Foi
uma tristeza quando, lendo o jornal, ontem de manhã, soube do suicídio do
Nilsen, meu colega de faculdade de direito e atualmente Delegado de Polícia. Eu
o visitara uma semana antes, num ato de solidariedade. Estava afastado do
trabalho, sob acusação de “violência policial”.
Matou-se
com um tiro na boca, o que me fez cogitar se essa forma de autodestruição não é
influência do cinema. Algumas décadas atrás, os suicídios com arma de fogo
geralmente ocorriam com um disparo na têmpora ou no ouvido. Ou, mais raramente,
com um tiro no coração, mais discreto, possibilitando ao morto ser visto com
aparência digna no velório. Depois, à medida que os filmes americanos difundiam
imagens de policiais problemáticos, incompreendidos, colocando o cano do
revólver de modo a estourar o céu da boca — nem sempre chegando a disparar —, aumentou
significativamente a proporção daqueles que utilizam essa técnica mais impressionante.
A
explicação não é difícil: qualquer policial sabe que o disparo com o cano encostado
no céu da boca, é uma garantia de resultado. O que nem sempre acontece quando a
bala é disparada, por amadores, com o cano perto do ouvido. Conheço um caso em
que o projétil seccionou o nervo óptico e saiu pela testa, acima do olho, poupando
a vida do desesperado. Ficou apenas cego desse olho. Nem mais nem menos inteligente,
o que nos faz pensar que podemos desperdiçar alguns milhões de neurônios porque
os bilhões “restantes” os substituem nas suas funções. Só isso explica porque
alcoólatras e drogados, após anos de severos abusos voltam à lucidez — pelo
menos aparentemente —, quando abandonam seus vícios e levam uma vida sadia,
preocupados com sua recuperação.
O
financista — no geral um sujeito manualmente desajeitado —, não costumava enfiar
o cano na boca. Talvez porque, habituados com iguarias finas, sinta instintivo
nojo do ferro frio, com gosto de óleo mineral e pólvora. Em suma,
incompetência. Ele pode conhecer os segredos do dinheiro — na verdade pensa que
conhece, se considerarmos que acabou se matando por causa dele —, mas é o
policial que sente, na alma, os dramas da vida e da morte.
Isso
sem considerarmos que o financista, quando — esperto em tudo —, na iminência de
ser preso, pode estar fazendo um jogo de cena arriscado, disparando um tiro de
raspão na têmpora, de propósito, torcendo para que a bala não penetre no osso,
apenas circule entre o osso e o couro cabeludo. Isso ocorrendo, muito sangue
vai aparecer na foto do jornal. Um homem que já foi rico, poderoso, agora
ensanguentado, comove um bom percentual de leitores de jornais. Prova de que se
arrependeu, está sofrendo e merece uma oportunidade. Quem sabe, com o
“tresloucado gesto” — bem difundido pela imprensa amiga — receberá pena mais leve.
Com tempo, talvez, de desfrutar um descanso bem remunerado. Não no frio
Paraíso, mas em algum ameno paraíso fiscal. Os tempos mudam e sua experiência
em finanças pode ser útil para quem tem dinheiro mas não tem a experiência.
Pedindo
desculpa à alma do Dr. Nilsen por esta desnecessária divagação técnica, posso
afirmar que pela face da Terra passaram pouquíssimas pessoas com tão violenta —
esta é a palavra — integridade. Jamais encontrei pessoalmente um homem tão
radical e coerente no modo de encarar o mundo e os deveres de sua profissão. E,
paradoxalmente, isso o destruiu. Aliás, tinha mesmo que destruir, porque
vivemos num mundo — principalmente o jurídico-penal — de eruditos faz-de-conta.
Em
verdade, na Faculdade não éramos amigos firmes. Apenas colegas. Ele era um
rapaz de convivência “difícil”, à falta de melhor adjetivo.
