quarta-feira, 3 de abril de 2019

Arte Moderna



Ao terminar um artigo da série “A era da mediocridade”, classifiquei Pablo Picasso mais como um hábil psicólogo e expert em marketing e propaganda do que como pintor. Nunca o concebi como grande pintor porque eu considerava, e ainda considero, como necessária qualificação de qualquer pintor, a capacidade de desenhar muito bem.

Repito: muito bem. Um talento pouco difundido e talvez inacessível apenas com a mera insistência “muscular” ou auto- ilusão entusiasmada. Algo assim como o “ouvido musical”, um dom. Realmente, não é fácil reproduzir com fidelidade um rosto, um cavalo galopando, uma figura humana em posição pouco convencional, o movimento das ondas do mar, uma cachoeira, etc.

De todos os itens, porém, de uma global “era de mediocridade”, aquele que me deu maior trabalho para concluir alguma coisa — por conta própria —, foi a definição do que seja arte; como interpretar a reação do público frente a um quadro ou escultura; a difícil “explicação” do sentimento da beleza e a vasta nomenclatura que surgiu depois do classicismo. Quem quiser entender o que significam impressionismo, pós-impressionismo, fauvismo, cubismo, expressionismo, futurismo, dadaísmo, surrealismo, concretismo, abstracionismo, primitivismo, “pop art”, “arte mínima”, etc., enfrentará grande dificuldade em estabelecer fronteiras entre essas variadas “escolas”. E para complicar ainda mais um assunto tão escorregadio, terá que levar em conta os “pós-” isso e aquilo, porque a espécie artística é bastante mercurial.

Há, porém, uma nota comum em todos esses movimentos: quanto mais moderna a obra, menor a necessidade do “suor”, físico e mental, do artista. Dizendo de outra forma: quanto mais moderna a pintura, maior o grau — dispensador de esforço — de imaginação, preguiça, subjetivismo, pretensão, valorização da quantidade sobre a qualidade e a total necessidade da propaganda para venda do “produto”. Sem propaganda, ninguém é “gênio”. Gênio, mesmo, é o cérebro comercial por trás da promoção do pintor.

Se, por mera por brincadeira, uma pessoa que nunca antes pegou em um pincel — e até desprezasse a arte da pintura —, fizesse, com os olhos fechados, alguns traços rápidos em uma tela e solicitasse a Picasso que a assinasse, “só por farra”, esse quadro passaria a valer milhões de dólares, a comprovar que não é o quadro que importa e sim a “marca”. Os supostos e talvez ingênuos “conhecedores” do estilo do pintor famoso, nessa hipotética experiência, vendo confirmada, pelo próprio Picasso — um gozador —, a autenticidade da assinatura, diriam que com esse quadro o “gênio” mostrava, mais uma vez, a “versatilidade de seu talento”.

O mundo das artes é estranho. Vincent Van Gogh só vendeu um quadro, enquanto vivo. Aquelas poucas pessoas que adquiriram, por preço vil, seus trabalhos, logo após sua morte, tiveram o máximo interesse financeiro em exaltar a genialidade do pintor. Quanto mais o elogiassem, mais valor teriam os quadros comprados após seu passamento. Não há dúvida que Van Gogh foi uma extraordinária figura humana, mas causa estranheza que só depois de sua morte é que seus quadros tenham passado a valer tanto. Uma prova de que “psicologia financeira”, digamos assim, tem um peso imenso, na realidade total, na valorização das obras de arte. A genialidade do pintor holandês, enquanto vivo — pergunta-se —, estaria tão pouco visível, para os “entendidos”, que foi preciso que seus quadros mudassem de mãos para valer fortunas? Os “negociantes de arte”, que só conhecem a “arte de negociar”, têm melhor “olho artístico” que os verdadeiros estudiosos da pintura?

Eu me sentiria mais confortado se soubesse que a genialidade de Van Gogh tivesse sido reconhecida quando ele ainda estava vivo. Foi um homem sofredor, trágico, que só nos inspira simpatia. E com um detalhe: sabia desenhar. Seu bom caráter, sensibilidade e personalidade merecem o máximo respeito, mas seu exemplo é uma prova de que o dinheiro contaminou e domina o mundo das artes. Quadros e esculturas tornaram-se muito mais um tema financeiro — à semelhança das ações de sociedades anônimas —, do que um assunto de arte propriamente dita. Aqui a explicação do porque incluí as artes plásticas na minha série de artigos sobre a mediocridade em geral. O dinheiro “mediocrizou” as artes.

Leonardo Da Vinci levou cinco anos pintando o “Mona Lisa”. Pintava umas poucas horas em um dia e outro tanto em outros, esforçando-se na busca da perfeição do detalhe. De qualquer forma, gastou um tempo considerável para pintar um único quadro. Em contraposição, Picasso chegou a dizer, conforme suas citações na internet, que “Give me a museum and I'll fill it”. “Dê-me um museu e eu o encherei de quadros”.

Como qualquer museu é enorme, somente um pintor rapidíssimo e malandramente “abstrato” poderia preenchê-lo sozinho. Com uns vinte ou trinta quadros diários Picasso daria conta do recado, em poucos meses. Uma prova de que o que lhe interessava era a quantidade e a mera declaração, dele mesmo, de que havia, naqueles poucos traços, um “significado” profundamente emocional. Tão profundo que só sentido por ele mesmo. Acredite quem quiser.

Um observador da arte moderna, Tom Stoppard, chegou a dizer que o único critério para distinguir um quadro de uma escultura moderna seria o seguinte: se a obra está pendurada numa parede, trata-se de um quadro; se você pode dar uma volta em torno dela, é escultura.

Richard Schmid, provavelmente um conhecedor do assunto — porque mencionado em sites de arte —, dizia que “Eu honestamente acredito que estudantes de pintura no próximo século rir-se-ão do movimento da arte abstrata. Eles se maravilharão de tal regressão das artes plásticas”.

Al Capp, outro demolidor, de estilo mais pesado, dizia que “A arte abstrata é o produto do sem talento, vendido pelo sem princípios para os imensamente estupefatos”.

Outro crítico acerbo da arte moderna chegou a dizer que “Trying to understand modern art is like trying to follow the plot in a bowl of alphabet soup” (Tentar compreender a arte moderna é como tentar seguir o enredo em uma tigela de sopa de alfabeto).

E, finalmente, o que diz o príncipe dos pintores, Leonardo da Vinci? Ele dizia que “Onde o espírito não trabalha com a mão, não há arte”. Elitismo? Não, simples reconhecimento de que à técnica perfeita de desenhar e pintar o artista deve acrescentar alguma emoção.

Com outras palavras: sem a “mão” do verdadeiro artista não basta o subjetivismo do pintor, por mais que ele sinta-se sinceramente emocionado — a grande desculpa para o pintor moderno que confia apenas no que ele sente, não no que sinceramente poderá sentir o público olhando para seu quadro.

No fundo, no fundo, a função essencial da arte é despertar prazer. O prazer verdadeiro, não o fingido, exigido pela moda. Em um concerto de piano, de música clássica, um pianista, mesmo frio no íntimo mas dotado de uma técnica invulgar — tão invulgar que arrebatará o auditório — será um melhor artista do piano do que um martelador de teclas, tremendamente emocionado, suando, gemendo, olhos em alvo, mas tocando tudo errado, quase esmurrando o teclado.

Se, com a arte moderna, o que interessa é a emoção do artista — e não o efeito, nos outros, do produto de suas mãos —, imaginemos que a ciência tenha inventado um aparelho capaz de registrar o grau de emoção e inspiração quando da execução de uma peça musical. Um aparelho, de eficácia comprovada, semelhante àquele usado hoje para medir a pressão arterial. Ou semelhante ao atual detector de mentiras. A diferença é que este último indica a presença da mentira, e o outro, mais moderno, comprovaria a real sensibilidade do artista. E prossigamos dando um exemplo.

Anunciada, com estrondo, a chegada ao país de um novo gênio da música, um pianista estrangeiro — tão genial que poucos ouvintes teriam a capacidade de “entender” a profundidade se sua arte — seu empresário mencionaria que a inspiração do artista não poderia ser fingida porque em seu braço estaria afixado o tal aparelho infalível que comprovaria o grau autêntico de sentimento que um ser humano pode suportar.

Na propaganda, que precederia o concerto inaugural do recém-descoberto gênio, haveria a advertência de que pessoas sem um excepcional grau de sensibilidade musical não deveriam, sequer, comprar os ingressos porque provavelmente não seriam capazes de “captar” a profundidade da arte escondida em aparência simplória. A presença do grande artista no país, seria até um favor prestado aos brasileiros. Mostraria aos próprios nacionais uma riqueza artística que eles não tinham percebido em seu antigo folclore. Essa falta de interesse em vender ingressos a pessoas sem sensibilidade artística até aguçaria a procura desses ingressos. Todos, comprando, estariam demonstrando quão sensíveis são à beleza artística.

No dia anunciado, Teatro Municipal lotado, ao braço do pianista seria atado o “detector de emoções sinceras”. Após impressionante silêncio o artista começaria a tocar, usando apenas um dedo:— “Atirei o pau no gato-to, mas o gato-to, não morreu, reu-reu. Dona Chica-ca, ad’mirou-se-se, do berrô, do berrô que o gato deu, miau!”.

