É impressionante a quantidade de má-informação que circula na mídia, mundial e brasileira, a respeito do que ocorre na Síria. Tudo indica que nessa má informação está inserido um projeto bem elaborado e tenaz de um notório inimigo dessa nação árabe, Israel. Uma caricatura política hostil, engenhosa, contra a Síria — aliada do Irã — logo acompanhada pelos Estados Unidos e seus seguidores europeus, um tanto primários quando comparados com os estrategistas israelenses. Frise-se que nada acontece, no Oriente Médio, capaz de afetar Israel de algum modo, sem o conhecimento de seus órgãos de informação e segurança — usada esta palavra em seu significado mais abrangente.
Interesses americanos e europeus, desvinculados de um mínimo de preocupação ética e senso de justiça, deformam a realidade de um país e de seu governante, Bashar Assad, descrevendo-o como um “inimigo” de seu próprio povo. Pretendem, pela mera repetição diária — contando com ouvidos e olhos mal informados —, atingir esse objetivo. Até agora tiveram sucesso porque a Síria não dispõe nem de uma poderosa e rica mídia própria nem da imprensa internacional, ao contrário de seus opositores. A maior parte dos redatores de jornais e revistas não se atreve a contrariar seus patrões.
Apenas Putin, hoje, defende corajosamente o presidente sírio que estudou para ser um pacífico oftalmologista mas acabou como sucessor de seu pai, quando o irmão —, escolhido para substituir futuramente o pai —, faleceu em um acidente automobilístico. Por dever filial, abandonou a medicina e, de uns tempos, para cá passou a ser carimbado, por conveniência de seus inimigos, como “assassino” de seu próprio povo. Em situações políticas muito complexas, multifacetadas, sempre há algum “material” disponível para descrever políticos conforme o gosto do freguês.
“Assassino”, Assad, por quê? Porque defende, com evidente risco de vida — lembram-se do linchamento de Kadafi? — seu mandato de presidente sírio, eleito em dois referendos (2000 e 2007) e uma eleição (2010)? “Assassino”, porque defende a soberania de seu país? Porque nega-se a renunciar ao cargo, obedecendo a seus inimigos externos, acima mencionados? “Assassino”, porque um percentual desconhecido de cidadãos sírios, na vasta e vaga “Primavera Árabe” exigia genericamente mais democracia no sempre e convulsionado Oriente Médio?
Pergunta-se: antes da maciça hostilização internacional e cerco econômico contra Bashar Assad — pelos EUA e seu discreto conselheiro político, Israel —, os americanos se preocuparam, por acaso, em consultar a população síria para verificar se ela era majoritariamente favorável à saída de Assad? Se perguntassem, a resposta seria negativa, tudo indica.
A propósito, no Brasil — onde estão abrigados milhares de refugiados sírios —, dois ou três institutos de pesquisa de opinião bem que poderiam consultar esses refugiados sobre o grau de aprovação e rejeição de Assad antes que seus opositores “exigissem” sua saída em nome da democracia. Claro que agora, depois de instalado o inferno no país, ninguém mais quer permanecer na Síria. Não por medo de Assad, mas por medo do que virá depois dele.
Arrisco dizer que se todos os sírios que hoje fogem em debandada pelo mundo — fugindo do aterrorizante Estado Islâmico — fossem indagados se viviam relativamente felizes durante o governo de Bashar Assad — antes da “Primavera Árabe” —, a resposta seria favorável ao “tirano”. Isso porque o “tirano” vinha impulsionando o país no sentido da modernidade, do laicismo, separando a religião do estado, diminuindo progressivamente a pesada influência do lado mais negativo do islamismo. Essa religião tem o seu lado positivo, espiritualmente confortador, mas ultimamente tem mostrado uma faceta irracional, intolerante e impiedosa. É o chamado Estado Islâmico, ou ISIS, cuja simples menção gela a espinha das pessoas mais sensíveis.
Em passado não tão distante, reconheça-se, católicos e protestantes se matavam na Europa. Isso terminou em definitivo, há inúmeras décadas. Nos dias atuais a “vertente” Estado Islâmico supera, no item violência, todas as religiões mais violentas do passado, somadas. Nenhuma outra usa a decapitação lenta, com faca, por vezes manejada por crianças fanatizadas, como já foi noticiado e mostrado na televisão.
O terror difundido pelo ISIS é tão penetrante que endurecidos militares, de todos os países, têm medo de se envolverem em combates, no solo, contra esses terroristas . A explicação é simples: nas guerras normais, mais ou menos “civilizadas”, o soldado capturado dispõe da proteção de tratados internacionais, preservando sua vida e integridade física. Com o Estado Islâmico isso não ocorre. O prisioneiro de guerra pode ser degolado ou sumariamente abatido com um tiro na nuca, ou coisa ainda pior. Se for cercado, preferirá se matar antes que comece seu particular martírio. É até surpreendente que, segundo notícia recente, veteranos russos que combateram no Leste da Ucrânia tenham se prontificado a ajudar, no solo, o exército sírio na luta contra o Estado Islâmico, que não esconde seu intuito de aterrorizar.
Algum tolo imagina que, com a deposição e fuga de Assad — ele terá que fugir rápido, se não quiser ser morto no estilo mais cruel — a Síria ingressará em bonita e respeitosa democracia? Acreditam que haverá uma partilha cavalheiresca do poder entre os “moderados” opositores sírios, os “meigos” combatentes da Al-Qaeda, os “bondosos” integrantes do Estado Islâmico, os militares americanos, os assessores israelenses, os curdos, os combatentes do Hezzbolah, e tudo o mais imaginável naquela região conhecida por sua “tolerância”? Para os Estados Unidos a Síria será um Iraque triplicado, que não conseguirá administrar. Por isso, vai se arrepender pela má orientação recebida. Um novo e confuso atoleiro americano na política externa é previsível se houver a rendição de Assad.
A oposição síria — todo país, ditadura ou democracia, têm oposição, “faz parte” — era, por acaso, majoritária antes da “Primavera Árabe”? Não se sabe. Pelo que deduzo, pelo razoável acompanhamento diário do que ocorre no mundo, não. Não houve qualquer sondagem, formal ou informal, sobre o grau de aprovação interna de Assad naquele momento. Seria tal aprovação de 70%, 80%? O governo Obama, por acaso, se preocupou com esse “detalhezinho” antes de “concluir e decidir” que Assad “tinha que sair”, violando a soberania de um país?