Parecia
um fiscal da moral, censor severo, alma nascida velha de muitas décadas. Sério,
caladão, alto, aloirado, olhos cinzentos, magro, porém forte, com uma expressão
entre pensativa e amarga que já me sugeria tragédia. Quando a estudantada
irresponsável fazia algo errado ele só a encarava, melancólico e crítico, como
que tentando, só com o olhar, enfiar algum juízo nas alminhas irresponsáveis.
Era um olhar de avô em rapaz de vinte anos. Por isso era evitado, o que não lhe
fazia qualquer dano porque era um solitário por natureza.
O pai dele foi assassinado na sua presença, no Brasil, quando Nilsen tinha oito anos, dentro de um banco, morto por haver reagido a um assaltante. Era norueguês ou sueco, coisa assim. Nórdico, com toda a certeza. O pai viera para o Brasil meio fugido, depois de absolvido no seu país num crime de homicídio. Matara um pescador em legítima defesa, mas os irmãos da vítima não concordavam com o veredicto do júri. Para não ter que matar a irmandade toda, que o caçava soturnamente, o pai do Nilsen preferiu viver nos trópicos. A mãe de Nilsen era uma pernambucana bonita, de pele clara, mas eu a conheci apenas de fotografia. Pouco mais de um ano depois da morte do marido, ela se casou de novo, mas Nilsen não se dava com o padrasto e vice-versa.
Eu
costumava pensar, baseado em leituras cheias de lugares-comuns, que as brumas
nórdicas, grávidas de melancolia, impregnavam a alma dos descendentes de
vikings e adensaram-se no miolo compenetrado desse brasileiro de olhos tristes.
Estivemos na mesma classe os cinco anos do curso de direito, ambos com notas
boas. Mas ele estudava muito mais do que eu. Aliás, do que todo o mundo. Era
inteligente, mas com certa lentidão no se expressar, sempre preocupado com a
exatidão de cada palavra, até em coisas mínimas. Sua mente era metódica,
consequente, tenaz, pesada, sem nenhuma vivacidade latina. A contribuição
genética da mãe foi, nessa área, nula.
Compartilhamos
o mesmo quarto na pensão de estudantes, mas durante poucos meses. Percebendo
seu caráter reservado e por demais ordeiro, achei melhor mudar para outro
quarto. Inventei uma desculpa, que ele deve ter percebido, mas nada comentou.
Sempre
fui desorganizado com minhas roupas, sem me sentir muito culpado por isso.
Contudo, com essa nórdica e ordeira companhia de quarto, quando eu deixava
qualquer roupa fora do lugar, logo me apressava em arrumar as coisas antes que
o Nilsen a visse, tal qual um menino travesso quando ouve os passos da mãe
severa se aproximando. E, para falar a verdade, muitas vezes eu tinha a
impressão de estar ao lado de uma bomba-relógio humana, de mecanismo muito
complicado para me atrever a desmontar. Embora contido, Nilsen era
nitroglicerina pura. E não acredito que seu modo de ser tivesse relação única
com o trauma provocado pela morte violenta do pai. Não sou psicólogo, mas meu
palpite é que Nilsen nasceu assim.
Nossos
temperamentos eram completamente diferentes. Sempre fui brincalhão,
comunicativo, amigo de anedotas e estórias engraçadas. E minhas pretensões de
espirituoso tinham com o Nilsen bilhete apenas de ida. O dito supostamente espirituoso
lá ia, batia nos olhos contemplativos e caía, sem nenhum retorno. Ou havia um
retorno tão sério que eu me sentia como um palhaço leviano. Para piorar minha
frustração, finda a anedota, ele me olhava gravemente, como que aguardando uma
explicação complementar. Não que ele não entendesse a graça, pois era
inteligente. É que aquele desfecho lhe parecia insatisfatório, faltando algo
que justificasse tanta alegria. Esse olhar desarmava qualquer um. Se fosse
possível alguma analogia entre espírito humano e motor de carro, diria que a
mente do Nilsen estava sempre engatada na primeira marcha do câmbio, com força
e lentidão. Só servia para subidas íngremes.