O auditório, pasmo, com vontade de rir mas temendo passar por ignorante, manteria o rosto sério mas ficaria observando o imenso painel eletrônico — conectado ao “aparelho da sinceridade”—, com a esperança de ver um mau “resultado emocional” que autorizasse a vaia represada na garganta. O aparelho, no entanto, confirmaria o ponto máximo da emoção artística sentida por um ser humano. A extraordinária inspiração do pianista estaria tecnicamente comprovada. Com isso, o público apenas se recriminaria intimamente: — “Devo ser um tremendo ignorante, mas não confessarei isso a ninguém. Vou aplaudir de pé”.

E se o artista sofresse um derrame, seu coração incapaz de aguentar tanta emoção, caísse morto ao terminar seu especial concerto, haveria uma longa discussão teórica sobre a genialidade do pianista e os motivos misteriosos que fizeram o artista escolher essa modinha e não outra. As teses seriam, entre outras: — “ Por que dona Chica atirou o pau no gato? Qual a simbologia dessa violência?”, e por aí afora.

Exagero, claro, no exemplo, mas em substância é o que ocorre com a desculpa de que o artista tem que pensar apenas no que sente ao externar sua arte. Pensar apenas em si. Não lhe interessa se o público sentiu ou não prazer autêntico. Se prazer houver no público, será o prazer de “de estar por dentro, enturmado, dentro da moda”.

Voltando à pintura, tudo ia bem com ela, no classicismo, até que surgiu uma novidade técnica, fora do mundo artístico, mas que abalou o pacífico panorama que valorizava a arte de desenhar as coisas tal qual se apresentavam aos olhos: a fotografia. Com um simples “flash” conseguia-se “desenhar” qualquer coisa, com uma precisão de traços e equilíbrio de proporções que só mesmo um Leonardo Da Vinci conseguiria. A difusão e aperfeiçoamento da fotografia foi a desculpa salvadora de muitos artistas que, não obstante o entusiasmo pela pintura, não conseguiam desenhar.

Estava aberto o caminho — ou atalho —, para o homem que admirava as artes, identificava-se emocionalmente com ela e gostaria de fazer parte desse misterioso mundo, cheio de seduções. As mulheres de então — fins do século 19 e início do século 20 —, sentiam uma especial atração pelos artistas, geralmente impetuosos e libertos de restrições em assuntos relacionados com a mulher alheia. Hoje, provavelmente, elas preferem os “artistas das finanças” e dos esportes de massa, muito mais lucrativos, digo, atraentes para elas. Os pintores eram, então, quase sempre homens.

O mundo artístico — quando sincero, autêntico — tem realmente uma faceta interessante. Suas intuições são, frequentemente, certeiras. Freud confessou que raramente chegou a alguma descoberta sem que algum poeta não tenha estado lá primeiro. A verdadeira arte tem isso de bom: ela alcança, “sem querer”, por intuição, áreas ainda não alcançadas pela ciência. Voa, mesmo caindo frequentemente, enquanto o cientista vai a pé.

Houve, também, com o advento da fotografia, o aparecimento dos “pintores espertos” que queriam apenas um caminho fácil e rápido para a fama e seu sub (ou super?) produto: dinheiro. Era a “democracia” artística que permitiria a qualquer audacioso, sem talento para o desenho, mas na caradura, “aparecer”, chamar a atenção. “A ordem, agora, é escandalizar!”. E quanto mais chocante seu trabalho — desconforme com a aparência normal dos objetos —, maior o “escândalo” capaz de chamar a atenção, com boas consequências comerciais.

Para enfrentar os observadores mais desconfiados, ou céticos, que diziam que ali só havia audácia, não arte, havia duas desculpas espertas: 1) quem quiser a reprodução exata de uma paisagem ou objeto, que tire uma foto; 2) nas artes, o que importa é sentimento do artista, não o produto físico, visível, dessa emoção.

Pablo Picasso foi quem, com maior franqueza, externou o argumento de que na pintura e na escultura o que vale é a emoção do artista, não aquilo que conhecemos como a “mera realidade”. Para ele, o pintor pode até pintar de olhos fechados, desde que esteja “inspirado”. O público não deve ser importar com a aparência. Deve apenas “sentir” o mesmo que “sentia o artista”. E falava essa bobagem com tanta convicção — extraordinário psicólogo que era — que alguns milionários passaram a comprar seus quadros, com isso provocando imensa valorização de qualquer quadro com a assinatura “Picasso”. Ele se dava ao luxo de dizer não ser suficientemente rico para ter em sua casa um “Picasso”.

Vejamos algumas citações dele, obtidas na internet.

“I paint objects as I think them, not as I see them”.   
(Eu pinto objetos como os penso, não como os vejo)

“Painting is a blind man's profession. He paints not what he sees, but what he feels, what he tells himself about what he has seen.”.
Comentário: era um engraçadinho.
(Pintar é a profissão de um homem cego. Ele pinta não o que vê, mas o que sente, o que ele diz a ele mesmo sobre o que viu).

“The people who make art their business are mostly imposters”.
(As pessoas que fazem da arte seus negócios são  na maior parte impostores)

“The world today doesn't make sense, so why should I paint pictures that do?”
( O mundo hoje não faz sentido, assim, por que eu deveria pintar os quadros que pinto?)

“To draw you must close your eyes and sing”.
( Para desenhar, você precisa fechar seus olhos e cantar”)  

“Who sees the human face correctly: the photographer, the mirror, or the painter?”
( Quem vê a face humana corretamente: o fotógrafo, o espelho, ou o pintor?).

O que explica, então, a permanência da arte moderna, seu alto valor econômico, mesmo sendo fácil, breve, chocante e nada coincidente com a realidade visível?
Para mim, a explicação está na personalidade do artista. Na audácia, na firmeza, na caradura, no “carisma”, na “personalidade forte”, como foi o caso de Picasso, grande psicólogo. Ou na integridade e compaixão, como foram os casos de Vincent Van Gogh e de seu amigo Paul Gauguin. É impossível ler a biografia desses dois sem que fiquemos comovidos com almas tão sensíveis. Sabiam desenhar? Sabiam o suficiente, mais que a média das pessoas que não são artistas. No entanto, eram pessoas de imensa integridade.

O caráter de um artista “contamina” sua obra, positiva ou negativamente. Influi bastante no que se refere a sua aceitação pelo público. Inclusive sua orientação política. O próprio Picasso se beneficiou disso. Tinha ideias generosas e era franco em suas opiniões, como se lê nas citações acima. Se ele tivesse sido um homem de direita, ou nazista, jamais seria considerado um pintor famoso. “Guernica” o impulsionou. O mesmo ocorre em outras artes: a personalidade do artista “contamina” sua obra, para cima ou para baixo.

Abstração é terreno mais apropriado para a filosofia, não para a pintura ou escultura. Penso que, pelo menos por longo tempo, o ser humano ainda exigirá algum grau de virtuosismo, dificuldade e trabalho em todo pintor. Nas competições esportivas, no circo, no desempenho cinematográfico, na redação de contos, romances, crônicas e poesias espera-se que o artista se expresse com uma habilidade acima do comum. Não aceito que um escritor apenas “sinta” emoções refinadas na sua misteriosa cachola, escrevendo apenas tolices, ou coisas incompreensíveis até para o próprio escritor. Daí o preconceito geral, fundamentado, contra aquela arte moderna que não agrada nem à vista e pode significar qualquer coisa: — “É fácil demais. Assim, até eu mereço um prêmio qualquer...”, pensam as pessoas mais sensatas.

Agora, uma palavra ligeira sobre a música. De todas as artes, penso que ela é a menos suscetível de enganação. A mediocridade musical não consegue flutuar muito tempo porque pode ser avaliada em questão de minutos. Afunda porque não há qualquer vantagem financeira em mantê-la à tona, quando não agrada a praticamente ninguém. Basta ouvir uma música nova, durante um minuto, para sabermos se vale ou não a pena continuar ouvindo. A abundância de sua produção e o tamanho do público são tais que não vale a pena gastar com propaganda de músicas que ninguém quer ouvir, nem muito menos comprar em forma de disco. Já com a pintura moderna, existe algo material e um restrito mercado de ricos compradores, funcionando os quadros como reserva de valor, quando o nome do pintor é muito conhecido. O quadro é físico, palpável, concreto, como se fosse um título de crédito. Já a música que ninguém quer ouvir é mero ruído, não interessa a ninguém, não há como transformá-la em joia.

Apenas com relação ao jazz é que cabe uma dúvida. A maioria das pessoas não gosta, porque não há uma melodia identificável. A meu ver, o jazz deveria ser utilizado apenas como técnica de composição. Os músicos ficariam na improvisação sem fim mas quando, por mero acaso, os errantes executores “topassem” com uma nova melodia, passariam a desenvolvê-la, compondo uma música “normal”.

Encerrando, a arte moderna tem sua utilidade na propaganda, no humorismo, na caricatura, na fabricação de enfeites, brinquedos, móveis, capas de livros, etc. Não como grande pintura ou escultura.

Alguém poderá perguntar: porque dizer tais coisas óbvias, desprestigiando museus e exibições de quadros e esculturas que servem como local de passeio, distração, conversas e namoros, dando emprego a muita gente?

É uma boa pergunta. Minha desculpa é que muitos pensam como eu e sentem-se insultados na inteligência. Pelo menos coloquei no papel o que muitos pensam mas não se atrevem a dizer. Ficarão mais confortados na nossa “santa ignorância”.

