sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Não há o que temer no envelhecimento da população mundial

É cada vez mais freqüente ler e ouvir — na mídia nacional e internacional —, o “perigo” que ameaça o futuro da humanidade com o progressivo aumento de idosos e a baixa natalidade nos países desenvolvidos. Quanto aos países em desenvolvimento, ou flagrantemente subdesenvolvidos, há, em compensação, por enquanto, uma até excessiva produção de bebês, mas isso tende a diminuir à medida que tais países melhorarem o padrão de vida. A mulher moderna quer trabalhar, realizar-se, ganhar o próprio dinheiro. Sobretudo, não depender do volúvel coração masculino que, mesmo com aliança no dedo pode, de um momento para outro, “endoidar”, buscando sexo, digo, amor romântico em novo endereço.

Quando isso ocorre, o drama é humilhante e desgastante para a mulher que dependia apenas do marido — ou companheiro —, para subsistir: há que mover ação de alimentos, para ela e filhos; discutir a fatia patrimonial oriunda da ligação desfeita; disputar a guarda dos menores e sofrer os desgastantes atritos relacionados com o direito de visita; assumir compromissos financeiros para a própria disputa judicial, etc. E, para cúmulo do drama, o ex-marido pode ficar desempregado, escapando da ameaça de prisão, por vezes a única forma eficaz de “arrancar do desgraçado!” o cumprimento de uma obrigação legal e moral.

Pensando nisso tudo, a mulher meio desconfiada — e toda mulher o é, por necessidade do duro ofício — acha mais prudente trabalhar fora de casa. Mas, com quem deixar as crianças? Babás nem sempre são pacientes e, além do mais, não trabalham de graça. Tudo considerado, a mulher jovem vê, nitidamente, que o mais sensato é ter apenas um ou dois filhos, com isso conciliando carreira, auto-estima, razoável — embora não excelente... — função de mãe que trabalha fora e uma aposentadoria tranqüila. Ou “pé de meia” que dependa só dela, na formação; não de um “terceiro”, o marido. Este, pode, no decorrer da convivência, se revelar uma bênção do céu ou uma “praga do inferno”, só o tempo dirá. E assim pensa também o homem com relação à mulher, que só aos poucos vai revelando suas falhas. Norman Mailer, um escritor americano que se casou algumas vezes, dizia que “você pode estar casado dez anos com a mesma mulher mas só vem a conhecê-la, verdadeiramente, em um tribunal”. Por vezes a intransigência em assuntos de guarda filho explica-se pelo mero desejo de hostilizar.

Por outras palavras, como lembrei atrás, o grande fornecimento atual de bebês, oriundos de países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, diminuirá à medida que a mulher for se libertando economicamente e a pobreza mundial for desaparecendo, como é o desejo — pelo menos aparente — de todos os governantes. Isso é bom, a médio e longo prazo, considerando o problema sob o ângulo planetário. Convém que não nasçam muitas crianças. Principalmente se não lhes for assegurando um espaço saudável e confortável no mundo. A miséria gera sofrimentos físicos e morais, humilhação, desesperança, ignorância, criminalidade violenta, terrorismo, deformações físicas e morais e até maus governantes porque os espertos, quando candidatos, sabem como seduzir os desesperados com promessas.

A população mundial precisa diminuir. Se não isso, pelo menos estacionar. O aumento universal — inevitável, salvo catástrofe mundial — da riqueza e da informação, levará a um forte aumento do consumo individual global, com aumento da poluição, escassez de água e todos os inconvenientes do progresso material quando acoplado com a super-população. Um dia, a África, hoje símbolo de penúria, terá centenas de milhões de automóveis, geladeiras, aparelhos de ar condicionado e demais confortos, úteis mas poluidores. Quando a proporção entre automóveis e pessoas, na China e na Índia, chegar ao nível americano atual, a humanidade perceberá que a população mundial ultrapassou o limite do racional.

Aqui, insere-se a tese da utilidade dos velhos: eles não se reproduzem. E consumem. Bens e serviços, fonte de emprego para os mais jovens. Consumo que gera tributos que vão ajudar a pagar suas aposentadorias e auxílio-desemprego dos jovens. Se — apenas como argumento, não tenho pressa —, todos os idosos morressem hoje, milhões de jovens e maduros ficariam desempregados, sem função. Não teriam vaga em setores de clientela e freguesia jovem porque tais setores já contam com muitos desempregados.

Alguém argumentará que “não é justo” que os jovens tenham que “se sacrificar” — até parece —, trabalhando pesado para sustentar milhões de velhos ociosos, cada vez mais longevos e espertos nas técnicas de retardar a morte. Na verdade, não haverá “sacrifício” dos jovens, porque a espécie humana está “condenada” a uma progressiva e relativa ociosidade, em todas as idades. Conseqüência da automação, da robotização e da informática.

O desemprego, hoje, é uma realidade inevitável, se mantida a semana de quarenta horas de trabalho. Se não houver um acordo universal forçando todos os países a reduzir — se possível por igual —, a carga semanal de trabalho, o desemprego continuará atormentando todos os povos. Isso porque máquinas e computadores fazem o serviço de milhões de operários e funcionários de escritório. Cada vez mais, governos e empresas usam menos braços e cérebros humanos. A chamada “inteligência eletrônica” cresce em eficiência, empurrando o homem para o reino das teclas e botões, com dispensa do próprio homem.

O ideal de todo patrão — compreensível, em um mundo extremamente competitivo —, é ter o mínimo possível de empregados. “Se meu concorrente consegue produzir o mesmo que eu, em quantidade e qualidade, com menos empregados, ele me destrói, ou engole!” Todos percebem isso. Em vez de o comprador, via internet, receber em casa — o carteiro está sendo dispensado — um boleto para efetuar o pagamento no banco, ele recebe apenas um e-mail com o anexo do boleto, que ele mesmo preencherá após imprimir. Em seguida, ele vai a um banco, ou caixa eletrônico e — novamente sem contato com funcionários, usando apenas um cartão —, paga a quantia com a leitura magnética.

As próprias máquinas foram “alfabetizadas”, usando um “olho” linear vermelho. Se necessitar de dinheiro vivo, não precisa também entrar em contato com qualquer ser que respire: saca as cédulas utilizando uma máquina. Se precisar, via telefone, de um serviço público — ou até mesmo particular, conforme o caso —, “dialogará” com a máquina, usando a ponta dos dedos, clicando “opções 1,2,3”, etc. Se falar errado, ou não claramente, a “madame máquina”, uma “senhora” educada e impassível, dirá que não entendeu sua resposta, pedindo ao exasperado interlocutor que responda de modo claro o que lhe foi indagado. E se ele disser que seu assunto não figura entre as “opções”, a máquina se fingirá de surda porque, afinal, não foi construída para conversar com ignorantes.

Professores, pessoas físicas, futuramente, serão necessários apenas para fim de alfabetização e alguns poucos anos de freqüência inicial à escola. Depois disso, as pessoas aprenderão por conta própria, lendo livros e textos na internet, em CDs e DVDs. Lendo e ouvindo. Aprendendo, por sinal, com a nata dos professores, escolhidos para gravar suas aulas. Por que o estudante adulto perderá tempo no trânsito e comendo na rua quando pode aprender em sua casa, frente à televisão enquanto faz a refeição ou come pipoca? Freqüência às Faculdades, só mesmo se for para namorar ou bater papo com os amigos. E o aluno aparentemente “burro’, se bem orientado na técnica de estudar — na verdade, muita suposta “burrice” poderia ser evitada, ou contornada, com técnicas adequadas a cada aluno— não precisará do professor, de modo geral.

Advogados serão também progressivamente dispensados. As injustiças afetando grande número de pessoas serão corrigidas — já vem sendo — através de ações públicas, movidas pelo Ministério Público, ou com novas leis — como já vem acontecendo —, corrigindo falhas das anteriores. Quantos advogados, formados, trabalham hoje, efetivamente, exercendo a advocacia como única profissão? E quantos milhares sequer podem exercer a profissão porque não conseguem passar nos duros Exame de Ordem? As “Súmulas” dos Tribunais Superiores — necessárias para diminuir a pletora de recursos protelatórios — também “desempregam”, ou dispensam os advogados. A prevenção de demandas, se beneficia a sociedade, como de fato beneficia, esvazia os escritórios de advocacia. Na medicina, o desemprego é menor porque o ser humano, “felizmente”, é objeto perecível. E quanto mais velho fica, mais perecível se torna. Fonte preciosa de emprego.

Quando os jovens — também eles, não só os funcionários —, na França, revoltam-se contra o aumento de dois anos na idade mínima da aposentadoria — dos sessenta para os sessenta e dois — a explicação está, em parte, no desejo de conseguir algum trabalho. E quando os imigrantes, rejeitados, se assustam com o crescente preconceito dos moradores locais, a explicação é óbvia: estes também se assustam com a perspectiva tenebrosa da ausência de emprego. Para o patrão, o imigrante ilegal é mais lucrativo do que o trabalhador nascido no país.

Conclusões óbvias deste artigo: desemprego não é culpa do governante “x” ou “y”. O “inimigo” do emprego, intelectualmente pouco percebido, chama-se Progresso. Da ciência e da tecnologia. E não seria inteligente destruir aparelhos e computadores. Eles trabalham para nós, sem exigir salário, férias e demais benefícios. Percebido isso, é preciso que, como forma de neutralizar o desemprego, uma legislação universal reduza substancialmente a carga semanal de trabalho. Como sempre lembro, a França tentou ser pioneira nesse sentido mas acabou se prejudicando porque seus produtos se tornaram mais caros que aqueles produzidos por países que não concederam tal vantagem a seus trabalhadores.

Boas intenções, em um mundo comercialmente globalizado, só “funcionam” se todos ou grande parte dos países agirem da mesma forma. “Acordem, senhores presidentes! Unam-se para essa redução universal da carga horária semanal”. Não é questão de prestigiar, em abstrato, o valor do trabalho, mas de propiciar o trabalho para todos que querem trabalhar.

E parem de acusar os velhinhos, porque eles estão sendo ainda muito úteis, com seus reumatismo, pressão alta, manias e compras em farmácias. Repito: os jovens não estão se “sacrificando” com a atual situação. Estão é se beneficiando. Não trabalham, a maioria, puxando o cabo da enxada, erguendo fardos e suando sob sol escaldante. Trabalham com telefones, computadores e contatos pessoais, não de todo desagradáveis porque o sexo oposto integra o mundo do comércio e indústria.

(5-11-2010)

domingo, 31 de outubro de 2010

O altruísmo pode afogar seu portador

Em visita a Genebra, Suíça, menos de um mês atrás — parte turismo, parte curiosidade pelos órgãos internacionais — procurei melhorar minha compreensão da língua lendo revistas francesas, quando no hotel, com auxílio de dicionários. Um deles, pequeno mas “taludo”, “gordinho”, era o Mini Larousse, com 38.000 palavras. Um prodígio de síntese e abrangência que me socorria, infalivelmente, quando o dicionário que levei do Brasil, três vezes mais volumoso, mostrava-se omisso.

O único problema com o referido Larousse está no tamanho das letras, semelhante àquelas de bulas e contratos, impressas “só para constar”, não exatamente para serem lidas, pois nem todos dispõem de lupas. Aliás, parece ser norma gráfica pétrea que todos os dicionários de francês sejam destinados a leitores alimentados com gemada de ovos de águia, dotados de miraculosa acuidade visual. Fica aqui a observação para eventual proveito das editoras francesas de dicionários. Quem sabe, em explicação menos fantasiosa, o queijo francês, muito consumido como sobremesa sem mistura— hábito estranho, para brasileiros, que acrescentam a goiabada —, é especialmente rico em vitamina A, protetora da retina, o que explicaria o prodígio visual. Nunca soube de reclamações de franceses, belgas e canadenses contra o tamanho das letras dos seus dicionários, o que leva à conclusão, lógica e desanimadora, de que meu problema resulta apenas de um registro de nascimento por demais antigo.

Vamos, porém, ao que interessa. Em edição recente da “France Dimanche”— lamento ter deixado a revista no hotel, por isso não menciono o número — li o relato de uma senhora que perdeu o irmão, vitimado pela mais bela das virtudes: uma exaltada compaixão. Como a autora do texto acenou em levar o caso à Justiça, o acontecido pode servir ao leitor como um exercício de reflexão sobre a conexão — jurídica e moral —, entre causa e efeito, culpa e castigo, dano e responsabilidade.