O proclamado desejo americano de instalar, à força, na Síria, uma democracia universal, no estilo norte-americano — extremamente dependente do financiamento de campanhas —, não pode prevalece sobre o direito de autodeterminação dos povos. As regiões do planeta diferem muito em termos de história, tradição, religião, hábitos políticos, utilização da violência, etc. E não se alegue que não seria possível fazer essa prévia sondagem na Síria, via plebiscito, porque Assad era um “ditador” e deformaria seu resultado. Os EUA não ofereceram qualquer oportunidade à Síria para comprovar suficiente apoio da sua população antes que a oposição, financiada, treinada e armada pela CIA, partisse para o ataque.
Sondagens modernas de opinião pública, a cargo de entidades especializadas, são impressionantemente precisas, com margens de erro de 3%. Não seria imprescindível um plebiscito conduzido pelo “suspeito” governo sírio. O governo Obama não se interessou por conhecer — mesmo informalmente — a preferência da população. Talvez porque havia o forte risco da pesquisa demonstrar que os sírios prefeririam viver como viviam até então, não trocando o certo pelo duvidoso. Se a pesquisa especializada dissesse que a oposição ao governo não chegava a 20% isso atrapalharia demais o plano de uso da força para tirar Assad do poder. Teriam que forjar outra justificativa.
Tudo indica que a meta oculta da derrubada de Assad é isolar o Irã, fiel aliado da Palestina árabe, que não consegue um status de país porque isso não interessa a Israel. O governo israelense, de direita radical, não se volta contra Assad por ser ele um ditador. Mesmo que a Síria vivesse uma democracia plena — mas apoiando o Irã — ela seria atacada. Sendo, porém, um regime “duro”, tanto melhor para os Estados Unidos e Israel, porque a opinião pública mundial sempre vê as ditaduras, ou meia-ditaduras, com antipatia.
Outras perguntas podem ainda ser feitas àqueles que exigem a renúncia ou derrubada de Bashar Assad. As perguntas são as seguintes: Afeganistão e Iraque ficaram melhores após a invasão liderada pelos Estados Unidos? Só um e louco e mentiroso diriam que sim. A Líbia ficou pacificada e próspera após a queda de Kadafi? Ficou muito pior, uma tremenda anarquia, o país africano árabe voltando à luta tribal. O Egito, após a queda de Mubarak por acaso tornou-se modelo de país democrático, respeitando o resultado da única eleição presidencial? Não. O presidente eleito, Morsi, foi deposto e condenado à morte pelos militares porque teria incentivado a população, em praça pública, a desobedecer às forças armadas.
Outra pergunta, mais teórica: os EUA, só pelo fato de serem a maior potência do planeta, tem o direito de dizer “quem fica ou sai” no governo de qualquer país? A ideia, nada modesta, do “excepcionalismo” norte-americano é uma “ordem” — como Obama parece pretender — ou apenas um bom exemplo a ser eventualmente imitado — porém voluntariamente — por outros países, considerando as vantagens de uma democracia verdadeira e não corrupta? A experiência, até agora, sobre essa matéria, é a de que o governo americano aprova ou desaprova governos com fragilidades democráticas segundo os interesses americanos do momento. Por exemplo, nunca tentou derrubar o chileno Pinochet. Pelo contrário.
Bashar Assad, feliz ou infelizmente, encontrou uma ajuda que lhe possibilita, talvez, uma precária sobrevivência: o “quase-tirano”, Vladimir Putin. Um chefe de estado também bastante injustiçado no conjunto de seus defeitos e qualidades. Tem seus defeitos — como todos os demais chefes de estado e de governo, sem exceção — mas não abandona povos indefesos vitimados pela injustiça. Lembre-se, sempre, que Putin está auxiliando abertamente a Síria porque seu governo está sendo atacado e pediu essa ajuda. Isso é legitimado pelo Direito Internacional. Ao contrário dos EUA e sua “patota” sem opinião própria, que interfere na Síria, justamente para derrubá-lo, sem autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A oposição “moderada”, todos sabem, é treinada, armada e financiada pela CIA, conforme amplamente divulgado pela mídia independente.
Putin é muito criticado porque teria “invadido a Ucrânia” e se “apoderado” da Criméia. Na verdade, ele apenas atendeu à vontade explícita — em plebiscito e pedido formal —, dos habitantes da Criméia, de origem russa, em sua maioria falando o russo. Não tapou os ouvidos nem fechou os olhos ao apelo de milhares de ucranianos. Ele fez, na Criméia, o que os EUA fariam no México, se milhares de mexicano de origem americana, loiros e falando inglês, morando junto à fronteira americana, pedissem ajuda e cidadania americana contra um governo mexicano hostil à sua origem americana. Acresce que um presidente ucraniano eleito, favorável à Rússia — Viktor Yanukovich —, foi arrancado do poder, pela força, não muito tempo antes dos habitantes da Criméia pedirem a Putin a cidadania russa. Cabe, aqui, de novo, a velha máxima da filosofia política: não é o povo o titular primeiro do poder?
Colunistas de jornais, quase sempre com sobrenome de origem hebraica, costumam, nos seus artigos, rotular Putin como “astuta raposa” em busca de cartaz e tentando ressuscitar a glória dos tempos de Stálin. Se ele é raposa, é uma raposa coerente, solidária com o esquecido e humilhado povo palestino, a origem remota do imbróglio em que se tornou o Oriente Médio. A Al Qaeda é um subproduto da situação palestina.
Poucos dias atrás, li, na internet, uma inteligente analogia do que aconteceu com a “maré” de judeus que buscavam um lar na Palestina: imaginemos um hotel em chamas (seria a Europa antissemita dos anos 1930); um hóspede judeu, que está no terceiro andar do hotel, encontra-se na sacada, encurralado e apavorado, prevendo que logo morrerá queimado; a única alternativa é pular da varanda, porque não dá para esperar a chegada dos bombeiros; decide arriscar; salta, de olhos fechados, e, por mero acaso, cai em cima de um passante (seria um palestino), que ficou a com vários ossos quebrados mas salvou, até mesmo involuntariamente, a vida do judeu, amortecendo sua queda.
