Uma pequena tragédia dos tempos modernos, para quem escreve, é a necessidade da mídia só tolerar artigos curtos porque, do contrário, não serão lidos. Quando curtos — dolorosamente simplificados —, os mais exigentes o criticam por serem “elementares”. A solução seria, dizem, colocar explicações mais elaboradas em livros. Mas quem lê os alentados livros de Economia? Só uns poucos economistas, como que conversando entre eles e quase sempre discordando, tanto no diagnóstico da “doença” quanto nos remédios.
Segundo George Bernard Shaw “se todos os economistas fossem postos lado a lado, nunca chegariam a uma conclusão”. Dir-se-á que ele era apenas um literato, mas J. K. Galbraith, economista mundialmente famoso, beirou o insulto ao dizer que “em economia a maioria está sempre errada”, e que “a economia é extremamente útil como uma forma de emprego”. Certamente estava irritado com os colegas.
Resultado: o “povão”, que só está interessado no que afeta diretamente seu bolso, individualmente, acaba definindo, com sua maior massa de votos — há mais eleitores “pobres” do que “ricos” —, como será, no futuro, a economia do país inteiro, comprometendo todas as classes sociais. Isso, claro, é teoricamente democrático — um homem, um voto, “a maioria tem sempre razão” —, mas nem sempre é a solução mais inteligente para um futuro seguro, porque essa maioria, ganhando a eleição, pode ter sido enganada, vítima da demagogia bem articulada e propagandeada. Além disso, discussões sobre economia, mesmo entre os mais competentes, frequentemente chegam a conclusões opostas.
Até hoje esquerda e direita, no mundo inteiro, falando pelas bocas mais sábias, divergem sobre o que fazer. Dificilmente transigem. Afinal, perguntamos: a Economia é uma ciência — embora “social’ —, ou uma liga de filosofia com literatura? Digo isso porque um certo talento literário contribui demais para que os leitores se inclinem mais para a esquerda ou para a direita, nos temas econômicos, fenômeno que amesquinha o suposto caráter frio e “científico” da Economia.
Quando Lula, um homem inegavelmente esperto, ou inteligente, ou malandro — escolham — soube, apenas de ouvido, que o presidente americano Franklin D. Roosevelt havia salvo a economia de seu país — e com isso, do mundo inteiro — usando uma receita de “emprego e trabalho a qualquer custo”, o líder petista não quis escutar mais nada: — “É com este que eu vou! Farei igual!”
Fez e deu certo, pelo menos por um longo período. Apostou no amparo do trabalhador e dos mais pobres. Nisso agiu com justiça. Estimulou o consumo interno e a maior produção para satisfazer esse consumo. Insistiu na internacionalização do Brasil, agindo como um “Tio Patinha”, ou Papai Noel, ajudando governos mais afinados com sua filosofia de governo e nisso exagerou. Em suma, acreditou na “economia otimista”, não na “pessimista”. Não sou um acompanhante, nem mesmo razoável, da evolução detalhada da nossa economia, mas presumo que a maioria dos economistas — no Brasil e no mundo —, pensava diferentemente de Lula no início, meio e final de seu governo.
A “receita” acadêmica tradicional à época, para as situações de crise, era apenas “disciplina” e “contenção”. Ele, porém, evitou jogar na “retranca”, conforme o linguajar futebolístico, tão de seu agrado. Fez o Brasil aparecer mais, na área internacional, e até foi elogiado festivamente, por Barack Obama, como sendo “o cara”.
Em suma, “o cara” agiu como um inovador, embora copiando a política do grande presidente americano — que também foi um inovador no seu tempo, com o “New Deal”. Roosevelt, segundo seus biógrafos, não confiava totalmente nas ortodoxias econômicas. Fazia “experimentos”, “testes”. Se não davam certo, mudava de táticas. E seu plano final mostrou-se correto porque quando um país qualquer está imobilizado, desmotivado, fechando fábricas e jogando milhões no desemprego, não será apenas com medidas de austeridade que ele voltará a crescer. Mendigo austero não deixa de ser mendigo. Punam-se os ladrões do dinheiro público — algumas poucas centenas de pessoas físicas — mas estimulem o trabalho dos milhões que não são ladrões e querem apenas emprego, alguma segurança e o suficiente pagarem suas despesas.
Tal imobilidade “desempregadora” só resultará em agitação, privação, desespero, e descrença na democracia. Foi o que aconteceu na década de 1920 e início da década seguinte, na Alemanha, , parindo um orador furibundo, Hitler, que provocou a 2ª Guerra Mundial, causando a morte de cerca de 50 milhões de pessoas. Hitler pôs os desempregados a trabalhar, principalmente na fabricação de armas. Era um modo de ocupar suas mãos e mentes. O problema surgiu bem depois, quando Hitler precisou decidir o que fazer com tanto armamento. Deixá-los enferrujar?
Realmente, a imobilidade de pessoas desempregadas não produz riqueza alguma. E o Brasil, agora — mais que nunca —, precisa crescer, enriquecer, inclusive para pagar suas dívidas, previstas na complexa legislação, desobedecida pelo próprio governo de base petista. Os desempregados estão comprando — quando ainda podem — o mínimo necessário para apenas continuarem vivas. E, mesmo estando ainda empregadas, as pessoas temem tanto o desemprego que só compram com extrema parcimônia. O resultado lógico — embora humanamente compreensível —, desse medo é o fechamento progressivo de fábricas e demais empresas. Com isso a arrecadação de tributos entra em queda. Mesmo os funcionários públicos — que pensavam estar plenamente protegidos pela legislação — constatam, assustados, que dinheiro, apesar de público, não cai do céu. Se o governo não arrecada, não há como continuar pagando o funcionalismo. E atrasos geram greves prolongadas, afetando a educação, a saúde pública e a segurança pública.
Em suma: tudo deve ser feito, no Brasil atual, para que o país volte a crescer, ainda que em ritmo lento. A tal bicicleta que não pode parar. Refiro-me à “pedalada” esperançosa, não à “pedalada fiscal”.
A brilhante intuição de F. D. Roosevelt — ele foi eleito presidente quatro vezes seguidas, morrendo pouco depois da última eleição — pode ser resumida na seguinte forma: — “Vou contratar esses milhões de desempregados para construir obras públicas úteis: estradas, aeroportos, portos, e tudo o mais que, por si só, será benéfico ao país. Recebendo um salário, eles farão compras, que serão tributadas normalmente, gerando receita. Essas obras — estradas, portos, aeroportos, etc. —, se não forem utilizadas de imediato, ajudarão meu país, futuramente”. E tais reflexões, ou assemelhadas, salvaram a “locomotiva” americana, bem como os inúmeros “vagões” europeus, por ela puxados.
O ex-Presidente Lula, ouvindo de seu assessor, no início de seu primeiro mandato, a história vencedora de Roosevelt, ficou tão entusiasmado que não teve paciência para escutar, ou entender, a “ideia inteira” do sensato americano: — “ Vou dar oportunidade de emprego para os desempregados, mas deles exigirei trabalho”.
Foi essa parte que Lula ou não ouviu. Ou ouviu mas achou muito complicado executá-la. Ou escutou mas decidiu ignorá-la porque, as variadas “bolsas”, enquanto existentes, significariam voto garantido para “meu bonito e longo projeto de governo” .
Em vez de contratar, ou estimular a contratação privada da mão de obra ociosa — pelo menos a masculina — Lula criou o hábito da dependência econômica. Essa dependência “não pode”, por necessidade eleitoral, ser interrompida, haja ou não dinheiro disponível no tesouro. Não havendo, surgem as “pedaladas fiscais”, infringindo a legislação, ensejando a atual batalha do impeachment.
Existem coisas, na política, que poucos sabem e que parecem inacreditáveis. Conversando casualmente com um taxista nordestino — sempre aprendo algo com taxistas — sobre essa ideia de o governo ajudar quem precisa mas, ao mesmo tempo, exigindo dele algum trabalho em troca, eu citei, como mero exemplo, que Lula poderia ter utilizado os nordestinos, desempregados, para trabalhar na abertura de milhares de poços, inclusive artesianos, e fabricando caçambas, ou algo equivalente, considerando o secular problema da seca. Ao que me consta, no nordeste brasileiro a terra é fértil, desde que irrigada. Seria um trabalho que não exige mão de obra especializada.
O taxista então me explicou algo estarrecedor: alguns políticos, não municipais, tiveram essa boa ideia mas os prefeitos das regiões secas — portanto a grande maioria —, boicotaram insistentemente a ideia de construir poços. Isso porque havendo falta d’água — nos sítios, fazendas e povoados —, os agricultores precisam dos “caminhões-pipas” das prefeituras. Recebendo água dos prefeitos, os “sedentos” ficam lhes devendo um favor. Favor que pagam com o voto na próxima eleição. Não recebendo os ditos caminhões, os sertanejos sentir-se-iam livres para votar conforme lhes parecesse melhor.
A não proliferação — deliberada — de poços e outras formas de armazenar água da chuva, perpetuando a sistemática do fornecimento da água com caminhões da prefeitura impediu que o sertanejo tivesse mais água para sua lavoura e gado. Com isso continuou a migração da população nordestina para o sudeste, aumentando o tamanho das favelas, com seus conhecidos problemas de tráfico e violência.
Como se vê, o mau-caratismo político, em todos os níveis, é um infindável problema, mas caberia ao Lula, quando no pico de seu prestígio, ter lutado contra isso, em vez de tirar proveito eleitoral — deliberado ou meramente oportunista —, desse sentimento até bonito chamado gratidão. Refiro-me à gratidão dos sertanejos que pediam e recebiam água dos prefeitos. Os pobres são muito mais gratos que os ricos, talvez porque são muito mais dependentes que os ricos.
O fato deste artigo mencionar a necessidade de conciliar a punição de erros governamentais passados com a necessidade de crescimento do país não implica em sugerir a dispensa do ministro da fazenda, Joaquim Levy. Pelo contrário, ele é um economista competente e íntegro. Gente assim, algo rara, não se dispensa jamais.
Embora a teoria econômica mais em voga — sempre há outras... — diga que crescimento e simultâneo controle da inflação são incompatíveis, sempre há espaço para variantes, como fez J. Delano Roosevelt. Joaquim Levy e o ministro do planejamento, Barbosa podem, talvez, encontrar uma saída combinada para a crise. Lembre-se que quando um país cresce na produção, se isso propicia uma inflação essa será provisória, porque o PIB também cresceu. O equilíbrio entre o meio circulante e a quantidade de bens existente ficará mantido, não havendo portanto inflação. Esta seria provisória, como certamente deve ter sido quando Roosevelt deu o impulso do seu país na busca da produtividade. Quanto à técnica da fixação dos juros, não opino, porque o assunto é mais complicado, mas uma coisa é certa: um país mais rico sempre se defende melhor das suas agruras econômicas.
Finalmente, umas poucas palavras sobre a CPMF, tão caluniada porque mal utilizada na versão anterior. Como já disse em artigos anteriores, esse é o imposto do futuro, que pretende ser o mais próximo possível do Imposto Único. Insonegável, tributa toda a população, por igual, quando faz pagamentos via cheque, transferência eletrônica e cartões de crédito e débito. “Se todos pagam, todos pagam menos” é um mantra elogiável.
Por que a população odeia tanto a ideia da nova CPMF? Porque lhe parece que será apenas “mais um imposto”, em momento de crise.
Querem, os políticos, tornar palatável a CPMF? Digam que ela terá a alíquota de 1%, ou 1,2 % , e que terá a duração de um ano, ou dois, mas no próprio texto da sua exigência ficará expresso que o Imposto de Renda da pessoa física e/ou o ICMS — ou outra solução técnica melhor — terá uma redução de x%, a partir da vigência da CPMS.
Se a população tiver a certeza de que sua carga tributária pessoal terá uma imediata e palpável redução — e o restante da arrecadação do “imposto do cheque” saneará as contas públicas —, encarará a CPMF com menos aversão. Quem hoje paga impostos conforme a lei deve se confortar com a ideia de que milhares — ou milhões? — de “contribuintes” que não contribuem passaram a contribuir, forçados, e que essa dinheirama toda vai direto para o tesouro, porque não há como sonegar.