Em todo ser humano, culto ou inculto, jaz, em intensidade variável, um “juiz”. Julgador, por vezes implacável e totalmente livre para decidir obedecendo apenas à própria consciência, sem complicações legais. Justiça em estado bruto, diamante não lapidado. Esse aspecto não passou despercebido ao nosso mais prestigiado jurista, Rui Barbosa, que lembrou aos juízes do STF de seu tempo que eles também estavam sendo constantemente julgados pelos jurisdicionados.

A propósito, lembro-me, com agrado, de uma frase do Min. Marco Aurélio Mello, do STF, que, em entrevista, admitiu que quando julga um caso examina primeiro qual a solução mais justa, conforme o bom senso e a moral e só depois é que procura, na legislação, as normas que servirão de sustentáculo jurídico para o que considera verdadeiramente justo, pelo menos no caso em exame. Aliás, de minha parte, modestamente, sempre agi assim, quando em atividade, e não me arrependo. Aliás, só me arrependo de uma decisão, quando juiz de apelação, mas jamais direi qual foi. Poucos minutos depois de proclamado o resultado, um “estalo” me fez concluir que errara, mas aí era tarde. Não há como voltar atrás depois de oficializada uma decisão. Mais um argumento em favor da tese de que a legislação processual deve ser preocupar com a dificílima tarefa de impedir — sem prejuízo da justiça procurada de boa-fé — que “toneladas” de recursos protelatórios cheguem aos tribunais. A pressa, a necessidade estatística do “vapt-vupt” judiciário, explica muitas decisões superficiais.

A “lei” pode errar. Afinal, é produto do homem, essa “coisa” que todos conhecem. A presumida “sabedoria do legislador”, antiga regra de interpretação é, por vezes, uma ilusão. Principalmente nos tempos mais recentes, imensamente complexos, em que, lobbies de toda ordem conseguem alterar a redação de propostas legislativas, em tese bem intencionadas, introduzindo modificações que jamais estiveram na intenção de quem redigiu a proposta original. Separar o joio do trigo, escolher o que “presta” e o que “não presta” no texto legal é tarefa interpretativa hercúlea equivalente às contorções do “homem-borracha” de circo, tendo em vista o dogma da separação dos poderes. Nunca vi um magistrado dizer, com todas as letras, que ... “A letra “c” do item “XVIII” do parágrafo “16” da lei tal deve ser ignorada porque seu conteúdo é contraditório com o espírito da lei sob interpretação. Em algum ponto do caminho legislativo o projeto sofreu um enxerto suspeito. Se a sutil manobra conseguiu passar despercebida no caminho legislativo — é impossível exigir que todo congressista leia minuciosamente a imensa produção legislativa —, não passará agora, em um julgamento, porque, afinal, nós, juízes, não somos cegos”. A “saída” usual, para preservação da separação dos poderes, está na declaração de inconstitucionalidade parcial da lei, mas, por vezes, a contradição nada tem a ver com a Constituição, sendo apenas uma questão de afronta à lógica e ao bom senso. Aí, como fica?

Com perdão pelo vício da digressão, voltemos ao caso, ocorrido na França, relacionado com um sentimento de extrema beleza moral. Disse antes que o irmão dessa senhora foi vítima da própria bondade — ou compaixão — e que desolada irmã pretendia processar judicialmente a pessoa que provocou a tragédia.

O caso foi assim: em um fim de tarde o irmão em exame, homem já maduro, solteiro, conhecido pelo notória preocupação com os outros, conversava e tomava vinho com amigos em um bar, ou café, a poucos metros de um rio que passa bem ao lado do estabelecimento. A certo momento, nosso herói viu que as pessoas se aglomeravam sobre a mureta que dá para o rio observando uma moça que estava se afogando.

Antes que a moça submergisse sem retorno, o bom samaritano deixou de lado toda a cautela e se jogou no rio, nadando para salvar uma vida. Ao chegar perto dela ficou pasmo com a reação da quase afogada, que o repeliu rudemente, agredindo-o, lutando para não ser salva. Tal foi a perplexidade dele que descurou-se de maiores cautelas com a própria segurança e por isso acabou sendo arrastado pela correnteza, certamente muito forte naquele trecho. Afogou-se e seu corpo só foi encontrado vários dias depois, muito distante do local.

Graças ao esforço — mal recebido — de nosso herói, a moça acabou sendo agarrada por bombeiros ou pessoas que conseguiram “pesca-la” e salva-la da morte certa. Ela ainda lutou com as pessoas que a socorriam — insistia no desejo de se matar — e foi preciso algemá-la para afastá-la do rio e ser levada a uma delegacia. Descobriu-se depois que essa moça tentara o suicídio duas ou três vezes antes.

Uma senhora que tudo presenciou, acompanhada de um neto já rapaz, disse depois, no inquérito, que o neto quis jogar-se nas águas mas foi impedido pelo nosso homem que afirmou ser bom nadador, como de fato era, preferindo ele mesmo assumir o risco de se arremessar na correnteza perigosa.

O prefeito ou autoridade que administrava a área em que ocorreram os fatos decretou luto oficial e até mesmo deu ao local o nome de nosso herói, cujo enterro foi muito concorrido. A irmã do afogado, no entanto, em sua carta à revista, não se conformava com a indiferença da pretensa suicida, que sequer se deu ao trabalho de telefonar para agradecer um gesto motivado apenas pela compaixão. E no fim da notícia, a irmã do afogado disse que pretendia processar a suposta candidata ao suicídio. Diz a revista que a moça em referência sofria das faculdades mentais e que fora internada para se tratar.

Se o fato for levado aos tribunais é quase certo que a nada acontecerá com a causadora da morte. Isso porque a notícia não diz que a “suicida” gritou por socorro. Se houvesse pedido ajuda, caberia sua responsabilidade, penal e civil. Como não pedia — mas provavelmente se debatia, daí a impressão geral de afogamento — seu advogado alegaria que o bom homem foi precipitado, agiu sem ser solicitado. A alegaria também que a moça não era responsável pelos seus atos, pois tentara o suicídio em vezes anteriores.

Não sei como decidiria o leitor, caso fosse jurado. Obrigaria a moça pagar alguma indenização à irmã do bom samaritano, que era solteiro? Seria o caso da Justiça desconfiar da real intenção de se matar quando uma pessoa tenta o suicídio várias vezes? Não estaria a moça fazendo apenas chantagem emocional contra um namorado ou amante?

O caso serve, pelo menos didaticamente, para um conselho: impulsos de ajuda podem significar a própria morte, ou problemas financeiros que podem nos arrasar. Já contei esse fato: certa vez, finda uma audiência na 10ª.Vara Cível de S. Paulo, notei que o advogado de uma das partes estava com visível dificuldade para assinar o termo de audiência. Parecia travado, tentando escrever o próprio nome. Perguntei a ele se sofrera algum acidente. Ele me respondeu que seu problema era apenas psicológico: a pedido de um grande amigo, por mera solidariedade, fora avalista de títulos de alto valor. O avalizado não pagou a dívida e o credor penhorara todos os bens do advogado, em uma época em que tudo podia ser penhorado, não existindo a escapatória do “bem de família”, isento de penhora. Era o subconsciente dele, temendo nova “bomba”, que “amarrava” nervos e músculos do braço que segurava caneta.

A compaixão, bela virtude — em tese, em tese... — tem os seus inconvenientes. Só beneficia “o outro”, raramente seu portador. Assemelha-se à modéstia, outra virtude muito elogiada mas prejudicial no mundo em que vivemos. Políticos muito modestos se prejudicam quando ficam acanhados para anunciar seus méritos. Já disse alguém que, entre todas as virtudes, a modéstia é aquela que menos beneficia seu portador. Outras virtudes, como a energia, ambição, capacidade de trabalho, inteligência, etc., “dão lucro”, “promovem”, enquanto a modéstia real só “esconde”, “apaga” e ainda fornece material para os inimigos do modesto, dizendo que “ele mesmo reconhece não ter valor...”.

Corrigindo o autor acima mencionado — não me recordo de seu nome — a virtude que menos beneficia seu portador não é a modéstia, mas a compaixão, como ficou mais uma vez comprovado no caso do afogado que apenas tentou socorrer o próximo. E, levado o caso aos tribunais, não está afastada a hipótese vulgar de a defesa da ré dizer que a tentativa de salvar a moça foi apenas uma grotesca tentativa “faroleira” de auto-promoção. Já vi isso ocorrer em casos criminais, o réu tirando proveito do fato de a vítima, no fundo da cova, não poder protestar contra calúnias. Assassinada e ainda por cima caluniada. Advogados de respeito, porém, não fazem isso. Se verdadeiro o mau procedimento da vítima, cabe ao réu mencionar os fatos. Jamais, porém, inventar, caluniando um morto. Há limites éticos profissionais que não podem ser ultrapassados.

(29-10-2010)

sábado, 11 de setembro de 2010

Fé, política, ciência: espinhosas ligações

Sabedoria tradicional recomenda não discutir, comparar, prever e muito menos criticar — isso já seria o horror dos horrores! — religiões, política e até mesmo futebol. Principalmente religiões, campo minado — pode-se nele perder mais que as pernas... —, adequado para a formação de legiões enfurecidas contra qualquer mínima observação crítica — “Cuidado com a boca, irmão!”.

Não obstante o risco, como negar a imensa influência das concepções religiosas na vida dos povos? Quantos milhões já morreram e ainda morrerão — talvez nuclearmente incinerados —, não por causas naturais mas como conseqüência, próxima ou remota , de filosofias ou proselitismos oriundos de textos dados como sagrados? No até agora insolúvel conflito árabe-judeu, na Palestina, há um bocado de subentendido religioso na impasse. Uma das partes, ou ambas — as objeções deslocam-se como areias do deserto, assopradas por políticos — acham que a santidade de Jerusalém não pode ser fatiada e a humanidade ainda não avançou o suficiente para impor uma decisão “de fora”, oriunda de uma corte de justiça internacional, como seria lógico e natural quando as partes não conseguem chegar a um acordo.

Há milênios, nuvens mentais carregadas de eletricidade pairam sobre cabeças humanas magnetizadas por convicções religiosas, supostamente lógicas e morais, sugerindo que os “inimigos de nossa fé, por estarem absurdamente ‘errados’, devem ser excluídos do rol dos vivos”. Haveria, nessa eliminação, apenas “profilaxia moral”. Para tais obcecados, seria pecado, crime e covardia transigir com o “erro” e sua conseqüente “maldade”.

De início, afasto da arena deste texto sobre paixões dominadoras o futebol, esporte que, para minha perplexidade, é capaz de levar cidadãos — equilibrados em tudo o mais — às lágrimas, ao enfarte, ao êxtase da vitória, ao vandalismo incendiário, às fraturas de crânio e ao homicídio. Tudo isso, espantosamente, quando o time do efusivo torcedor perde, ganha ou até mesmo empata; na alegria ou na tristeza, tanto faz. O guloso “demônio”, disfarçado em bola, não escolhe situações. Quer apenas gargalhar loucamente, olhar desvairado, utilizando porretadas e coices humanos, de preferência entre carros em chamas, seu habitat natural. Um comprovante a mais de que o homem dito civilizado não conseguiu se libertar de seus instintos mais ancestrais, entre eles o desejo de ser admirado pela violência.

Quanto às religiões, sempre impregnadas de fortes emoções — embora de outra natureza, voltadas, em tese, para o bem — existem as mais e as menos serenas. As mais e as menos preocupadas com o retorno financeiro da pregação. Preocupação fundamentada — às vezes exageradamente — na necessidade prática de dinheiro para a difusão de crenças que resolverão todos os problemas de seus seguidores: de saúde, de dinheiro e até mesmo de amor.

Deixando de lado esporádicos abusos individuais de difusores da fé — a grande massa de adeptos é sincera e bem intencionada —, fato inegável é que o homem, há milênios, sente a necessidade de um protetor infinitamente inteligente, ubíquo, poderoso, bondoso, compreensivo, justo e instantaneamente acessível — via oração —, sem os conhecidos intermediários burocráticos que atormentam os cidadãos que pedem algo a alguém, governo ou pessoa jurídica. Quem tem fé conversa diretamente com seu deus, sem risco de grampos e cobranças de lição de casa.

Sob esse ângulo, de amparo espiritual, a fé é insubstituível, independentemente de sua correspondência fiel com a realidade científica. Auto-ajuda que nos conforta e fornece algo valiosíssimo: a esperança. Como tirar — pergunta-se —, impiedosamente, das mãos do náufrago desesperado a única taboa que o impede de se afogar na própria angústia? Dizer ao pai da criança cancerosa, ao profissional maduro e desempregado, ou à velhinha, com início de Alzheimer, que é melhor deixarem de ilusões e encarar a dura realidade: a morte da criança, o desemprego permanente e a loucura da velha? Além do mais, não esquecer que em toda religião, digna desse nome, está impresso um código moral que é ou já foi útil à humanidade.