O judeu, pouco machucado, vai embora, feliz por estar vivo, e três meses depois recebe a visita do “palestino-amortecedor”, que chega de muletas e pede uma indenização porque quase não pode trabalhar. O judeu diz que não pode ajudá-lo porque não agiu com dolo, não sendo exigível que se deixasse torrar na varanda, só para não incomodar algum eventual transeunte. O palestino argumenta que o fogo no hotel não foi ateado por ele. O judeu se irrita, diz que também não foi ele que incendiou o hotel. A trágica discussão dura bem mais de meio século. E o palestino continua de muleta, arrastando-se em uma vida miserável enquanto o paraquedista sem paraquedas mostra ao mundo sua orgulhosa riqueza.
Até quando? Quando o mundo — muito burro, sem imaginação — concluir: primeiro, que a Palestina é pequena demais para abrigar duas nações de formação tão diferenciada; segundo, que a África é imensa e poderia comportar mais de cinquenta Palestinas; terceiro, que Obama melhor faria se — como fez com recente proposta de “Parceria Transpacífico” — lançasse a poderosa e salvadora ideia de utilizar uma pequena fração da África — sem prejuízo dos africanos — para ali viver, trabalhar e progredir uma parte da população palestina, ou da população judia, desafogando a semiárida
Palestina que, pelo andar da carruagem, poderá detonar terceira guerra mundial.
Obama, com tal inovadora, bela e estrondosa iniciativa, aqui sugerida — solucionando o impasse palestino —, recuperaria seu prestígio mundial, muito abalado nos últimos anos. Quem sabe o Putin, esse baixinho inteligente, sendo mais ousado que seu equivalente americano, passará a remoer esse tema. A solução concreta ainda demoraria, pela complexidade, mas os interessados pelo menos saberiam que havia um futuro estimulante e já ocupariam o tempo fazendo estudos e visitando a África. Quem agir primeiro difundindo essa ideia merecerá um Nobel da Paz. Até dois.
(11-10-2015)
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
domingo, 20 de setembro de 2015
Veríssimo, leituras, etc.
Charge impagável de Luis Fernando Veríssimo, no jornal
“Estadão” de domingo, 13-9-15, Caderno 2, “Família Brasil”. Um senhor,
conversando com adolescente, tenta convencê-lo de que o livro impresso ainda é
melhor que o eBook: —“Livro
não precisa ligar na tomada, não depende de programas ou senhas, está sempre
pronto para ser lido...” — e o jovem o
interrompe: — “Então
qual é a graça?”
A “graça” dessa nova tecnologia reside na manipulação
rápida de um brinquedo sofisticado e colorido. O conteúdo da informação não
interessa muito se as frases não forem curtíssimas, desobrigando qualquer
reflexão crítica do dono do brinquedo.
Considero Luis Fernando Veríssimo uma das mais lúcidas
cabeças deste país. Culto e também um bom caráter. Jamais li, ou ouvi, alguém
criticá-lo. É uma unanimidade nacional. Pelo que li na mídia, foi até sondado
para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Com modéstia
autêntica Veríssimo agradeceu delicadamente a lembrança mas declinou da
honraria. Salvo má informação da mídia, teria dito que a ABL não seria “sua
praia”.
Recusou, creio, porque, como acadêmico — ele seria
eleito —, seu espírito naturalmente brincalhão e irreverente ficaria um tanto
inibido. Não combinaria integralmente com a seriedade engravatada, exigível e
esperável de uma academia intelectualmente altaneira como a ABL. Essa recusa
foi coisa rara no Brasil. Muitos pagariam fortunas para se tornarem “imortais”,
se fosse possível usar o dinheiro para esse fim.
Escritores ou atores vocacionados para o humorismo têm
propensão para ver as pessoas e o próprio mundo pelo lado mais cômico. Suas
associações de ideias tendem quase automaticamente para a caricatura expressa
em palavras. Com tal preferência é natural que ocupe boa parte de seu tempo de
descanso lendo textos humorísticos, os quais vão se empilhando no inconsciente
à espera de uma provocação.
Somando-se a essa inclinação natural o constante
“registro” cerebral de notícias e historietas cômicas o resultado só pode ser
um: a interpretação do mundo como uma vasta “comédia” . Como de fato é, se
vista filosoficamente a nossa civilização. Ao mesmo tempo avançadíssima na
tecnologia e tragicamente ridícula na convivência humana: guerras e mais
guerras, roubos e mais roubos, crimes e mais crimes, mentiras e hipocrisias em
todos os níveis. Balzac sabia o que fazia quando escolheu um título para sua obra,
“A comédia humana”.
Tenho um exemplo comigo mesmo sobre a escolha
preferencial de certas leituras. Concluindo que o conhecimento da língua
inglesa me permitiria ficar mais antenado com a cultura universal — que sempre
me atraiu mais que a Ciência do Direito — resolvi, já sessentão e aposentado,
aprender inglês pelo método mais agradável: lendo piadas e anedotas nessa
língua, com ajuda de um dicionário. Devo te lido mais de mil. Atingi meu
objetivo linguístico — poder ler inglês, embora sem falar, por falta de uso —
porém um canto de minha mente ficou permanentemente “contaminada” pelo vírus
travesso do humor.
Com o passar do tempo ocorria — e isso continua
—, o seguinte fenômeno: conversando com
qualquer pessoa, mesmo sobre assuntos graves, é frequente que um fato, palavra,
ou frase do meu interlocutor me faça lembrar de uma anedota especialmente
inteligente, ou marcante por seu disparate. Essa intromissão humorística, sem
minha autorização, me faz perder alguns segundos da exposição do interlocutor,
obrigando-me a tentar preencher essa omissão com conjeturas sobre o que ele
teria dito. Esforço meu que, por sua vez, provoca nova distração — obrigando-me
a pedir a ele, ou ela que por favor, repita o que acabou de dizer. Finjo-me
mais surdo do que sou, ou preocupado com um assunto grave e particular. Não
posso confessar, por exemplo, que o que ele acabou de relatar, pesaroso, sobre
a doença da mãe de sua mulher me fez lembrar uma piada de sogras.
Ninguém tem completo controle sobre a própria cabeça.
Podemos apenas controlar o “freio”, da língua ou dos dedos — no teclado ou na
caneta —, mas nunca o fluxo espontâneo das ideias. Depois desta confissão não
pedirei a ninguém que repita alguma coisa. Do contrário meu interlocutor,
agastado, indagará: — “A piada pelo menos é boa?”