Se a CPMF propiciar uma arrecadação próxima de um trilhão de reais, algum ou alguns tributos poderão ser extintos ou reduzidos em suas alíquotas. O que é prioritário é lutar pelo saneamento das contas públicas.
Em época de crises — as graves, porque com as pequenas já estamos habituados — é preciso algum sacrifício. Um por cento, em cada pagamento, por exemplo, não é um pagamento tão grande para sair do atual temporal que pode se tornar um furacão. Em restaurantes, a gorjeta obrigatória é de 10%. Na Revolução de 1932, em São Paulo, as pessoas davam suas joias, principalmente alianças, na luta contra Getúlio Vargas. Preferiam perder os anéis em lugar dos dedos. Tinham motivação. É preciso motivar, agora, os contribuintes, para que aceitem esse imposto que tenderá a se universalizar.
O que importa, no momento, é tirar o pé da lama, digo, da crise. Essa luta ficaria mais fácil se não fosse conduzida pela batuta do PT, cuja liderança hoje não inspira confiança. Mas, se não houver impeachment, nem renúncia, que Joaquim Levy dê uma espiada nas medidas utilizadas por Roosevelt, com adaptações para a economia brasileira.
E não me venham, os economistas, com objeções técnicas e estatísticas sob tal ou qual erro ou detalhe da minha exposiçãozinha despretensiosa. O que me interessa, aqui, é enfatizar que produzir, gerar riqueza, presente ou futura, é mais útil que ficar se lamentando. A orgulhosa Economia também erra, por vezes.
(26/10/2015)
terça-feira, 27 de outubro de 2015
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
Nobre missão para a ministra Carmem Lúcia, do STF.
A ANJ – Associação Nacional de Jornais — em 16/10/2015, na sede do
jornal “O Estado de S. Paulo”, entregou à ministra Cármen Lúcia, do STF, o
Prêmio ANJ de Liberdade de Imprensa.
A premiação, mais do que justa, foi motivada principalmente pela
atuação da ministra como relatora em Ação Direta de Inconstitucionalidade. Com
essa decisão foi abolida a exigência de autorização prévia para a publicação de
biografias. Frisou, o acórdão, que a Constituição Federal proíbe “toda e
qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”. S. Exa.,
realista, admitiu que a liberdade de expressão implica riscos de abuso mas que
a vida é uma “experiência de risco” e que havendo abuso caberá ao prejudicado
pleitear a indenização.
Figuras públicas, assim como ficam envaidecidas com os elogios devem
também tolerar críticas e exposições dos fatos mais negativos de suas vidas. A
menos que, frente a um espelho, enxerguem sempre um anjo. Devem se consolar com
a consideração de que, mesmo com as habituais fraquezas humanas, suas vidas
superaram a mediania, tanto assim que se tornaram famosos. É o que basta como
consolo. Se, porém, a biografia publicada pretende apenas caluniar e difamar, o
biografado terá sempre o direito de acionar a justiça. O STF apenas garante a
publicação sem autorização, não a impunidade.
Se o livro, publicado, já nas
primeiras páginas — e assim prosseguindo
nas demais —, revela a intenção, não de biografar, mas de insultar, seria
ingenuidade o juiz permitir a destruição injusta de uma reputação. Ele, juiz,
se tornaria, por omissão, quase coautor de um crime contra a honra. Honra que
dificilmente seria recuperada, conforme a velha comparação com as penas
espalhadas pelo vento.
Em uma hipótese obviamente extrema,
quase impossível, se um demandante, inconformado com a decisão final de um
tribunal, escrevesse, distribuísse e propagandeasse um livro ou livreto dizendo
que julgadores de seu caso venderam seus votos, estavam embriagados na sessão
de julgamento, gritavam palavrões e rasgavam petições em lugar de indeferi-las,
dificilmente os magistrados acusados deixariam de — com máxima urgência — requerer
a busca e apreensão liminar da edição louca. Isso porque tal omissão desmoralizaria
um poder — o judiciário — que depende, mais do que os demais, da confiança da sociedade.
Em suma, os livros e artigos
podem ser publicados sem autorização prévia, mas os abusos podem ser cerceados
antes que se propaguem . Tarefa difícil, em alguns casos? Sim. O juiz teria que
ler boa parte do livro para concluir se havia apenas a intenção de desmoralizar.
Felizmente, mesmo os caluniadores por vocação sabem que uma obra mentirosa resultará
em desmoralização do autor, gastos inúteis e talvez algum tempo na cadeia.
Entro, agora, na “nobre missão” da ministra Cármen Lúcia, conforme
título deste artigo. Alguém já disse — se não disse, digo eu — que se for
necessário um ato revolucionário, espetacular, mas de breve duração, convoque-se
um homem. Se necessário, porém, uma ideia prática e sensata, convoque-se uma
mulher. As guerras, por exemplo, teriam sido em muito menor número se os países
fossem governados por mulheres. Nada contra os homens, meus irmãos de gênero, mas
as mulheres, quando determinadas, são mais persistentes e organizadas.
Reproduzo, abaixo, com ligeiras alterações, o que já publiquei, pouco
tempo atrás, no meu blog e site. Proponho uma lei — ou, pelo menos, uma aprovação
doutrinária, ou jurisprudencial, no STF —, que diminua a intimidação econômica
contra jornalistas e jornais que gostariam de publicar o que sabem ser verdade
mas temem figurar como réus em demoradas ações de indenização por dano moral. Prevendo
grandes prejuízos e “demandas eternas” — mesmo narrando a presumível verdade,
obtida de fontes confiáveis —, optam por silenciar. E isso é mau para o país,
que não fica conhecendo a sujeira embaixo do tapete.
Vejamos a fundamentação da proposta, expressa em forma coloquial,
compreensível por pessoas sem formação jurídica especializada. As repetições podem
ser, talvez, desculpadas pela boa intenção de melhor convencer. A concisão
técnica é recomendável para leitores igualmente técnicos, mas não para o
público em geral. No artigo eu dizia que:
“Não obstante nossa “total” liberdade de opinião, na mídia em geral,
essa liberdade é fictícia, parcial e preocupante — mesmo quando exercida sem
abuso — devido a uma possível e cômoda ação de “indenização por dano moral”.
Ação movida por quem errou, sabe que errou, continua errando, mas pretende
silenciar um jornal, revista ou outra forma de comunicação, utilizando uma
ameaça econômica de resultado impossível de prever.
“O presente artigo sugere uma modificação legislativa que funcionaria
como desestímulo para tais ações indenizatórias quando elas visam apenas intimidar
o réu. Ao mesmo tempo, essa lei, aqui acenada, teria o bom efeito colateral de
desestimular, na mídia, críticas desnecessariamente ácidas, com ofensas
pessoais que aproveitam a oportunidade da crítica — mesmo veraz — para insultar
e desmoralizar a pessoa ou entidade criticada. A tentação do o abuso é uma
constante na história do Direito.
“Atualmente, no Brasil, uma notícia ou opinião desfavorável contra uma
pessoa “importante”, física ou jurídica, pode resultar em pesadelo para o
jornalista ou o jornal. O criticado alega, na ação, ter sofrido dano moral.
Ação que pode demorar vários anos, principalmente quando o criticado sabe que o
crítico tem razão mas “precisa ser silenciado a qualquer custo”. Nesses casos,
quanto mais tempo demorar a demanda, melhor para o Autor, o criticado, porque
sua verdadeira intenção é tirar o assunto do noticiário. A técnica da
protelação nem sempre é utilizada pelo réu em uma demanda. Há protelações em
que o autor é o interessado. Sua intenção oculta é de travar a atividade lícita
do réu.
Um detalhe técnico, jurídico-processual, que facilita a intimidação
de jornalistas, e estimula o abuso da pessoa criticada pelo jornal, está na
permissão de o Autor da ação dar à causa um valor mínimo, “simbólico”, como,
por exemplo, R$1.000,00, deixando, astutamente, “a critério de Vossa Excelência
(o juiz cível) fixar o valor da indenização”.
Esse “valor simbólico” representa uma
enorme vantagem psicológica para o criticado, Autor da ação, porque caso
ele perca a demanda — como ele mesmo prevê —, sua condenação pela “sucumbência”
será mínima, ridícula. Pela legislação em vigor a condenação em honorários
varia de 1% a 20% do valor da causa. No caso, mil reais. Mesmo que o juiz
desconsidere o “valor simbólico”, quando decide que o jornal não cometeu abuso,
o valor da “sucumbência” será muito baixa e esse dinheiro pertencerá apenas ao
advogado do jornalista, não ao jornalista.
Mesmo quando a sentença reconhece a má-fé do Autor, a eventual multa
imposta a ele é risível. No novo CPC, a entrar em vigor em 2016, a multa máxima
contra a má fé é de dez vezes o salário mínimo. Uma bagatela que estimula o
abuso de quem errou, sabe disso mas não
quer perder dinheiro significativo quando a justiça finalmente decidir que o
jornalista ou articulista apenas cumpriu sua missão de informar.
Todos os que frequentam o fórum sabem que a condenação por
“litigância de má-fé” é pouco utilizada nessas ações, considerando que a
sensibilidade moral é muito variável e subjetiva. As pessoas sentem as críticas
em graus diferentes e, na dúvida, o juiz não condena como “litigante de má-fé”
quem procura a justiça dizendo-se ofendida com um artigo de jornal ou revista.
E se o juiz aplicar essa condenação contra o Autor que foi “sensível demais”
essa sanção torna-se uma oportunidade ideal para o Autor recorrer
indefinidamente alegando que não agiu de má-fé. Dirá, nos recursos
protelatórios, que apenas exerceu o seu direito de discutir judicialmente uma
ofensa à sua particular sensibilidade moral.
Enquanto o processo se arrasta, por anos e anos, prolonga-se o
desconforto psicológico do jornalista que agiu corretamente, sem direito, no
entanto, de pedir qualquer indenização pela sua angústia porque o processo em
que foi réu ainda não transitou em julgado. Só depois desse trânsito em julgado
é que o réu, jornalista, poderia tentar receber uma indenização do autor da
ação, a pessoa criticada. Provavelmente o jornalista já estará morto quando
surgir essa oportunidade.
É, portanto, de máxima conveniência e praticidade, que o legislador —
ou pelo menos a jurisprudência do STF — conceda ao Réu, jornalista, nas ações
de indenização por dano moral pela imprensa, o direito de, citado, apresentar
“reconvenção”. Esse instituto jurídico, a “reconvenção”, já existe, há décadas
no direito brasileiro, permitindo que o Réu, quando demandado, possa
defender-se e simultaneamente atacar quem o está processando, dentro do mesmo
processo, por economia processual, desde que a reconvenção tenha relação com o
pedido de indenização.
Com essa alteração aqui proposta, o réu, jornalista, no caso de
indenização por dano moral, teria o direito de cobrar do Autor, via
reconvenção, igual indenização, ou outra que considerar mais pertinente —
também por dano moral —, só pelo fato dele, jornalista, ser processado sem
motivo honesto. Sem a necessidade — conforme sugere a legislação atual — do
jornalista aguardar o distante “trânsito em julgado” da ação movida pela Autor
e julgada improcedente, para só então ingressar com sua cobrança de danos
morais contra o Autor.
Impossível negar que é constrangedor figurar como réu numa ação de
indenização por danos morais. Principalmente quando não se sabe qual a quantia
que virá à cabeça do magistrado ao impor uma condenação pecuniária.
“Ponha-se, o leitor, na pele de um jornalista que foi citado,
judicialmente, para pagar, digamos, uma indenização de cinco milhões de reais,
porque não comprovou uma falcatrua — ouvida de fonte confiável mas também
temerosa de processo. Essa ameaça tira-lhe todo o estímulo para o jornalismo
investigativo. E pode ocorrer que, devido a globalização, a ação por danos
morais seja processada em país estrangeiro propensa a indenizações bilionárias
nesses casos.