FIM

quinta-feira, 21 de março de 2019

"As baratas herdarão a Terra”.


          Duas baratas, macho e fêmea, distinto casal, conversam, no idioma delas, na tubulação de esgoto, enquanto mordiscam restos estragados de comida. Ele chama-se Glutof e ela, Kiti.
 — Por que o entusiasmo? — pergunta o marido em tom desconfiado. Glutof é cético, convencido, solene, cascudo, culto, repulsivo, olhos de coruja. Nutridíssimo, lembra uma tâmara escura e obesa, dotada de pernas finas porém musculosas e cabeludas — ou que melhor nome tenham suas cerdas. Felizmente, não engorda nas coxinhas, o que lhe permite disparar em incrível velocidade nos momentos de perigo, caçado pela tríade maldita de homens, ratos e gatos. Estes últimos uns farristas preguiçosos que matam por diversão porque nem mastigam as presas. Sentem nojo.
Glutof orgulha-se do brilho castanho, quase negro, das suas asas, que consegue rufar com enorme sucesso, provocando gritinhos e desmaios no sexo oposto. Apesar de gordão, é mulherengo, ou melhor, “baratengo”, palavra que pretende incluir no primeiro dicionário de uma nova língua, o “baratês”, em elaboração — ele coordenador. Também gosta muito de filosofar, superior, deliciando-se com a basbaquice dos colegas de sua espécie, “quase todos uns ignorantes, quando comigo comparados”. Ocorreu uma mutação genética nas baratas domésticas, caracterizada pela maior longevidade e tamanho do cérebro. Mas nem todas foram igualmente aquinhoadas com o aumento da inteligência. Aliás, um problema também humano, só que bem mais antigo.
— Você, crítico e convencido como sempre! — Kiti protesta. — Que mania a sua de me diminuir, quebrar o meu barato! Não é entusiasmo, diabo! É que fiquei espantada, ou melhor, horrorizada — tá bem assim? — vendo a asquerosa limpeza do novo restaurante da esquina. Consegui entrar lá uma única vez, por baixo da porta, na véspera da inauguração, e dei uma espiada. Ontem, após a inauguração, tentei voltar para beliscar umas coisinhas, esgueirando-me pelos cantos, mas fiquei com medo. Movimento demais. A única fresta que poderia me dar uma boquinha já foi fechada. A prevenção dos canalhas humanos contra nós é perfeita. Entrada, só se for pela porta da frente, mas com o risco de ser esborrachada pela sola do porteiro.
— Pela sua linguagem corporal ainda acho que você parece meio eufórica, quase contente, aprovando inconscientemente a abominável limpeza... — insistiu o marido, teórico respeitadíssimo pelo zelo na defesa dos imorredouros valores da imundície. Interrompeu as chupadinhas que dava num pão embolorado para sorver, estalando os beiços, um copinho de muco, escorrido de uma casa de repouso de velhos pobres.
— É que eu, mesmo não aprovando, lógico, qualquer limpeza — tá pensando que sou o que?! — gosto de ver coisas bem feitas, mesmo discordando delas. Você sabe que sempre fui perfeccionista...
— Em termos... — cortou o marido. — Lá em casa você relaxa. Ainda há muita limpeza aqui e ali... O asseio está ficando insuportável. Você não é muito boa dona de casa, desculpe a franqueza...
— Mas você também não coopera! — ela ergueu a foz fininha, indignada, vibrando as antenas. — Fica lá, paradão, no gabinete daquele advogado velho, dono da casa, mordiscando livros antigos, engordurados, comprados no sebo. Você, meu caro, é um viciado em sal e gordura humana velha.
— Você é que não enxerga um palmo adiante do nariz. Não é só gula, minha cara. Eu estudo. Minha ociosidade é aparente. Está certo que também gosto de comer. Leio, porém, tanto quanto como. Opa! Merece até um trocadilho — sorriu, encantado com o achado: — Como leio! Exclamação. Principalmente saboreio, devagar, degustando não só o sebo dos dedos da decadente prole de Adão, como também a parte abstrata, as próprias ideias impressas. Isso para não ficar dizendo besteira por aí, como nossos irmãos cascudos de pernas finas. Um dia herdaremos a Terra... Lembra-se da profecia? Já li que se houver um conflito nuclear, apenas nós sobraremos. Estaremos bem protegidos aqui no fundo, enquanto a canalhada bípede torra lá em cima, merecidamente. Já imaginou a farra, depois? Tudo será nosso... Do lixo aos computadores...
— Isso se der tempo de você correr pra cá. Se estiver na biblioteca na hora do “Big Bum!” — como provavelmente estará, viciado em livro sebento — não herdará coisa nenhuma! Será apenas mais uma tâmara tostada. Além disso, a que guerra atômica você se refere? Os dois únicos gigantes que poderiam nos prestar esse favor já fizeram as pazes! Está tudo desmoralizado! O chefe russo, aquele urso loiro e cardíaco — referia-se a Boris Yeltsin —, com olhos puxados de mongol — a mãe dele deve ter tido um vizinho japonês mais bonito do que o marido — virou capitalista! Em vez de utilizar os roliços dedos apertando os botões de lançamento dos mísseis, diverte-se beliscando as secretárias! É de desanimar...
— Não perca as esperanças, Kiti. — Ela é graciosa, pestanuda, cérebro rico de intuições loucas e acertadas, tudo misturado. Boazudinha, quase só feromônios e órgãos reprodutores, tem fama de leviana, mas até agora ninguém teve coragem de testemunhar contra ela porque é influente e vingativa. É o quinto casamento do intelectual cara de coruja, que prossegue, doutoral: — Parodiando o que já disse um empresário americano, ninguém, até agora, perdeu dinheiro apostando na idiotice dos chefes de estado valentões. Melhor dizendo, na idiotice da espécie humana, toda ela, sem exceção, que se diz tão racional, espiritual. Nós, que a conhecemos bem e comemos o que jogam fora, sabemos o que eles são no fundo. Principalmente nos fundos...
Fez uma pausa para mordiscar um resto de banana podre e continuou, erudito, deliciado de ouvir aquela voz que sabia modular com tanta autoridade:
— Felizmente, as chamadas potências emergentes estão aí, preocupadas em dominar o átomo, com isso assustando os vizinhos. Portanto, não desanime. Um dia, estarão fazendo bombas atômicas de fundo de quintal. Chegará a nossa vez, Kiti. Sempre acreditei que nossos ideais de justiça e supremacia final acabarão prevalecendo. O poder dos impérios sobe e desce, qual uma gangorra. Está nos livros de história que lambo, digo, leio. O Poder muda de mãos. Sinto no ar, principalmente no poluído — essa cheirosa e estimulante lixeira aérea — os sinais de que está chegando a nossa vez! É sumamente injusto o atual sistema de dominação! Qualquer humano, idiota ou sabidinho, mal nos vê comendo uma mísera migalha no chão da cozinha, morrendo de fome, arregala os olhos como um assassino louco e corre pra cima, com a pata erguida. Por que esse preconceito? Afinal, estamos limpando a cozinha deles, sem nada cobrar! Economizariam com faxineiras! Poderíamos viver tão bem, em harmonia! À noite, os humanos espalhariam suas roupas sujas pelo chão, iriam dormir nus, e nós invadiríamos a casa, comendo toda a sujeira digerível deixada em copos, corpos, pratos e talheres. As roupas teriam essa “lavagem a seco” diária. Lamberíamos todo o pessoal da casa, dispensando-os do banho matinal. Baita economia pra eles! Acordariam limpinhos! No entanto, as bestas nos esmagam!
— Que tal a gente montar um rodízio de roupas íntimas? Deve dar dinheiro... — ela propõe, olhos brilhando, sempre atenta a sacar um lucrinho de qualquer ideia. Considera-se uma grande empresária.
— Desta parte, você cuidaria. Não gosto de me meter em assuntos de dinheiro. Sinto-me como se perdesse a dignidade.
— Tudo bem com essas teorias. Você sabe que não esquento a cabeça com leituras. Só gosto de leitura a jato, dinâmica, mas gostaria de saber como vamos comer, se estourar uma guerra nuclear. Os alimentos não estariam contaminados pela radiação?
— Bem, ora... — ele pareceu surpreso. Nunca meditara sobre isso. Rotulava esses lampejos de bom senso da esposa de “faíscas da ferradura da cavalgadura”, como já dissera um famoso crítico. Mas não deu o braço a torcer: — Realmente, claro, hum, de fato, já havia pensado nisso... Durante algum tempo, que nossos técnicos determinariam, não comeríamos o que está na superfície.  Temos nas redes de esgoto um gigantesco e delicioso estoque de supermercado natural, tudo já prontinho e temperado para o nosso consumo. Assim, seria só esperar algum tempo no esgoto, até que diminuísse a radioatividade. — Fez uma nova pausa para lamber, estalando os lábios, uma espécie de musse de chocolate extraída de um papel branco, quadrado, textura suave, e concluiu:
— Seria a glória!, como se estivéssemos no Camboja...
— Por que o Camboja?
— Porque houve lá uma suculenta guerra civil que durou vinte e cinco anos. Nesse período, foram plantadas entre seis e dez milhões —  hesitou: ou seriam dez mil? — de minas terrestres. O resultado é que agora, todo mês, entre duzentas e trezentas pessoas vão pro espaço. Não em aviões de carreira. É o país, embora minúsculo, que tem o maior índice de amputações do mundo. Convenhamos, um paraíso terrestre! Houvesse turismo entre nós, você já imaginou?... Ai, ai, ai! Dá até água na boca, só de pensar! E os lança-chamas? Poderíamos escolher entre carne mal passada, bem passada, saignant, rare, medium.
— Lá vem você com suas exibições de poliglota...
— E dizem os especialistas que serão necessários uns trezentos anos para localizar e desmontar todas as minas.
— Por que eles plantavam tanta bomba? Não era possível uma agricultura mais tradicional?
— Kiti... Você precisa ler mais devagar... Ninguém planta bombas, querida. Eles enfiam explosivos no chão! Cada ala rival, ao se retirar, espalhava as minas para fod..., digo, estrepar — ele não aprovava palavrões na boca de grandes líderes — a cambada rival. E como havia muitas idas e vindas nas contínuas escaramuças, perdendo e reconquistando terrenos, o resultado é que o país virou um vasto açougue, fornecedor de pernas, cabeças e braços humanos — em peças avulsas. Para nós, um paraíso, pois somos levezinhas e podemos caminhar sem susto sobre as minas. Nossas primas cambojanas, aquelas sortudas, têm sangue e carne fresca à vontade. Já está até fazendo mal ao fígado, dizem, devido ao excesso de ferro na alimentação. É como porre de vinho, dá aquela bruta dor-de-cabeça no dia seguinte. Os “inteligentíssimos” humanos, hi!, hi! — riu, erguendo as sobrancelhas, rufando as asas em desprezo — não pararam para pensar que, um dia, o tiroteio iria terminar? Esqueceram a velha definição de que são “bípedes implumes”? Como não voam, pisam... e só então voam. Soube que uma horrorosa princezinha inglesa, uma tal de Lady Di, vinha pregando a proibição de minas terrestres. Será que vem mais essa desgraça por cima de nós? Infelizmente, ela morreu.
— Infelizmente? — Kiti abriu as asas com espanto. — O que deu em você? Foi bom ela ter morrido, parando com essa campanha nojenta.
— Você não tem visão, Kiti. Digo infelizmente porque, com a morte dela, a imprensa passou a venerá-la; consequentemente, dando força ao que ela pregava. Antes continuasse viva, só enchendo a paciência. Viva, seria menos prejudicial para nossa causa. Perseguiram a infame por anos e anos, vigiando-a, fotografando-a à distância, criticando e fofocando o tempo todo. Queriam até, por causa dela, a queda da monarquia inglesa. Agora, bastou a maléfica reformista morrer e pronto! Virou deusa! E aí é que está o perigo para nós! Doravante, em crise de consciência — essa coisa tão doentia nos humanos, e principalmente para vender revistas — a mídia vai querer pôr em prática a pregação dela. Entre os humanos é assim. Só depois da pessoa morta, não mais despertando inveja, porque está apodrecendo, é que é valorizada. Só espero que aquela princezinha, mais feia que a higiene, não tenha sucesso póstumo na sua absurda campanha para abolição das minas terrestres. Mesmo que não haja guerra nuclear, eles morrerão de qualquer forma, só que lentamente, cozidos no fogo lento do efeito estufa, ou envenenados pelas porcarias de comem, cheias de química cancerígena de efeito remoto. São burros e ambiciosos demais para parar a tempo. Felizmente, para nós, nossa alimentação, no esgoto há milênios, já nos tornou imunes a tais venenos.
— Será que um dia seremos também assim, digo, com essas falhas de caráter dos humanos?
— Provavelmente... — ele suspirou. — Lamento dizer. É o preço da civilização... — Sentia vaidade da sua frieza de estadista. — A menos que criemos uma nova Ética, na qual venho trabalhando há tempos, com a profundidade que todos notam em mim. Para começar, precisamos inventar um reforço de coação, um deus-barata à nossa imagem e semelhança: cascudo, antenudo, poderoso, vingativo. A chefe, diretor, presidente, nem todos obedecem. Mas a um deus-barata, com poder realmente de vida e morte, a barataiada planetária vai tremer... e obedecer. Conversarei privadamente com “ele”, nosso deus — eu mesmo, claro... — uma vez por semana no telhado de um prédio alto — sorriu, irônico, fechando um olho de coruja — e em seguida transmitirei ao nosso povo qual foi a mensagem que só eu ouvi... Que tal a ideia?