Veríssimo, além
de inteligentíssimo é superiormente
abastecido de informações gerais em duas línguas, português e inglês. Arrisco
acrescentar em quatro: também em espanhol e francês. Soube combinar, com
superior engenho, essa massa enorme de informações esparsas aguardando
conexões. Quando bem jovem, morou nos EUA, o que lhe permitiu depois estar à
vontade, espremendo e articulando dados obtidos na língua mais carregada de informações
no mundo.
A única e perigosa restrição — “não se deve cutucar onça com vara curta” —
a esse escritor tão hábil é o fato dele colocar o jazz nas alturas. Será o jazz
o equivalente da arte moderna, em que o pintor não precisa saber desenhar? Vou
comprar um CD de jazz — caso exista — para tentar compreender seu entusiasmo
pela aparente bagunça sonora.
Atualmente há mais chineses falando inglês do que
norte-americanos falando a própria língua, — algo espantoso porém explicável
pelo população da China — mas nem o mandarim nem o cantonês somados
disponibilizam o mesmo volume de conhecimentos arquivados em língua inglesa.
O humor de Veríssimo não só é inteligente como também
sem vulgaridade. Digo isso porque o humor de um humorista qualquer pode revelar
sua viva inteligência, mas com um porém: o acúmulo constante de palavrões e
descrições sexuais que ferem os ouvidos de pessoas mais sensíveis,
principalmente as mulheres.
Estas, numa festa, por mera educação ouvem as
barbaridades engolindo em seco, mas logo tratam de se afastar alegando uma
urgência qualquer. Nem esperam o término da anedota que pode até ser
inteligente. A peluda — com alusão — narrativa bloqueia o entendimento da
ouvinte, enojada com o genérico fedor do assunto. Perdem o fio e a conclusão da
anedota.
Essa limitação do piadista quase exclusivamente
pornográfico, explica-se talvez pela restrita informação de quem pouco lê.
Falta-lhe um “bom material”, suficientemente volumoso para dele extrair o
esparso “ouro” do melhor humor. Ele terá, claro, o seu público, restrito a
narizes mentais calejados. Tais humoristas nunca seriam convidados para
integrar a ABL, ou mesmo qualquer outra academia do mais remoto município.
Por que estou discorrendo tanto sobre Luis Fernando
Veríssimo? Porque sua charge revela que a tecnologia da informática não está,
de fato, ajudando muito para elevar a cultura e sensibilidade de nosso povo.
Principalmente
da nossa juventude, mais interessada — e moldada pela propaganda —, a consumir,
frequentar baladas, vestir-se bem, assistir futebol — sem jogar, apenas urrando
e xingando. Isso sem mencionar as pancadarias entre times de futebol, com uso
de sarrafos e barras de ferro, além do “vale tudo” entre mocinhas rolando no
chão — a feia sempre mais feroz que a bonita —, disputando namorados na
porrada, unhada e puxão de cabelo.
Assim funciona a cabeça de uma parcela da nossa
juventude, certamente revoltada com sua desvantajosa e herdada situação
econômica, se comparada com a dos “filhinhos de papai”. Não sentem grandes
esperanças no futuro, via estudo, raramente grátis quando de boa
qualidade.
Descontados meus floreios redacionais, eles pensam
mais ou menos assim: — “A vida é curta. O emprego é raro e disputado, mesmo com
salário baixíssimo. As balas perdidas voam como vespas assassinas. As escolas
são chatas, levam anos nos ensinando coisas que não dão dinheiro e perde-se um
tempo enorme no trânsito. O que “ajuda” um pouco é quando há greve de
professores, mas depois vem o castigo: a reposição de aulas em época de
férias”.
“Simultaneamente estudar e trabalhar é pesado demais.
Frequentar escola não mais é ‘o caminho’. Basta ver nosso ex-presidente que
passou por cima disso tudo, como um trator barbudo. Assim mesmo tornou-se
“doutor honoris-causa”, bajulado em várias universidades europeias. E dizem
ainda, completando seu triunfo, que está milionário. Mesmo fora do cargo dá
conselhos a economistas com doutorado em Harvard. Assim, para que a gente
perder tempo ouvindo coisas que não nos interessam? Conheço um cara, coitado, que
pacientemente estudou Direito mas já foi reprovado cinco ou seis vezes nos
exames da OAB. Não sei se a culpa é dele, da Faculdade, ou da OAB, preocupada
com o baixo nível do ensino mas também com a concorrência de milhares de
canudos inundando o mercado. Esse possível futuro advogado, já pensa em
desistir. Tentou ser taxista mas ainda não conseguiu, por falta de dinheiro
para comprar uma licença, ou coisa que o valha”.
E o jovem filósofo do pessimismo prossegue: — “Airton
Senna estudou? Não. Neymar estudou? Também não. O Senna, se tivesse estudado,
ainda estaria vivo, mas sem glória e ganhando pouco. Na pior das hipóteses de
moto, entregando ‘pizza delivery’, endividado pelas multas por excesso de
velocidade . Neymar, com os dribles, ganhou vários Prêmios Nobel — a parte do
dinheiro — por mês. Além disso..., confesso: sinto muita dificuldade em me
concentrar quando tenho que ler assuntos complicados ou simplesmente extensos.
Tenho horror a livro. Talvez eu seja inquieto demais. Acho que tem muita
abobrinha entre as capas. O fato é que não consigo me concentrar na leitura.
Sei que não sou burro, sou apenas prático. Alguma coisa, na minha vista ou no
meu cérebro, me atrapalha e me afasta de qualquer leitura mais demorada”.
É neste finalzinho do desabafo do hipotético moço que
acrescento algumas sugestões ao legislador brasileiro para elevar a cultura do
povo brasileiro . Fazendo isso melhoro nossa representatividade no Poder
Executivo e no Legislativo.
Como o presente artigo já está longo demais, serei
conciso a partir de agora, sem as divagações precedentes, de duvidoso gosto ou
conveniência. Faço isso a contragosto, forçado pela necessidade doentia da
brevidade na internet, essa castradora do pensamento bem explicado.