“O jornalista Paulo Francis, por exemplo, na década de 1990, foi
condenado, pela justiça americana, a pagar uma indenização de cem milhões de
dólares (?!) por ter mencionado — em entrevista, ou artigo —, que a diretoria da
Petrobrás, teria desviado altas somas da empresa para contas particulares, em
banco suíço. Como ele não comprovou em juízo esse desvio — o sigilo bancário
era então inviolável —, foi condenado a pagar os cem milhões de dólares. Ele
justificava-se, no decorrer da demanda, dizendo que ao fazer suas denúncias
pensava que o governo brasileiro iria investigar o fato, como seria esperável,
mas isso não ocorreu. O processo correu nos EUA porque a entrevista dele, na
televisão, foi exibida e produziu consequências naquele país.
“Não
digo aqui se Paulo Francis tinha, ou não, fundamento no que disse contra a
diretoria de então, mas de qualquer forma, é impossível escapar da
insônia com uma espada desse porte pendente sobre o pescoço de qualquer
jornalista ou dono de jornal. Não é necessário sofrer vários anos de angústia
para, só depois, ter o direito legal de requerer uma indenização por dano moral
de alguém que o processou sem razão, quando essa sem-razão foi finalmente
reconhecida pela justiça. Como não provou o desvio do dinheiro, Paulo Francis foi
condenado. Não sei como tudo terminou. Talvez isso tenha apressado a sua morte,
por enfarto. Seus amigos diziam que ele ficou realmente abalado.
Em toda demanda judicial deve estar presente a sábia recomendação de
Voltaire: “A vantagem (ou lucro) deve ser igual ao perigo”. Em outras palavras:
“Vou colocar esse jornalista na fogueira, mas não posso abusar porque poderei
ser eu o queimado vivo”.
Hoje, repita-se, esse equilíbrio de forças — ou angústias — não
existe. O escritor ou jornalista que só apontou fatos, a seu ver verdadeiros — sendo
isso reconhecido na sentença — nada ganhará, judicialmente, como compensação
pelo sofrimento moral durante o processo em que sofreu injustamente.
“Há mais a ser modificado com essa futura lei. Ela exigirá que em
toda ação de indenização por dano moral o Autor será obrigado a mencionar, na
petição inicial, o valor que pretende receber do Réu, não podendo deixar isso “a
critério do juiz”, na sentença. Essa atual vagueza em definir sua “dor moral”
estimula ações levianas, porque, no caso de insucesso, a sucumbência em
honorários será, como já disse, mínima. Já que toda dor moral é subjetiva,
ninguém melhor que o próprio sofredor para mencionar o “quanto” sente,
assumindo o risco correspondente no que se refere à sucumbência.
Essa desejável e futura obrigatoriedade legal de o autor fixar,
já na inicial, o valor da indenização que pretende a título de dano moral, força-o
a agir com responsabilidade no combate judicial. A menção obrigatória desse
“quantum” indenizatório, teria também a vantagem de permitir a qualquer
Réu, quando demandado, abster-se de contestar a ação, quando o valor
mencionado for mínimo, não justificando maiores gastos com sua defesa. Como
está hoje a legislação — ensejando ao Autor não quantificar o valor que
pretende cobrar —, todo Réu sente-se forçado, por mera prudência, a contestar
qualquer ação de danos morais, mesmo que a considere risível. Contesta porque
se não o fizer, a ação será julgada procedente, face à revelia. Se procedente a
ação, na sentença, é imprevisível o valor da indenização que o juiz mencionará
na sua decisão. A indenização pode ser altíssima, por motivos ideológicos do
juiz, talvez inconsciente. Isso é pouco provável, mas pode ocorrer. Em todo ser
humano, sem exclusão de magistrados, motivações inconscientes influem nos
julgamentos. Todos sabem que há magistrados mais e menos humanos, mais e menos
de “direita” ou de “esquerda”, mesmo sendo ambos íntegros.
“A lei a ser proposta terá a virtude “extra” de forçar maior
urbanidade, ou compostura, nas críticas, impressas ou orais, contra
pessoas ou instituições. Isso porque, se os fatos criticados forem verdadeiros,
mas o crítico aproveitou a oportunidade para enxovalhar o criticado, buscando
admiração pela agressividade, ele será condenado a pagar uma indenização a ser
fixada pelo juiz. Não pela crítica — na essência verdadeira —, mas pela forma
abusiva de se expressar, ofendendo desnecessariamente quem eventualmente errou.
Enfim, essa lei terá também algum um “efeito colateral” civilizador. O direito
de livre crítica, reconhecido mundialmente, foi concebido “para o bem”, não
como oportunidade para, impunemente, ofender e desmoralizar.
“Finalmente, uma última sugestão, para a mesma desejada lei. Nas
“reconvenções”, genericamente falando, diz a doutrina que, se o Autor da ação,
depois de citado na reconvenção, resolve desistir da sua ação, o Réu,
reconvinte, poderá prosseguir na sua ação contra o Autor. É o caso de alguém
que está sendo cobrado como devedor de quantia, em um negócio, e que reconvém
dizendo que é o Autor que lhe deve dinheiro.
“Nas ações de dano moral a lei sugerida dirá que se o Autor da ação
desistir da ação, após citado na reconvenção — também por danos morais —, a
ação será encerrada, com extinção tanto da ação quanto da reconvenção. Isso
porque a possibilidade — dada ao Réu, genericamente, pelo instituto da
reconvenção —, de prosseguir na reconvenção inibirá o Autor de desistir de seu
pedido. Não interessará a ele passar de Autor (na ação) e Réu (na reconvenção)
a ser somente Réu( na reconvenção). A lei deve estimular a concórdia, não a
litigiosidade. É uma solução que me parece melhor, mesmo porque o “sofrimento
psíquico” do jornalista será mínimo, ante a rápida desistência do pedido do
Autor.
E fiquemos por aqui. A atarefada e competente ministra tem mais o que
fazer, não podendo perder tempo com esparramadas dissertações.
Minha esperança é que, além da operosa ministra, algum legislador, ou
a ANJ ,ou a ABI – Associação Brasileira de Imprensa, se interessem pelo tema.
(20-10-2015)
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
Informações mendazes sobre Síria e Putin
É impressionante a quantidade de má-informação que circula na mídia, mundial e brasileira, a respeito do que ocorre na Síria. Tudo indica que nessa má informação está inserido um projeto bem elaborado e tenaz de um notório inimigo dessa nação árabe, Israel. Uma caricatura política hostil, engenhosa, contra a Síria — aliada do Irã — logo acompanhada pelos Estados Unidos e seus seguidores europeus, um tanto primários quando comparados com os estrategistas israelenses. Frise-se que nada acontece, no Oriente Médio, capaz de afetar Israel de algum modo, sem o conhecimento de seus órgãos de informação e segurança — usada esta palavra em seu significado mais abrangente.
Interesses americanos e europeus, desvinculados de um mínimo de preocupação ética e senso de justiça, deformam a realidade de um país e de seu governante, Bashar Assad, descrevendo-o como um “inimigo” de seu próprio povo. Pretendem, pela mera repetição diária — contando com ouvidos e olhos mal informados —, atingir esse objetivo. Até agora tiveram sucesso porque a Síria não dispõe nem de uma poderosa e rica mídia própria nem da imprensa internacional, ao contrário de seus opositores. A maior parte dos redatores de jornais e revistas não se atreve a contrariar seus patrões.
Apenas Putin, hoje, defende corajosamente o presidente sírio que estudou para ser um pacífico oftalmologista mas acabou como sucessor de seu pai, quando o irmão —, escolhido para substituir futuramente o pai —, faleceu em um acidente automobilístico. Por dever filial, abandonou a medicina e, de uns tempos, para cá passou a ser carimbado, por conveniência de seus inimigos, como “assassino” de seu próprio povo. Em situações políticas muito complexas, multifacetadas, sempre há algum “material” disponível para descrever políticos conforme o gosto do freguês.
“Assassino”, Assad, por quê? Porque defende, com evidente risco de vida — lembram-se do linchamento de Kadafi? — seu mandato de presidente sírio, eleito em dois referendos (2000 e 2007) e uma eleição (2010)? “Assassino”, porque defende a soberania de seu país? Porque nega-se a renunciar ao cargo, obedecendo a seus inimigos externos, acima mencionados? “Assassino”, porque um percentual desconhecido de cidadãos sírios, na vasta e vaga “Primavera Árabe” exigia genericamente mais democracia no sempre e convulsionado Oriente Médio?
Pergunta-se: antes da maciça hostilização internacional e cerco econômico contra Bashar Assad — pelos EUA e seu discreto conselheiro político, Israel —, os americanos se preocuparam, por acaso, em consultar a população síria para verificar se ela era majoritariamente favorável à saída de Assad? Se perguntassem, a resposta seria negativa, tudo indica.
A propósito, no Brasil — onde estão abrigados milhares de refugiados sírios —, dois ou três institutos de pesquisa de opinião bem que poderiam consultar esses refugiados sobre o grau de aprovação e rejeição de Assad antes que seus opositores “exigissem” sua saída em nome da democracia. Claro que agora, depois de instalado o inferno no país, ninguém mais quer permanecer na Síria. Não por medo de Assad, mas por medo do que virá depois dele.
Arrisco dizer que se todos os sírios que hoje fogem em debandada pelo mundo — fugindo do aterrorizante Estado Islâmico — fossem indagados se viviam relativamente felizes durante o governo de Bashar Assad — antes da “Primavera Árabe” —, a resposta seria favorável ao “tirano”. Isso porque o “tirano” vinha impulsionando o país no sentido da modernidade, do laicismo, separando a religião do estado, diminuindo progressivamente a pesada influência do lado mais negativo do islamismo. Essa religião tem o seu lado positivo, espiritualmente confortador, mas ultimamente tem mostrado uma faceta irracional, intolerante e impiedosa. É o chamado Estado Islâmico, ou ISIS, cuja simples menção gela a espinha das pessoas mais sensíveis.
Em passado não tão distante, reconheça-se, católicos e protestantes se matavam na Europa. Isso terminou em definitivo, há inúmeras décadas. Nos dias atuais a “vertente” Estado Islâmico supera, no item violência, todas as religiões mais violentas do passado, somadas. Nenhuma outra usa a decapitação lenta, com faca, por vezes manejada por crianças fanatizadas, como já foi noticiado e mostrado na televisão.
O terror difundido pelo ISIS é tão penetrante que endurecidos militares, de todos os países, têm medo de se envolverem em combates, no solo, contra esses terroristas . A explicação é simples: nas guerras normais, mais ou menos “civilizadas”, o soldado capturado dispõe da proteção de tratados internacionais, preservando sua vida e integridade física. Com o Estado Islâmico isso não ocorre. O prisioneiro de guerra pode ser degolado ou sumariamente abatido com um tiro na nuca, ou coisa ainda pior. Se for cercado, preferirá se matar antes que comece seu particular martírio. É até surpreendente que, segundo notícia recente, veteranos russos que combateram no Leste da Ucrânia tenham se prontificado a ajudar, no solo, o exército sírio na luta contra o Estado Islâmico, que não esconde seu intuito de aterrorizar.
Algum tolo imagina que, com a deposição e fuga de Assad — ele terá que fugir rápido, se não quiser ser morto no estilo mais cruel — a Síria ingressará em bonita e respeitosa democracia? Acreditam que haverá uma partilha cavalheiresca do poder entre os “moderados” opositores sírios, os “meigos” combatentes da Al-Qaeda, os “bondosos” integrantes do Estado Islâmico, os militares americanos, os assessores israelenses, os curdos, os combatentes do Hezzbolah, e tudo o mais imaginável naquela região conhecida por sua “tolerância”? Para os Estados Unidos a Síria será um Iraque triplicado, que não conseguirá administrar. Por isso, vai se arrepender pela má orientação recebida. Um novo e confuso atoleiro americano na política externa é previsível se houver a rendição de Assad.