— E você acha que nosso pessoal vai acreditar nisso, nesse colóquio privado divino? Nossa gente é mais desconfiada que os humanos, porque sofreu mais...
— Acredita, sim, porque faz bem à alma acreditar. Acredita-se sempre naquilo que se deseja acreditar.
— Mas você mesmo acredita?
— Claro que não! Mas ninguém poderá provar que não acredito. A menos que você abra a linda boquinha, mas aí já sabe o que a espera. Apenas vendo um produto muito necessário, a esperança, enquanto houver medo no coração das baratas. “Business”, apenas. E por falar em medo, a civilização dos humanos está afundando justamente por falta de medo. A moda deles agora, o “must”, é a compreensão profunda da motivação dos atos humanos. Os patetas querem é “entender”, vejam só... Resultado: concluíram, por exemplo, que não adianta encher as cadeias, porque a prisão não recupera. Claro que não recupera! Mas a impunidade por acaso recupera? Ficam como baratas tontas — epa! digo, humanos tontos! — não sabendo o que fazer. E malandramente dão um jeitinho de conciliar o velho desejo de retirar de circulação o asqueroso bandido, ao mesmo tempo que podem se elogiar, dizendo que lhe fazem um grande bem, “reeducando-o”. Eu, quando estiver mandando nessa joça, já sei como vou resolver o problema da criminalidade: pena de morte imediata para toda barata cometendo um crime grave. Será um exemplo e tanto. Não gastaremos com processos, papeladas, cadeias e principalmente comida. Para pequenas infrações torturaremos o cara mantendo-o alguns dias num lugar doentiamente asseado. Para ele será a morte! Nunca mais vai querer errar de novo! Do contrário volta para a limpeza.
— Caramba! Que finura! A limpeza! Quando quer, meu querido, você sabe ser mauzinho... Talvez fosse melhor matar logo de uma vez... Desculpe, meu bem, sou contra torturas.  Mas como vamos matar os criminosos mais perversos, se não temos armas, dentes e nem mesmo mãos?
— Amestraremos os ratos. Eles são astutos, mas burros. Há uma grande diferença entre astúcia e inteligência. Eles só pensam em roer e fornicar. A menos que também sofram uma mutação, como a nossa. Aí estaremos ferrados porque eles têm um cérebro maior... e dentes... Aliás, já instruí nosso staff para me informar sobre qualquer material radioativo encontrado na tubulação. Isolaremos imediatamente a área porque, com a radiação, tudo pode acontecer. Se os ratos ficarem como nós, adeus ao nosso milênio de glórias! Eles é que substituirão os homens no domínio da Terra.
— Mas voltando ao novo restaurante da esquina, você precisava ver a limpeza da cozinha! Tudo brilhando! Nenhuma sujeira capaz de...
— Para! Para! — ele a interrompeu aos gritos sapateando, tremendo de ódio, amassando e jogando fora o papel higiênico manchado de chocolate. — Não aguento mais esta sua conversa porcalhona, bem na hora da refeição! Quer me fazer vomitar?!
— Chiii!... Precisava gritar desse jeito? Tá com nojinho da limpeza? Que sensibilidade delicada... Parece uma mocinha...
— Olha lá como fala... — suas grandes antenas vibravam de indignação. Nunca batera na esposa, mas estava prestes a fazer isso.
Kiti não se intimidou: — De tanto ler livros de humanos, tá ficando com faniquitos de poeta, todo delicado, sensitivo de torre de marfim. Cuidado, hein... Conheço um que virou a mão...
— Que livros você queria que eu lesse, sua burra? Barata, por acaso, já tem editoras e indústria gráfica? Agora somos inteligentes, claro — tanto assim que os humanos nem suspeitam, pois disfarçamos. Mas temos que, por enquanto, haurir a única cultura disponível, a dos humanos, até que elaboremos a nossa, própria, que será, claro, muito superior.
— Falei só pra te chatear... Porque você foi grosseiro. — Com as duas grande antenas, nela especialmente graciosas, fez um agrado na antena do marido, alisando-a, enquanto emitia feromônios que o excitaram. Mas ele se dominou porque achava perigoso fazer sexo após lautas refeições.
— ... Amorzinho — ela indagou, meiga, — por que você lê tanto? Não acha que exagera? Pode prejudicar a vista... E não temos ainda oculistas entre nós. Por falar nisso, acho que você ficaria bacana usando óculos com armação de tartaruga. Impossível ar mais intelectual! Você é meu pão embolorado, meu doce de coco com validade vencida há mais de três anos. Tem muita pilantrinha cascuda por aí me invejando, pensa que não sei?
— Leio porque, se houver algum cataclismo mundial, quero estar preparado para organizar nossa espécie rumo ao milênio. Nós, baratas, não repetiremos os erros dos humanos.
— Que erro, amorzinho? Desculpe, mas com ou sem erro eles estão por cima... Estão milênios à nossa frente. Nossa mutação genética — graças à bendita sujeira radioativa que jogam em qualquer lugar — é muito recente. Os humanos nos esmagam de tudo quanto é jeito. Ou nos envenenam com aquelas esguichadinhas mortais. Um dia, quase morri, te contei não? Por pouco você estaria conversando agora com um fantasma. Acho até que restou sequela. Nunca mais fui a mesma, uma sensação esquisita no baixo ventre... A dona da casa, cafajesta promíscua — provavelmente vinha da farra porque estava com umas enormes olheiras — mal acendeu a luz da cozinha e me viu ali, bem no meio, estonteada pela claridade, correu para pegar um tubo de inseticida. A carrasca não queria melecar a rica solinha... Nessa hora disparei em círculos, como um busca-pé, até me lembrar de que o melhor seria escapar por baixo da porta que dá para o quintal. Enquanto isso, a fera humana, esbaforida, rodopiando, com medo de que eu subisse nela, sapateava uma dança guerreira, tentando esguichar o veneno na minha direção. Felizmente, quase não me atingiu, mas, assim mesmo, só com a neblina, senti cólicas na hora. Penso que abortei... Saiu tudo misturado. Eles não erram, meu bem. Não adianta, o mundo é deles... Até hoje me arrependo de não ter subido pelo meio das pernas dela, até o fim. Daria uma mordidinha caprichada bem ali. Garanto que a vagabunda desmaiava de pavor!
— Quando digo errar, Kiti, refiro-me ao comportamento dos humanos com os próprios humanos. Eles mesmos se eliminarão, seja com bomba, poluição ou criminalidade nas ruas e bancos. Não precisamos interferir. É só esperar. Na Argélia, alguns caras fanáticos ganharam mas não levaram uma eleição. Estão degolando centenas de pessoas nas aldeias mais afastadas. Vítimas, inclusive crianças, que em nada contribuíram para a ilegalidade política. Também estupram mulheres jovens, antes de matar, porque ninguém é de ferro. E matam a machadadas. Nossas primas argelinas é que se deliciam com esses humanos do capeta, nossos preparadores do terreno.
— Com relação a nós — ele prosseguiu, porque sentia-se especialmente inspirado — e aos ratos, por exemplo, esses canalhas resistentes, mas de visão curta, que também nos atacam quando esfomeados, eles, humanos, são muito eficientes... Bem, eficientes em termos, porque soube que no prédio do Pentágono havia uma praga de milhares de baratas americanas, nas barbas deles, exímios guerreiros de computador que são. Sim, os humanos sabem matar, mas, felizmente para nós, odeiam-se mutuamente. Amam-se nos pequenos intervalos da vida, mas, quando contrariados, odeiam-se. Basta discordar e o cara está ferrado. Pai odeia filho e vice-versa. Uma beleza.
— Desculpe, mas não é bem assim... — ela sentia um prazer sutil quando achava uma falha nos argumentos dele . — Alguns humanos não são agressivos nem mesmo com nós. Semana passada, eu e mais umas cinquenta amigas estávamos fofocando no teto da tubulação de esgoto da rua quando um trabalhador da rede pública desceu até ali por uma escadinha. Vendo-nos a poucos centímetros de sua cabeça, gritou para alguns colegas que estavam logo acima, no nível da rua: — “Tudo bem, pessoal! Não há perigo!”. E começou a trabalhar na tubulação, sem nos causar qualquer dano. Um santo! Fiquei muito comovida. Quase voei nos lábios dele para lhe dar um beijo... Realmente os humanos são surpreendentes. Nem sempre são maus.
Glutof sorriu, superior, divertido com a inocência da companheira: — Então a lindinha pensou que ele te poupou porque gostou de você? Nada disso, candura. Ele te deixou viva porque o fato de haver baratas na tubulação significa que por ali não há gases tóxicos. Justamente quando não há baratas é que existe o perigo. Se há, podem trabalhar sem susto. Só nos poupam quando somos úteis, manjou?
— Caramba, eles não dão ponto sem nó... — Desconcertada, ela coçou a primeira axila direita, como sempre fazia quando sentia-se ridicularizada. — Como você sabe das coisas... Por que, com toda essa sabedoria, não organiza um ataque em massa contra os humanos? Eles são medrosos. Comem muito e têm a vida mansa. Já vi um homenzarrão pular como um macaco, apavorado, só porque havia duas baratas dentro da camisa, que ele vestiu no escuro. Ou porque uma inocente coleguinha nossa voou e entrou casualmente dentro da boca de um velho. Ele praticava exercícios respiratórios, com a boca aberta, fazendo profundos movimentos de inspiração. Foi realmente o beijo da morte. A pobrezinha foi cuspida como se fosse uma coisa nojenta, e esmigalhada! O mais espantoso é que o velho, em seguida, foi rezar! Pode?!
— Sei que o homem é medroso, mas tem a tecnologia da morte. Numa guerra, seríamos derrotados. Ganharíamos umas mínimas escaramuças iniciais, dando apenas alguns sustos. Voando, por exemplo, nos olhos, ou na boca, ou escondendo-nos dentro das cuecas de alguns figurões, vibrando as asas perto do... você sabe onde... Mas seria só isso, sustos, coisinhas. No máximo alguns enfartes porque esses importantões, cheios de poder, pizza, lasanha e filé mignon estão com os tubos... — como é que chamam, mesmo? Ah!, artérias! — igualmente cheios de gordura. A natureza nos foi madrasta. Nem ferrão nós possuímos...
Glutof fez uma pausa involuntária. Estava emocionado com seus pensamentos, quase chorando. Lamentou não estar sendo visto e ouvido, naquele momento, por muitas baratas, porque a dor moral autêntica, na política, é coisa rara. Sua eloquência, sincera e triste, estava sendo desperdiçada. Mas precisava aproveitar o embalo. Quem sabe diria coisas interessantes. Por isso prosseguiu:
— Se fosse possível uma mutação genética direcionada nesse sentido, dando-nos armas naturais, por exemplo, veneno, como nas aranhas... Mas essas mutações ocorrem sem nenhum controle. Agora nós temos apenas inteligência, mas você já percebeu que nem todos. Estamos muito longe de manipular a engenharia genética. Sem mãos, seres pequenos que somos, o que podemos fazer por enquanto? Apenas pensar e nos organizar. E esperar que eles se matem, o que é quase certo. Para os que gostam de ação, tiveram o IRA, o ETA, o Oriente Médio, eterna fonte de ódio, guerra comercial entre os maiorais, etc.  Jamais chegarão, assim espero, a um acordo de convivência porque a cobiça por terras, petróleo e poder não deixam. A paz não interessa, no fundo. Todos aqueles chefões, terroristas e antiterroristas, não vão jamais se conformar em retornar à vidinha pacata, sem brilho, chata, ganhando pouco, batendo ponto em fábrica, escritório ou repartição. Iriam lá trocar uma vida excitante, cheia de charme ideológico, dinheiro fácil e mulheres, por ofícios tais como carteiro, cozinheiro, comerciário, comerciante, feirante, etc.? Uma desmoralização!
— Mas, meu bem, alguns explodem junto com as bombas. Parecem idealistas.
— Certo, certo... mas só os tolinhos... Os intelectuais, os chefões, jamais fazem isso. Soldado do terror, explode; general do terror não explode. Jamais! A não ser de raiva! Afinal, “a causa” precisa de seus “potentes” cérebros. Correto? Por outro lado, a ala oposta, que andou dispersa pelo mundo, imaginava o quê? Que iriam retomar a antiga terra, a Palestina, milênios depois, expulsando os locais de turbantes, colonizando e ficando com tudo, sem qualquer reação? Não sei, eles que são humanos que se entendam. Ou melhor, que não se entendam nunca! São nossos votos.
          — Além disso — prosseguiu —, não esquecer a sacrossanta AIDS, néctar dos deuses! É uma praga do bem, o nosso, que, espero, faça uma grande limpeza porque somos a ela imunes. E as drogas, então, essa nossa aliada vingadora, que quando pega não larga mais! Fracos como são, e sabem que o são, os palhaços humanos ainda as experimentam, só para “conferir” e constatar depois que a coisa era como diziam, vicia. Talvez para passarem malandramente à condição de vítimas, coitadinhos, viciados. No fundo uma boa, pois aí todo mundo paparica eles. Viciado não precisa trabalhar, nem estudar, nem fazer coisa alguma. Precisa só continuar viciado. Um achado! E por falar em achado, eu já tomei meu porre involuntário, pois, quando chega a polícia, a primeira coisa de que o traficante se lembra é de jogar o pó branco na privada e dar a descarga. Sem a mínima preocupação com a nossa saúde, pois vivemos no esgoto. Eu vi aquele pó clarinho boiando e logo pensei que era açúcar. Meti a boca e chupei. Quando dei por mim, estava fogueteando pelas paredes e desafiando ratões para sair no braço.