Resumindo, sugiro: 1) que o Congresso edite lei que
permita aos autodidatas — ou educados
particularmente, de qualquer
idade — a prestar exames para comprovação de conhecimentos adquiridos apenas
com a leitura de textos; 2) que o Governo, em todos os níveis, incentivem e
facilitem aos jovens de poucos recursos a possibilidade de consulta e
tratamento médico grátis na rede pública, para exame de eventuais problemas
visuais, auditivos e glandulares que possam prejudicá-lo na capacidade de
aprender ( uma tireoide preguiçosa, por exemplo, retarda os processos mentais);
3) que jovens, mesmo curados de problemas físicos, ainda revelem dificuldades
na compreensão de textos — compatíveis com sua instrução —, serão encaminhados
a profissionais especializados em problemas de aprendizado. Está aí a solução
para o chamado analfabetismo funcional brasileiro.
Dou um exemplo: se o leitor, com ou sem óculos, pode
ler bem as palavras de uma linha com o olho esquerdo, mas com o olho direito só
vê palavras meio “embaçadas” (mesmo com óculos corretivos), essa desigualdade
de visão — inclusive periférica — dificulta o entendimento do que está sendo
lido. Imaginando que se trata de um problema relacionado com a inteligência o
leitor larga o livro e vai fazer outra coisa. Ele não percebe que sua “falta de
concentração”, ou compreensão, tem origem na “má sociedade” entre olho direito
e esquerdo. Assemelha-se a uma firma de dois sócios em que um é esperto, “vê
longe”, e o outro “vê tudo confusamente”. Essa sociedade não dá certo.
Há, porém, um “truque” para contornar o problema, na
área ótica: se o leitor, com o olho bom, esquerdo, der uma prévia “espiada”
mais para o lado direito da linha escrita — antes de ler —, essa “espiada”
permitirá uma melhor compreensão do texto. Se a dificuldade persiste, que dê
outra espiada, sem propriamente ler. Alternando leituras e “espiadas”. Isso
melhora a visão periférica. Um truquezinho para situações especiais. Um
oftalmologista me explicou que quando um paciente perde um olho em acidente ele
recebe instruções para contornar o déficit da perda, ficando, com o treino, em
condições de ler tão bem quanto os demais leitores.
E fico por aqui. Forçado. Tive que cortar e arquivar
razoáveis desdobramentos sobre leituras, inteligência, política e temas
correlatos. No fundo, todas as questões, neste planeta louco, são correlatas,
ainda que remotamente. Na própria “loucura” pode haver um grão perdido de
sabedoria. Talvez, o que guardei no computador, para uso próximo, seja mais
interessante. Veremos.
(18-09-2015)
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
A nova CPMF, está sendo criticada ignorando seu potencial.
Lendo hoje, 28-8-15, as
acerbas críticas de empresários e políticos contra a proposta de Joaquim Levy —
de recriar o odiado “imposto do cheque” —, constatamos, data vênia, a contumaz propensão para o imediatismo e estreiteza
de visão no examinar qualquer medida legislativa de opostas consequências.
Qualquer iniciativa ou “presta” ou “não presta”, in totum, sem
nuanças, sempre pensando no efeito presente. “Nem pensar!” em aperfeiçoar algo
momentaneamente ruim mas imensamente promissor, esquecidos de que até o veneno
de cobra pode ser transformado em um remédio que “afina” o sangue ou se
transforma em antídoto contra mordida de cobra. Para quem não sabe, uma gota de
veneno vale muito mais que uma gota de ouro puríssimo em forma líquida.
Assim é a mal compreendida
CPMF se utilizada na forma certa. No
momento, ruim, pela estreiteza de sua meta, mas se houver um curto acréscimo
redacional à pretensão do governo — obrigando-o a reduzir, após “x” meses — ou
um ano —, a carga tributária na mesma proporção do arrecadado com a CPMF, seria algo tremendamente revolucionário, no
seu melhor sentido.
O único inconveniente
político, hoje, dessa ousada e sábia simplificação de nossa arrecadação —
tendente ao ideal político do “imposto único” — é que seu garantido sucesso
econômico prestigiaria o PT, um partido que nunca me agradou pela sua tendência
à demagogia e má escolha de lideranças. Mas o que superiormente interessa é que
nosso país resolva o eterno problema da sonegação fiscal e alivie os
contribuintes, para sempre, de uma imensa burocracia. Esse tributo, a ser novamente testado por
vários meses não deve ser pensado apenas como forma de “fechar as contas”. Ele
deve, futuramente, se tornar permanente, com a vinculante obrigação do governo
— inserida no texto de sua criação — de redução do número de tributos e/ou das
respectivas alíquotas. Eu, particularmente, aceitaria ver descontado até um por
cento em cada transação minha desde que desobrigado de inúmeras obrigações
tributárias e com redução das alíquotas dos tributos que ainda permanecessem.
Vladimir Putin, mesmo sendo um ex-comunista odiado, considerado despótico,
entendeu suficiente, para o governo russo, cobrar uma alíquota de 10% para o
Imposto de Renda. Foi por isso que o ator Gerard Depardieu mudou de cidadania.
Se, neste exato momento, essa alíquota foi alterada — por necessidades
políticas decorrentes de cerco econômico, Ucrânia, etc. —, não sei, mas não é
de causar espanto a sensação que tem um empreendedor brasileiro de que está
sendo “tungado” pelo governo que parece vê-lo como uma vaca leiteira a ser
ordenhada a todo momento e com dezenas de guias e outros papéis caindo dentro
do balde.
A CPMF é o “ovo” de um futuro
tributo generalizante, indesviável — por maus funcionários —, e insonegável —
por maus contribuintes. Se todos contribuírem, os atuais pagadores “certinhos”
— que sofrem o desconto no holerite — pagarão menos, pelo menos no Imposto de
Renda.
Sem um novo “teste” de
arrecadação, no caso a CPMF, o sonhado “imposto único” — apenas uma forma breve
de dizer — nunca se tornará realidade. Qual o governo, de qualquer país, que
arriscaria cancelar todos os seus tributos sem conhecer, de antemão, preto no
branco, o poder de arrecadação de algo parecido com o chamado ‘imposto do
cheque”( na verdade, incidindo em cheques, cartões de crédito e débito e
transferências eletrônicas)?
No nosso sistema tributário, o emperramento e os
desvios continuam firmes, por décadas. Basta ver as guerras fiscais entre
estados e as frequentes divergências interpretativas, nos Tribunais, entre
fisco e contribuinte. Mais de um trilhão de reais de crédito — ou abuso —
tributário está pendente, na justiça federal, aguardando a decisão “final” —
quase um sonho — do Poder Judiciário. E sem culpa dos magistrados, suados
“destrinchadores” de mutáveis “nós” legais. Assim, por que não adotar um
sistema mais simples de arrecadação em que o dinheiro do tributo vá direto para
o Tesouro Nacional? Como, depois, dividir sensatamente o “bolo” entre União,
Estados e Municípios já é outro assunto, a cargo dos interessados na partilha.