A oposição síria — todo país, ditadura ou democracia, têm oposição, “faz parte” — era, por acaso, majoritária antes da “Primavera Árabe”? Não se sabe. Pelo que deduzo, pelo razoável acompanhamento diário do que ocorre no mundo, não. Não houve qualquer sondagem, formal ou informal, sobre o grau de aprovação interna de Assad naquele momento. Seria tal aprovação de 70%, 80%? O governo Obama, por acaso, se preocupou com esse “detalhezinho” antes de “concluir e decidir” que Assad “tinha que sair”, violando a soberania de um país?
O proclamado desejo americano de instalar, à força, na Síria, uma democracia universal, no estilo norte-americano — extremamente dependente do financiamento de campanhas —, não pode prevalece sobre o direito de autodeterminação dos povos. As regiões do planeta diferem muito em termos de história, tradição, religião, hábitos políticos, utilização da violência, etc. E não se alegue que não seria possível fazer essa prévia sondagem na Síria, via plebiscito, porque Assad era um “ditador” e deformaria seu resultado. Os EUA não ofereceram qualquer oportunidade à Síria para comprovar suficiente apoio da sua população antes que a oposição, financiada, treinada e armada pela CIA, partisse para o ataque.
Sondagens modernas de opinião pública, a cargo de entidades especializadas, são impressionantemente precisas, com margens de erro de 3%. Não seria imprescindível um plebiscito conduzido pelo “suspeito” governo sírio. O governo Obama não se interessou por conhecer — mesmo informalmente — a preferência da população. Talvez porque havia o forte risco da pesquisa demonstrar que os sírios prefeririam viver como viviam até então, não trocando o certo pelo duvidoso. Se a pesquisa especializada dissesse que a oposição ao governo não chegava a 20% isso atrapalharia demais o plano de uso da força para tirar Assad do poder. Teriam que forjar outra justificativa.
Tudo indica que a meta oculta da derrubada de Assad é isolar o Irã, fiel aliado da Palestina árabe, que não consegue um status de país porque isso não interessa a Israel. O governo israelense, de direita radical, não se volta contra Assad por ser ele um ditador. Mesmo que a Síria vivesse uma democracia plena — mas apoiando o Irã — ela seria atacada. Sendo, porém, um regime “duro”, tanto melhor para os Estados Unidos e Israel, porque a opinião pública mundial sempre vê as ditaduras, ou meia-ditaduras, com antipatia.
Outras perguntas podem ainda ser feitas àqueles que exigem a renúncia ou derrubada de Bashar Assad. As perguntas são as seguintes: Afeganistão e Iraque ficaram melhores após a invasão liderada pelos Estados Unidos? Só um e louco e mentiroso diriam que sim. A Líbia ficou pacificada e próspera após a queda de Kadafi? Ficou muito pior, uma tremenda anarquia, o país africano árabe voltando à luta tribal. O Egito, após a queda de Mubarak por acaso tornou-se modelo de país democrático, respeitando o resultado da única eleição presidencial? Não. O presidente eleito, Morsi, foi deposto e condenado à morte pelos militares porque teria incentivado a população, em praça pública, a desobedecer às forças armadas.
Outra pergunta, mais teórica: os EUA, só pelo fato de serem a maior potência do planeta, tem o direito de dizer “quem fica ou sai” no governo de qualquer país? A ideia, nada modesta, do “excepcionalismo” norte-americano é uma “ordem” — como Obama parece pretender — ou apenas um bom exemplo a ser eventualmente imitado — porém voluntariamente — por outros países, considerando as vantagens de uma democracia verdadeira e não corrupta? A experiência, até agora, sobre essa matéria, é a de que o governo americano aprova ou desaprova governos com fragilidades democráticas segundo os interesses americanos do momento. Por exemplo, nunca tentou derrubar o chileno Pinochet. Pelo contrário.
Bashar Assad, feliz ou infelizmente, encontrou uma ajuda que lhe possibilita, talvez, uma precária sobrevivência: o “quase-tirano”, Vladimir Putin. Um chefe de estado também bastante injustiçado no conjunto de seus defeitos e qualidades. Tem seus defeitos — como todos os demais chefes de estado e de governo, sem exceção — mas não abandona povos indefesos vitimados pela injustiça. Lembre-se, sempre, que Putin está auxiliando abertamente a Síria porque seu governo está sendo atacado e pediu essa ajuda. Isso é legitimado pelo Direito Internacional. Ao contrário dos EUA e sua “patota” sem opinião própria, que interfere na Síria, justamente para derrubá-lo, sem autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A oposição “moderada”, todos sabem, é treinada, armada e financiada pela CIA, conforme amplamente divulgado pela mídia independente.
Putin é muito criticado porque teria “invadido a Ucrânia” e se “apoderado” da Criméia. Na verdade, ele apenas atendeu à vontade explícita — em plebiscito e pedido formal —, dos habitantes da Criméia, de origem russa, em sua maioria falando o russo. Não tapou os ouvidos nem fechou os olhos ao apelo de milhares de ucranianos. Ele fez, na Criméia, o que os EUA fariam no México, se milhares de mexicano de origem americana, loiros e falando inglês, morando junto à fronteira americana, pedissem ajuda e cidadania americana contra um governo mexicano hostil à sua origem americana. Acresce que um presidente ucraniano eleito, favorável à Rússia — Viktor Yanukovich —, foi arrancado do poder, pela força, não muito tempo antes dos habitantes da Criméia pedirem a Putin a cidadania russa. Cabe, aqui, de novo, a velha máxima da filosofia política: não é o povo o titular primeiro do poder?
Colunistas de jornais, quase sempre com sobrenome de origem hebraica, costumam, nos seus artigos, rotular Putin como “astuta raposa” em busca de cartaz e tentando ressuscitar a glória dos tempos de Stálin. Se ele é raposa, é uma raposa coerente, solidária com o esquecido e humilhado povo palestino, a origem remota do imbróglio em que se tornou o Oriente Médio. A Al Qaeda é um subproduto da situação palestina.
Poucos dias atrás, li, na internet, uma inteligente analogia do que aconteceu com a “maré” de judeus que buscavam um lar na Palestina: imaginemos um hotel em chamas (seria a Europa antissemita dos anos 1930); um hóspede judeu, que está no terceiro andar do hotel, encontra-se na sacada, encurralado e apavorado, prevendo que logo morrerá queimado; a única alternativa é pular da varanda, porque não dá para esperar a chegada dos bombeiros; decide arriscar; salta, de olhos fechados, e, por mero acaso, cai em cima de um passante (seria um palestino), que ficou a com vários ossos quebrados mas salvou, até mesmo involuntariamente, a vida do judeu, amortecendo sua queda.
O judeu, pouco machucado, vai embora, feliz por estar vivo, e três meses depois recebe a visita do “palestino-amortecedor”, que chega de muletas e pede uma indenização porque quase não pode trabalhar. O judeu diz que não pode ajudá-lo porque não agiu com dolo, não sendo exigível que se deixasse torrar na varanda, só para não incomodar algum eventual transeunte. O palestino argumenta que o fogo no hotel não foi ateado por ele. O judeu se irrita, diz que também não foi ele que incendiou o hotel. A trágica discussão dura bem mais de meio século. E o palestino continua de muleta, arrastando-se em uma vida miserável enquanto o paraquedista sem paraquedas mostra ao mundo sua orgulhosa riqueza.
Até quando? Quando o mundo — muito burro, sem imaginação — concluir: primeiro, que a Palestina é pequena demais para abrigar duas nações de formação tão diferenciada; segundo, que a África é imensa e poderia comportar mais de cinquenta Palestinas; terceiro, que Obama melhor faria se — como fez com recente proposta de “Parceria Transpacífico” — lançasse a poderosa e salvadora ideia de utilizar uma pequena fração da África — sem prejuízo dos africanos — para ali viver, trabalhar e progredir uma parte da população palestina, ou da população judia, desafogando a semiárida
Palestina que, pelo andar da carruagem, poderá detonar terceira guerra mundial.
Obama, com tal inovadora, bela e estrondosa iniciativa, aqui sugerida — solucionando o impasse palestino —, recuperaria seu prestígio mundial, muito abalado nos últimos anos. Quem sabe o Putin, esse baixinho inteligente, sendo mais ousado que seu equivalente americano, passará a remoer esse tema. A solução concreta ainda demoraria, pela complexidade, mas os interessados pelo menos saberiam que havia um futuro estimulante e já ocupariam o tempo fazendo estudos e visitando a África. Quem agir primeiro difundindo essa ideia merecerá um Nobel da Paz. Até dois.
(11-10-2015)
Interesses americanos e europeus, desvinculados de um mínimo de preocupação ética e senso de justiça, deformam a realidade de um país e de seu governante, Bashar Assad, descrevendo-o como um “inimigo” de seu próprio povo. Pretendem, pela mera repetição diária — contando com ouvidos e olhos mal informados —, atingir esse objetivo. Até agora tiveram sucesso porque a Síria não dispõe nem de uma poderosa e rica mídia própria nem da imprensa internacional, ao contrário de seus opositores. A maior parte dos redatores de jornais e revistas não se atreve a contrariar seus patrões.
Apenas Putin, hoje, defende corajosamente o presidente sírio que estudou para ser um pacífico oftalmologista mas acabou como sucessor de seu pai, quando o irmão —, escolhido para substituir futuramente o pai —, faleceu em um acidente automobilístico. Por dever filial, abandonou a medicina e, de uns tempos, para cá passou a ser carimbado, por conveniência de seus inimigos, como “assassino” de seu próprio povo. Em situações políticas muito complexas, multifacetadas, sempre há algum “material” disponível para descrever políticos conforme o gosto do freguês.
“Assassino”, Assad, por quê? Porque defende, com evidente risco de vida — lembram-se do linchamento de Kadafi? — seu mandato de presidente sírio, eleito em dois referendos (2000 e 2007) e uma eleição (2010)? “Assassino”, porque defende a soberania de seu país? Porque nega-se a renunciar ao cargo, obedecendo a seus inimigos externos, acima mencionados? “Assassino”, porque um percentual desconhecido de cidadãos sírios, na vasta e vaga “Primavera Árabe” exigia genericamente mais democracia no sempre e convulsionado Oriente Médio?
Pergunta-se: antes da maciça hostilização internacional e cerco econômico contra Bashar Assad — pelos EUA e seu discreto conselheiro político, Israel —, os americanos se preocuparam, por acaso, em consultar a população síria para verificar se ela era majoritariamente favorável à saída de Assad? Se perguntassem, a resposta seria negativa, tudo indica.
A propósito, no Brasil — onde estão abrigados milhares de refugiados sírios —, dois ou três institutos de pesquisa de opinião bem que poderiam consultar esses refugiados sobre o grau de aprovação e rejeição de Assad antes que seus opositores “exigissem” sua saída em nome da democracia. Claro que agora, depois de instalado o inferno no país, ninguém mais quer permanecer na Síria. Não por medo de Assad, mas por medo do que virá depois dele.
Arrisco dizer que se todos os sírios que hoje fogem em debandada pelo mundo — fugindo do aterrorizante Estado Islâmico — fossem indagados se viviam relativamente felizes durante o governo de Bashar Assad — antes da “Primavera Árabe” —, a resposta seria favorável ao “tirano”. Isso porque o “tirano” vinha impulsionando o país no sentido da modernidade, do laicismo, separando a religião do estado, diminuindo progressivamente a pesada influência do lado mais negativo do islamismo. Essa religião tem o seu lado positivo, espiritualmente confortador, mas ultimamente tem mostrado uma faceta irracional, intolerante e impiedosa. É o chamado Estado Islâmico, ou ISIS, cuja simples menção gela a espinha das pessoas mais sensíveis.
Em passado não tão distante, reconheça-se, católicos e protestantes se matavam na Europa. Isso terminou em definitivo, há inúmeras décadas. Nos dias atuais a “vertente” Estado Islâmico supera, no item violência, todas as religiões mais violentas do passado, somadas. Nenhuma outra usa a decapitação lenta, com faca, por vezes manejada por crianças fanatizadas, como já foi noticiado e mostrado na televisão.