Dizia Rui Barbosa que o código penal cuida dos crimes públicos e a religião se encarrega dos crimes privados. Presumo que, em média, o mafioso italiano — com algum resquício de cristianismo incutido na alma quando criança — é menos perverso que o gangster russo, ou o membro da Yakuza japonesa, criados desde o berço na visão estritamente materialista. O mafioso baleado, sentindo fugir o sangue e a vida, provavelmente temerá um julgamento final. Talvez até reze. O criminoso profissional russo e o japonês, convictos de que nada mais são que carne organizada, apenas lamentarão não continuarem vivos.

Pessoas sinceramente religiosas, desde que pacíficas e tolerantes— não o sendo serão mais soldados, guerrilheiros ou terroristas — não deveriam, jamais, serem atacadas ou menosprezadas intelectualmente por serem tais, mesmo quando sua fé se apresenta com fundamentos ingênuos. Isso porque um crente autêntico, mesmo analfabeto, revela — só por acreditar em Deus —, algo moralmente precioso: o espírito de justiça. — “Como é possível”, pergunta-se o crente autêntico, “não haver um Deus quando se constata que algumas pessoas, más e astutas, passam pela vida só gozando e abusando, enquanto milhões de outros apenas sofrem, carregando as cruzes da pobreza,ignorância, doença, azares e injustiças de toda ordem? Seria injusto, ‘ilógico’, não haver um julgamento final, com castigo ou recompensa, conforme o passado de cada um”. Revolta-o a mera possibilidade de que bons e maus tenham igual fim apavorante: o nada!

Frente a argumentos desse tipo os agnósticos respondem que lógica, ciência e dura realidade nada têm a ver com aspirações de justiça. De acordo, tecnicamente. Fatos são fatos, mas a compaixão — elefantes foram filmados fazendo esforços inúteis e desesperados para libertar uma elefanta com a perna presa acidentalmente em um pneu amarrado — é uma qualidade imensamente útil à preservação e conforto espiritual da raça humana. Como já lembrou alguém, um faminto não precisa conhecer o fenômeno científico da digestão para satisfazer sua fome. Ao homem comum interessa muito mais a felicidade — sua e de sua família —, que o conhecimento profundo da ciência, acessível a uma microscópica minoria. Diz a BBC de Londres, segundo um jornal de ontem — “Estadão”, pág. A17 — que em 2009, no Japão, 32.000 pessoas se suicidaram. E o nível cultural japonês é dos mais elevados. Se não há engano na cifra, convenhamos que é gente demais torturada pela falta de perspectiva. A maior cultura geral e científica não as salvou da morte voluntária.

Alguns autores norte-americanos atuais empenham-se vivamente em demonstrar que Deus não existe. A argumentação dele é irresistível, sob o prisma lógico. De fato, como eles dizem, as religiões não são propriamente “escolhidas” por seus adeptos. Recebem-nas dos pais. Não é mera coincidência que nos países cristãos as crianças se tornem adultos cristãos, o mesmo ocorrendo entre judeus e muçulmanos. Outro argumento forte dos ateus está na crítica àquele que diz ter sido “salvo por milagre”, em um desastre que matou dezenas ou centenas. Tais críticos ponderam que um Deus justo não teria motivo algum para tanto favoritismo e até mesmo impediria o desastre. Esses mesmos autores argumentam ainda que se houvesse um Deus justo — e um deus injusto já seria a negação da idéia — não existiriam tantas doenças e organismo maléficos. Perguntam: qual o benefício, para o homem — sua obra-prima — das verminoses, lepra, tuberculose, parasitas, debilidade mental, aleijões, loucura e taras em geral?

Digo tudo isso apenas como crítica ao “tom” algo agressivo da pregação atéia. Aos “modos” da doutrinação. Não deve haver pressa em convencer milhões de pessoas de que elas rezam apenas para os próprios ouvidos. Eu não me sentiria moralmente bem se fosse capaz de convencer — um idoso principalmente —, de que ele não pode esperar nada após a morte. Que ele mude opinião, quando e se quiser. Mesmo porque a orgulhosa Ciência não pode se gabar de estar carregando apenas certezas. Fenômenos corriqueiros ainda não têm explicação: por exemplo, por que os corpos se atraem, em vez de se repelirem? O que ainda desconhecemos é mil vezes maior que o conhecido. Só o futuro dirá. Dez anos atrás alguém falava em “matéria escura” no universo?

Com alguma freqüência, opiniões científicas dadas como incontestáveis, ou alvissareiras, são substituídas por outras de sentido oposto. A hipótese do “Big Bang” ainda não me parece convincente. Quem sabe, os cosmólogos logo nos dirão que talvez não tenha havido “explosão inicial” alguma; que o universo apenas “arfa”, como um pulmão cansado, os astros se afastando e se aproximando. Não obstante, o tatear na busca da verdade deve ser estimulado, sem interferências políticas nem religiosas porque quanto mais o homem conhecer o ambiente em que vive — inclusive ele mesmo, artista principal na tragicomédia —, melhor dominará os obstáculos que o limitam e atormentam. Se, em alguns momentos, a senhora ciência defrontar-se com a senhora fé na mesma calçada estreita, será a fé que deve ceder a passagem, não o contrário. Esse gesto da fé, embora doutrinariamente doloroso, certamente trará proveito à condição humana. Permitirá um aperfeiçoamento da própria religião, na parte que ela tem de melhor: sua aceitação da verdade. Todo corpo vivo — e as religiões também são “vivas”, em certo sentido — precisa evoluir, para não perecer. Lamento dizer, certa ou erradamente, que o declínio de algumas religiões na captação de novos adeptos deve-se à equivocada “sabedoria” da rigidez doutrinária. Se o universo inteiro está em constante mutação, porque só as religiões seriam as únicas exceções nesse sentido?.

Quase finalizando, arrisco dizer, como simples “filósofo amador”, que nas próximas décadas a ciência investigará intensamente a “inteligência” inata, espontânea, “embutida” em todos os seres vivos; tenham eles, ou não, um cérebro. Essa inteligência “difusa” — provavelmente não outorgada por qualquer poder sobrenatural, vez que completamente amoral — explica a perfeição anatômica e funcional de toda a vida, inclusive do vírus da AIDS, bactérias patogênicas, escorpiões, aranhas venenosas, cobras idem, morcegos hematófagos, mamíferos em geral e até mesmo plantas venenosas. As plantas, sem cérebro, sabem o que lhes convém quando se inclinam buscando um raio de sol que passa perto. Biólogos dizem que as plantas choram quando cortadas. A meu ver, aparentemente, essa inteligência não se origina de um deus, é simples conseqüência da crescente complexidade de todo ser vivo, campo promissor para os cientistas da Biologia. Mas se alguém disser que essa inteligência difusa é o próprio Deus, nada a opor de minha parte. Questão de nomenclatura.

Compreendo que as religiões — assim como as ciências, política e tudo o mais —, se manipuladas por cérebros exaltados , podem sofrer enormes escorregões e tombos, como foi o caso do pastor americano que pretendia queimar 200 cópias do Alcorão no dia 11 de setembro. Felizmente, desistiu a tempo, pressionado pelo governo americano. Escorregou mas acabou não caindo. O incidente lembra uma narrativa engraçada, ficcional, que aqui reproduzo para abrandar eventual agitação de espírito de algum leitor extremamente sensível aos debates sobre religião.

Um religioso, exaltado mas com pouco juízo — algo raro no mundo real —, fazia uma pregação em que dizia que tudo que existe na face da terra é perfeito, porque o Criador não transigiria com qualquer imperfeição na sua própria obra. Nesse momento, uma voz, no fundo da sala, protestou com um ronco indignado. Era um corcunda que, agressivo, ficou de pé, posicionou-se meio de lado e perguntou ao pregador: — “Tem certeza? O que o senhor acha dessa minha corcova?”

O orador não titubeou: — “Do que está reclamando? Parabéns! Nunca vi corcunda mais perfeita que a sua!”

Voltando ao sério, resumo o artigo nas seguintes palavras: que cada um faça o que lhe traz mais satisfação interior. Creia ou não creia. Tolere crenças contrárias. Quem sabe você pensaria igual se estivesse no lugar da outra pessoa, com passado e carga genética diferentes da sua. E, se você for ateu cultíssimo, não fique aborrecido com as supostas “ilusões’ dos crentes. Ilusões também são úteis, se não agressivas. Todas as artes não passam de ilusões e ninguém jamais pensou em elimina-las só porque não passam de “fantasias”. Estas também têm seus direitos, se beneficiam os homens de alguma forma. Defenda apenas o direito da Ciência prosseguir na busca da esquiva verdade, apesar de, por vezes, ela também tropeçar.

(10-9-2010)








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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O problemático “bônus” da poligamia

Quando, poucos anos atrás, decidi escrever artigos, com freqüência, na internet — atento às inegáveis vantagens da rápida difusão das idéias — mesmo com eventual lixo, próprio ou alheio (estamos empatados) — minha motivação principal era livrar-me da subserviência aos humores, marketings e demoras das editoras na avaliação de originais. Para despertar alguma curiosidade no assediado leitor sempre mencionava, como uma espécie de “currículo”, minha condição de desembargador aposentado. Uma discreta vitrine promocional, não censurável porque o que não é difundido simplesmente não existe. As próprias galinhas sabem, na cultura delas, que não basta botar o ovo, é necessário cacarejar.

Algumas décadas atrás o título de desembargador, então pouco generalizado, conferia a seu titular considerável aura de ponderação, cultura e honorabilidade. Aura que hoje não emite luz com igual intensidade. Certamente por causa de uma mistura de variados fatores: jornais investigativos tornaram-se agências privadas de inteligência, com sofisticada tecnologia de espionagem, descobrindo eventuais fraquezas antes não comprováveis; aumento extraordinário do número de magistrados com a denominação de “desembargador” (o prestígio de qualquer cargo é diretamente proporcional à sua raridade); o acesso ao serviço da justiça era muito menor, por parte da população e a legislação, menos complicada, possibilitava menor demora no julgamento dos processos. Juízes minuciosos no julgar sabem que não mais dispõem de tanto espaço em um mundo que valoriza a quantidade, a estatística, o “mérito” do “vapt-vupt” sentenciante.

Finalmente, não esquecer que, por honradez espontânea ou, na pior das hipóteses, por cálculo de vantagem profissional, os magistrados eram, em média, muito mais preocupados do que hoje em transmitir uma imagem — verdadeira — de honorabilidade e imparcialidade, benéfica à instituição, ao país e a eles mesmos, como profissionais. Juízes eram mais reservados, menos “arroz de festa”, o que lhes poupava suspeitas imprevisíveis de favorecer tal ou qual figurão submetido a um processo. Amizades e favores, mesmo inocentes, escravizam e possibilitam desconfianças de favorecimento. Na dúvida sobre reputações não funciona o “in dúbio pro reo”, velha máxima na área penal. A culpa, hoje, é sempre presumida. Quantos magistrados, não lamentam ter comparecido a alguma festa, sendo fotografado ao lado de pessoa depois alvo da mídia? Sobre a pletora de desembargadores e outros títulos honoríficos, um advogado que freqüenta Brasília me dizia que se alguém, no saguão de qualquer edifício, disser, em voz alta, “Ministro!”, metade dos presentes se volta, pensando que é com ele.

Por que menciono, na internet, minha condição de desembargador aposentado? Porque é o único “título” que poderia ostentar. Dizer o que? “Leitor compulsivo”? Não teria serventia. “Professor”? Impossível, porque é uma profissão que exige vocação para exposições didáticas, sem desvios, virtude que não tenho, como já constatou o leitor. Eu divagaria o tempo todo, na sala de aula. A rapaziada acharia tudo muito engraçado mas a reprovação os aguardariam nos Exames de Ordem. “Escritor” também já pouco representa — segundo a Câmara Brasileira de Livros, em 2009 foram publicados no Brasil 52.509 títulos. A fauna intelectual cresceu demais, vítima do conselho anti-ecológico de que todo homem deve ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. O que adianta plantar uma árvore para cortá-la depois, transformando-a em papel?

A qualificação de “desembargador”, mesmo aposentado, tem, porém, o seu lado negativo. Predispõe à auto-censura quando o assunto é, por si mesmo, indiscreto, e as conclusões do redator mais indiscretas ainda. Pensamentos na contramão do enfoque dominante “não combinam” com a função de julgador, mesmo quando este não mais exerce a profissão. Se o politicamente incorreto já trava o escritor ou jornalista “respeitado”, o que não se dirá de um magistrado ou ex-magistrado? Por outro lado, a intenção de pesquisar a “realidade feia”, deve, em tese, valer infinitamente mais que a preocupação com uma pomposa “seriedade”. É escorado nessa justificativa que escrevo o que se segue.