Não
me lembro de ter visto o Nilsen dando uma gargalhada. Pensando bem, nem mesmo
me lembro de vê-lo com uma boa risada. Estranho que só agora tenha notado isso.
Espremendo a memória não encontro nenhum quadro nítido em que ele aparecesse
sorrindo, francamente alegre. De alguns raros meios sorrisos irônicos eu me lembro;
embora ele não aprovasse, no geral, a ironia. No seu entender a ironia era a
arma do medo, da fraqueza, do subterfúgio, do não-enfrentamento direto. E
Nilsen gostava de enfrentar. Acho que eram os fantasmas dos vikings,
fervilhando no seu sangue. Segundo a informação de um historiador inglês, os
vikings, em tempos remotos, cercavam castelos da Inglaterra medieval, exigindo
a entrega das mais belas e jovens mulheres, sob pena de morrer todo mundo,
flechado ou de fome, porque tais cercos tinham longa duração. Há quem atribua a
invulgar beleza das mulheres escandinavas a tais roubos sistemáticos dos mais
belos genes da beleza inglesa. Os vikings só aceitavam “doações” de moças
bonitas, mas para se “casarem” com seus guerreiros, não para serem estupradas.
Ele
parecia encarar o mundo de maneira séria demais. Quando se sentava para
estudar, ficava horas imóvel, uma estátua de persistência. Três, quatro, cinco
horas se passavam e o Nilsen de olho vidrado no texto, parecendo nem respirar,
fizesse frio ou calor. Eu brincava dizendo-lhe que, a continuar assim, logo
seria um erudito hemorroidário. Mas, para compensar tanta imobilidade, ele,
todos os dias, sempre metódico, fazia uns vinte, trinta minutos de exercício,
com peso, antes do banho. Banho frio sempre, verão ou inverno, coisa de louco.
Durante um bom tempo, treinou pugilismo, ao que parece levando a coisa com
excesso de rigor, pois com frequência aparecia machucado.
Nilsen
parecia não conhecer o medo. A impressão que me transmitia era de que não
apenas dominava o medo — o que basta para nos livrar a cara pois já é uma
façanha e tanto. Simplesmente não o sentia. E isso contribuiu muito para sua
perdição. Um pouco de medo é imprescindível, salutar, protege o corpo e o bolso
nesse medíocre e complicado mundo em que vivemos.
Uma
das violentas ojerizas dele era contra o barulho. Odiava, especialmente, músicas
em alto volume. Àquela rapaziada alegre parecia impossível que os demais não
gostassem de ouvir música popular “para todo mundo ouvir”. Como ele estava
constantemente estudando, qualquer ruído era um estorvo para seus objetivos. E
na busca de seus objetivos era extremamente radical.
Um
dia, numa aula de Medicina Legal, ele deu uma amostrazinha do seu radicalismo.
O
caso foi assim: o professor explicava que todo bebê vem ao mundo coberto com
uma espécie de gordura — não me lembro exatamente da palavra técnica. E quando
não respira de imediato, médicos e parteiras costumavam — não sei se ainda
fazem assim — pegar o recém-nascido pelos pés e dar uns tapas na bundinha, ou,
balançar o bebê, forçando com isso a respiração e o choro. Relatava o professor,
na aula, que, num desses balanços o recém-nascido escapara das mãos do médico e
voara pela janela. Caindo do terceiro andar, morrera na hora. A menção da morte
não é desnecessária porque esses bebês são de lascar, havendo alguns casos de
sobrevivência em quedas de altura semelhante quando caíram sobre toldos.
Algumas
alunas, escutando o que acontecera com o bebê, expressaram sua surpresa e dor —
o meigo instinto maternal —, com gritinhos aflitos. Uns poucos marmanjos
chegaram a sorrir discretamente porque o fato, não obstante trágico, comportava
um toque de humor negro. Numa comédia dos Três Patetas, por exemplo, a
cena provocaria risos; mesmo porque o bebê sairia ileso e ainda contando uma
anedota. Mas um determinado colega de classe, gozador, sentado duas carteiras
atrás, começou a rir abertamente. Parecia achar uma graça enorme na provável
cara espantada do azarado médico.
