Talvez o verbo certo seja “relativizar” tais
fronteiras. O essencial, mais do que a exatidão na escolha de um termo, é
salientar a necessidade, cada vez mais premente, de unir os ramos do
conhecimento. Não digo “misturar” tudo em um “angu” superficial e ignorante.
Pelo menos, criar pontes inteligentes entre os diversas domínios.
É velha, mas sempre pertinente, a definição
daquele que só se interessa pela própria especialidade: “especialista é aquele
que sabe cada vez mais de cada vez menos”. No plano microscópico ele é gênio.
Na compreensão global, se não um tolo desconectado pelo menos um alienado do
mundo em que vive. Talvez pior: um pavão, cheio de si, porque no conhecimento
minucioso dos detalhes do seu piolho particular ninguém o suplanta. Pelo menos
é o que ele imagina, vivendo no seu mundinho.
Tais considerações
vieram-me à mente após ler um artigo sensatíssimo, no jornal “O Estado de S.
Paulo”, de 3-8-09, do prof. Jerson Kelman, professor da Coppe-UFRJ. Ele foi
diretor-presidente da Agência Nacional de Águas e diretor-geral da Aneel –
Agência Nacional de Energia Elétrica.
Nesse artigo, “A bala
perdida no Senado”, Kelman salienta a necessidade de não ver as coisas
isoladamente: (...) “sem um sistema de gerenciamento capaz de harmonizar os
interesses conflitantes no uso dos rios ocorre uma babel em que cada setor
ignora a existência do outro. Por exemplo, o setor agrícola e o energético
comportam-se como se as águas pudessem ser utilizadas de forma exclusiva,
respectivamente para a irrigação e para a produção de eletricidade. Outro
exemplo: a autoridade estadual permite que se faça uma captação ou se lance um
efluente num rio sob sua jurisdição, sem atentar para as consequências sobre a
quantidade e qualidade utilizada por outros usuários localizados rio abaixo, às
vezes em outros Estados da Federação”.
A observação acima serve
como uma luva para a ideia que venho (monotonamente) incentivando ha meses,
talvez para desespero de alguns leitores que entram em convulsão à simples
menção da necessidade de um governo democrático global. Se mesmo dentro de um
país de regime federativo se constata a necessidade do estado pensar no bem
estar do estado vizinho — antes de empreender determinada obra, ou planejar um
sistema —, o que não se dirá da convivência mundial, cada vez mais estreita? Há
uma estreita analogia entre “estados soberanos”, na área internacional e
“estados” — vizinhos ou não — dentro de uma mesma federação.
Em termos de água, mero
exemplo, pergunta-se: se um país prevê futura escassez, tem ele o direito
“soberano” — egoísmo garantido pela força — de represá-la, mesmo que com isso
arruíne a agricultura e o abastecimento de um vizinho país (ou imensa
coletividade sem status de Estado), situado em nível mais baixo? Qualquer
pessoa, mesmo de poucas luzes, dirá que o interesse da população do país ou povo
vizinho, não pode ser ignorado. Se o for, faltará água na região menosprezada.
Em compensação, não faltará, no povo prejudicado, um caudaloso “ódio líquido’ —
inventaram mais essa novidade, “líquido”, em política internacional... —, com
terroristas auto justificados pelo fato de não disporem de um tribunal
internacional que repare a injustiça sofrida. E essa via legal o planeta não
tem. Basta dizer que qualquer país, para poder ser julgado em uma demanda
ajuizada na Corte Internacional de Justiça, precisa aceitar a jurisdição. É
julgado apenas se assim concordar. Sabendo estar errado, não concorda,
obviamente. Medo da pressão internacional? Nem sempre. Depende de saber quem
comanda essa pressão.Tem cabimento um atraso jurídico desse porte em pleno
século XXI?
A justiça internacional
ainda sofre grandes limitações institucionais. Certamente provocando desespero,
embora não verbalizado, de seus competentes juízes que, provavelmente,
gostariam de poder trabalhar com mais desenvoltura, fazendo justiça completa,
em escala realmente mundial. Um justiça sem tantas limitações políticas
disfarçadas em normas jurídicas.
Infelizmente, os competentes magistrados
internacionais — convocados em todas as partes do planeta para integrar os
tribunais internacionais —, não podem ficar reclamando, a torto e a direito,
contra as restrições que os impedem de fazer a desejada justiça. Nas
federações formando um único país, cada
estado ou província cuida dos “assuntos locais” mas não decide sobre relações
internacionais, nem declara guerra à província ou estado vizinho, e muito menos
a outro país. O estado do Texas, por exemplo, não pode declarar guerra contra
outro país. Somente a União pode fazer isso. Muito menos pode o Texas dizer que
“não aceita ser julgado” numa demanda qualquer, ajuizada pela União ou por
outro estado da federação americana. O mesmo precisa existir na área
internacional. A noção de soberania precisa ser relativizada, para não se
transformar em empecilho para um mundo mais justo e, consequentemente, menos
sujeito a guerras, massacres, fome e terrorismo.
Voltando ao artigo do
prof. Jerson Kelman — que nas entrelinhas revela-se um intelectual equilibrado
e sem vaidade — ele acentua, como disse de início, a necessidade da
administração federal abordar o problema das águas de forma global, examinando
repercussões das decisões em todas as áreas em que vão ocorrer consequências.