Entre todas as principais religiões existentes no planeta, o islamismo é a que mais cresce, segundo as estatísticas. Primeiro, porque os muçulmanos têm mais filhos que os praticantes de outras religiões, e filhos usualmente seguem a religião dos pais. Segundo, porque o Islamismo cultiva e exige, pra valer, até fanaticamente, um sentido de decência e pudor feminino — burca e vestes que cobram o rosto por inteiro — que, não obstante o evidente exagero e inconveniência — um terrorista pode estar no lugar de uma mulher — representa uma reação contra o calejado visual de bordel de segunda classe, presente, a qualquer hora do dia, na televisão e no cinema, no mundo ocidental. Avós e pais cristãos — ou mesmo ateus, quando não insensibilizados —, chocam-se, frequentemente, deparando-se com cenas de sexo explícito, ou quase isso, mal ligam a televisão e na sala há crianças, adolescentes ou pessoas idosas, habituadas a ver gente vestida. Nádegas, seios e diálogos explícitos relacionados com sexo oral e anal enchem as telas, como se todos os espectadores estivessem habituados a viver em tais ambientes.

Ocorre que a maior parte do auditório não vive assim. Até homens casados, de comportamento não exemplar, escolhem o ambiente em que dão vazão aos seus instintos sexuais normais. Geralmente, entre quatro paredes e sem filmagem. Mesmo moral e juridicamente cientes de que estão errados, preferem mais uma amante com algum pudor do que uma avacalhada companheira de ato, um animal de saia, ou melhor, sem saia. Mocinhas de boa família e até de bom comportamento, em outros aspectos, sentem-se na obrigação de mostrar, tanto quanto possível, seus atrativos sexuais. Não querem ser “caretas”, extrema humilhação. Por isso, usam calças compridas praticamente costuradas no corpo, com a finalidade de provocar desejos. Uma mera espiada, desencadeando um “raio” no cérebro masculino pode, quem sabe, valer mais, financeiramente, para uma mulher, que centenas de horas de estudo e peleja em um mercado de trabalho duramente concorrido. Assistindo entrevistas, escutam seus ídolos, artistas famosas, confessar, com a maior desenvoltura, que é preciso dar certas coisas para subir vida.

Queiramos ou não, o pudor é um “mistério” cerebral, presente na sensibilidade da maioria de homens e mulheres do planeta. Afastado o atual exagero muçulmano da mulher mostrar apenas os olhos — às vezes nem isso — a prática do pudor, quando na dosagem certa, beneficiará o Islã em termos de proselitismo. Parecerá mais “decente”, na prática, que outras religiões. Mesmo não sendo antropólogo, creio que o pudor não é apenas de um hábito cultural, adquirido, porque mesmo índios em regiões afastadas da civilização não costumam praticar o sexo em plena “praça pública”. E a televisão é uma praça pública virtual. De qualquer forma, a discrição na prática do sexo e o pudor das mulheres no exibir as “partes” é algo que se incorporou definitivamente à civilização, tal como a concebemos e assim continuaremos talvez por longo período. A chamada civilização cristã, não obstante o esforço de seus sacerdotes, não conseguiu que aquelas “cristãs de recenseamento”, seguissem um padrão menos apelativo de estímulo da libido masculina.

Em suma, quem, sentindo “um vazio” na alma, a sensação de lhe falta algo indefinível está propenso a mudar de religião, verá com melhores olhos a religião que exige, efetivamente, compostura de seus seguidores, principalmente das mulheres. E o islamismo se enquadra nessa exigência. Principalmente se vier a podar os conhecidos excessos: apedrejamento de adúlteras, açoite em praça pública, forca de homossexuais e outras práticas primitivas que provocam repulsa nos não-islâmicos e talvez em boa parte deles, embora não se atrevam a externar publicamente a repulsa, temendo represálias de governos teocráticos.

Finalmente, expliquemos o “bônus” islâmico da poligamia, referido no título deste artigo.

Nenhum biólogo sério negará que o homem — muito mais mamífero do que anjo — é polígamo por inclinação natural. Uma estatística, pré-AIDS, na Itália, dizia que cerca de oitenta por cento dos homens casados já tinham tido um ou mais “casos” fora do matrimônio. No Brasil, desconheço estatística a respeito e qualquer delas seria inconfiável porque poucos se atrevem de revelar suas fraquezas a estranhos. Somente padres, ouvindo confissões, poderiam talvez informar melhor, mas isso lhes é vedado. O inegável é que qualquer leitor sabe de inúmeras “fofocas” ou “fatos comprovados” entre parentes e conhecidos que redundam em separações e divórcios, amigáveis ou conflituosos, com pagamentos de pensão, disputa pela aguarda de filhos e demais traumas que atormentam homens, mulheres e filhos na civilização ocidental. Políticos, em particular, são alvos especialmente investigados por adversários — nem todos santos... — que tudo fazem para descobrir algum “podre” conjugal que possa significar mudança de voto nas eleições.

De todas as religiões monoteístas, o islamismo é a única que oferece uma solução “prática”, vantajosa (para o homem), quanto ao problema da paradisíaca conciliação de uma “vida privada incensurável” — embora com mais de uma mulher —com o exercício de qualquer cargo público, por mais respeitável que seja: a poligamia legalizada, como ocorre no mundo muçulmano. Esse o “bônus” referido no título deste ensaio. Muitos políticos ocidentais casados, com algum deslize já ocorrido, atual ou futuro, bem que gostariam de se livrar do medo de ser descoberto pela mídia, desde que “tratando igualmente bem todas as esposas”, exigência do Islã.

Os mórmons, nos EUA, praticavam aberta e unanimemente a poligamia invocando sua aceitação no Velho Testamento — Jacó, Abraão, Davi, Salomão, etc. — até que uma lei federal, de 1890 proibiu essa prática. Joseph Smith Júnior, o fundador da seita ( ou religião) teve mais de trinta mulheres, mas acabou sendo linchado, em junho de 1844, com um irmão e companheiros, por uma turba, quando estava preso e a cadeia foi invadida. Resta saber se os linchadores estavam verdadeiramente impregnados de santa indignação religiosa ou com inconsciente inveja “desses safados!”.

Oficialmente, a poligamia está abolida entre os mórmons, mas há quem diga que grupos dissidentes continuam a prática, de forma disfarçada. O dono da casa apenas fornece abrigo e alimentação desinteressada às inúmeras “parentes distantes” que, em troca, ajudam a criar as crianças e cuidam da casa.

Se a proibição legal da poligamia fosse levantada, qual a opinião do leitor sobre o crescimento ou diminuição de adeptos dessa religião? E qual a opinião da mulher ocidental — quando bem casada — a respeito da poligamia masculina? Rejeição violenta. “Os direitos não são iguais?”. No entanto, mulheres solteiras ou separadas, mas com poucas esperanças, talvez tivessem opinião mais tolerante. Terminada a II Guerra Mundial havia, na Alemanha, mais de sete milhões de mulheres condenadas à solidão irremediável. Os homens na faixa entre dezoito e cinqüenta anos haviam morrido na grande carnificina. Conseqüência: mulheres nas calçadas, forçadas à ganhar a vida na prostituição. O que fez o governo para tirar essas mulheres das ruas? Fechou os olhos à prática da bigamia informal, mal menor que a prostituição.

Hoje, porém, há um certo equilíbrio entre o número de homens e mulheres, o que não justifica mais, estatisticamente, o retorno da poligamia. A não ser, talvez, em casos excepcionais — em que década futura esse assunto será levantado por um legislador suicida? — quando a velha esposa, que não gostaria de viver sozinha, percebe que seu antigo casamento acabou, “biologicamente”. Nesses casos, a senhora preferiria não ver seu bom companheiro — virtuoso e dedicado em tudo o mais —, agir como um rato, acovardado e inquieto, mentindo constantemente para esconder algo que ela já sabe, há muito, mas prefere não demonstrar, só para não magoar. Não por fraqueza de caráter, mas por um tipo raro, ou estranho, de solidariedade humana. “Homens...É o jeito dele ser feliz... O fogo vai passar...Sei que já me amou muito; e ainda ama, de outro modo...”

Há, também, um outro argumento contra a poligamia, quando equilibrado o número de homens e mulheres: se metade dos homens ficar com duas esposas, a outra metade ficará sem esposa alguma, o que afronta a democracia e a igualdade de direitos. Com aumento da violência e estímulo indireto à homossexualidade por mera necessidade física.

Suponho que a espécie humana encontrará uma saída sábia para o problema de conciliação entre os espontâneos instintos naturais e os severos códigos morais. Elogiáveis pela intenção mas sujeitos a contínuas violações e conseqüentes tormentos; justamente porque as regras não coincidem com as necessidades naturais do ser humano. Mas, para isso, as religiões terão de fazer adaptações, ou fusões, hoje impensáveis.

Para encerrar, de forma bem-humorada, dissertação de tema tão difícil e desagradável, cabe aqui uma anedota: em uma aldeia da Polinésia, no Pacífico Sul, algumas décadas atrás, o pastor inglês, após doutrinar a tribo, convoca seu chefe e lhe diz que, doravante, como cristão, só poderá ter uma esposa. Ordena ao trêmulo líder que ele deve ir direto pra casa, reunir as cinco mulheres, escolher apenas uma delas e mandar embora as outras quatro. O chefe abana a cabeça e retruca: “Não! Eu ficar aqui! O senhor vai lá e diz isso pra elas!”

(17-8-2010)

domingo, 11 de julho de 2010

A “Sorbonne” brasileira, de novo...

Em setembro de 2009 difundi, na internet, um artigo — “Será pertinente uma ‘Sorbonne’ brasileira?” — sugerindo que o momento — então e mais ainda agora — era propício a criação, no Brasil, de um centro universitário de estudo de Direito e Relações Internacionais. Um instituto algo inovador e diferenciado das tradicionais e respeitáveis universidades situadas no hemisfério norte. Nenhuma relação jurídica, frise-se, com a famosa Sorbonne francesa, termo aqui evocado apenas para facilitar uma associação de idéias e proximidade de objetivos. O artigo referido poderá ser lido no site de relações internacionais, www.mundori.com e no site www.franciscopinheirorodrigues.com.br

Não é necessário especial sensibilidade dos estudiosos, ou meros interessados na situação internacional, para concluir que nosso planeta — não obstante seus avanços tecnológicos, ou justamente por causa deles — caminha assustado, excitado ou travado pelo medo, como que à beira de um precipício.

Todo cidadão responsável e previdente sente que nada pode fazer para debelar seus medos — uma coleção...— porque não tem como influir no caminhar do planeta. Apesar de nele habitar, não se considera um cidadão do mundo, vez que não pode votar como tal. Pode expressar sua vontade restritamente: como munícipe, morador de uma unidade da federação e como residente de um país. No entanto, como cidadão do planeta, em nada pode influir. E justamente aí é que mais precisaria manifestar sua opinião, de forma muito mais direta que a atual, porque o todo é mais importante que as partes.

Não existe um governo global, existem apenas tratados e convenções entre países, frequentemente desrespeitados, com incertas ou caprichosas sanções, conforme a força econômica, militar ou política do país infrator. E se não tiver nem mesmo o status de “país”, aí o desamparo é total, como ocorre hoje com os palestinos, que aguardam, desesperançados a boa-vontade de um vizinho — mais belicoso que temeroso — nem um pouco propenso a conceder algo que, no futuro, será fonte de dor de cabeça. Isso porque o espaço em disputa é pequeno, e grande o número de pessoas pretendendo ocupá-lo.

Se os palestinos expulsos, vivendo hoje em campos de refugiados, quiserem voltar à Palestina — assim como os judeus retornaram à Terra Santa —, como resolver o problema? Haja inventividade para pacificar a região! Essa criatividade terá mais chance de surgir se originada de cérebros mais “frios, distantes”, menos envenenados por décadas de recíproca matança. Impossibilidades físicas, populacionais, não se resolvem apenas com incentivos exteriores — no caso, americanos —, de boa-vontade. Daí a conveniência de novas abordagens de um problema que fermenta há mais de meio século. Novos cérebros, provavelmente mais “virgens, inocentes”, oriundos do hemisfério sul, podem, com nova mentalidade, sugerir soluções que não ocorreram a cabeças eruditas mas presas demais a formas antigas de encarar litígios por terra usando disfarces teóricos de toda ordem.