             — Não esqueçamos — ele prosseguiu — a maravilhosa infecção hospitalar, um dos poucos segmentos em que podemos colaborar pessoalmente para o êxito de nossa causa. Estamos organizando cursinhos de orientação sobre como chupar a gaze infectada e em seguida beliscar a comida dos doentes. Principalmente das criancinhas, porque é melhor matar o inimigo no ovo. Enquanto as faxineiras fingirem que limpam o chão dos hospitais e seus chefes fingirem que as fiscalizam — pois na verdade têm medo delas, o receio de parecerem “autoritários” — as coisas irão às mil maravilhas. Mas, voltando ao que dizia antes, nós, baratas, precisamos, acima de tudo, é disfarçar a nossa recente inteligência. Contei o caso do Tico?
— Acho que não... Você fala tanto, meu bem, que eu às vezes fico tonta...
— Em você isso é normal... O Tico é também uma barata, amigo meu. Foi um dos primeiros mutantes. Mas em lugar de disfarçar, bancando o burro, cedeu à tentação de se exibir. E acabou mal, claro. Uma noite, enveredou por uma longa tubulação que não conhecia — ah, o apelo do desconhecido! — muito longa mesmo, e desembocou num ralo da cela solitária de um presidiário. Quando o preso o viu, teve uma ideia: — “Vou amestrar esta barata... De outro modo, enlouqueço. Tenho ainda três anos para cumprir”.
Glutof prosseguiu : — Esse preso havia assassinado, a mulher pensando que ela o traíra — e estava certo — mas depois pensou que estava enganado — e não estava —, mas aí já era tarde. O sofrimento na cadeia tornou-se duplo porque estava arrependido. Assim, pacientemente — já fora amestrador de cães —, ensinou o Tico a escrever pensamentos famosos de grandes retardados, isto é, de filósofos humanos. O Tico enfiava a perninha num tinteiro e tascava um pensamento profundo. Às vezes, misturava as fontes, mas quem é que ia conferir? O fato de uma barata escrever já era um fenômeno.
— Como é que esse tal de Tico se rebaixava tanto?! Filósofos humanos! Dá até nojo!
— Por interesse, claro. O Tico logo aprendeu as frases acacianas, mas disfarçava a sua rapidez no aprender porque cada vez que ele escrevia um pensamento filosófico, ganhava uma guloseima. Assim, comilão como ele só, esticou quanto pôde o seu aprendizado, fingindo assimilar com vagar. Não podia exibir sua genialidade sendo uma barata. Ele era mais inteligente que seu professor. Se ele já escrevesse tudo, de cara, só comeria uma única vez. E nisso se passaram meses. Aí, como ainda lhe faltava muito tempo para sair, como  “reeducando” — outra estupidez porque na cadeia ninguém se modifica para melhor, só para pior — ensinou Tico a dançar de pé nas patas traseiras.
  Glutof fez uma pausa, esfregando umas pernas nas outras e prosseguiu: — O prisioneiro ensinou ao Tico algo espantoso: dançar o “cancã”, igualzinho àquelas bailarinas francesas, dando enérgicas pernadas que muitas vezes levavam o Tico ao chão. Afinal, nossas perninhas curtas não foram feitas para o “Folies Bergère”. Se a natureza nos deu seis pernas, como se virar com apenas duas? E o Tico, extremamente vaidoso, já por iniciativa própria, sentindo-se o máximo, virava-se de costas para a plateia imaginária e fremia as asas, empinando o traseiro, igualzinho às bailarinas que levantam a saia e mostram o “bumbum”. Acho que o presidiário chegou a pensar que o Tico era uma fêmea. E, terminada a exibição, Tico curvava-se em reverências, mandando beijinhos para a plateia e gritando com voz afeminada, quase inaudível: — Je vous aime! Je vous aime! Penso que, com um pouco mais de ensaio, o Tico cambiava de sexo.
                 — Meu bem, desculpe interromper. Estou preocupada com a hora... Você não acha que já devíamos estar em casa? Daqui a pouco os ratos começam a acordar. Diga logo como terminou a história de seu amigo.
— Terminou que, finda a pena, o preso deixou a cadeia, levando o Tico no bolso do paletó, dentro de uma caixinha. Ia procurar um empresário. Contava ficar rico porque jamais, jamais, em toda a história do show business, houve um espetáculo semelhante. Ganharia rios de dinheiro. Mas, infelizmente, a coisa não deu certo.
 — Já sei, já sei! — Kiti se antecipou, eufórica, batendo palmas. — O empresário tapeou o Tico!
 — Não! Caramba! Como funciona a tua mente! Que alegria torpe! Não, foi algo muito pior. O ex-presidiário fazia um tempão que não tomava uma cerveja decente, bem geladinha. No presídio conseguia, no máximo, uma “Maria Louca”, digna do nome porque, na sua composição, entra até verniz. Assim, dirigiu-se a um bar a fim de se deliciar com uma “loirinha”. Mas acabou bebendo quatro ou cinco copos. E não resistiu à ideia de fazer uma pequena exibição. Tirou a caixinha do bolso, mandou o Tico sair e o colocou em cima do balcão. Ia mandá-lo dançar e chiar uns trechinhos da canção “La Vie en Rose”. Chamou o barman com um “psiu!” e, orgulhoso, meio embriagado, indicou o Tico com o dedo, enquanto perguntava “Tá vendo?” Mas o barman, um bronco, tão logo viu aquela barata cascuda no balcão, a esmagou com um estrondoso tapa. Vê se pode... E assim, bestamente, morreu um grande artista. Quando nós, do Comitê, soubemos do caso, baixamos instrução proibindo, até segunda ordem, qualquer demonstração de inteligência na presença de humanos.
— Que estória mais triste... Um mártir! E como reagiu o ex-presidiário?
— Pulou o balcão na hora e esganou o barman, chorando e gargalhando como um louco. Foi o caso de reincidência criminal mais rápido da história da Criminologia. Criminólogos, desconhecendo nossa mutação, gastaram rios de tinta dissertando sobre o caso, até sugerindo possíveis ligações passionais e freudianas entre um homem e uma barata, que simbolizaria a própria mãe. Tudo consequência do isolamento brutal no regime carcerário. Fizeram até analogias com um tal de Kafka, um maluco que escreveu besteiras sobre um cara que se deitou como homem e acordou como barata, ou inseto. Como se fosse possível um aperfeiçoamento tão súbito. Ninguém acreditou na estória do Tico de que a barata dançava cancã e cantava em francês.
— Se dominarmos a Terra, você deveria, para homenagear esse herói, instituir um “Prêmio Tico”, o equivalente ao Oscar humano. Eu mesmo gostaria de concorrer. Adoro o palco, qualquer palco...
— Não é o seu caso, mas todo ator só pode ter mau caráter. Como é possível passar a vida toda fingindo sentir o que não sente, sem ter um parafuso frouxo, pelo menos no caráter?
— Estou começando a ficar zonza. Você é tão profundo que após uns dez minutos, escutando-o, sinto um torpor... Vou dormir um pouco e depois assistir um jornalzinho na televisão para me atualizar.
— Cuidado, não acredite muito em jornais! A imprensa também é ... — ele se interrompeu porque viu que Kiti roncava suavemente.
Sentiu pena dela. Parecia tão tolinha e desamparada... Delicadamente a despertou. Já tinha passado da hora de voltar.
Enlaçados, caminharam lentamente na direção do buraco embaixo da pia da casa em que viviam. Sem perceber que dois ratões esfomeados, de olhos maus, vinham logo atrás, na ponta dos pés, já salivando com as “tâmaras” que consideravam no papo.
Kiti, mais leve, menos glutona, escapou milagrosamente do ataque, mas perdeu duas pernas, uma antena e uma asa. E chorava, de luto, no dia seguinte, no enterro do marido. Ou melhor, das duas coxinhas cabeludas e uma asa, o que restou do grande líder, “Glutof, o Libertador”, que já ingressara na história.
Mas ela estava grávida e, logo, logo, todos aqueles projetos de heróis, ainda dormindo nos ovos, nasceriam e substituiriam o pai na criação heroica de uma nova civilização.