Grandes avanços — em qualquer área —, geralmente
dependem de um sacrifício inicial. Se o Brasil levar a sério a dupla função de
alcançar a riqueza no dia a dia, todos contribuindo, e simultaneamente
extinguindo uma enxurrada de tributos e obrigações fiscais, o mundo inteiro nos
seguirá, espantado e se perguntando: — “Por que nós mesmos, europeus e
americanos, não fizemos isso antes? Nós, que primeiro concebemos esse “ovo de
Colombo?”
No jornal “O Estado de S. Paulo”, pág. A4, edição de
16/06/15, Joaquim Levy, em artigo publicado no jornal Valor Econômico, edição
de 17 de setembro de 2007, teceu elogios rasgados à CPMF, nos seguintes termos:
“A CPMF é hoje um dos tributos que gera menor distorção na economia. Além de
sua arrecadação, verificável e barata, ela alcança agentes que escapam de
outros impostos, aumentando a equidade do sistema como um todo”. Ele está
certíssimo em seu raciocínio. Não esquecer que muitos que clamam contra a CPMF
assim o fazem por interesse próprio, bem concreto, utilizando as brechas da lei
ou as brechas morais, pessoais, existentes nos mecanismos de fiscalização e
arrecadação de tributos.
Um sistema tributário que colha a parte do governo,
sem desvios e sem burocracia seria ideal tanto para o governo quanto para o
contribuinte. Gasta-se um tempo enorme guardando comprovantes, preenchendo
guias e mais guias, contratando contadores e advogados para solucionar as
constantes e inevitáveis dúvidas jurídicas decorrentes da pletora legislativa e
reguladora, bem como a repercussão de um tributo nos demais. Um péssimo
subproduto desse cipoal tributário é o congestionamento da Justiça, travada por
milhões de demandas tributárias.
Realmente, pelo que se sabe, a nossa carga tributária
é uma das mais altas do mundo, com pouco retorno. Por que isso ocorre? Por
vários fatores: incompetência, desonestidade, inércia, demagogia,
irresponsabilidade pessoal e fiscal, amor à “prole ampliada” (empregos públicos
sem concurso), e tudo o mais relacionável ao caráter. Essa coletânea de
problemas ficaria diminuída com a simplificação tributária de um imposto
arrecadado na fonte, diariamente. Bancos e demais instituições financeiras
certamente não se atreveriam a modificar seus computadores e demais aparelhos
eletrônicos para não registrar as movimentações financeiras, via cheques,
cartões de crédito e débito e transferências eletrônicas. O Banco Central e a
Polícia Federal teriam meios de fazer a fiscalização. É mais fácil fiscalizar
um número relativamente pequeno de bancos do que milhões de pessoas físicas e
jurídicas. Uma das vantagens de um imposto do tipo da CPMF está em preservar a
moral de eventuais funcionários, menos resistentes em resistir às poderosas
tentações do dinheiro. Se é impossível desviar, não há o crime descrito no
desvio.
Obviamente, se a transferência do dinheiro ocorre
entre contas da mesma pessoa, não há o que tributar, porque na verdade o
dinheiro não circulou.
Não se alegue que com o desconto do “imposto do
cheque”, no cartão de crédito/débito e no pagamento via transferência
eletrônica, o sonegador passará a transportar fisicamente — no bolso, cueca,
pasta e mala —, grandes volumes de dinheiro vivo. Se ele assim agir, os
primeiros a saberem disso serão os assaltantes, transfigurados em sanguinários
“fiscais” da sonegação. Após os primeiros tiros ou coronhadas dos meliantes, os
“cofres ou mulas de duas pernas”, assustados e sangrando, voltarão às formas
tradicionais de pagamento.
Hoje, quem paga, de verdade, o Imposto de Renda são os
assalariados e os contribuintes mais íntegros — prejudicados pelos concorrentes
que pagam pouco, ou nada, e com isso podem vender seus produtos e serviços com
preço mais baixo. A obediência fiscal, atualmente, é uma desvantagem.
Não muito tempo atrás li, na imprensa, que os
brasileiros estão, em massa, comprando apartamentos na Flórida, pagando com
dinheiro vivo, “cash”. Essa forma preferencial de pagamento não seria um
indício de “Caixa 2” em grande escala?
Não sou, tecnicamente, um tributarista. Opino aqui
como mero cidadão contribuinte, sempre surpreendido com a imensa complexidade
fiscal. Não consigo entender como ainda existem contadores e tributaristas em
condições de acompanhar, com total rigor, as abundantes e por vezes discutíveis
obrigações fiscais. É pena que somente grandes estadistas ou invulgares
parlamentares terão, hoje, a coragem de convencer os cidadãos de que a obsessão
pelo imediatismo é própria das crianças e dos adultos de curta visão. Quanto
aos espertos, que hoje desfrutam das falhas ou contorções legais, esses jamais
aceitarão a mudança do status
quo.
Vale a pena tentar modificar essa desigualdade, em que
o punido é o contribuinte cumpridor da lei, não o que consegue viver à sua
margem, usando truques contábeis ou tirando proveito da fraqueza moral de
eventual agente público. A ganância enlouquece mas quem sofre as consequências
somos nós, contribuintes.
(28-08-2015)
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Ivan Sant’Anna seria ótimo no “Roda Viva”
Inicialmente, justifico porque
sugiro que “Roda Viva”, o interessantíssimo programa de entrevistas da TV
Cultura — às 22:00 horas, nas segundas-feiras —, convide o jornalista Ivan
Sant’Anna para falar sobre seu último livro, “O Terceiro Templo. Os conflitos
árabe-israelenses e os choques do petróleo”.