Não
obstante o professor já houvesse mudado de assunto, o referido estudante
continuou, à meia voz, fazendo comentários engraçadinhos sobre o arremesso. A
cena lhe parecia um tema inesgotável. O próprio professor, um homem tímido,
paciente, já dava sinais de estar incomodado, mas sem se atrever a mandar o
estudante — um rapaz alto, agressivo, filho de um figurão —, calar a boca.
As
piadinhas, mesmo ditas em voz baixa, já estavam beliscando as orelhas sensíveis
do Nilsen que virou-se ostensivamente para trás para ver se, só com o olhar,
convencia o colega a parar com aquilo. Era o barulho, certamente, que o
incomodava, não o tema em si.
A
olhada melancólica de Nilsen não surtiu qualquer resultado. O gozador
prosseguiu nas observações intermitentes, provocando risinhos no colega ao
lado.
A
insistência do piadista levou Nilsen a novamente se voltar na carteira e
colocar o dedo indicador na vertical, junto aos próprios lábios, no clássico
gesto de quem pede silêncio.
O
estudante falador novamente não deu bola. Talvez tenha pensado que silenciar,
naquele momento, seria uma demonstração de medo. Estaria acatando ordem de um
simples colega. E para agravar a coisa, havia três ou quatro moças observando a
cena, detalhe que já provocou muita desgraça. Como todos sabem, o cheiro de
mulher — leitora amiga, falo metaforicamente — alvoroça, do jeito errado, a
valentia de macho idiota. Assim, o engraçadinho continuou com as piadinhas.
Meio
minuto depois, o Nilsen, em plena aula, levanta-se calmamente, pede licença
para o estudante que estava logo atrás, afasta-o para o lado e desfere violento
murro junto à orelha do falador, que caiu desacordado. Se não houve um nocaute
puro e simples, ocorreu pelo menos um nocaute técnico.
Foi
realmente uma pancada e tanto. Vendo que o outro não levantava para o revide —
não havia mínimas condições fisiológicas —, Nilsen pareceu hesitar se voltava
para sua carteira ou deixava a sala. Mas logo percebeu — o professor estava
bestificado — que não havia clima para o prosseguimento normal da aula e
retirou-se.
O
agredido foi levado para ser medicado na diretoria e Nilsen só não foi expulso
da Faculdade porque a vítima tinha realmente passado dos limites. O professor
depôs em seu favor. E deve ter delirado de alegria, intimamente, sentindo-se
reconfortado com o punho vigoroso do anjo vingador. Nilsen pegou uma suspensão
de alguns dias, mas o “nocauteado” também, por atrapalhar a aula.
Pelo
que lembro, não houve vingança, ou porque o agredido compreendeu que havia se
excedido na falação ou, mais provavelmente, porque a potência da porrada,
conjugada à calma de seu autor, eram um indício seguro de que piores desgraças
aguardariam a vítima se convidasse Nilsen para um acerto de contas na esquina.
Mas
esse não foi o único incidente de Nilsen na Faculdade.
É
de tradição — idiota, mas tradição — que os aprovados no vestibular de carreiras
universitárias recebam pequenos, médios ou grandes ultrajes — denominados
“trotes” — quando da matrícula no primeiro ano. Os veteranos mais sádicos,
geralmente os menos inteligentes — o sadismo exagerado funciona, no caso, como
uma forma de compensação —, não podem perder aquela chance única de “brilhar”,
impondo aos inseguros calouros pequenas humilhações, tais como lhes cortar o
cabelo, pintar o rosto e o corpo, despejar cerveja na cabeça, etc.
Nilsen
não se incomodou com o fato de se tornar careca durante algumas semanas.
Definiu que essa imposição era “normal”, uma tradição “bobinha”, mas tolerável.
Assim, antes mesmo de se dirigir à secretaria da faculdade, raspou a cabeça
numa barbearia e foi se matricular.