             FIM


Observação: 

Este meu conto, ou fábula, foi redigido cerca de dez anos atrás e publicado em meu antigo site.Como não foi difundido, dei uns pequenos retoques e agora o republico porque é uma espécie de súmula — gaiata, porém verdadeira —, da evolução do mundo, vista pelos mais pessimistas. Ou realistas.



quinta-feira, 7 de março de 2019

É possível, sim, um “Plano B”, se não aprovada a Reforma da Previdência.



Em toda dificuldade, ou derrota, lateja uma solução superior à que foi tentada sem sucesso. A civilização só avança porque há, periodicamente, reveses e problemas graves a serem solucionados. A hoje ubíqua e irreversível internet foi concebida pelo Departamento de Defesa dos EUA por causa de uma terrível preocupação com a sobrevivência do país: a Guerra Fria. Inicialmente denominada Arpanet, a internet visava a garantia de que a comunicação americana entre seus militares e cientistas persistiria, mesmo em caso de bombardeio do Pentágono pelos soviéticos. 

Como Paulo Guedes diz que o governo brasileiro não conta com uma alternativa para sanar o imenso rombo previdenciário e as previsões indicam  que parte dos congressistas — antigos e os novos —, condiciona a aprovação da Reforma à permanência, no cargo, de milhares de funcionários não concursados — por eles indicados —, a alternativa para salvar tanto a Previdência quanto as Finanças Públicas, será utilizar dois “remédios, um estritamente financeiro e outro “jurídico-financeiro” — de eficácia inegável — que mencionarei no decorrer do presente texto.