Para mim, esse “livro-síntese”
foi bastante esclarecedor, ligando e explicando fatos políticos e econômicos
que quase sempre são mencionados isoladamente nos jornais. O livro “encaixa as
peças” de dois grandes quebra-cabeças oriundos do Oriente Médio. Poucas pessoas,
mesmo bem informadas, conhecem os bastidores e sequenciamento da luta política
e econômica na disputa do petróleo. Causas e efeitos. Subida e descida no preço
da sopa negra e oleosa, de origem orgânica — cozida nas entranhas quentes do
Planeta — e por enquanto insubstituível,
embora poluidora. Esse o principal mérito da obra, que também auxilia o
entendimento do conflito israelo-árabe. Não há, na Terra, problema político
igual, em termos de complexidade, porque ambos os lados têm razão. O problema é
essencialmente físico: dois corpos — inteiros — não podem ocupar o mesmo
espaço.
Há vários anos acompanho, pela
imprensa, o que corre pelo mundo. Considerando que a televisão já nos fornece
alguma informação sobre a política nacional, inicio a leitura do jornal pelas notícias
internacionais. Mesmo assim, não tinha uma visão sequencial, resumível, do que
aconteceu no Oriente Médio. Todo jornal, repito, é essencialmente fragmentário,
mesmo porque o espaço para informar é curto. Aborda os assuntos do dia ou da
semana, mas somente o livro, ou pelo menos o livreto, pode sintetizar o que
ocorreu, no decurso de décadas. Resultado: nosso destino está sendo construído —
ou destruído... —, sem que o saibamos, em áreas por vezes bem distantes. Se a
humanidade estiver destinada a ser fritada, que pelo menos saiba depois porque
isso aconteceu. Sempre restarão alguns sobreviventes esfarrapados que, sentados
nos escombros, poderão ler algumas folhas que escaparam do grande incêndio.
Com a crescente globalização — a
exigir algum aperfeiçoamento normativo mundial —, uma “guerrinha” aparentemente
menor, “apenas mais uma”, iniciada no Oriente Médio, ou na Ucrânia, poderá se
transformar em conflito nuclear. O risco atômico tem conseguido,
paradoxalmente, desde o início da Guerra Fria, que o ar poluído que respiramos não
seja também radioativo. Palmas, portanto, para esse lado imprevistamente virtuoso
do medo atômico que inibiu tanto Stálin quanto os presidentes americanos de
iniciarem uma Terceira Guerra Mundial, mal encerrada a anterior. Ocorre que
esse efeito positivo do perigo nuclear só existe quando é recíproco o medo.
Quando duas ou mais nações se
odeiam, cultivando velhos ressentimentos, e o poder nuclear está nas mãos de
uma só, a prepotência cresce. A sensação de possuir uma força temível e
irresistível estimula, até mesmo inconscientemente, o abuso. Isso ocorre tanto
no reino animal quanto no meio-animal, como é o caso do bicho-homem. Leopardo
não come leopardo. Come a frágil gazela mas nem tenta comer o rinoceronte,
apesar de sua abundância proteica. Dentes e garras, peso, chifre e
agressividade definem quem pode viver ou morrer. Os homens utilizam instrumentos
mais sofisticados, chamados política e poder.
Vejam, por exemplo, o que ocorre
com a Coreia do Norte, governada hoje por um jovem ditador, excêntrico e
matador, que jamais seria eleito por cidadãos com um mínimo de discernimento e liberdade de expressão. Ele é
o produto de uma estranha forma de aristocracia: a comunista, o poder
transmitido pelo sangue, um sistema arcaico de governança, supostamente rejeitado
desde 1789, com a Revolução Francesa. O atual “líder” norte-coreano foi “ungido”
presidente pelo pai, que governou ditatorialmente o país por décadas. No
entanto, com todas as suas venetas e vendetas — o jovem “monarca” elimina os
próprios ministros com total desenvoltura —, a comunidade internacional não se
atreve a tomar medidas de força contra esse país, temendo o disparo de alguns
foguetes com ogiva nuclear. Resumindo: quem tem a força atômica é sempre respeitado
e temido. Não é à-toa que os cinco países com assento permanente e poder de
veto no Conselho de Segurança da ONU, são potências nucleares.
A menção do tema nuclear lembra
naturalmente o que ocorre no Oriente Médio, onde o único país, na região, com
poder atômico, Israel, “exige” que a comunidade internacional impeça que seu
maior rival político, o Irã, desenvolva a tecnologia nuclear. “Exige” o privilégio
com tanta autoconfiança que promete usar todos os “meios” — obviamente
violentos, a seu exclusivo critério — para impedir qualquer atividade que
permita ao Irã crescer na tecnologia nuclear de qualquer natureza, civil ou
militar. Expressa-se duramente, mesmo após as grandes potências chegarem a um recente
acordo, em Viena — trabalho de mais de dez anos —, permitindo ao Irã algum
nível de evolução nessa tecnologia. Essa arrogância — desafiando até seu velho
aliado, os EUA (pelo menos no governo de B. Obama) — é mais uma comprovação do embriagador
efeito cerebral causado pela posse de armas nucleares.
O “livro-síntese” (uma forma de
dizer) de Ivan Sant’Anna obrigou-me a retificar um argumento que venho repetindo, na internet, há vários,
anos sobre Israel.
Essa retificação relaciona-se
com a sinceridade, ou insinceridade, dos pronunciamentos do governo israelense
quando justifica sua dura política contra o Irã, Síria e o Hamas. Explico
melhor: Benjamin Netanyahu costuma justificar sua ojeriza e intransigência
contra a criação de um Estado palestino vizinho alegando que os árabes não
aceitam a existência de Israel, a ponto de prometerem “varrê-lo do mapa”. Não
aceitando, os árabes, a existência de Israel, não haveria razão para conversar
com os palestinos sobre qualquer forma de divisão da terra palestina. “Como
ajudar a criar um país que pretende arrasá-lo?”
Sempre interpretei essa alegação
israelense como sendo um pretexto, tirando proveito político de uma frase somente
demagógica, proferida com frequência pelo então presidente iraniano, Mahmoud
Ahmadinejad, e outros inimigos fanáticos de Israel. Considerando o tamanho de
Israel, com mais de oito milhões de habitantes, seria impensável, apenas bafo, nada
sério, pretenderem os árabes um segundo Holocausto judeu, algo tão doentio
quanto o primeiro.
Todavia, lendo a história
abreviada da criação de Israel — conforme a explicação detalhada de Ivan
Sant’Anna —, constatei que por duas ou três décadas, após a criação do Estado judeu,
os países árabes tinham realmente a intenção, de destruir esse país. Não era
demagogia da ala mais radical islâmica.