O terror difundido pelo ISIS é tão penetrante que endurecidos militares, de todos os países, têm medo de se envolverem em combates, no solo, contra esses terroristas . A explicação é simples: nas guerras normais, mais ou menos “civilizadas”, o soldado capturado dispõe da proteção de tratados internacionais, preservando sua vida e integridade física. Com o Estado Islâmico isso não ocorre. O prisioneiro de guerra pode ser degolado ou sumariamente abatido com um tiro na nuca, ou coisa ainda pior. Se for cercado, preferirá se matar antes que comece seu particular martírio. É até surpreendente que, segundo notícia recente, veteranos russos que combateram no Leste da Ucrânia tenham se prontificado a ajudar, no solo, o exército sírio na luta contra o Estado Islâmico, que não esconde seu intuito de aterrorizar.
Algum tolo imagina que, com a deposição e fuga de Assad — ele terá que fugir rápido, se não quiser ser morto no estilo mais cruel — a Síria ingressará em bonita e respeitosa democracia? Acreditam que haverá uma partilha cavalheiresca do poder entre os “moderados” opositores sírios, os “meigos” combatentes da Al-Qaeda, os “bondosos” integrantes do Estado Islâmico, os militares americanos, os assessores israelenses, os curdos, os combatentes do Hezzbolah, e tudo o mais imaginável naquela região conhecida por sua “tolerância”? Para os Estados Unidos a Síria será um Iraque triplicado, que não conseguirá administrar. Por isso, vai se arrepender pela má orientação recebida. Um novo e confuso atoleiro americano na política externa é previsível se houver a rendição de Assad.
A oposição síria — todo país, ditadura ou democracia, têm oposição, “faz parte” — era, por acaso, majoritária antes da “Primavera Árabe”? Não se sabe. Pelo que deduzo, pelo razoável acompanhamento diário do que ocorre no mundo, não. Não houve qualquer sondagem, formal ou informal, sobre o grau de aprovação interna de Assad naquele momento. Seria tal aprovação de 70%, 80%? O governo Obama, por acaso, se preocupou com esse “detalhezinho” antes de “concluir e decidir” que Assad “tinha que sair”, violando a soberania de um país?
O proclamado desejo americano de instalar, à força, na Síria, uma democracia universal, no estilo norte-americano — extremamente dependente do financiamento de campanhas —, não pode prevalece sobre o direito de autodeterminação dos povos. As regiões do planeta diferem muito em termos de história, tradição, religião, hábitos políticos, utilização da violência, etc. E não se alegue que não seria possível fazer essa prévia sondagem na Síria, via plebiscito, porque Assad era um “ditador” e deformaria seu resultado. Os EUA não ofereceram qualquer oportunidade à Síria para comprovar suficiente apoio da sua população antes que a oposição, financiada, treinada e armada pela CIA, partisse para o ataque.
Sondagens modernas de opinião pública, a cargo de entidades especializadas, são impressionantemente precisas, com margens de erro de 3%. Não seria imprescindível um plebiscito conduzido pelo “suspeito” governo sírio. O governo Obama não se interessou por conhecer — mesmo informalmente — a preferência da população. Talvez porque havia o forte risco da pesquisa demonstrar que os sírios prefeririam viver como viviam até então, não trocando o certo pelo duvidoso. Se a pesquisa especializada dissesse que a oposição ao governo não chegava a 20% isso atrapalharia demais o plano de uso da força para tirar Assad do poder. Teriam que forjar outra justificativa.
Tudo indica que a meta oculta da derrubada de Assad é isolar o Irã, fiel aliado da Palestina árabe, que não consegue um status de país porque isso não interessa a Israel. O governo israelense, de direita radical, não se volta contra Assad por ser ele um ditador. Mesmo que a Síria vivesse uma democracia plena — mas apoiando o Irã — ela seria atacada. Sendo, porém, um regime “duro”, tanto melhor para os Estados Unidos e Israel, porque a opinião pública mundial sempre vê as ditaduras, ou meia-ditaduras, com antipatia.
Outras perguntas podem ainda ser feitas àqueles que exigem a renúncia ou derrubada de Bashar Assad. As perguntas são as seguintes: Afeganistão e Iraque ficaram melhores após a invasão liderada pelos Estados Unidos? Só um e louco e mentiroso diriam que sim. A Líbia ficou pacificada e próspera após a queda de Kadafi? Ficou muito pior, uma tremenda anarquia, o país africano árabe voltando à luta tribal. O Egito, após a queda de Mubarak por acaso tornou-se modelo de país democrático, respeitando o resultado da única eleição presidencial? Não. O presidente eleito, Morsi, foi deposto e condenado à morte pelos militares porque teria incentivado a população, em praça pública, a desobedecer às forças armadas.
Outra pergunta, mais teórica: os EUA, só pelo fato de serem a maior potência do planeta, tem o direito de dizer “quem fica ou sai” no governo de qualquer país? A ideia, nada modesta, do “excepcionalismo” norte-americano é uma “ordem” — como Obama parece pretender — ou apenas um bom exemplo a ser eventualmente imitado — porém voluntariamente — por outros países, considerando as vantagens de uma democracia verdadeira e não corrupta? A experiência, até agora, sobre essa matéria, é a de que o governo americano aprova ou desaprova governos com fragilidades democráticas segundo os interesses americanos do momento. Por exemplo, nunca tentou derrubar o chileno Pinochet. Pelo contrário.
Bashar Assad, feliz ou infelizmente, encontrou uma ajuda que lhe possibilita, talvez, uma precária sobrevivência: o “quase-tirano”, Vladimir Putin. Um chefe de estado também bastante injustiçado no conjunto de seus defeitos e qualidades. Tem seus defeitos — como todos os demais chefes de estado e de governo, sem exceção — mas não abandona povos indefesos vitimados pela injustiça. Lembre-se, sempre, que Putin está auxiliando abertamente a Síria porque seu governo está sendo atacado e pediu essa ajuda. Isso é legitimado pelo Direito Internacional. Ao contrário dos EUA e sua “patota” sem opinião própria, que interfere na Síria, justamente para derrubá-lo, sem autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A oposição “moderada”, todos sabem, é treinada, armada e financiada pela CIA, conforme amplamente divulgado pela mídia independente.
Putin é muito criticado porque teria “invadido a Ucrânia” e se “apoderado” da Criméia. Na verdade, ele apenas atendeu à vontade explícita — em plebiscito e pedido formal —, dos habitantes da Criméia, de origem russa, em sua maioria falando o russo. Não tapou os ouvidos nem fechou os olhos ao apelo de milhares de ucranianos. Ele fez, na Criméia, o que os EUA fariam no México, se milhares de mexicano de origem americana, loiros e falando inglês, morando junto à fronteira americana, pedissem ajuda e cidadania americana contra um governo mexicano hostil à sua origem americana. Acresce que um presidente ucraniano eleito, favorável à Rússia — Viktor Yanukovich —, foi arrancado do poder, pela força, não muito tempo antes dos habitantes da Criméia pedirem a Putin a cidadania russa. Cabe, aqui, de novo, a velha máxima da filosofia política: não é o povo o titular primeiro do poder?
Colunistas de jornais, quase sempre com sobrenome de origem hebraica, costumam, nos seus artigos, rotular Putin como “astuta raposa” em busca de cartaz e tentando ressuscitar a glória dos tempos de Stálin. Se ele é raposa, é uma raposa coerente, solidária com o esquecido e humilhado povo palestino, a origem remota do imbróglio em que se tornou o Oriente Médio. A Al Qaeda é um subproduto da situação palestina.
Poucos dias atrás, li, na internet, uma inteligente analogia do que aconteceu com a “maré” de judeus que buscavam um lar na Palestina: imaginemos um hotel em chamas (seria a Europa antissemita dos anos 1930); um hóspede judeu, que está no terceiro andar do hotel, encontra-se na sacada, encurralado e apavorado, prevendo que logo morrerá queimado; a única alternativa é pular da varanda, porque não dá para esperar a chegada dos bombeiros; decide arriscar; salta, de olhos fechados, e, por mero acaso, cai em cima de um passante (seria um palestino), que ficou a com vários ossos quebrados mas salvou, até mesmo involuntariamente, a vida do judeu, amortecendo sua queda.
O judeu, pouco machucado, vai embora, feliz por estar vivo, e três meses depois recebe a visita do “palestino-amortecedor”, que chega de muletas e pede uma indenização porque quase não pode trabalhar. O judeu diz que não pode ajudá-lo porque não agiu com dolo, não sendo exigível que se deixasse torrar na varanda, só para não incomodar algum eventual transeunte. O palestino argumenta que o fogo no hotel não foi ateado por ele. O judeu se irrita, diz que também não foi ele que incendiou o hotel. A trágica discussão dura bem mais de meio século. E o palestino continua de muleta, arrastando-se em uma vida miserável enquanto o paraquedista sem paraquedas mostra ao mundo sua orgulhosa riqueza.
Até quando? Quando o mundo — muito burro, sem imaginação — concluir: primeiro, que a Palestina é pequena demais para abrigar duas nações de formação tão diferenciada; segundo, que a África é imensa e poderia comportar mais de cinquenta Palestinas; terceiro, que Obama melhor faria se — como fez com recente proposta de “Parceria Transpacífico” — lançasse a poderosa e salvadora ideia de utilizar uma pequena fração da África — sem prejuízo dos africanos — para ali viver, trabalhar e progredir uma parte da população palestina, ou da população judia, desafogando a semiárida
Palestina que, pelo andar da carruagem, poderá detonar terceira guerra mundial.
Obama, com tal inovadora, bela e estrondosa iniciativa, aqui sugerida — solucionando o impasse palestino —, recuperaria seu prestígio mundial, muito abalado nos últimos anos. Quem sabe o Putin, esse baixinho inteligente, sendo mais ousado que seu equivalente americano, passará a remoer esse tema. A solução concreta ainda demoraria, pela complexidade, mas os interessados pelo menos saberiam que havia um futuro estimulante e já ocupariam o tempo fazendo estudos e visitando a África. Quem agir primeiro difundindo essa ideia merecerá um Nobel da Paz. Até dois.
(11-10-2015)
domingo, 20 de setembro de 2015
Veríssimo, leituras, etc.
Charge impagável de Luis Fernando Veríssimo, no jornal
“Estadão” de domingo, 13-9-15, Caderno 2, “Família Brasil”. Um senhor,
conversando com adolescente, tenta convencê-lo de que o livro impresso ainda é
melhor que o eBook: —“Livro
não precisa ligar na tomada, não depende de programas ou senhas, está sempre
pronto para ser lido...” — e o jovem o
interrompe: — “Então
qual é a graça?”
A “graça” dessa nova tecnologia reside na manipulação
rápida de um brinquedo sofisticado e colorido. O conteúdo da informação não
interessa muito se as frases não forem curtíssimas, desobrigando qualquer
reflexão crítica do dono do brinquedo.
Considero Luis Fernando Veríssimo uma das mais lúcidas
cabeças deste país. Culto e também um bom caráter. Jamais li, ou ouvi, alguém
criticá-lo. É uma unanimidade nacional. Pelo que li na mídia, foi até sondado
para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Com modéstia
autêntica Veríssimo agradeceu delicadamente a lembrança mas declinou da
honraria. Salvo má informação da mídia, teria dito que a ABL não seria “sua
praia”.
Recusou, creio, porque, como acadêmico — ele seria
eleito —, seu espírito naturalmente brincalhão e irreverente ficaria um tanto
inibido. Não combinaria integralmente com a seriedade engravatada, exigível e
esperável de uma academia intelectualmente altaneira como a ABL. Essa recusa
foi coisa rara no Brasil. Muitos pagariam fortunas para se tornarem “imortais”,
se fosse possível usar o dinheiro para esse fim.
Escritores ou atores vocacionados para o humorismo têm
propensão para ver as pessoas e o próprio mundo pelo lado mais cômico. Suas
associações de ideias tendem quase automaticamente para a caricatura expressa
em palavras. Com tal preferência é natural que ocupe boa parte de seu tempo de
descanso lendo textos humorísticos, os quais vão se empilhando no inconsciente
à espera de uma provocação.