Ocorre
que aos veteranos não interessava o fato do calouro se tornar careca. O
importante era que a “tosquia” fosse feita por eles mesmos. Malfeita, deixando
a cabeça do noviço igual a um ninho de ratos. Foi um choque, uma tremenda ofensa,
portanto, a visão daquele calouro alto, já careca, limpinho, passando confiante
para se matricular. Cena que destoava naquele grupo de calouros assustados que
se deixavam tosquiar e pintar com resignação e até fingindo alegria.
—
Ei! Aonde vai? — perguntou um veterano.
—
Vou me matricular.
—
Quem te cortou o cabelo? — o veterano imaginou que esse calouro já fora devidamente
“troteado”, tomara banho e depois voltara para a matrícula. Tanta segurança não
teria outra explicação.
—
Ninguém. Achei melhor eu mesmo cortar. Serviço mais bem feito, não acha?
Se
havia tom de provocação nisso, ninguém informou depois.
—
Você mesmo cortou?!
—
Eu não. O barbeiro.
O
veterano não acreditava nos próprios ouvidos. Tendo ao lado dois outros
veteranos, sentiu-se confiante para algo mais concreto que o simples espanto.
Teria apoio.
—
... Bicho, se você cortou no barbeiro, gastou dinheiro à-toa, porque vamos
cortar outra vez.
—
Impossível. Não há mais o que cortar... — se sorriu, nesse momento, também não
sei, porque esse diálogo me foi contado por um colega.
O
veterano não acreditava em tanta segurança. Mas não podia se desmoralizar.
Ocorre que realmente não havia mais cabelos ao alcance de sua velha tesoura
enferrujada, utilizada por sua mãe nos cuidados do jardim. Assim, pensou em
derivar a poda capilar para o trote de pintar o rosto e o corpo do Nilsen.
Mal
o veterano iniciou os atos concretos para essa forma de humilhação acadêmica,
Nilsen o agarrou pela camisa, com a mão esquerda, pondo-o contra parede, ao
mesmo tempo em que, com a direita, desferia potentes socos no rosto e abdômen
do veterano. Suponho que foi tal a massagem nas tripas, que o dono delas não
veio jamais a sofrer de prisão de ventre nos vinte anos seguintes. E se pensou
em reagir, pensou tarde, ou melhor, sonhou, pois já repousava nos braços de
Morfeu.
E
o que fizeram os outros veteranos? — deve estar se perguntando o leitor. Eu
também me pergunto. Segundo relatos, um deles esboçou um soco, sem muita
convicção — todo veterano sente, no fundo, no fundo, que está sendo injusto — mas
recebeu a sua dose, também cavalar, do “xarope porrada”, irregistrável no
Ministério da Saúde. Com a pancada, cambaleou, estuporado. Nilsen largara o
primeiro veterano, que simplesmente escorregou docemente pela parede, em câmera
lenta, como se vê nos desenhos animados, passarinhos cantando e voando em
círculo sobre sua cabeça. Enquanto isso, outros veteranos, sem compreender bem
o fenômeno que ocorria, simplesmente olhavam, não se atrevendo a modificar
aquela excêntrica realidade. É sabido que uma excessiva — mas tem que ser
autêntica —, autoconfiança produz esse efeito inibitório nos circunstantes. E
Nilsen afastou-se, sem pressa, apenas ligeiramente alerta, para fazer a
matrícula.
Nós
dois, já bacharéis, eu fui trabalhar com um advogado da área cível e mantive
alguns contatos com o Nilsen, que se tornara Delegado de Polícia e odiava,
pessoalmente, a criminalidade de rua. Tivemos, nesses encontros, longas
conversas. Ele se casara logo depois de entrar na polícia.
De
vez em quando, comíamos uma pizza, juntamente com outros ex-colegas da
Faculdade.