Se eu disser, aqui, já, qual a principal alternativa financeira sugerida, muitos leitores — que pensam com o fígado —, nem lerão o restante do artigo, e o país continuará pouco governável, apesar da boa intenção do presidente Bolsonaro. Votei nele porque seria o único candidato em condições de vencer a eleição presidencial. Meu candidato preferido era outro, mas Bolsonaro mostrava algumas boas e raras qualidades, entre as quais a coragem e a honestidade.

 Bolsonaro é bem intencionado, idealista, mas pouco se interessava, antes,  por política externa. Era tão focado no Brasil, no patriotismo, que esquecia o que estava fora de suas fronteiras. Seus pontos fracos, nesse item, ainda são a questão Palestina e a equivocada admiração por Trump. Tenho, porém, a certeza, ou esperança, de que à medida que Jair Bolsonaro — que não é tolo —, for constatando as complexas realidades do Oriente Médio, e a megalomania e volubilidade “trumpianas”, não hesitará em modificar sua política externa nos pontos essenciais. Se concordar sempre com as pretensões do presidente americano, além da nossa criminalidade interna terá que lidar também com o terrorismo islâmico, um mal que ainda não chegou aqui. 

Bolsonaro merece um crédito de confiança. Só não morreu por um triz. Seus inimigos, que são muitos, saudosos do petismo — ou ambicionando loucamente sua cadeira —, parecem torcer para que ele morra logo, com uma bela infecção bacteriana. Já falam até em parlamentarismo. Acusam-no de inércia — como que dormindo em “dolce far niente” na UTI — e por ter filhos demais na política, como se vocação de filho dependesse do pai. Seus filhos, legitimamente eleitos, não deveriam tomar posse porque o pai foi o escolhido? A inexperiência de algum deles, querendo “ajudar” quando o pai lutava contra a morte, não pode ser valorizada demais pela mídia, com segundas intenções, visando derrubar não o filho mas o pai.  

Juan Carlos Onetti, escritor uruguaio, já disse que “há diversas maneiras de mentir mas a mais repugnante de todas é a de dizer a verdade, toda a verdade, escondendo a alma dos fatos”. Essa “alma dos fatos” — a verdade verdadeira emergente de uma complexa situação global — anda ausente em alguns jornalistas que escrevem textos com a mal disfarçada intenção de enfraquecer um governo corajoso demais.

Para grandes males — Previdência e contas públicas — fortes remédios, desde que não matem o doente. Adote-se a velha sabedoria: “vão-se os anéis mas fiquem os dedos”, como faziam as senhoras paulistas, durante a revolução constitucionalista de 1932, quando doavam suas joias e alianças para financiar a luta contra Getúlio Vargas. A solução do problema previdenciário exige um sacrifício de todos.

Queiramos ou não, tudo indica que a aprovação da Reforma só será aprovada, com forte dose do “toma lá, dá cá”. A maioria dos novos e antigos congressistas tem parentes e amigos que foram ou serão nomeados, sem concurso, por solicitação de parlamentares. Se demitidos, ou não nomeados, não lhes será fácil, nesta conjuntura, conseguir trabalho na área privada. A maioria ficará desempregada por longos períodos. Talvez para sempre se hoje na faixa acima dos cinquenta anos. A simples ideia dessa futura dispensa em massa funcionará como um dilema terrível para o parlamentar em dúvida sobre como votar. —“Sigo a razão ou o coração?” 

Mesmo que ocorra, dentro de poucos meses, um aquecimento na economia, o avanço inevitável, mundial, da automação, da informática, da robótica e das novas técnicas que dispensam braços e cérebros, o desemprego atormentará parentes e pessoas amigas dos parlamentares. Problemas familiares difíceis surgirão envolvendo filhos, filhas, cunhados, etc., de deputados e senadores. Poucos demitidos terão dinheiro, ou vocação empresarial, para criar empresas próprias.

Muitos congressistas que aceitarem, sem reação, a dispensa próxima do filho, irmão, sogro, etc., levarão uma bronca da esposa, irritada: — “Como você, um deputado, aceita, sem reagir, que teu filho e teu neto vão p’ra rua nesta crise em que estamos? Você tem dinheiro suficiente para sustentar duas famílias da classe média? O que?! Precisamos pensar no ‘bem geral’? Também acho, em tese, que o governo não é cabide de empreso, mas é preciso pensar primeiro na família! O governo que dê tratos à bola para acabar com a roubalheira. E nosso filho não é ladrão! Ele apenas não prestou concurso. E muitos concursados nem são nomeados.  Você pode crer que teus colegas do Congresso farão forte pressão para evitar que os protegidos deles — “ só os deles! — escapem da degola. Será um salve-se quem puder! Quando a situação geral melhorar, nosso filho poderá arranjar uma colocação, ou prestar um concurso. Eu te imploro: pense no teu filho. Antes de ser deputado, lembre-se que você é pai”.

Nesse estilo será o apelo das esposas de muitos parlamentares.

Esclareço que não tenho parente em emprego público de livre nomeação, mas sei o que se passa na cabeça das pessoas. Entre uma angústia pessoal, familiar, e uma abstrata melhora “geral”, futura, é previsível que a família e os vínculos pessoais tenham mais peso na votação da Reforma da Previdência.

 Daí a alternativa do Plano B. 

Refiro-me ao temido, odiado e mal compreendido “imposto do cheque” — em nova versão —, isto é, acompanhado, simultaneamente, de uma redução — aquela possível, factível — do Imposto de Renda descontado na fonte dos assalariados. Ou talvez, eventualmente, reduzido também para a pessoa jurídica, se assim for cabível após avaliações técnicas, dosando os percentuais tanto do IR quanto do “imposto do cheque”.

Sugere-se a redução do IR dos assalariados porque, sendo eles milhões, se onerados no bolso pela nova CPMF, ficarão, por outro lado, desonerados, pagando um IR menor no holerite. Haverá, assim, menor resistência popular e política. E se, eventualmente, a redução do IR se estender, depois, às pessoas jurídicas, isso incentivará investimentos tanto internos quanto externos. Se direcionados ao Nordeste tais investimentos isso que motivaria nordestinos desempregados, no Sul e no Sudeste, a procurar trabalho nas regiões de origem, melhorando de condições.

Por que a CPMF foi tão antipatizada quando utilizada poucos anos atrás? Porque era apenas um tributo a mais. Doravante seria um tributo diferente, substitutivo de outros, o passo inicial para o ideal de um Imposto Único, ou quase isso — três ou quatro, talvez — simplificando a vida do contribuinte brasileiro, hoje atormentado por cerca de 60 tributos.

O que se sugere aqui é que com uma alíquota relativamente alta, de, digamos, 1% em cada pagamento com cheque — ou transferência bancária —, a arrecadação seria tão alta que o governo poderia, simultaneamente, reduzir o IR com alíquotas bem menores que as atuais e fazer seus pagamentos obrigatório.

A arrecadação desse novo tributo, diferente da anterior CPMF, não seria direcionada apenas à Previdência porque se isso ocorresse — havendo, como há, nela, muita distorção —, as atuais distorções na Previdência persistiriam. Toda a arrecadação da nova CPMF iria para o “caixa geral” do governo federal e eventualmente para os Estados, rvitando as complicadas e arriscadas manobras contábeis, ou orçamentárias, para contornar a rigidez constitucional. Manobras que podem resultar em cadeia ou impeachment.

A propósito, alguma razão tinha Napoleão Bonaparte quando dizia que as Constituições deveriam ser “curtas e vagas”. De fato, quanto mais detalhistas e carregadas de cláusulas pétreas, maior a trava imposta ao administrador, mesmo quando honesto e inteligente, na incumbência de manter a “máquina” em funcionamento. Ao redigir a Constituição, o constituinte não tem condições de prever, sem erro, como estará o país no futuro. Maus, ou mesmo bons futurólogos, acabam, sem querer, prejudicando o país, porque não é fácil a futuros governos, cumprir sua missão com tantas proibições na alocação do dinheiro disponível.

Voltando ao “imposto do cheque”, por que essa minha insistência, de leigo em economia, na criação de um imposto tão odiado? Porque esse tributo é o “ovo’ — também “de Colombo” — do Imposto Único (IU), o grande e distante sonho do contribuinte brasileiro. 

A mera ideia do “Imposto Único” é combatida com a alegação de que nenhum país, até agora, adotou essa forma de tributação. Não foi adotada porque seria irresponsabilidade de qualquer país baixar uma lei trocando, com uma canetada, todos os seus tributos por um único, sem antes conhecer a reação da economia. Seria um salto no escuro. Por isso, terá que ser progressiva sua adoção. E o Brasil, caso não consiga uma boa Reforma da Previdência, deveria fazer esse experimento. Que dará certo, embora com reclamações pontuais. Pessoas, físicas e jurídicas, que hoje não são tributadas, terão que pagar. Todos pagando, a carga individual será mais leve para os que hoje pagam.

O IU (imposto único) tem inúmeras vantagens: é praticamente insonegável; prático (é mais fácil fiscalizar algumas dezenas de instituições financeiras do que as finanças de todas as pessoas físicas e jurídicas do país); tributa a riqueza que — realmente — circula no país, diminuindo os complexos “truques” legais de investimentos que permitem que vultosos ganhos não sejam tributados, ou ridiculamente tributados; dispensa o suplício na hora da declaração anual exigida pelo leão.