Falei, atrás, em coleção de medos. Veja, leitor, apenas a guisa de exemplo, o que ocorre com a ameaça nuclear: o país que tem essas armas pode continuar com elas, ou reduzi-las homeopaticamente, na base da simples da promessa. Se não as tem, fica ameaçado de sanções pesadas — até mesmo bombardeios —, caso sequer pense em fabricá-las. E como o pensar é sempre incerto e potencialmente perigoso, os mais fortes, já detentores da bomba, conseguem, pela via oblíqua, travar qualquer avanço no domínio nuclear, mesmo para fins pacíficos, porque o presidente Fulano de Tal não é muito confiável e insiste, teimosamente, em projetos irrealizáveis de “varredura de mapas”. Se a autorização internacional para o retorno em massa à Terra Santa foi um erro histórico — porque sem limites quantitativos —, trata-se de um erro irreversível. E existem ainda, na Terra, grandes áreas, quase desertas, que podem abrigar populações capazes de criar nações, a longo prazo. Melhor do que viver em barracas.

Outra incongruência na ordem mundial: “juridicamente” — com aspas desmoralizantes —, um país que não assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear não está sujeito a vigilância da ONU. Prêmio, portanto, para o arrogante ou indiferente. Quem o assinou poderia, teoricamente, invocando o art.10 do tratado, desobrigar-se da proibição desde que externe sua vontade dizendo, por exemplo, que pretende armar-se nuclearmente por razões de segurança. Após três meses desse comunicado, estaria — no estrito rigor jurídico —, livre para fabricar suas ogivas. Só que o que está no mesmo papel não valerá nada, caso alguma potência imensamente poderosa diga que não vale, e ponto final. Dirá que não confia nas intenções de quem se retira, apesar do TNP assegurar esse direito. Direitos e caprichos interpretativos convivem atualmente na maior confusão.

Para sanar tais incongruências, lembradas ao acaso — desmoralizantes de uma prática global que finge apoiar a igualdade de direitos —, será preciso trabalhar na construção de um conjunto teórico que dê suporte acadêmico e humano a iniciativa de reforma política da ONU, algo que poderia ser incentivado em um país do hemisfério sul, eventualmente beneficiado com pelo menos momentânea simpatia internacional. No caso, o Brasil, não sei se por mero acaso ou fruto do especial discernimento de nossos dois últimos presidentes da república.

O cidadão realmente bem informado sente-se acossado por variados medos: desemprego; perigo nuclear; massacres com armas convencionais (não menos mortais que as atômicas); insegurança financeira (até mesmo por parte de ricos); poluição incontrolável a curto prazo (antes que seja tarde demais); tecnologia de efeito pouco conhecido nos alimentos; migrações caóticas estimulando preconceitos raciais; democracias enfraquecidas por notícias diárias de novos escândalos financeiros; sensação de impunidade (em crimes de rua e de gabinete com ar condicionado); medo que filhos e netos se viciem em entorpecentes. Enfim, todo o cortejo de insegurança do qual o cidadão não pode se livrar nem mesmo pela via absoluta da morte, porque deixa descendentes, igualmente ameaçados. Olhando para a foto do filho ou neto que sorri, feliz, com futuro promissor, o pai ou avô se pergunta: “Como terei a garantia de que ele não se transformará em trapo humano, cliente de uma casa de tratamento e recuperação — incerta — de drogados?”

O desemprego acossa o planeta e os governos não poderão resolver, de vez, esse problema com os mecanismos econômicos internos. Por que não conseguem? Porque máquinas e o computadores deram cabo dos empregos e cada vez mais dispensarão o uso de braços e cérebros. E não tem sentido regredir, destruindo colhedeiras, guindastes, robôs, tratores, containers , calculadoras, caixas eletrônicos, etc. e todo o vasto universo de serviços automáticos fornecidos pela informática. Cada novo aperfeiçoamento nessas duas áreas significa milhões de demissões de empregados. Somente uma diminuição obrigatória das horas de trabalho, em todos os países, impedirá que milhões permaneçam na amargura do desemprego. Se um país, mais “compreensivo”, diminui a carga semanal de trabalho, o prejuízo é certo, e tem que voltar atrás, porque seus produtos ficarão mais caros na concorrência internacional. Mas quando quer voltar atrás, na legislação trabalhista, os empregados se levantam, revoltados, porque cada um pensa somente no próprio interesse.

O planeta está sendo forçado a viver em progressiva ociosidade, uma novidade para a espécie humana, pois a quantidade de trabalho semanal sempre esteve associada à virtude. Ocorre que com a automação e a informática, se uns poucos felizardos podem “se dar ao luxo” de trabalhar muito — usando apenas o cérebro e a ponta dos dedos — isso significa deixar, involuntariamente, milhares de ex-colegas na miséria, ou na baixa auto-estima, porque não terão trabalho algum.

Países “pobres” — toleremos essa denominação mais simplista — são ricos em filhos, que precisam trabalhar e comer. Não sendo isso possível em seus países, tentam, por bem ou por mal, migrar, em massa, dentro de barcos e containers para países desenvolvidos. Isso, porém, desorganiza a economia local, reduzindo o valor dos salários e causando revolta dos nacionais, que ficam desempregados. E muitos dos imigrantes ilegais, também desempregados, se vêem obrigados a recorrer ao crime. Daí o ódio crescente aos imigrantes ilegais.

Ficaríamos horas, aqui, descrevendo problemas que só poderão ser solucionados com decisões globais, ainda inexistentes. Daí a conveniência da criação de um centro de estudos, no hemisfério sul, que não só ensine o que já é ensinado nas grandes universidades do hemisfério norte mas dê uma especial ênfase ao estudo de um “governo global”, assunto, pelo que sei, não levado muito a sério nas grandes universidades européias e americanas. Nós aqui, do “quintal” intelectual do planeta, teríamos menos acanhamento mental para pensar em assuntos “mais utópicos”, sem medo do ridículo.

Dias atrás, lendo o discurso de posse do Ministro Cézar Peluso, presidente do Supremo Tribunal Federal, tive a grata satisfação de perceber que também o Judiciário sente a conveniência de nosso país aumentar sua presença no mundo, de forma séria, não apenas folclórica e futebolística. Não só com viagens e discursos do Presidente da República. O digno Min. César Peluso sugeriu, no discurso, que a Organização das Nações Unidas daria um passo histórico com a criação, no Brasil, de uma “Universidade Internacional de Segurança Pública, concebida como foro produtor de subsídios científicos à busca de soluções inteligentes para as peculiaridades do crime sem fronteiras, que geram instabilidades regionais e ameaçam a paz do mundo”.

A sugestão merece elogio e não conflita com minha sugestão, de setembro de 2009, da criação da “Sorbonne” brasileira, que seria mais abrangente pois incentivaria o estudo para sugestões de grande alcance, até mesmo de alterações da própria Carta das Nações Unidas, além de preparar profissionais brasileiros e da América Latina para trabalhar em órgãos internacionais, como advogados ou funcionários.

Quando escrevi meu artigo, acima referido, providenciei que uma cópia do mesmo chegasse às mãos do Presidente da República, tendo em vista que um empreendimento desse vulto exigiria recursos públicos (inferiores ao que se pretende gastar com a compra de aviões e submarinos). Como não recebi qualquer resposta, presumo que a sugestão não chegou às mãos presidenciais. Se tivesse chegado, é bem provável que nosso presidente se interessasse pelo assunto, depois de tantas viagens pelo Exterior, com as decorrentes e inegáveis vantagens comerciais e políticas.

Presidentes da República obviamente não dispõem de tempo para “navegar” na internet e as portas burocráticas de acesso de informações ao presidente costumam estar guardadas por ciumentos funcionários, ou ministros, preocupados em evitar “influências de fora do palácio”. Não sei se foi o caso, mas pode ter sido.

Agora, perto das eleições, é tarde para que o atual Presidente da República cuide do assunto. Se, no entanto, algum dos principais candidatos à presidência prometer, solenemente, que criará, no Brasil, a “Sorbonne” brasileira, prometo usar a internet para angariar alguns votos daqueles que concordarem com essa nova abertura do Brasil para o mundo e do mundo para o Brasil. Percebe-se, no ar, que está chegando a vez do hemisfério sul. Os pobres podem ser úteis: têm a intuição aguçada pelo sofrimento.

(6-7-2010)

sábado, 26 de junho de 2010

O CS da ONU tornou-se uma Câmara de Comércio

O título não é uma frase de efeito. É a dura realidade de um mundo conturbado, liderado por “crianças” grandes, já maduras ou velhas. “Crianças” assustadas e ao mesmo tempo ferozes, astutas — algumas perigosamente inteligentes — portadoras de nutrido coquetel de taras morais: egoísmo irresponsável, inveja, cobiça desenfreada, insana vaidade e sincero entusiasmo pela mentira — no geral mais lucrativa que a verdade. No plano moral, não há muita diferença entre o homem das cavernas e um grande número de governantes, em todos os tempos. Os tais “líderes”, no fundo infantis e imprevidentes, levam seus povos à felicidade ou à desgraça, com predomínio desta última. Às vezes, um governante medíocre, terra-a-terra, pouco “criativo” revela-se mais útil a seu povo que virulentos “patriotas” — Hitler, por exemplo, e alguns outros que não me atrevo a mencionar, temendo vinganças secretas —, cheios de “projetos grandiosos” em favor de seu amado país. Pelo menos, o apagado líder não atrapalha o crescimento normal da sua comunidade e deixou os países vizinhos viverem em paz.

Os indivíduos comuns, governados, são mais limitados pelas normas morais; medo da polícia, ou do fuxico da vizinhança. Preocupam-se em cumprir a palavra empenhada. Quando, porém, transformados em governo, reescrevem o código moral, adotando padrões de nível mais “maleável”. Justificam-se: — “É um novo patamar... Vistas as coisas do alto, com longa visão, é preciso sacrificar muitas “coisinhas” antes consideradas corretas”. Sobem no status mas descem no caráter. Pressionados pela necessidade — ou mera conveniência econômica — de proteger seus súditos contra o egoísmo externo, passam também a mentir, tramar conchavos, contrapondo astúcia contra astúcia. Justificam-se: — “Se eu não defendo, mesmo mentindo e sofismando, meu país contra essa cambada, arrogante e mentirosa, de inimigos ou falsos amigos externos, ninguém mais o fará. Nem mesmo Deus, no Seu olímpico nojo por intrigas internacionais, moverá uma palha para salvar os povos mais fracos. Talvez porque veja, no sofrimento, a forma mais segura de purificação da alma, seu único interesse no bicho homem. Se Ele não protegeu os judeus, no Holocausto, certamente não protegerá agora os iranianos do massacre que se avizinha, planejado pelos descendentes dos sobreviventes do mesmo Holocausto. Apostemos, pois — sobretudo lucremos! — nos prováveis vencedores. Ninguém, jamais, ganhou dinheiro apostando no mais fraco”.

Exagero, leitor, o que aconteceu recentemente na área internacional? Penso que não. Seja qual for sua “simpatia” no conflito — não bélico, por enquanto — entre o consórcio Israel-EUA e o Irã é inegável a realidade de que o Conselho de Segurança tornou-se uma espécie de Câmara de Comércio, em que todos os votos têm um preço. Preço, mesmo, não falo em sentido figurado. “Money, business”.

Obtido um razoável acordo — mérito para Turquia e Brasil — em que o Irã concordou com a proposta americana, de vários meses atrás, de entregar, sob responsabilidade de país europeu, boa parte de seu combustível nuclear, para enriquecimento a 20%, com finalidade claramente não-militar — para fazer a bomba o enriquecimento deve chegar a 90% —, os EUA providenciaram, de imediato — sem dar tempo ao Irã de discutir, sequer pensar, as novas exigências —, uma reunião do Conselho de Segurança para adoção de novas sanções. Quer, a “dupla musculosa EUA-Israel” — embora não diga isso de modo explícito —, que o Irã paralise, totalmente, qualquer avanço no domínio da tecnologia nuclear, seja para fins pacíficos, seja para fins militares. Alega temer que o atual presidente iraniano possa, daqui a meses, ou anos, fabricar armas nucleares, privilégio que, no entender da “dupla danada”, só pode e deve pertencer a alguns poucos “países superiores”, entre eles os dois referidos, já tremendamente poderosos em armas convencionais e atômicas. A “dupla” alega, para justificar a desigualdade de tratamento, que o atual governo iraniano é ditatorial e primitivo, a ponto de permitir o açoite de ladrões em praça pública, o apedrejamento de adúlteras e outras práticas realmente primitivas, mas que ainda fazem parte da ancestral — e até mesmo religiosa — tradição islâmica. A crítica a tais costumes é procedente, mas é preciso considerar que trata-se de uma cultura que não desaparece da noite para o dia, embora precise desaparecer.