Dois
anos depois de formado, numa tarde de pouco trabalho, ocorreu-me a ideia de
assistir aos exames orais de candidatos que prestavam o Concurso de Ingresso à
Magistratura. E não fiquei surpreso ao encontrar, entre os candidatos, o Nilsen
que, então, ainda era delegado de polícia.
Boa
decisão, a dele, pensei então. Seu cérebro era, em todas as suas dobras, o de
um juiz severo. Se havia perigo em seus punhos, a toga era uma quase garantia
de sua não-utilização porque ninguém, hoje em dia, no seu juízo perfeito,
desafia o juiz para acertar, no braço, a decisão da causa. Isso só acontecia na
Idade Média, nas “Ordálias de Deus”. Explico: um Deus todo-poderoso “não
permitiria que, em duelo, vencesse quem não tinha razão”, segundo a ingênua
teologia da época. Porém, com o passar do tempo, o próprio juiz da ordália poderia
ser pessoalmente ser desafiado, pelo perdedor, para um novo duelo — seria uma
“segunda instância” de julgamento. O que, certamente, aconselharia os árbitros
de duelos a frequentar cursos de equitação, uso da lança, espada, maça e
machado. Presumo que as ordálias desapareceram devido ao risco profissional.
Voltando
ao Nilsen, logo depois de minha chegada ao local onde se realizava o exame oral
dos candidatos, ele foi chamado.
Pelo
que depreendi, Nilsen saiu-se muito bem na inquirição dos examinadores.
Respondia com precisão e sem pressa, com altivez, muito assertivo. Não se
desculpava por falar com tanta segurança. Nunca dizia “a meu modesto ver”, ou
“estou inclinado a pensar que...” e frases assemelhadas, respondendo a
desembargadores — como é comum nesses concursos em que o candidato se preocupa
também em agradar . Mas com um deles houve um certo alvoroço. O magistrado,
antipatizando com o tom professoral do candidato — que parecia pretender saber
tanto ou mais que ele, sobre o tema em discussão — disse, encerrando sua
inquirição, que Nilsen “demostrava estudo” mas estava totalmente “equivocado”.
E disse isso com um sorriso condescendente, acrescentando a observação de que o
candidato, lendo com mais atenção um autor que citara, mudaria de opinião.
Disse, finalmente, que não tinha mais perguntas.
Antes que outro examinador se
manifestasse, Nilsen perguntou ao presidente da banca se poderia fazer uma
observação. O presidente, pensando que o candidato iria dizer algo agradável,
submisso, preocupado em ser aprovado na prova oral, concedeu-lhe a palavra. Se
conhecesse melhor o Nilsen não teria feito isso. O viking guerreiro embutido no
candidato veio à tona e, sem nervosismo, mas com argumentação pesada, citando
detalhes, procurou demonstrar, por a+b que estava certo e que o seu oponente, o
examinador, é que estava “equivocado”. Inclusive porque o jurista apoiado pelo
examinador já escrevera um artigo, mais recente, dizendo que estava enganado na
sua opinião anterior. Seguiu-se um quase bate-boca entre ambos, mas a “plateia”
parecia ser favorável ao candidato.
Nilsen,
eu soube dias depois, foi reprovado. A meu ver, pelo que ouvi, injustamente,
ainda que não possa garantir essa opinião, como disse, por falta de meu
conhecimento específico do detalhe causador da discórdia. Outros que assistiram
ao “duelo” verbal também se surpreenderam com a reprovação. Pelo menos em razão
da firmeza das respostas, sem entrar no seu mérito. Mas dias depois correu a
notícia de que sua não-aprovação resultou do exame psicotécnico: — “Componente
de agressividade muito elevado”. — Outros ainda asseguraram que foram seus
antecedentes, como policial, a causa da não-aprovação. Tais antecedentes
mostravam um temperamento “incompatível” com o tipo de personalidade serena,
aconselhável para um magistrado.
