — outro prudente — de que a divisão da Palestina em dois estados não pode mais esperar, delegando à ONU, ou a um órgão especial formado para isso, a missão de traçar a linha divisória, sem esperar autorização do governo de Israel. Netanyahu, pessoalmente, nunca dará essa autorização. Prefere morrer, afogado no próprio ódio.
No meu site Governo Mundial, disponível a partir de 1º de agosto próximo, esse problema será mais amplamente examinado.

(23-07-2014)