Como este artigo não visa discutir as origens e variantes do conflito Israel- palestinos — o Irã é mera metástase do câncer político nunca extirpado —, vamos nos limitar à comprovação de que o Conselho de Segurança vem se tornando uma Câmara de Comércio.

Todos os que acompanham as notícias internacionais sobre a “ameaça iraniana” estão lembradas que China e Rússia mostravam-se resistentes à aplicação de novas sanções contra o Irã. De repente, às vésperas da votação das novas sanções, a China mudou de posição. Por que? Esclarece-nos a mídia mais corajosa que esse abrupto salto ocorreu porque o governo israelense “sinalizou” à China que pretende atacar e destruir as instalações iranianas utilizadas na extração do petróleo. Com tal perspectiva, a China perderia, por longo tempo, essa fonte do precioso óleo. Por isso, Pequim achou mais prudente aprovar as novas sanções do CS e manter o fornecimento de petróleo, que não será afetado pelas sanções. “Just business”, nada contra o Irã”. Está explicada a súbita mudança de posição chinesa.

Vejamos, agora, a explicação russa. Todos sabem que a Rússia fechou contrato com o Irã para venda de mísseis terra-ar S-300. Faltava apenas entregar os tais mísseis, que funcionam apenas como meio de defesa, destinados a derrubar aviões e foguetes atacando o país. O governo russo, mesmo após a decisão do CS de criar novas sanções, deu declarações de que tais mísseis, terra-ar, seriam entregues, porque não poderiam ser classificados como “armas de ataque” e os contratos precisam ser cumpridos. Seguiu-se uma conversinha secreta e Putin mudou de posição, dizendo que os foguetes não mais seriam entregues. Desconheço se houve algum pagamento adiantado.

Por que o governo Putin decidiu mudar de idéia? Porque se a Rússia entregasse os referidos foguetes de defesa ao Irã, a França de Sarkozy — discretamente pró Israel — deixaria de vender à Rússia algo que esta muito deseja para combater os rebeldes chechenos: navios anfíbios da classe “Mistral”, que podem chegar bem perto da praia, transportar, cada navio, 16 helicópteros de ataque, 4 lanchas de desembarque, 70 veículos de combate, 13 tanques de guerra e 450 soldados. Tais navios-anfíbios dispõem até de 69 leitos de hospital. A venda de um navio “Mistral’ foi combinada e estava em estudo a venda de mais quatro. Face à perspectiva de perder o negócio com os franceses, caso vetasse as sanções, ou não as cumprisse, Putin mudou de opinião. “Sorry, business..”, deve ter dito aos iranianos, que ficarão mais desprotegidos de ataques aéreos contra suas instalações mais vitais. Prevendo como inevitável um apoio americano a um fato consumado — Israel, cerca de trinta anos atrás, bombardeou o reator nuclear Osirak, de Saddam Hussein —, é bem possível que repita a dose. Desta vez contra o Irã, bloqueando qualquer desenvolvimento nuclear desse país, seja para fins pacíficos ou militares.

O Brasil, corajosamente, manteve sua oposição às novas sanções, mesmo perdendo dinheiro nisso. Insiste na existência de um princípio que nunca poderá ser escondido debaixo do tapete — provavelmente já cheio de calombos —, da sala de reunião do CS: se todas as nações têm direitos iguais, não há porque bloquear o direito do Irã desenvolver tecnologia nuclear, uma vez que os cinco membros permanentes do CS já dispõem de armas atômicas e não se opõem à existência de tais arsenais na Índia, no Paquistão e em Israel. Este é um arqui-inimigo do Irã e nem mesmo se deu ao trabalho de aderir ao Tratado de Não Proliferação Nuclear, podendo, “consequentemente”, “juridicamente” fabricá-las à vontade, livre de inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica.

O governo brasileiro promete vender álcool a Teerã, e também comida, itens não incluídos explicitamente no bloqueio. Todavia, não conseguirá vender o álcool, porque a Única, entidade representante dos produtores de etanol, sabe que se venderem álcool ao Irã sofrerão represálias tarifárias do governo americano. Assim não venderão “uma gota”, como já disse um representante da Única. Os usineiros dirão: “Nada contra os iranianos, “just business”. Mesmo as empresas brasileiras interessadas em vender alimentos aos iranianos acabarão cansados de nadar contra a corrente financeira porque os negócios de exportação são realizados mediante transações bancárias e a “dupla poderosa” já adiantou que os bancos que mantiverem transações com o Irã estão na lista negra.”Just business...”, dirão os usineiros.

Nada a criticar, claro, o fato de empresas privadas procurarem sempre o caminho comercialmente mais fácil. Nem com o fato de as Câmaras de Comércio serem frequentadas para a realização de negócios. Foram concebidas com essa finalidade. O que está errado é ver um órgão mundial poderosíssimo — criado com outra finalidade, supostamente mais nobre, o Conselho de Segurança das Nações Unidas — fazendo “concorrência” às verdadeiras Câmaras de Comércio. Cada coisa em seu lugar. O Conselho de Segurança deveria, idealmente, encarar os atritos mundiais, na iminência de conflitos armados, com olhos preponderantemente morais, analisando não só os interesses econômicos de seus membros, mas também suas opiniões éticas, evitando ou diminuindo, tanto quanto possível, eventuais injustiças e abusos. Toda “sanção” tem um componente ético. Não é apenas resultado de um resultado contábil, econômico.

Quando o CS percebesse, claramente, que o voto fora manifestado apenas em troca de uma vantagem econômica para o país votante — como tem sido, frequentemente o caso — esse voto seria inválido ou, pelo menos desmoralizado pela opinião pública. O chamado “voto de cabresto econômico” precisa desaparecer nas decisões do CS. As fundamentações de voto, de cada membro, deveriam ser obrigatoriamente publicadas e amplamente difundidas para que a opinião pública internacional e mesmo interna de cada país, conhecesse o grau de honestidade intelectual de seus representantes na ONU e dos respectivos chefes de estado.

Imagine, o leitor, como seriam, hoje, sinceramente, as fundamentações de voto. O representante da China diria: “Senhor Secretário Geral: na verdade, sou contra as novas sanções ao Irã, mas a China precisa do petróleo iraniano. Como há alta probabilidade, quase garantia de um bombardeio, israelense ou americano, das suas instalações petrolíferas desse importante fornecedor — e nesse caso a China ficaria muito tempo sem o óleo —, vejo-me obrigado, por motivos práticos, a votar a favor de novas sanções. É meu voto, Senhor Secretário”.

Quando do voto do representante russo, ele diria o seguinte: “Senhor Secretário|: também sou, como a China, contrário a novas sanções, que só aumentarão o tormento da população iraniana e, indiretamente, da de Gaza, privada de quase tudo. Entretanto, meu país já contava com a aquisição de navios-anfíbios, fabricados na França, que serão muito úteis para combater os revoltosos chechenos. E não temos outro fornecedor em vista. Ocorre que se eu não apoiar as novas sanções, a França de Sarkozy deixará o dito pelo não dito, não nos vende mais os navios, dificultando nossa luta contra o terror checheno. Pensando nos navios franceses, voto a favor das novas sanções. Acrescento que a Rússia se comprometeu a vender ao Irã foguetes terra-ar, para defesa contra aviões e mísseis que ataquem aquele país. Vou tentar cumprir o combinado mas se a França exigir que eu descumpra o acordo, eu descumpro, porque os navios-anfíbios são mais importantes para a Rússia do que eventuais justiças ou injustiças contra um país como o Irã, muito antipatizado”.

Alguns outros países, que apoiaram as sanções, poderiam, certamente, dizer coisas semelhantes, invocando transações pendentes.

Alguém dirá que cabe à Corte Internacional de Justiça e não ao CS a missão de analisar juridicamente as pendências. Ocorre que, conforme os estatutos atuais do referido Tribunal, somente Estados — e os palestinos não constituem um Estado — podem demandar contra a expulsão, sem indenização, de uma área que ocupavam há quase dois milênios. E a raiz da animosidade entre Israel e Irã está na questão palestina, sem chance de ser decidida formalmente por um Tribunal. Daí a necessidade de o CS decidir sobre sanções levando em conta critérios morais de justiça ou injustiça.

Não tenho reais preconceitos contra qualquer raça. Considero-as como mais ou menos iguais em termos de capacidade natural, inata, e tendências de caráter. Com igual variação de caracteres morais individuais dentro de cada raça. Há indivíduos excelentes, autênticas jóias humanas em todos os povos. E também astutos gângsteres travestidos de políticos. O problema está na sorte ou azar na escolha dos “chefes” e nos traumatismos sofridos e não esquecidos de cada povo, no passado próximo e/ou remoto.

Não sou admirador de Ahmadinejad — que fala muito o que não devia e provavelmente morrerá pela língua —, mas não posso ignorar que o Irã foi o único país que arregaçou as mangas para defender, com louca coragem, os palestinos, atormentados e expulsos sem terem nenhum culpa por uma injustiça romana, imperial, cometida dois milênios atrás.

Alguns leitores poderão considerar ingênuas as considerações feitas neste artigo. “Ingênuas”, considerando o mundo real, de hoje. Mas a civilização não cresceu buscando efetivar a “ingenuidade”? Houve tempo em que discutia-se se as mulheres tinham “alma”. Se a tinham, não era garantido que tivessem juízo suficiente para escolher candidatos em eleições. Não podiam votar. Serem juízas? Nem pensar! Índios também não eram considerados seres humanos plenos. E por aí vai.

Cedo ou tarde o Conselho de Segurança, visando preservar sua missão teórica — cada vez mais criticada na prática—, terá que subir um degrau acima, não mais agindo como Câmaras de Comércio. Conhecedores do Direito Internacional existem às centenas, mas parecem temer expor, com total liberdade, suas impressões negativas. Não querem arriscar suas carreiras acadêmicas.

(14-6-2010)

terça-feira, 22 de junho de 2010

Visão crítica de Saramago

Hesitei algumas horas antes de escrever sobre José Saramago, falecido tão recentemente. Conselhos contra minha “heresia” e falta de “timing” não faltaram: — “Não se atreva, meu amigo, a criticar um Nobel tão unanimemente aplaudido! Com tanta gente elogiando, não é possível que todos estejam errados! É até covardia criticar quem já não pode se defender. Se não gostava dele, por que não o atacou quando ainda vivia? Espere, pelo menos, que esfrie o corpo!” — disseram-me alguns conhecidos.

Um deles, mais franco, me advertia: — “Vão dizer que você, como escrevinhador desconhecido, ignorado por editoras — desculpe a sinceridade, você provocou... —, está despeitado com o sucesso de um grande homem de letras! Não se esqueça que ele foi o único escritor de língua portuguesa a receber a maior láurea literária, quebrando a prevenção, certamente política, da Fundação Nobel contra nosso idioma! Além do mais, você de vez em quando me dizia que não conseguia lê-lo. Assim, como tem coragem de criticar uma escritor que, confessadamente, não conseguia ler? “Não li e não gostei”, este é seu lema superficial no julgar o talento alheio?”

Não obstante esse pelotão de fuzilamento moral — realmente não é de bom tom censurar pessoas recentemente falecidas, principalmente se famosas e queridas —, atrevo-me a apresentar uma restrição, talvez apenas “gráfica”, contra o único Nobel recebido por escritor de nosso idioma. Por que o faço?

Primeiro, porque sou um incondicional admirador da clareza, da verdade e da sua irmã gêmea, a sinceridade. Mesmo quando doloridas aos ouvidos — respeitadas, claro, as amenas convenções sociais. Talvez esse apego à verdade seja sinal de ingenuidade inata — ou mesmo preguiça mental —, considerando que a mentira exige um trabalho cerebral do qual está dispensada a mera exposição dos fatos tais como são, própria dos “simplórios’. E não esquecer que o trabalho imaginativo exige boa memória. Máximo Gorki, o grande escritor russo que viveu algum tempo entre vagabundos e pequenos marginais, descrevendo, em um de seus contos, um personagem particularmente desastrado, disse que ele não era suficientemente experto para ser ladrão. Ladrões, usualmente, são astutos. O exercício profissional do mal exige muito mais massa cinzenta que a fácil emissão de opiniões sinceras. Por outro lado, a adesão à verdade — por opção, não por deficiência — é o selo de ouro da grandeza moral.