Talvez o fato que relatarei a seguir tenha
pesado contra sua pretensão de ser juiz. Em uma cidade do interior — onde
Nilsen era delegado — um valentão disse, em um bar, na presença de muitas
pessoas, que se encontrasse, por sorte, na calçada, o “temido” delegado Nilso”
— não sabia direito o nome dele —, “lhe daria uns bons tapas na cara para
deixar de ser besta”. Acontece que um mês depois o valentão foi preso em
flagrante por ter agredido alguém e conduzido à delegacia. Ao chegar, um
policial contou ao Nilson que o conduzido era aquele valentão que, em público,
prometera lhe dar uma surra.
Mal ouviu isso, o Nilsen,
convidou-o a cumprir o que prometera, dizendo-lhe que “hoje é seu dia de sorte,
me encontrou!”. Assim dizendo, tirou o
paletó e mandou o valentão entrar numa sala vazia. Entrou junto com ele e
ordenou aos demais policiais que não interviessem, em hipótese alguma.
Trancou-se com o detido e do lado de fora os policiais, com os ouvidos
encostados na porta, ouviam os ruídos de uma luta, prontos até para arrobá-la
caso os gemidos fossem identificados como sendo do delegado. Aberta a porta,
vários minutos depois, constataram que os gemidos não eram do delegado, que
estava apenas com a camisa rasgada e com alguns sinais de que o valentão não
apanhara sem reagir. Talvez esse incidente tenha chegado aos ouvidos de seus
superiores.
Poderia
continuar resumindo a filosofia de vida do falecido delegado. Daria um livro.
Suponho, no entanto, que o leitor não está interessado em conjeturas. O que
realmente o interessa é saber por que, afinal, Nilsen se matou.
Lamentavelmente,
não tenho essa informação. Poderia no máximo conjeturar quatro ou cinco motivos
prováveis, que tomariam um enorme espaço neste “conto” já longo demais. Depois
de conhecer, na internet, as motivações suicidas fiquei espantado com a
variedade de “motivos” que levam uma pessoa a se matar. Nem sempre é desespero,
ou falta de dinheiro, amor ou saúde. Se o leitor se interessa pelo tema, acesse
a Wikipédia, clicando “Lista de suicídios” e ficará abismado com a quantidade
de suicidas e métodos de execução de pessoas famosas, ou conhecidas do público,
que, por desespero, tédio de viver, ou calma e coerente filosofia preferiram
decidir, “soberanamente”, quando e como deixar esta vida. Entre os suicidas
existem milionários, grandes escritores, cineastas, políticos, atores,
cantores, cientistas e até Prêmio Nobel de Literatura. Embora possamos entender
porque muitos se mataram, porque o futuro seria só de humilhação — como foi o
caso de Hitler e outros ditadores —, há dezenas e dezenas de pessoas
vencedoras, ricas, realizadas. Nesses casos, certamente a causa terá origem
orgânica, talvez glandular. Se a pessoa tem tudo para ser feliz, e se mata
ainda moça, deve existir uma causa orgânica. A tal “depressão” deve servir como
alerta. Algo deve estar errado em seu corpo.
Essa explicação Nilsen guardou-a para
sempre. Para mim, o mundo perdeu um desconhecido grande homem que não teve
tempo suficiente para mostrar todo seu potencial.
Nilsen deveria ter sido militar. De
preferência em tempo de guerra. Chegaria a marechal. Nenhum “jogo de cintura”,
como se diz. Justamente por isso, reconheço aqui, por escrito, sua integridade.
Num
mundo povoado de trêfegos rebolantes, físicos e/ou morais, sempre atentos à
direção dos ventos, é um conforto encontrar uma forte personalidade. Nilsen
acreditava em enfrentar o mal. Se exagerou, cabe a cada leitor avaliar, pela
amostra aqui lida.
Pelo
jeito, morreu frustrado. Ou vitimado por uma inata inquietação interior. Mas se
existe uma sobrevida — pouco provável, mas altamente desejável — exigência de
justiça —, espero que nosso guerreiro, lá de cima, sinta algum conforto lendo
estas páginas que o colocam na minha galeria de heróis anônimos.
Desembargador aposentado
FIM
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