Somando-se a essa inclinação natural o constante
“registro” cerebral de notícias e historietas cômicas o resultado só pode ser
um: a interpretação do mundo como uma vasta “comédia” . Como de fato é, se
vista filosoficamente a nossa civilização. Ao mesmo tempo avançadíssima na
tecnologia e tragicamente ridícula na convivência humana: guerras e mais
guerras, roubos e mais roubos, crimes e mais crimes, mentiras e hipocrisias em
todos os níveis. Balzac sabia o que fazia quando escolheu um título para sua obra,
“A comédia humana”.
Tenho um exemplo comigo mesmo sobre a escolha
preferencial de certas leituras. Concluindo que o conhecimento da língua
inglesa me permitiria ficar mais antenado com a cultura universal — que sempre
me atraiu mais que a Ciência do Direito — resolvi, já sessentão e aposentado,
aprender inglês pelo método mais agradável: lendo piadas e anedotas nessa
língua, com ajuda de um dicionário. Devo te lido mais de mil. Atingi meu
objetivo linguístico — poder ler inglês, embora sem falar, por falta de uso —
porém um canto de minha mente ficou permanentemente “contaminada” pelo vírus
travesso do humor.
Com o passar do tempo ocorria — e isso continua
—, o seguinte fenômeno: conversando com
qualquer pessoa, mesmo sobre assuntos graves, é frequente que um fato, palavra,
ou frase do meu interlocutor me faça lembrar de uma anedota especialmente
inteligente, ou marcante por seu disparate. Essa intromissão humorística, sem
minha autorização, me faz perder alguns segundos da exposição do interlocutor,
obrigando-me a tentar preencher essa omissão com conjeturas sobre o que ele
teria dito. Esforço meu que, por sua vez, provoca nova distração — obrigando-me
a pedir a ele, ou ela que por favor, repita o que acabou de dizer. Finjo-me
mais surdo do que sou, ou preocupado com um assunto grave e particular. Não
posso confessar, por exemplo, que o que ele acabou de relatar, pesaroso, sobre
a doença da mãe de sua mulher me fez lembrar uma piada de sogras.
Ninguém tem completo controle sobre a própria cabeça.
Podemos apenas controlar o “freio”, da língua ou dos dedos — no teclado ou na
caneta —, mas nunca o fluxo espontâneo das ideias. Depois desta confissão não
pedirei a ninguém que repita alguma coisa. Do contrário meu interlocutor,
agastado, indagará: — “A piada pelo menos é boa?”
Veríssimo, além
de inteligentíssimo é superiormente
abastecido de informações gerais em duas línguas, português e inglês. Arrisco
acrescentar em quatro: também em espanhol e francês. Soube combinar, com
superior engenho, essa massa enorme de informações esparsas aguardando
conexões. Quando bem jovem, morou nos EUA, o que lhe permitiu depois estar à
vontade, espremendo e articulando dados obtidos na língua mais carregada de informações
no mundo.
A única e perigosa restrição — “não se deve cutucar onça com vara curta” —
a esse escritor tão hábil é o fato dele colocar o jazz nas alturas. Será o jazz
o equivalente da arte moderna, em que o pintor não precisa saber desenhar? Vou
comprar um CD de jazz — caso exista — para tentar compreender seu entusiasmo
pela aparente bagunça sonora.
Atualmente há mais chineses falando inglês do que
norte-americanos falando a própria língua, — algo espantoso porém explicável
pelo população da China — mas nem o mandarim nem o cantonês somados
disponibilizam o mesmo volume de conhecimentos arquivados em língua inglesa.
O humor de Veríssimo não só é inteligente como também
sem vulgaridade. Digo isso porque o humor de um humorista qualquer pode revelar
sua viva inteligência, mas com um porém: o acúmulo constante de palavrões e
descrições sexuais que ferem os ouvidos de pessoas mais sensíveis,
principalmente as mulheres.
Estas, numa festa, por mera educação ouvem as
barbaridades engolindo em seco, mas logo tratam de se afastar alegando uma
urgência qualquer. Nem esperam o término da anedota que pode até ser
inteligente. A peluda — com alusão — narrativa bloqueia o entendimento da
ouvinte, enojada com o genérico fedor do assunto. Perdem o fio e a conclusão da
anedota.
Essa limitação do piadista quase exclusivamente
pornográfico, explica-se talvez pela restrita informação de quem pouco lê.
Falta-lhe um “bom material”, suficientemente volumoso para dele extrair o
esparso “ouro” do melhor humor. Ele terá, claro, o seu público, restrito a
narizes mentais calejados. Tais humoristas nunca seriam convidados para
integrar a ABL, ou mesmo qualquer outra academia do mais remoto município.
Por que estou discorrendo tanto sobre Luis Fernando
Veríssimo? Porque sua charge revela que a tecnologia da informática não está,
de fato, ajudando muito para elevar a cultura e sensibilidade de nosso povo.
Principalmente
da nossa juventude, mais interessada — e moldada pela propaganda —, a consumir,
frequentar baladas, vestir-se bem, assistir futebol — sem jogar, apenas urrando
e xingando. Isso sem mencionar as pancadarias entre times de futebol, com uso
de sarrafos e barras de ferro, além do “vale tudo” entre mocinhas rolando no
chão — a feia sempre mais feroz que a bonita —, disputando namorados na
porrada, unhada e puxão de cabelo.
Assim funciona a cabeça de uma parcela da nossa
juventude, certamente revoltada com sua desvantajosa e herdada situação
econômica, se comparada com a dos “filhinhos de papai”. Não sentem grandes
esperanças no futuro, via estudo, raramente grátis quando de boa
qualidade.
Descontados meus floreios redacionais, eles pensam
mais ou menos assim: — “A vida é curta. O emprego é raro e disputado, mesmo com
salário baixíssimo. As balas perdidas voam como vespas assassinas. As escolas
são chatas, levam anos nos ensinando coisas que não dão dinheiro e perde-se um
tempo enorme no trânsito. O que “ajuda” um pouco é quando há greve de
professores, mas depois vem o castigo: a reposição de aulas em época de
férias”.
“Simultaneamente estudar e trabalhar é pesado demais.
Frequentar escola não mais é ‘o caminho’. Basta ver nosso ex-presidente que
passou por cima disso tudo, como um trator barbudo. Assim mesmo tornou-se
“doutor honoris-causa”, bajulado em várias universidades europeias. E dizem
ainda, completando seu triunfo, que está milionário. Mesmo fora do cargo dá
conselhos a economistas com doutorado em Harvard. Assim, para que a gente
perder tempo ouvindo coisas que não nos interessam? Conheço um cara, coitado, que
pacientemente estudou Direito mas já foi reprovado cinco ou seis vezes nos
exames da OAB. Não sei se a culpa é dele, da Faculdade, ou da OAB, preocupada
com o baixo nível do ensino mas também com a concorrência de milhares de
canudos inundando o mercado. Esse possível futuro advogado, já pensa em
desistir. Tentou ser taxista mas ainda não conseguiu, por falta de dinheiro
para comprar uma licença, ou coisa que o valha”.
E o jovem filósofo do pessimismo prossegue: — “Airton
Senna estudou? Não. Neymar estudou? Também não. O Senna, se tivesse estudado,
ainda estaria vivo, mas sem glória e ganhando pouco. Na pior das hipóteses de
moto, entregando ‘pizza delivery’, endividado pelas multas por excesso de
velocidade . Neymar, com os dribles, ganhou vários Prêmios Nobel — a parte do
dinheiro — por mês. Além disso..., confesso: sinto muita dificuldade em me
concentrar quando tenho que ler assuntos complicados ou simplesmente extensos.
Tenho horror a livro. Talvez eu seja inquieto demais. Acho que tem muita
abobrinha entre as capas. O fato é que não consigo me concentrar na leitura.
Sei que não sou burro, sou apenas prático. Alguma coisa, na minha vista ou no
meu cérebro, me atrapalha e me afasta de qualquer leitura mais demorada”.
É neste finalzinho do desabafo do hipotético moço que
acrescento algumas sugestões ao legislador brasileiro para elevar a cultura do
povo brasileiro . Fazendo isso melhoro nossa representatividade no Poder
Executivo e no Legislativo.
Como o presente artigo já está longo demais, serei
conciso a partir de agora, sem as divagações precedentes, de duvidoso gosto ou
conveniência. Faço isso a contragosto, forçado pela necessidade doentia da
brevidade na internet, essa castradora do pensamento bem explicado.
Resumindo, sugiro: 1) que o Congresso edite lei que
permita aos autodidatas — ou educados
particularmente, de qualquer
idade — a prestar exames para comprovação de conhecimentos adquiridos apenas
com a leitura de textos; 2) que o Governo, em todos os níveis, incentivem e
facilitem aos jovens de poucos recursos a possibilidade de consulta e
tratamento médico grátis na rede pública, para exame de eventuais problemas
visuais, auditivos e glandulares que possam prejudicá-lo na capacidade de
aprender ( uma tireoide preguiçosa, por exemplo, retarda os processos mentais);
3) que jovens, mesmo curados de problemas físicos, ainda revelem dificuldades
na compreensão de textos — compatíveis com sua instrução —, serão encaminhados
a profissionais especializados em problemas de aprendizado. Está aí a solução
para o chamado analfabetismo funcional brasileiro.
Dou um exemplo: se o leitor, com ou sem óculos, pode
ler bem as palavras de uma linha com o olho esquerdo, mas com o olho direito só
vê palavras meio “embaçadas” (mesmo com óculos corretivos), essa desigualdade
de visão — inclusive periférica — dificulta o entendimento do que está sendo
lido. Imaginando que se trata de um problema relacionado com a inteligência o
leitor larga o livro e vai fazer outra coisa. Ele não percebe que sua “falta de
concentração”, ou compreensão, tem origem na “má sociedade” entre olho direito
e esquerdo. Assemelha-se a uma firma de dois sócios em que um é esperto, “vê
longe”, e o outro “vê tudo confusamente”. Essa sociedade não dá certo.
Há, porém, um “truque” para contornar o problema, na
área ótica: se o leitor, com o olho bom, esquerdo, der uma prévia “espiada”
mais para o lado direito da linha escrita — antes de ler —, essa “espiada”
permitirá uma melhor compreensão do texto. Se a dificuldade persiste, que dê
outra espiada, sem propriamente ler. Alternando leituras e “espiadas”. Isso
melhora a visão periférica. Um truquezinho para situações especiais. Um
oftalmologista me explicou que quando um paciente perde um olho em acidente ele
recebe instruções para contornar o déficit da perda, ficando, com o treino, em
condições de ler tão bem quanto os demais leitores.
E fico por aqui. Forçado. Tive que cortar e arquivar
razoáveis desdobramentos sobre leituras, inteligência, política e temas
correlatos. No fundo, todas as questões, neste planeta louco, são correlatas,
ainda que remotamente. Na própria “loucura” pode haver um grão perdido de
sabedoria. Talvez, o que guardei no computador, para uso próximo, seja mais
interessante. Veremos.
(18-09-2015)
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
A nova CPMF, está sendo criticada ignorando seu potencial.
Lendo hoje, 28-8-15, as
acerbas críticas de empresários e políticos contra a proposta de Joaquim Levy —
de recriar o odiado “imposto do cheque” —, constatamos, data vênia, a contumaz propensão para o imediatismo e estreiteza
de visão no examinar qualquer medida legislativa de opostas consequências.
Qualquer iniciativa ou “presta” ou “não presta”, in totum, sem
nuanças, sempre pensando no efeito presente. “Nem pensar!” em aperfeiçoar algo
momentaneamente ruim mas imensamente promissor, esquecidos de que até o veneno
de cobra pode ser transformado em um remédio que “afina” o sangue ou se
transforma em antídoto contra mordida de cobra. Para quem não sabe, uma gota de
veneno vale muito mais que uma gota de ouro puríssimo em forma líquida.