Sob esse aspecto, estritamente ético, faço parte do grupo dos admiradores de Saramago, porque o escritor português sempre foi um homem franco, intelectualmente corajoso e, suponho, até mesmo fisicamente destemido. Quando ficou sem emprego, na faixa dos cinqüenta anos, tomou uma decisão de extrema bravura: dedicou-se exclusivamente à literatura, tempo integral, arriscando seu futuro. Em vez de montar um negociozinho qualquer capaz de garantir o ganha-pão, jogou no “tudo ou nada” e acabou campeão, escrevendo prolixamente, mesmo com idade avançada.

Em favor do escritor Nobel cabe também reconhecer que sempre foi um intelectual sensibilizado com o sofrimento dos menos favorecidos. Além do mais, quem com ele conviveu afirma que era um homem de convívio agradável, mesmo não abrindo mão de suas opiniões, por vezes ásperas e avessas a “panos quentes”. Enfim, “personalidade forte” era o que não faltava a esse grande vencedor da concorrida maratona cerebral conhecida como Premio Nobel de Literatura.

Incidentemente, cabe aqui a informação de que no primeiro testamento de Alfred Nobel — o químico e industrial que inventou a dinamite — a Literatura não foi prevista como item de premiação. Havia dúvida a respeito. Alfred Nobel pensou, inicialmente, apenas em química, física, medicina e outros assuntos mais “objetivos”. Tendo, porém, que permanecer afastado dos negócios, por uns dois anos, resolveu ocupar seu tempo escrevendo peças de teatro. Aí percebeu o quanto era difícil algo que parecia fácil: escrever bem. E nisso incluo a pontuação. Daí um novo testamento e a inclusão explícita da Literatura — “de conteúdo idealista”, obrigatoriamente — na lista anual dos cobiçados Prêmios. Prêmios que não seriam tão desejados se a recompensa financeira fosse apenas simbólica: a medalha de ouro e o diploma. Lembrar isso não diminui o mérito de quem recebe honraria — ao contrário, aumenta-o, em razão da aguerrida concorrência — mas dá uma pista sobre a motivação mais profunda dos seres humanos. Inclusive dos “espiritualizados literatos”, o que não era o caso de Saramago, materialista convicto. Alfred Nobel, empresário extremamente inteligente, sabia com quem lidava — o gênero humano — quando criou a Fundação Nobel, com seu cobiçado prêmio em dinheiro.

Considerações feitas, explico porque não conseguia — e ainda não consigo — ler os livros de Saramago: inicialmente, por sua aversão, aparentemente incontrolável, à abertura de novos parágrafos, transformando as páginas em “paredes gráficas”, nada atraentes da leitura voluntária. Algo parecidas com as escrituras públicas de tabeliães que começam com “Aos tantos dias da era cristã, neste cartório, etc.”

Com essa desanimadora constatação, eu comprei apenas dois volumes do escritor em referência e praticamente esqueci o assunto, sempre me prometendo ler, qualquer dia, um livro do escritor português. Sentia-me culturalmente culpado por não conseguir sentir-me bem com autor tão aclamado.

Com a notícia de sua morte e lendo, em jornais, depoimentos extremamente elogiosos de pessoas bem conhecidas no mundo intelectual, fiquei impressionado com meu “evidente” atraso cultural, deixando de apreciar um intelectual tão importante. Aí, peguei de volta os dois volumes dele e novamente tentei lê-los. Inútilmente. Descobri que Saramago não só detestava abrir novos parágrafos como também desafiava as normas usuais de pontuação. Também não gostava de ponto final. Seu texto é uma enxurrada de associações de idéias com escassa preocupação de ordem, coerência e pontuação. O que lhe vinha à cabeça, ele datilografava, ou digitava. Parecia pensar: —“O leitor que se vire para organizar o que escrevi, não vou perder tempo com essas ninharias”.

Esse método de trabalho tem a vantagem, para qualquer escritor, de permitir uma produção muito mais extensa, porque economiza tempo. Boa parte do trabalho de escrever — qualquer autor ou jornalista responsável sabe disso — é consumida na tarefa de pontuar, facilitando ao leitor a compreensão das idéias. Escrever um imenso e graficamente denso “rascunho”, registrando, sem auto-crítica, idéias soltas que venham à cabeça, não me parece prática recomendável. Nem mesmo um Nobel deveria dar-se a tal luxo de descortesia para com o leitor. E o grande perigo dessa prática está no surgimento de imitadores do estilo. Com o incentivo involuntário à indisciplina expositiva, nossa língua, já pouco conhecida internacionalmente, será menos admirada, provavelmente.

Fui juiz por pouco mais de vinte e dois anos e, nessa condição, acostumado — como os advogados e promotores — a conviver com certa objetividade e ordem na narração dos fatos e do direito. Tentando ler os livros do referido escritor eu pensava comigo mesmo: “ Uma petição inicial escrita deste jeito seria rejeitada liminarmente como “inepta”, segundo a nomenclatura jurídica processual. Confusa demais ainda que, talvez, possa conter idéias interessantes. Qualquer texto de medicina, geografia, economia, filosofia, política — seja o que for —, exige alguma disciplina, mental e gráfica. O pensamento, falado ou escrito, exige ordem. As regras de pontuação não existem por mero acaso. São exigências até da civilização. Por que jogar fora as conquistas culturais da humanidade?

A concessão do Prêmio Nobel a Saramago não me parece ter sido — a longo prazo —, boa promoção da literatura de língua portuguesa. Explico: quando um escritor recebe tal premiação há uma automática procura por suas obras, traduzidas, no mundo inteiro. E, no caso de Saramago, o que provavelmente acontecerá? O leitor estrangeiro pensará, lendo um texto quase sem parágrafos e pontos finais, sem grande preocupação com o arranjo rigoroso das idéias, que todos os escritores na língua do novo Nobel são um tanto “desorganizados”. E com isso fica prejudicada a imagem geral dos autores do país. No caso, os escritores portugueses, brasileiros e das ex-colônias portuguesas na África.

O grande perigo da consagração de escritores ”graficamente desorganizados” está no estímulo involuntário à imitação. Candidatos a escritor que queiram “brilhar” na área não mais sentirão escrúpulo de redigir textos totalmente despreocupados com a ordenação do pensamento. Até mesmo em composições escolares os alunos que escrevem de qualquer jeito, se forem repreendidos pelo professor, pela falta de ordem e pontuação, defender-se-ão dizendo que o professor está “desatualizado” e que seu trabalho escolar adota o “estilo Saramago”, já consagrado pelo Nobel.

Com as melhores intenções, a Fundação Nobel prestou talvez um desserviço à língua portuguesa, quando conferiu o prêmio a um escritor que, embora moralmente íntegro — pelo que dizem as pessoas que o conheceram — não tratava a língua com a usual reverência. Editores estrangeiros procurarão traduzir para seus respectivos idiomas a obra do autor aqui referido, mas certamente farão isso apenas pelo fato do escritor ter recebido a grande honraria, garantia de boas vendas no mercado editorial.

Há momentos em que me pergunto se Saramago — homem inegavelmente inteligente e comunista convicto —, não estava sendo, inconscientemente, um tanto “gozador” das instituições mais “respeitadas”, quando escrevia seus livros depois da premiação. Sentia prazer como “demolidor dos falsos ídolos” do Capitalismo. E o Prêmio Nobel é identificado, por alguns, como um tanto “impregnado” de valores capitalistas, inclusive na ênfase do alto valor do prêmio financeiro. A premiação de textos não muito compreensíveis não prestigiaria a famosa instituição.

A respeito de “entender a obra dos premiados”, cabe lembrar aqui o que ocorreu quando a Fundação Nobel se preocupava com a “necessidade” de conceder o prêmio de Física a Albert Einstein. O grande judeu alemão — um dos maiores gênios morais e intelectuais da humanidade — acabara de ver aprovada, cientificamente, com a observação direta de certo fenômeno cósmico, sua famosa Teoria da Relatividade. A opinião pública internacional de certa forma “exigia” que Einstein fosse premiado. Reunida a comissão de cientistas julgadores, seus membros — menos um, cujo nome não me recordo — concordaram, imediatamente, em conceder o Nobel de Física ao jovem cientista e matemático. O voto discordante, no entanto, fez pé firme na sua oposição à concessão da láurea a Einstein, dizendo que não conseguira entender sua famosa Teoria da Relatividade, o mesmo ocorrendo com os demais componentes da banca. Indagava: — “Como vamos premiar um trabalho que nós mesmos, físicos, não entendemos?” A comissão contornou o problema concedendo o prêmio a Einstein por uma outra descoberta, relacionada com o efeito foto-elétrico. Assim, a opinião pública ficou satisfeita e a Comissão Nobel de Física não poderia ser acusada de premiar algo que não compreendia.

Não sei se Alfred Nobel, vivo fosse, iria ou não aprovar a concessão do Nobel a um autor que, embora inteligente e mentalmente corajoso, deixava para o leitor a tarefa importantíssima de ordenar seu pensamento. Só o Espiritismo poderia solucionar essa questão. Minha modesta opinião é que Alfred seria mais cauteloso. Pelo menos diria ao candidato: “Por favor, coloque toda a pontuação necessária e volte, querendo, para nova avaliação. Do jeito que está, o senhor estaria sendo julgado apenas pelo seu bom caráter e opiniões esparsas em jornais, não pelo que está escrito em seus livros. E minha Fundação trabalha apenas examinando trabalhos, não reputações.”

Penso como pensaria, hipoteticamente, Alfred Nobel, uma personalidade interessantíssima que merece ter sua biografia conhecida. Solteirão, tímido com as mulheres, certa vez foi dado como morto na explosão de uma das suas fábricas. Na verdade, quem morrera fora o irmão. Lendo na imprensa os comentários sobre seu suposto óbito, ficou um tanto desagradavelmente surpreendido com o que o povo pensava a respeito dele. E isso foi bom porque serviu para seu aperfeiçoamento. Há uma remota analogia entre esse fato — a falsa morte de Alfred —, e a presente crítica parcial das obras de Saramago após a obtenção do Prêmio Nobel.

Se as editoras de José Saramago se dessem ao trabalho de reeditar seus livros, com a pontuação usual, o valente escritor seria realmente lido por número bem maior de leitores. Não apenas admirado por sua reputação. Poderei até me tornar seu grande fã. Por enquanto minhas mãos estão imóveis, em suspenso, aguardando permissão para aplaudir — mas sinceramente...

Que Saramago não será reeditado, com pontuação normal, não há dúvida. Nem editoras nem parentes admitirão isso. Para prejuízo internacional da língua portuguesa. É de lamentar, incidentalmente, que a Fundação Nobel não tenha por norma premiar também escritores falecidos. Machado de Assis, Eça de Queiroz e dezenas de outros autores promoveriam extraordinariamente as riquezas de nosso idioma.

Finalmente, que me perdoem os admiradores — quando sinceros... —, do corajoso escritor que, vivo fosse, talvez apreciasse minha franqueza, seguramente muito menor que a dele. Compreenderia que se eu respeitasse a “quarentena” de bom tom, relacionada com sua morte, para emitir uma opinião, acabaria esquecendo o assunto. Lendo minha crítica, dar-me-ia um coque na cabeça, e diria, até rindo: “Leia novamente o que escrevi, seu burro!”

(21-6-10)

sábado, 5 de junho de 2010

“Frota da Liberdade”. Quem está com a razão?

Um humorista intelectualizado já opinou que o Direito é como a asa de qualquer xícara: você pode segurá-la com a mão direita ou esquerda, ao agosto do “freguês’, digo, do cliente — correção conveniente para não melindrar demais o defensor da causa indefensável. Se distorções interpretativas ocorrem com a invocação do Direito, em geral, a interpretação distorcida, interesseira, é multiplicada por três no campo do Direito Internacional. Isso porque a justiça-política em nível planetário, revela sintomas de dupla-personalidade: engatinha, gaguejante, quando o réu é forte e fala grosso, imperioso, quando o réu é fraco.

Forte, no caso em exame, é Israel, que despreza sanções internacionais. A rigor, juridicamente, Israel nem mesmo pode invocar “defesa de sua soberania” porque a Faixa de Gaza nunca esteve sujeita a sua soberania. Foi apenas uma área sob ocupação militar. E nem mesmo é isso, hoje. Pelo que sei, há anos a ONU considerou ilegal — lamentavelmente sem qualquer conseqüência prática... — a ocupação da Faixa de Gaza. “Soberania” implica posse pacífica, aceita pela maioria da população local. O que não é o caso de Israel que, por sinal, já reconheceu ser apenas um intruso, tanto assim que se retirou da área, não obstante o protesto violento de centenas de seus colonos.