É possível e compreensível que contadores e advogados tributaristas sejam contra o IU não só por motivos práticos e doutrinários. Podem temer que se os tributos forem desaparecendo, seus clientes precisarão menos de seus complexos e relevantes serviços. Esse receio não tem sentido porque uma nova concepção de tributação exigirá longo período de experimentação quanto às vantagens e desvantagens desse novo e “ambicioso” tributo, visando a simplificação. Se tais profissões forem perdendo relevância, no decorrer dos anos, seus inteligentes profissionais se prepararão para novos desafios. Talvez ainda mais úteis ao país. 

Não se alegue que os pobres serão os mais sacrificados com o IU. Pobre, mesmo, costuma usar dinheiro vivo em suas compras. E, se necessário, a lei poderá isentar o IU em saques e transferências de pequenas quantias, desde que limitadas a um número “x” de transferências, por mês, para cada correntista. E não se argumente que, com o IU, as pessoas passarão a carregar bolsos estufados com notas de cem reais, só para não pagar o tal imposto. Assaltantes logo saberão disso e tomarão providências bem dolorosas atravessando tais movimentações.

Tudo, neste planeta, caminha para a simplificação e unificação. Hoje com uma única injeção, vacina-se contra várias doenças. As obrigações fiscais terão que acompanhar essa tendência. Cálculos, comprovantes, pendências administrativas e judiciais, tomam tempo demais do cidadão.

Se o IU for de 1%, alguém sabe, hoje, quanto isto significaria em arrecadação? Mesmo reduzindo concomitantemente o percentual do IR-PF (pessoa física), quanto sobraria para fortalecer o caixa do governo?

Finalmente, quanto ao “remédio jurídico-financeiro”, referido no início do artigo, trata-se da propositura de uma lei que, nas ações judiciais de cobrança de dinheiro, após a decisão de segunda instância — dizendo quem deve a quem —, o devedor só poderá recorrer para aos tribunais superiores — STJ e/ou STF —, se depositar o valor mencionando no acórdão.  Com isso, comprovará que seus futuros recursos não visam apenas protelar. Se não tiver dinheiro para esse depósito, poderá obter um empréstimo, mas esse depósito não será levantado pelo credor. O depósito, judicial, renderá juros e correção monetária e será levantado ou por acordo entre as partes ou no final do processo, pela parte que ganhar a demanda.

Escrevi um artigo a respeito, com o título “Meta urgente: agilizar a Justiça Cível”. Trata-se de uma carta que enderecei ao Min. Sérgio Moro. Para lê-lo, clique aqui. Fala sobre dinheiro grosso, parado, só útil para o devedor que muitas vezes só quer protelar.

Encerro pedindo aos eventuais leitores eruditos — economistas e juristas —,  escusa pelo estilo coloquial, mesmo porque, em Economia, não teria outro estilo a meu dispor.

(06/03/2019) 

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Meta urgente: agilizar a Justiça Cível


Foto: Felipe Lampe

(Resumo de sugestão enviada ao Min. da Justiça)

Prezado Ministro Sérgio Moro,

Aproveitando sua presença na reunião-almoço do IASP, no dia 07/02/2019, tomo a liberdade de lhe encaminhar, via assessoria,  uma sugestão que — se transformada em lei —, livrará a justiça cível da intolerável morosidade que tanto desanima aqueles que dela precisam, já que não é possível fazer justiça pelas próprias mãos. Não é sem motivo que a opinião pública — mal informada sobre as verdadeiras causas da demora no término dos processos cíveis — reclama contra os vencimentos da magistratura: — “Com tanta ‘moleza’ qualquer salário de juiz é imerecido...” . Mole não é o juiz, mas o atual sistema, imensamente ingênuo.

Em resumo, evitando minúcias técnicas, minha sugestão é que V.Exa. consiga no Congresso uma curta — embora difícil — alteração na  legislação processual civil que diminuirá a demora de tramitação dos processos cíveis. Essa alteração será, no cível, o equivalente, parcialmente já alcançado — falta apenas a lei —, na área penal: dar efetividade às condenações da segunda instância.

A proposta é no sentido de que decidido, na segunda instância cível, que o litigante — geralmente é o réu, mas nem sempre — deve pagar ao adversário a quantia “x” — ou aquela estimada pelo órgão de apelação —, o devedor só poderá recorrer aos tribunais superiores, se depositar em juízo o valor fixado no acórdão — ou pelo menos 50% dele, caso haja resistência insuperável do Congresso.  Isso porque sem um “desembolso” efetivo, “doloroso”, não haverá qualquer desestímulo contra a intenção do devedor de jogar para um distante e incerto futuro o pagamento de sua dívida.  

Há, nos recursos com essa intenção de demora uma espécie de “chantagem recursal” contra a parte credora: — “Caro credor: ou você concorda em receber, agora, só um terço do que lhe devo – e o caso está encerrado –, ou só receberá tudo em remoto futuro”.

Nossa legislação, no cível, já prevê a “sucumbência recursal” — nova condenação em honorários no julgamento de cada recurso — mas sem qualquer efeito desestimulador da protelação. Primeiro, porque todas as sucumbências somadas — nas quatro instâncias — não podem exceder a 20% do valor da causa, ou da condenação. Se, por exemplo, na sentença, o devedor for condenado a pagar 15%, nos três recursos posteriores a soma das novas sucumbências não poderá ir além de 5%, mesmo perdendo seus recursos de apelação, recurso ordinário (STJ) e extraordinário (STF) todos visando a demora. 

Segundo, porque todas as quantias relacionadas com a sucumbência só serão “desembolsadas” — sentidas “na alma”, o bolso — no final do processo, anos e anos depois, na fase de execução. O devedor pensa, tranquilizado: — “Daqui a cinco, dez ou mais anos, muita coisa pode acontecer. Talvez todos nós estaremos mortos”. E seu advogado, embora honrado, não pode se dar ao luxo de rejeitar ótimos clientes, “esticando o processo”,  porque se o fizer, o cliente procura outro advogado que dirá: —“Minha obrigação é defender os direitos de meus clientes, usando a legislação em vigor. Eu tenho família para sustentar”.

Essa brecha legal — a protelação como estímulo legal para não pagar o que é devido — explica o débito de tributos federais, não pagos, de bilhão de reais, que dormem nas pilhas de processos, beneficiando o devedor mas desmoralizando a justiça cível e seus operadores, chamados de “morosos”, quando a morosidade não é deles, mas do sistema defeituoso pela sua ingenuidade.

Alguém poderá argumentar que o devedor fiscal pode continuar insistindo em chegar ao distante STF, mesmo perdendo nas duas instâncias iniciais, porque está sinceramente convicto de suas razões, sendo injusto que o Estado lhe negue o direito de esgotar todas as instâncias só porque não tem o dinheiro para depositar em juízo a quantia fixada no julgamento da apelação.

Se esse for o caso o devedor, teimoso e incansável recorrente, poderá pedir um empréstimo bancário para fazer o depósito que lhe permitirá prosseguir recorrendo seguidamente. É previsível que os “teimosos”, conhecendo os juros cobrados pelos bancos para o depósito condicionador dos recursos após a apelação prefira fazer um acordo com o credor. Esclareça-se que o depósito (quantia) aqui sugerido para recorrer após a segunda instância, não será levantado pelo credor. Ficará, congelado, rendendo juros e correção monetária, até que o processo termine, decidindo quem, a final, tem razão; ou por acordo entre as partes. Quem ganhar a causa, não havendo antes um acordo, levantará o dinheiro. Detalhes sobre esse item descabe neste momento. Basta a ideia.

A exigência do depósito, referido neste texto, funcionará como um teste bem objetivo da sinceridade de quem recorre. Impossível concordar com a alternativa de o devedor apenas apresentar um papel onde está escrita a palavra “caução” de um imóvel ou uma garantia que não signifique um desembolso do devedor que perdeu na segunda instância, após examinar as provas. É essencial que o depósito referido seja feito em quantia. Se não for assim, perderá toda a eficácia.

Os devedores, aos milhões, e de milhões, sabem perfeitamente que quanto maior a demora melhor para o próprio bolso. Na área tributária, os contribuintes honestos, que pagam seus impostos regularmente, sentem-se uns tolos porque seus concorrentes, hábeis sonegadores mas incansáveis “inconformados”, só levam vantagem porque o fisco, desesperado com a baixa arrecadação, acaba concedendo aos devedores os benefícios de um Refis qualquer, com seu débito em grande parte perdoado e dividido em centenas de meses. Na maioria, tais acordos logo param de ser cumpridos. 

Essa vergonha precisa acabar. V. Exa. pode fazer mais esse trabalho para reabilitar a justiça brasileira. Como já disse antes, detalhes jurídicos processuais serão discutidos quando o projeto de lei for apresentado. V. Exa. saberá escolher uma comissão plenamente qualificada e sem interesse pessoal, profissional, de seus componentes.

Está em suas mãos transformar a justiça cível em orgulho dos brasileiros. Outras sugestões, relacionadas com a celeridade da nossa justiça podem contribuir para o mesmo fim, mas aqui, neste curto espaço, só atrapalhariam abordá-las.

Cordial abraço e parabéns pela sua nomeação.
S. Paulo, 06 de fevereiro de 2019.


Des. Francisco Cesar Pinheiro Rodrigues.
Desembargador aposentado do TJESP. 
E-mail: oripec@terra.com.br. 
Site: www.500toques.com.br. 
Blog:franciscopinheirorodrigues.com