Assim é a mal compreendida
CPMF se utilizada na forma certa. No
momento, ruim, pela estreiteza de sua meta, mas se houver um curto acréscimo
redacional à pretensão do governo — obrigando-o a reduzir, após “x” meses — ou
um ano —, a carga tributária na mesma proporção do arrecadado com a CPMF, seria algo tremendamente revolucionário, no
seu melhor sentido.
O único inconveniente
político, hoje, dessa ousada e sábia simplificação de nossa arrecadação —
tendente ao ideal político do “imposto único” — é que seu garantido sucesso
econômico prestigiaria o PT, um partido que nunca me agradou pela sua tendência
à demagogia e má escolha de lideranças. Mas o que superiormente interessa é que
nosso país resolva o eterno problema da sonegação fiscal e alivie os
contribuintes, para sempre, de uma imensa burocracia. Esse tributo, a ser novamente testado por
vários meses não deve ser pensado apenas como forma de “fechar as contas”. Ele
deve, futuramente, se tornar permanente, com a vinculante obrigação do governo
— inserida no texto de sua criação — de redução do número de tributos e/ou das
respectivas alíquotas. Eu, particularmente, aceitaria ver descontado até um por
cento em cada transação minha desde que desobrigado de inúmeras obrigações
tributárias e com redução das alíquotas dos tributos que ainda permanecessem.
Vladimir Putin, mesmo sendo um ex-comunista odiado, considerado despótico,
entendeu suficiente, para o governo russo, cobrar uma alíquota de 10% para o
Imposto de Renda. Foi por isso que o ator Gerard Depardieu mudou de cidadania.
Se, neste exato momento, essa alíquota foi alterada — por necessidades
políticas decorrentes de cerco econômico, Ucrânia, etc. —, não sei, mas não é
de causar espanto a sensação que tem um empreendedor brasileiro de que está
sendo “tungado” pelo governo que parece vê-lo como uma vaca leiteira a ser
ordenhada a todo momento e com dezenas de guias e outros papéis caindo dentro
do balde.
A CPMF é o “ovo” de um futuro
tributo generalizante, indesviável — por maus funcionários —, e insonegável —
por maus contribuintes. Se todos contribuírem, os atuais pagadores “certinhos”
— que sofrem o desconto no holerite — pagarão menos, pelo menos no Imposto de
Renda.
Sem um novo “teste” de
arrecadação, no caso a CPMF, o sonhado “imposto único” — apenas uma forma breve
de dizer — nunca se tornará realidade. Qual o governo, de qualquer país, que
arriscaria cancelar todos os seus tributos sem conhecer, de antemão, preto no
branco, o poder de arrecadação de algo parecido com o chamado ‘imposto do
cheque”( na verdade, incidindo em cheques, cartões de crédito e débito e
transferências eletrônicas)?
No nosso sistema tributário, o emperramento e os
desvios continuam firmes, por décadas. Basta ver as guerras fiscais entre
estados e as frequentes divergências interpretativas, nos Tribunais, entre
fisco e contribuinte. Mais de um trilhão de reais de crédito — ou abuso —
tributário está pendente, na justiça federal, aguardando a decisão “final” —
quase um sonho — do Poder Judiciário. E sem culpa dos magistrados, suados
“destrinchadores” de mutáveis “nós” legais. Assim, por que não adotar um
sistema mais simples de arrecadação em que o dinheiro do tributo vá direto para
o Tesouro Nacional? Como, depois, dividir sensatamente o “bolo” entre União,
Estados e Municípios já é outro assunto, a cargo dos interessados na partilha.
Grandes avanços — em qualquer área —, geralmente
dependem de um sacrifício inicial. Se o Brasil levar a sério a dupla função de
alcançar a riqueza no dia a dia, todos contribuindo, e simultaneamente
extinguindo uma enxurrada de tributos e obrigações fiscais, o mundo inteiro nos
seguirá, espantado e se perguntando: — “Por que nós mesmos, europeus e
americanos, não fizemos isso antes? Nós, que primeiro concebemos esse “ovo de
Colombo?”
No jornal “O Estado de S. Paulo”, pág. A4, edição de
16/06/15, Joaquim Levy, em artigo publicado no jornal Valor Econômico, edição
de 17 de setembro de 2007, teceu elogios rasgados à CPMF, nos seguintes termos:
“A CPMF é hoje um dos tributos que gera menor distorção na economia. Além de
sua arrecadação, verificável e barata, ela alcança agentes que escapam de
outros impostos, aumentando a equidade do sistema como um todo”. Ele está
certíssimo em seu raciocínio. Não esquecer que muitos que clamam contra a CPMF
assim o fazem por interesse próprio, bem concreto, utilizando as brechas da lei
ou as brechas morais, pessoais, existentes nos mecanismos de fiscalização e
arrecadação de tributos.
Um sistema tributário que colha a parte do governo,
sem desvios e sem burocracia seria ideal tanto para o governo quanto para o
contribuinte. Gasta-se um tempo enorme guardando comprovantes, preenchendo
guias e mais guias, contratando contadores e advogados para solucionar as
constantes e inevitáveis dúvidas jurídicas decorrentes da pletora legislativa e
reguladora, bem como a repercussão de um tributo nos demais. Um péssimo
subproduto desse cipoal tributário é o congestionamento da Justiça, travada por
milhões de demandas tributárias.
Realmente, pelo que se sabe, a nossa carga tributária
é uma das mais altas do mundo, com pouco retorno. Por que isso ocorre? Por
vários fatores: incompetência, desonestidade, inércia, demagogia,
irresponsabilidade pessoal e fiscal, amor à “prole ampliada” (empregos públicos
sem concurso), e tudo o mais relacionável ao caráter. Essa coletânea de
problemas ficaria diminuída com a simplificação tributária de um imposto
arrecadado na fonte, diariamente. Bancos e demais instituições financeiras
certamente não se atreveriam a modificar seus computadores e demais aparelhos
eletrônicos para não registrar as movimentações financeiras, via cheques,
cartões de crédito e débito e transferências eletrônicas. O Banco Central e a
Polícia Federal teriam meios de fazer a fiscalização. É mais fácil fiscalizar
um número relativamente pequeno de bancos do que milhões de pessoas físicas e
jurídicas. Uma das vantagens de um imposto do tipo da CPMF está em preservar a
moral de eventuais funcionários, menos resistentes em resistir às poderosas
tentações do dinheiro. Se é impossível desviar, não há o crime descrito no
desvio.
Obviamente, se a transferência do dinheiro ocorre
entre contas da mesma pessoa, não há o que tributar, porque na verdade o
dinheiro não circulou.
Não se alegue que com o desconto do “imposto do
cheque”, no cartão de crédito/débito e no pagamento via transferência
eletrônica, o sonegador passará a transportar fisicamente — no bolso, cueca,
pasta e mala —, grandes volumes de dinheiro vivo. Se ele assim agir, os
primeiros a saberem disso serão os assaltantes, transfigurados em sanguinários
“fiscais” da sonegação. Após os primeiros tiros ou coronhadas dos meliantes, os
“cofres ou mulas de duas pernas”, assustados e sangrando, voltarão às formas
tradicionais de pagamento.
Hoje, quem paga, de verdade, o Imposto de Renda são os
assalariados e os contribuintes mais íntegros — prejudicados pelos concorrentes
que pagam pouco, ou nada, e com isso podem vender seus produtos e serviços com
preço mais baixo. A obediência fiscal, atualmente, é uma desvantagem.
Não muito tempo atrás li, na imprensa, que os
brasileiros estão, em massa, comprando apartamentos na Flórida, pagando com
dinheiro vivo, “cash”. Essa forma preferencial de pagamento não seria um
indício de “Caixa 2” em grande escala?
Não sou, tecnicamente, um tributarista. Opino aqui
como mero cidadão contribuinte, sempre surpreendido com a imensa complexidade
fiscal. Não consigo entender como ainda existem contadores e tributaristas em
condições de acompanhar, com total rigor, as abundantes e por vezes discutíveis
obrigações fiscais. É pena que somente grandes estadistas ou invulgares
parlamentares terão, hoje, a coragem de convencer os cidadãos de que a obsessão
pelo imediatismo é própria das crianças e dos adultos de curta visão. Quanto
aos espertos, que hoje desfrutam das falhas ou contorções legais, esses jamais
aceitarão a mudança do status
quo.
Vale a pena tentar modificar essa desigualdade, em que
o punido é o contribuinte cumpridor da lei, não o que consegue viver à sua
margem, usando truques contábeis ou tirando proveito da fraqueza moral de
eventual agente público. A ganância enlouquece mas quem sofre as consequências
somos nós, contribuintes.
(28-08-2015)
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Ivan Sant’Anna seria ótimo no “Roda Viva”
Inicialmente, justifico porque
sugiro que “Roda Viva”, o interessantíssimo programa de entrevistas da TV
Cultura — às 22:00 horas, nas segundas-feiras —, convide o jornalista Ivan
Sant’Anna para falar sobre seu último livro, “O Terceiro Templo. Os conflitos
árabe-israelenses e os choques do petróleo”.
Para mim, esse “livro-síntese”
foi bastante esclarecedor, ligando e explicando fatos políticos e econômicos
que quase sempre são mencionados isoladamente nos jornais. O livro “encaixa as
peças” de dois grandes quebra-cabeças oriundos do Oriente Médio. Poucas pessoas,
mesmo bem informadas, conhecem os bastidores e sequenciamento da luta política
e econômica na disputa do petróleo. Causas e efeitos. Subida e descida no preço
da sopa negra e oleosa, de origem orgânica — cozida nas entranhas quentes do
Planeta — e por enquanto insubstituível,
embora poluidora. Esse o principal mérito da obra, que também auxilia o
entendimento do conflito israelo-árabe. Não há, na Terra, problema político
igual, em termos de complexidade, porque ambos os lados têm razão. O problema é
essencialmente físico: dois corpos — inteiros — não podem ocupar o mesmo
espaço.
Há vários anos acompanho, pela
imprensa, o que corre pelo mundo. Considerando que a televisão já nos fornece
alguma informação sobre a política nacional, inicio a leitura do jornal pelas notícias
internacionais. Mesmo assim, não tinha uma visão sequencial, resumível, do que
aconteceu no Oriente Médio. Todo jornal, repito, é essencialmente fragmentário,
mesmo porque o espaço para informar é curto. Aborda os assuntos do dia ou da
semana, mas somente o livro, ou pelo menos o livreto, pode sintetizar o que
ocorreu, no decurso de décadas. Resultado: nosso destino está sendo construído —
ou destruído... —, sem que o saibamos, em áreas por vezes bem distantes. Se a
humanidade estiver destinada a ser fritada, que pelo menos saiba depois porque
isso aconteceu. Sempre restarão alguns sobreviventes esfarrapados que, sentados
nos escombros, poderão ler algumas folhas que escaparam do grande incêndio.
Com a crescente globalização — a
exigir algum aperfeiçoamento normativo mundial —, uma “guerrinha” aparentemente
menor, “apenas mais uma”, iniciada no Oriente Médio, ou na Ucrânia, poderá se
transformar em conflito nuclear. O risco atômico tem conseguido,
paradoxalmente, desde o início da Guerra Fria, que o ar poluído que respiramos não
seja também radioativo. Palmas, portanto, para esse lado imprevistamente virtuoso
do medo atômico que inibiu tanto Stálin quanto os presidentes americanos de
iniciarem uma Terceira Guerra Mundial, mal encerrada a anterior. Ocorre que
esse efeito positivo do perigo nuclear só existe quando é recíproco o medo.
Quando duas ou mais nações se
odeiam, cultivando velhos ressentimentos, e o poder nuclear está nas mãos de
uma só, a prepotência cresce. A sensação de possuir uma força temível e
irresistível estimula, até mesmo inconscientemente, o abuso. Isso ocorre tanto
no reino animal quanto no meio-animal, como é o caso do bicho-homem. Leopardo
não come leopardo. Come a frágil gazela mas nem tenta comer o rinoceronte,
apesar de sua abundância proteica. Dentes e garras, peso, chifre e
agressividade definem quem pode viver ou morrer. Os homens utilizam instrumentos
mais sofisticados, chamados política e poder.