Um outro item que demonstra a ligação íntima de
assuntos aparentemente separados está na conexão entre o excesso populacional e
os enredados esforços para a construção da paz. Pais ricos, ou remediados, têm
poucos filhos. Pais pobres geram abundante descendência. Excesso que leva,
quase fatalmente, ao desemprego, criminalidade de rua (não do colarinho branco
—, aí trata-se de “vocação”) e migrações desordenadas em busca de países que
ofereçam mais oportunidades. Ou pelo menos alguma oportunidade, porque em
certas regiões de miséria, simplesmente não há qualquer chance de progresso
individual, seja qual for sua força de vontade. Imagine-se o leitor nascendo
hoje, de família pobre, no Sudão, Somália, Zimbábue ou outro país paupérrimo.
Mesmo tendo, por sorte, uma feliz combinação de genes ligados à inteligência,
sua desnutrição dentro do útero e nos primeiros anos de vida minará o pleno
desenvolvimento de seu cérebro.
A promissora concepção da União Europeia já se defronta com críticas e
dificuldades. E a União Europeia é um “ensaio” ou “ovo” informal de um governo
mundial. Se ela falhar, falhará também, por “contágio”, a ideia de uma
governança global, o que será uma lástima. Isso porque os pobres do Leste
Europeu, em grande número — o fator quantidade minando a qualidade de qualquer
ideia —, afluem para os países mais ricos, perturbando sua economia. Como
precisam trabalhar, aceitam salários mais baixos, o que aumenta o desemprego
dos trabalhadores locais, que passam a apoiar políticos de direita, hostil aos
estrangeiros. Hostilidade de conveniência, mas de qualquer forma, hostilidade.
E essa prevenção também causa ressentimentos dos governos de outras regiões —
Brasil, por exemplo —, que encaram como ofensa a desconfiança com que seus
cidadãos são tratados nos aeroportos europeus, mesmo como simples turistas.
Qualificação que o país receptor vê com reserva, supondo que o moço tenha
desembarcado com a intenção de ali morar e trabalhar.
O exagero populacional também gera efeitos não estritamente econômicos,
relacionados com mero excesso de mão de obra. O econômico transforma-se em
racial. Pior, racista. Explico: como os “invasores’ são, no geral, mais escuros
(africanos e sul-americanos), ou de feições árabes, a ojeriza pelos imigrantes,
“concorrentes desleais” — porque aceitam salários menores, sendo preferidos
pelos patrões — acaba se transfigurando em um problema de cor, ou traços
fisionômicos. A “raça” do imigrante acaba levando a culpa pelo desemprego dos
brancos no país hospedeiro. Políticos locais, sempre à cata de votos,
aproveitam a onda de animosidade e elaboram políticas que tendem a marginalizar
os “invasores” mais escuros. Daí as explosões de desproporcionada violência —
incêndios e depredações — que ocorrem ante a menor “provocação” da polícia. No
fundo, no fundo, toda aquela violência origina-se da fertilidade incontrolada.
A mera quantidade gerando a má-qualidade na convivência humana.
Um outro exemplo da conexão entre o excesso de nascimento nas camadas mais
pobres e conflitos sangrentos duradouros entre povos está no que ocorre no
Oriente Médio. Fosse bem menor o afluxo de judeus procurando, compreensivelmente,
“um lar em Israel”, após a criação desse estado, a paz com os palestinos teria
tido mais chance de ser alcançada. Menos árabes teriam sido expulsos das áreas
que ocupavam. Conseqüentemente, o ressentimento palestino teria sido menor. O
mesmo se diga do ódio de Bin Laden, estimulado com o ressentimento palestino.
Talvez nem existisse o atentado de 11-9-2001. Ocorre que não havia — nem na
época nem agora — uma autoridade mundial capaz de dar um “pare!” às sucessivas
levas de judeus que queriam, finalmente, e em excesso, poder morar num país
próprio, Israel.
Ainda hoje, qual o principal espinho que dificulta a solução do problema da
criação de dois estados na antiga Palestina? O excesso de judeus, não abonados,
que se instalam na Cisjordânia. Vêm de toda parte, e o governo israelense não
se sente confortável para expulsar seus irmãos de raça ou religião. E porque
tais colonos se instalam na Cisjordânia? Capricho? Não. Instalam-se ali porque
são relativamente pobres, numerosos e não têm recursos para se instalarem em
regiões tranqüilas e confortáveis dentro das principais cidades. Sempre o
problema da quantidade.
Quando se fala em “judeu”, pensa-se logo em “judeu rico”, mas isso não
corresponde à realidade. Judeu favelado, miserável, pelo que sei, praticamente
não existe hoje no mundo. Consta — não sei se é verdade — que os judeus
demonstram uma solidariedade acima do habitual para com seus irmãos menos
afortunado. Mas, se não existe judeu miserável, há milhares deles, da classe
média baixa, ou próxima da baixa, que desejam viver em Israel. Não podendo
comprar casa ou apartamento nos melhores bairros das cidades
Francisco Pinheiro Rodrigues (04/08/2009)
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