No pólo fraco estão os árabes moradores desse pequeno retângulo litorâneo, vítimas de um bloqueio que dura cerca de três anos. Ao que parece, a cúpula do atual governo israelense não se lembra do sofrimento de seus pais, ou avós, quando os nazistas forçaram os judeus poloneses a viverem miseravelmente cercados no gueto de Varsóvia. O sofrimento foi tão intenso que os infelizes de então — esfomeados, humilhados e convictos que acabariam mesmo nas câmaras de gás — mandaram às favas a prudência e se revoltaram, sendo esmagados impiedosamente, como previam. Essa revolta heróica comoveu o mundo. Belas páginas literárias — p. ex. “Mila 18”, de Leon Uris, um judeu — surgiram, inspiradas na bravura daqueles que, lutando, sabem que vão morrer. Nas guerras “normais”, ou “civilizadas”, os combatentes confiam na possibilidade de voltarem vivos, o que não foi o caso da revolta mencionada.

É certo que o atual cerco de Gaza é menos virulento que o que existiu no gueto de Varsóvia. O gueto palestino é mais light”, sem deixar, porém, de ser gueto. Fotos em revistas internacionais mostram a cidade de Gaza estrangulada, cercada de lixo, desconforto e pobreza. Israel proíbe a entrada de quase tudo. Gueto “light” porque se fosse igual ao de Varsóvia, o horror provocaria um tal escândalo internacional que faria desaparecer o resíduo de solidariedade internacional que ainda beneficia Israel, conseqüência da perseguição nazista. O reportagem do jornal paulista “O Estado de S. Paulo”, edição de 3-6-10, à página A12, relata que “apenas 16% dos judeus não ortodoxos dos EUA, com menos de 40 anos, sentem-se muito próximos de Israel”. Isto é, 84% dos judeus americanos não ortodoxos (estes esperam o Messias) já se decepcionaram com a política israelense, pelo menos com relação aos palestinos expulsos de suas terras. E quem dá essa informação não é uma organização anti-judaica, é o Comitê Judaico Americano. Ainda segundo a mesma fonte jornalística, o editor atual da revista “Foreign Affairs” constatou que “esta nova geração, de 20, 30 anos, não se identifica mais com determinadas políticas israelenses e não enxerga mais Israel como um ator moral”.

Juristas, com ou sem aspas, e jornalistas mais sofisticados, argumentam, contra ou a favor da intervenção e comportamento dos comandos israelenses. Os argumentos são bem variados mas, se reduzidos à expressão mais simples, é fácil perceber quem está com mais razão — jurídica e política — no incidente que resultou nas nove mortes de ativistas, sem qualquer baixa entre os israelenses. Houve feridos, de ambos os lados. Como disse de início, textos jurídicos sempre se prestam — e no Direito Internacional, mais ainda — a interpretações “ao gosto do freguês”. Vejamos.

Águas internacionais. A invasão do navio ocorreu em águas internacionais, bem distantes da águas territoriais sob domínio — apenas de fato —, israelense. Relembre-se que a ONU já decidiu, anos atrás, que a ocupação da Faixa de Gaza é ilegal. Se a ocupação é ilegal, essa área não poderia, em última análise, ser policiada e isolada por Israel, porque o ilegal não merece proteção jurídica. Ponto importante a favor dos ativistas. Principalmente considerando que não havia qualquer notícia, ou razoável suspeita — a inteligência israelense teria facilmente se informado a respeito, durante os preparativos da “caravana” marítima — de que havia armas entre os alimentos e outros itens visando aliviar a situação da população sitiada.

A invasão do navio que liderava a pequena frota ocorreu às 4,00 horas da madrugada, “tática de pirata”, aproveitando o sono dos que estavam a bordo. Se houve resistência dos ativistas isso foi perfeitamente natural, legítimo, porque, primeiro, estavam em águas internacionais; segundo, porque a missão da frota era de caridade, de solidariedade, não pretendendo se apossar, violentamente, de terras alheias, ou com propósitos bélicos. A resistência física, de uns poucos, foi improvisada, com cadeiras, barras de ferro, estilingues e outros meios frágeis de defesa. Se, eventualmente — difícil acreditar na versão israelense... — algum ativista se apossou da arma de um comando distraído, meio “aloprado”, isso seria mais ato de defesa do que de agressão, como alguém que, em sua casa, enfrenta ladrões e consegue se apoderar da arma de um dos invasores. Comandos são altamente treinados, nada bisonhos, a ponto de perder a posse de suas armas em momentos de conflito.

A escritora Linda Grant, em artigo de 4-6-010, página A11, do jornal referido acima, lembra-nos o que ocorreu com o navio “Exodus”, no verão de 1947. Mostra a analogia de situações, mas em posições inversas: judeus tentando furar um bloqueio. Esse navio transportava 4.500 sobreviventes do Holocausto e partiu da França com destino à Palestina. Pretendia romper o bloqueio dos ingleses, preocupados — com razão —, com o fluxo incessante de judeus que “apodreciam” — palavra da autora — em campos de refugiados europeus. Os ingleses sabiam que os palestinos reagiam contra um “retorno” em massa de israelitas depois de uma ausência de quase dois milênios. Diz Linda Grant que os judeus “sabiam que não conseguiriam aportar, mas sabiam que o barco caindo aos pedaços com sua dolorosa carga humana de refugiados denunciaria os britânicos como patrões colonialistas desalmados”. Quando o navio se aproximava de Haifa, os líderes sionistas, via rádio, avisaram o comandante do navio para não por em risco a vida dos passageiros. O comandante desobedeceu a ordem e prosseguiu, mas o “Exodus” foi cercado por três destróieres britânicos. O navio foi abordado, os passageiros, judeus, resistiram e revidaram” — tal e qual como ocorreu com os ativistas pró-palestinos... — “com o que estava à mão, até com remessa de carne enlatada. Os britânicos mataram três pessoas”. Os transportados não conseguiram desembarcar e foram devolvidos aos campos de refugiados da Alemanha. Esse incidente ajudou tremendamente a causa judia, em termos de simpatia internacional. Qualquer semelhança com o ocorrido com a “Frota da Liberdade” não é mera coincidência. É um precedente marítimo a demonstrar que a reação violenta de umas poucas pessoas, contra abordagens armadas é perfeitamente normal. E, no caso do navio “Êxodus”, pelo que deflui do relato acima, ele não estava em águas internacionais. Acresce que o Reino Unido, à época, tinha muito mais legitimidade, do que Israel, hoje, para bloquear os 4.500 passageiros que tinham vindo para ficar na Palestina — fonte de atrito com os moradores árabes —, ao contrário do que ocorria com os ativistas da “Libertem Gaza”, que só pretendiam entregar sua carga humanitária, para retornar em seguida.

4.- Já li argumentos, a favor dos israelenses, dizendo que a frota teria sido convidada para dirigir-se ao porto israelense de Ashdod, mais ao sul, onde a carga seria entregue às autoridades locais, as quais se encarregariam de, após vistoria minuciosa, transporta-la até a cidade de Gaza. O argumento contem pouca credibilidade, porque se Israel mantém-se firme no propósito de “estrangular” o governo do Hamas em Gaza, privando a população de coisas necessárias, não é facilmente acreditável que fosse agir contraditoriamente, com total lisura no “encaminhamento” das dez toneladas de ajuda humanitária. Por que os ativistas pró-Palestina deveriam acreditar em tal promessa? Se Israel pretendia fazer chegar à Gaza essa ajuda, por que não permitir o desembarque no porto de Gaza, como pretendido pela frota, sob total vigilância do exército israelense? Trata-se, tudo indica, de um argumento fabricado à última hora, constatado o fiasco internacional da interceptação violenta.

Lamentável, no episódio, a reação, tímida demais, do governo Barack Obama, um presidente em quem ainda, teimosamente, deposito esperanças. Inicialmente, Obama pediu investigação dos próprios israelenses, em causa própria, um absurdo de ingenuidade. Depois, felizmente, sugeriu uma investigação internacional, desinteressada. A brandura da reação americana explica-se, provavelmente, pela necessidade imperiosa de apoio financeiro do lobby judaico americano na próxima eleição legislativa americana.

Como todos sabem, mesmo as democracias mais bem intencionadas não dispensam financiamentos de campanhas. De certo modo, os cargos máximos políticos são, em parte, “comprados”, via propaganda eleitoral. O sucesso não depende apenas das idéias e do caráter dos candidatos. E para agravar a difícil posição de Obama existe uma evidente divergência de visão e simpatias entre o presidente e sua secretária de estado, no que se refere ao problema do Oriente Médio. Difícil imaginar que a derrota da aguerrida senhora — dentro de seu próprio partido, quando da escolha de quem seria o candidato democrático na última eleição presidencial — não tenha deixado um forte resíduo de ressentimento que, à semelhança dos vulcões, ficam adormecidos mas não extintos, aguardam o momento certo para explodir.

Na imprensa de hoje, o premiê Netanyahu, algo assustado com a repercussão de sua “pirataria desastrada” diz buscar “soluções criativas”. Netanyahu é, realmente, um patriota. Mas patriota à moda antiga, ultrapassada, estreita, fincada apenas no egoísmo, preocupado somente com a felicidade de seus concidadãos, indiferente ao sofrimento de outros povos.

“Soluções criativas” sempre existem. O problema é que exigem sacrifícios. Um deles é o de sentar à mesa com os palestinos e enfrentar o problema da criação do Estado Palestino, com pelo menos uma larga estrada ligando a Faixa de Gaza à Cisjordânia, porque não tem sentido manter essas duas regiões separadas. Se não for possível um acordo, “lavar as mãos”: solicitar que um Tribunal internacional decida, por arbitragem, as futuras fronteiras entre os dois Estados, porque já chega de sangue, inquietação e sofrimento. Quanto ao retorno dos refugiados palestinos — aos milhares, amontoados em campos espalhados pelo mundo árabe —, uma proposta seria indenizar cada família palestina desalojada e pedir à ONU que providencie uma grande área — na África, por exemplo — onde possam tais palestinos se fixar e prosperar. Garanto que em algumas décadas, essa “segunda Palestina”, talvez africana, poderá se ombrear, em progresso, com o Israel de Netanyahu, já falecido e lembrado — com ódio ou saudade —, conforme for seu comportamento daqui pra frente. E a própria África lucrará com isso.

Lembrei-me da África, na sugestão acima, porque se o Movimento Sionista, em 1903, tivesse aceito a oferta inglesa para instalar o Estado Judeu numa região que então correspondia a Uganda, hoje Quênia, com clima relativamente fresco — oferta recusada por causa de feras e proximidade de tribos africanas — Israel teria se tornado uma potência respeitada e tranqüila, não odiada. Não sei se hoje, uma “transferência” em massa de palestinos será possível, mas terras pouco habitadas existem, capazes de abrigar novas nações.

Qual a diferença entre o Hamas e a Autoridade Nacional Palestina? Esta última, cansada de lutar, se resignou a aceitar a existência de Israel. Quer apenas ser um Estado, soberano como os demais. O Hamas, ao contrário, não “engoliu” a expulsão dos palestinos pelos “intrusos” e por isso não aceita o Estado de Israel. Tal expulsão, porém, se tornou impossível, impraticável. Muito menos um massacre desumano, de proporções homéricas, que nunca chegaria mesmo a ocorrer tendo em vista a força econômica, militar, nuclear e política de Israel. O Hamas precisa se convencer dessa realidade evidente, entrar no mundo real e fazer o que é possível fazer: pleitear uma razoável indenização para os desalojados, pedir à ONU um espaço amplo onde os refugiados palestinos se instalariam, prosperariam e formariam, mais adiante, um Estado.

Se, para salvar as finanças gregas a União Européia destinou centenas de bilhões de euros, e os EUA, para salvar bancos e indústrias americanos, empregou outro tanto, com muito menos dinheiro será possível “comprar” uma área, mais ou menos cômoda, em algum continente, para nela se instalarem os novos “judeus errantes” que atendem hoje dela designação de “refugiados palestinos’. O Hamas pode considerar isso injusto, mas precisa ser convencido que a Justiça perfeita não existe em parte alguma do planeta.

Pense nisso, senhor Netanyahu, e zele para deixar um bom nome na Terra, antes de comido pelos vermes. Poupe uma indigestão dos bichinhos. Sua biografia ainda pode crescer, transformando-o em verdadeiro estadista. E pense, mais ainda, o presidente Barack Obama, no alívio americano quando for finalmente fechada a grande ferida que contamina o Oriente Médio mas pode se espalhar por outras áreas. Desaparecida a fonte principal do rancor — a situação palestina — o terrorismo, se persistir, será mera atividade de gangsteres, muito mais fácil de controlar.

(4-6-10)