Vejam, por exemplo, o que ocorre
com a Coreia do Norte, governada hoje por um jovem ditador, excêntrico e
matador, que jamais seria eleito por cidadãos com um mínimo de discernimento e liberdade de expressão. Ele é
o produto de uma estranha forma de aristocracia: a comunista, o poder
transmitido pelo sangue, um sistema arcaico de governança, supostamente rejeitado
desde 1789, com a Revolução Francesa. O atual “líder” norte-coreano foi “ungido”
presidente pelo pai, que governou ditatorialmente o país por décadas. No
entanto, com todas as suas venetas e vendetas — o jovem “monarca” elimina os
próprios ministros com total desenvoltura —, a comunidade internacional não se
atreve a tomar medidas de força contra esse país, temendo o disparo de alguns
foguetes com ogiva nuclear. Resumindo: quem tem a força atômica é sempre respeitado
e temido. Não é à-toa que os cinco países com assento permanente e poder de
veto no Conselho de Segurança da ONU, são potências nucleares.
A menção do tema nuclear lembra
naturalmente o que ocorre no Oriente Médio, onde o único país, na região, com
poder atômico, Israel, “exige” que a comunidade internacional impeça que seu
maior rival político, o Irã, desenvolva a tecnologia nuclear. “Exige” o privilégio
com tanta autoconfiança que promete usar todos os “meios” — obviamente
violentos, a seu exclusivo critério — para impedir qualquer atividade que
permita ao Irã crescer na tecnologia nuclear de qualquer natureza, civil ou
militar. Expressa-se duramente, mesmo após as grandes potências chegarem a um recente
acordo, em Viena — trabalho de mais de dez anos —, permitindo ao Irã algum
nível de evolução nessa tecnologia. Essa arrogância — desafiando até seu velho
aliado, os EUA (pelo menos no governo de B. Obama) — é mais uma comprovação do embriagador
efeito cerebral causado pela posse de armas nucleares.
O “livro-síntese” (uma forma de
dizer) de Ivan Sant’Anna obrigou-me a retificar um argumento que venho repetindo, na internet, há vários,
anos sobre Israel.
Essa retificação relaciona-se
com a sinceridade, ou insinceridade, dos pronunciamentos do governo israelense
quando justifica sua dura política contra o Irã, Síria e o Hamas. Explico
melhor: Benjamin Netanyahu costuma justificar sua ojeriza e intransigência
contra a criação de um Estado palestino vizinho alegando que os árabes não
aceitam a existência de Israel, a ponto de prometerem “varrê-lo do mapa”. Não
aceitando, os árabes, a existência de Israel, não haveria razão para conversar
com os palestinos sobre qualquer forma de divisão da terra palestina. “Como
ajudar a criar um país que pretende arrasá-lo?”
Sempre interpretei essa alegação
israelense como sendo um pretexto, tirando proveito político de uma frase somente
demagógica, proferida com frequência pelo então presidente iraniano, Mahmoud
Ahmadinejad, e outros inimigos fanáticos de Israel. Considerando o tamanho de
Israel, com mais de oito milhões de habitantes, seria impensável, apenas bafo, nada
sério, pretenderem os árabes um segundo Holocausto judeu, algo tão doentio
quanto o primeiro.
Todavia, lendo a história
abreviada da criação de Israel — conforme a explicação detalhada de Ivan
Sant’Anna —, constatei que por duas ou três décadas, após a criação do Estado judeu,
os países árabes tinham realmente a intenção, de destruir esse país. Não era
demagogia da ala mais radical islâmica.
O livro de Sant’Anna descreve,
com números — tanques, soldados, aviões, etc. —, o imenso esforço bélico de
nações árabes decididas a destruir Israel, só não o conseguindo porque os
judeus lutaram com rara determinação, habilidade e, convenhamos, com o socorro
bélico e urgente dos americanos. Israel esteve, realmente, à beira do
desaparecimento, chegando a pensar no uso da bomba atômica, talvez apenas uma
ou duas, naquele momento. Impossível saber o número porque Israel é uma
caixa-preta.
Segundo o mesmo livro, na página
132, na Guerra dos Seis dias, em 1967, o ministro da Defesa de Israel, Moshe
Dayan, angustiado com a inferioridade de forças, chegou a dizer, em uma reunião
com a cúpula israelense: “Só nos resta o último recurso, preparar o show
nuclear”. Golda Meir, porém, cabeça fria, de imediato respondeu: “Esqueça
isso”. Esse fato comprova que desde 1967 Israel já dispunha de pelo menos uma bomba
atômica. E pretende, mesmo agora, continuar com o privilégio da exclusividade nesse
poder estrutivo.
São esses detalhes, entre
outros, que tornam o livro de Ivan Sant’Anna especialmente didático. E também interessante,
porque esse autor pinça traços de personalidades de pessoas que influíam na subida
e descida do preço do petróleo, explicando o porquê das oscilações. O ex-ministro
do petróleo da Arábia Saudita, Ahmed Zaki Yamani, que aparecia nas manchetes dos
jornais todas as semanas, décadas atrás, é explicado nas suas táticas para
manter o preço do petróleo no nível mais conveniente aos interesses de seu país
e dos demais produtores. Era um homem muito inteligente e equilibrado, fazendo
seu papel enquanto manteve sua influência junto ao rei da Arábia Saudita.
Mudando o rei, mudou sua relação com a monarquia.
Voltando ao mantra árabe da
“varredura” de Israel “do mapa” do Oriente Médio, cumpre, porém, lembrar aos
árabes que se havia, inicialmente, algum grau de justificação moral na
tentativa de impedir a “invasão” judaica, o passar do tempo tornou obsoleta essa
pretensão. Israel cresceu, consolidou-se e tornou-se um fato consumado. Em
termos civilizatórios, não tem sentido falar em sua destruição.
A única solução, hoje, para a difícil
convivência, será a criação de fronteiras estabelecidas pela comunidade
internacional — caso as partes não cheguem a um acordo (porque não chegarão...)
—, após ouvidas as reivindicações dos interessados. A decisão final do traçado
será, inevitavelmente, de um “terceiro”, um tribunal internacional. Ou já
existente, ou “ad hoc”, criado especialmente para o caso e com largos poderes
de equidade, não apenas verificando “direitos”, tratados oriundos de pressões
de todo tipo.
Quanto ao problema do retorno
dos palestinos expulsos — morando precariamente em abrigos nos países vizinhos
—, e do excesso de judeus querendo morar em “seu país”, a solução também deve
vir de “de fora” de um órgão internacional. Não por decisão unilateral de
qualquer das partes. Para isso a civilização concebeu um sistema de resolver
problemas, o poder judiciário, que pode até não ser o ideal, na prática, mas
sempre é melhor do que deixar prevalecer a força bruta, pura e simples, com
sangue e ruínas por toda parte.
Inconformidades futuras contra a
solução internacional poderão ser atendidas ou mitigadas com pagamento de
indenizações aos prejudicados — talvez o gasto com elas seja inferior às
despesas imensas e infindáveis com armamentos, mortes e outras consequências
guerreiras — e/ou com a compra de áreas na África para instalação de
comunidades judaicas e/ou palestinas, conforme for acordado ou decidido.
No começo do século XX foram oferecidas
ao movimento sionista, grandes áreas, para instalação, provisória ou definitiva
de uma pátria judaica. Terras no Congo, Uganda, Moçambique e outros locais
foram propostas. Uganda, com um clima próximo do existente ao sul do
Mediterrâneo, não muito quente, foi recusada pelos líderes sionistas por três
motivos: a existência de muitos animais ferozes; a proximidade de tribo selvagem
(não me lembro agora qual delas) e por razões religiosas, relacionadas com a
“necessidade” de retorno a um lugar considerado sagrado. Segundo os sionistas,
somente Jerusalém poderia sediar a nova nação. Havia um certo fundamento na
recusa, tendo em vista a distância, clima africano, dificuldade de transporte e
acesso..
Agora, porém, são os leões, não os seres
humanos, que precisam de proteção; as tribos africanas já usam mais celulares do
que flechas e a maioria dos judeus é agnóstica. Considerando o tamanho da
África e a tecnologia hoje disponível contra o calor excessivo em lojas, casas,
fábricas e escritórios, tanto judeus quanto palestinos poderiam ajudar
imensamente no progresso econômico deles mesmos e da África, que carece de
investimento e mão de obra qualificada. O tamanho gigantesco da África, microscopicamente
aproveitado hoje, é mais uma prova da estupidez política da humanidade como um
todo.
Ivan Sant’Anna, no final de seu
livro, considera impossível uma solução pacífica para o conflito Israel-
Palestinos, raciocinando apenas em termos de ocupação da Palestina. Quem sabe,
se incluirmos a imensidão africana na solução do problema — , e também a
opinião dos próprios africanos, que também teriam suas vantagens com o
surgimento de empregos em larga escala —, o antigo conflito racial, político e
cultural terá um fim.
Os palestinos não são equiparáveis,
culturalmente, aos antigos índios peles-vermelhas, expulsos pelos colonizadores
ingleses e hoje reduzidos a alguns milhares de indivíduos morando em reservas. São
muito mais instruídos que os índios do Velho Oeste, naquela época. Não
esquecerão, jamais, a ofensa da expulsão e a mesquinharia com que foram
tratados por Israel. Essa lembrança de injustiça sofrida fermenta na memória.
Anseia por vingança, assim como os judeus europeus — espezinhados, espancados e
assassinados em campos de extermínios —, anseiam por vingança, ou justiça, até
hoje, sessenta nos depois, exigindo cadeia ou forca para velhos alemães, que
cumpriam ordens nazistas, sabendo o que ocorria. Mesmo sabendo, quem se
recusava cumprir ordens estaria em risco de vida.
Os judeus, por sua vez, uma raça
— ou comunidade — culta, poliglota, especializada em finanças — até mesmo por
não terem outro caminho, impedidos de serem industriais e fazendeiros —
precisam compreender, com muita tolerância, a reação violenta dos palestinos
mais aguerridos à ocupação maciça de suas terras. Ocorresse o contrário, com
palestinos chegando em ondas a Israel, os judeus locais reagiriam como reagiram
os árabes à chegada dos judeus. Recorreriam também ao terrorismo, como
realmente recorreram contra os ingleses, a ponto de dinamitar um hotel, em
Jerusalém, em 1946, o King David, que
servia como moradia dos funcionários ingleses encarregados de administrar a Palestina,
finda a Primeira Guerra Mundial.
Enfim, o livro de Ivan Sant’Anna
é bastante informativo e explicativo, principalmente no item petróleo.
Segundo a mídia, está havendo um
recrudescimento do antissemitismo na Europa. Isso corre em maior parte por causa
do estilo truculento e arrogante de seu Primeiro Ministro que não quer “dar
satisfação” à opinião pública internacional.
Netanyahu não explica nada, e nada
concede. Só reage, “na bruta”, esmagando com seus aviões e tanques, os inimigos
de Israel, muito inferiorizados em armas. Para cada israelense morto morrem dez
ou vinte árabes. Quer representar apenas a força e talvez uma imaginária
superioridade racial, esquecido que essa força não foi apenas a própria, teve o
anterior apoio americano.
Netanyahu considera-se — e é —, um patriota,
mas no seu sentido mais estreito, primitivo, nunca tentando entender a
motivação do adversário. Ama Israel, mas Hitler também amava a Alemanha. Só que
“amava em excesso” e por isso teve um triste fim. Se Israel tratasse melhor a
população palestina, compreendendo sua reação de “país invadido” e fornecendo a
ela serviços básicos, saúde, educação, transporte e o usual para uma vida
digna, essa conduta obviamente levaria a população árabe, paulatinamente, a
diminuir sua animosidade. Não é com vinagre que se atrai abelhas. Não podemos
esquecer que elas transportam mel mas também têm ferrão.
Fiquemos por aqui. Quem sabe
assistiremos a entrevista de Ivan Sant’Anna. Não consultei o jornalista antes
de redigir este texto.
(18-07-2015)
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