O livro de Sant’Anna descreve,
com números — tanques, soldados, aviões, etc. —, o imenso esforço bélico de
nações árabes decididas a destruir Israel, só não o conseguindo porque os
judeus lutaram com rara determinação, habilidade e, convenhamos, com o socorro
bélico e urgente dos americanos. Israel esteve, realmente, à beira do
desaparecimento, chegando a pensar no uso da bomba atômica, talvez apenas uma
ou duas, naquele momento. Impossível saber o número porque Israel é uma
caixa-preta.
Segundo o mesmo livro, na página
132, na Guerra dos Seis dias, em 1967, o ministro da Defesa de Israel, Moshe
Dayan, angustiado com a inferioridade de forças, chegou a dizer, em uma reunião
com a cúpula israelense: “Só nos resta o último recurso, preparar o show
nuclear”. Golda Meir, porém, cabeça fria, de imediato respondeu: “Esqueça
isso”. Esse fato comprova que desde 1967 Israel já dispunha de pelo menos uma bomba
atômica. E pretende, mesmo agora, continuar com o privilégio da exclusividade nesse
poder estrutivo.
São esses detalhes, entre
outros, que tornam o livro de Ivan Sant’Anna especialmente didático. E também interessante,
porque esse autor pinça traços de personalidades de pessoas que influíam na subida
e descida do preço do petróleo, explicando o porquê das oscilações. O ex-ministro
do petróleo da Arábia Saudita, Ahmed Zaki Yamani, que aparecia nas manchetes dos
jornais todas as semanas, décadas atrás, é explicado nas suas táticas para
manter o preço do petróleo no nível mais conveniente aos interesses de seu país
e dos demais produtores. Era um homem muito inteligente e equilibrado, fazendo
seu papel enquanto manteve sua influência junto ao rei da Arábia Saudita.
Mudando o rei, mudou sua relação com a monarquia.
Voltando ao mantra árabe da
“varredura” de Israel “do mapa” do Oriente Médio, cumpre, porém, lembrar aos
árabes que se havia, inicialmente, algum grau de justificação moral na
tentativa de impedir a “invasão” judaica, o passar do tempo tornou obsoleta essa
pretensão. Israel cresceu, consolidou-se e tornou-se um fato consumado. Em
termos civilizatórios, não tem sentido falar em sua destruição.
A única solução, hoje, para a difícil
convivência, será a criação de fronteiras estabelecidas pela comunidade
internacional — caso as partes não cheguem a um acordo (porque não chegarão...)
—, após ouvidas as reivindicações dos interessados. A decisão final do traçado
será, inevitavelmente, de um “terceiro”, um tribunal internacional. Ou já
existente, ou “ad hoc”, criado especialmente para o caso e com largos poderes
de equidade, não apenas verificando “direitos”, tratados oriundos de pressões
de todo tipo.
Quanto ao problema do retorno
dos palestinos expulsos — morando precariamente em abrigos nos países vizinhos
—, e do excesso de judeus querendo morar em “seu país”, a solução também deve
vir de “de fora” de um órgão internacional. Não por decisão unilateral de
qualquer das partes. Para isso a civilização concebeu um sistema de resolver
problemas, o poder judiciário, que pode até não ser o ideal, na prática, mas
sempre é melhor do que deixar prevalecer a força bruta, pura e simples, com
sangue e ruínas por toda parte.
Inconformidades futuras contra a
solução internacional poderão ser atendidas ou mitigadas com pagamento de
indenizações aos prejudicados — talvez o gasto com elas seja inferior às
despesas imensas e infindáveis com armamentos, mortes e outras consequências
guerreiras — e/ou com a compra de áreas na África para instalação de
comunidades judaicas e/ou palestinas, conforme for acordado ou decidido.
No começo do século XX foram oferecidas
ao movimento sionista, grandes áreas, para instalação, provisória ou definitiva
de uma pátria judaica. Terras no Congo, Uganda, Moçambique e outros locais
foram propostas. Uganda, com um clima próximo do existente ao sul do
Mediterrâneo, não muito quente, foi recusada pelos líderes sionistas por três
motivos: a existência de muitos animais ferozes; a proximidade de tribo selvagem
(não me lembro agora qual delas) e por razões religiosas, relacionadas com a
“necessidade” de retorno a um lugar considerado sagrado. Segundo os sionistas,
somente Jerusalém poderia sediar a nova nação. Havia um certo fundamento na
recusa, tendo em vista a distância, clima africano, dificuldade de transporte e
acesso..
Agora, porém, são os leões, não os seres
humanos, que precisam de proteção; as tribos africanas já usam mais celulares do
que flechas e a maioria dos judeus é agnóstica. Considerando o tamanho da
África e a tecnologia hoje disponível contra o calor excessivo em lojas, casas,
fábricas e escritórios, tanto judeus quanto palestinos poderiam ajudar
imensamente no progresso econômico deles mesmos e da África, que carece de
investimento e mão de obra qualificada. O tamanho gigantesco da África, microscopicamente
aproveitado hoje, é mais uma prova da estupidez política da humanidade como um
todo.
Ivan Sant’Anna, no final de seu
livro, considera impossível uma solução pacífica para o conflito Israel-
Palestinos, raciocinando apenas em termos de ocupação da Palestina. Quem sabe,
se incluirmos a imensidão africana na solução do problema — , e também a
opinião dos próprios africanos, que também teriam suas vantagens com o
surgimento de empregos em larga escala —, o antigo conflito racial, político e
cultural terá um fim.
Os palestinos não são equiparáveis,
culturalmente, aos antigos índios peles-vermelhas, expulsos pelos colonizadores
ingleses e hoje reduzidos a alguns milhares de indivíduos morando em reservas. São
muito mais instruídos que os índios do Velho Oeste, naquela época. Não
esquecerão, jamais, a ofensa da expulsão e a mesquinharia com que foram
tratados por Israel. Essa lembrança de injustiça sofrida fermenta na memória.
Anseia por vingança, assim como os judeus europeus — espezinhados, espancados e
assassinados em campos de extermínios —, anseiam por vingança, ou justiça, até
hoje, sessenta nos depois, exigindo cadeia ou forca para velhos alemães, que
cumpriam ordens nazistas, sabendo o que ocorria. Mesmo sabendo, quem se
recusava cumprir ordens estaria em risco de vida.
Os judeus, por sua vez, uma raça
— ou comunidade — culta, poliglota, especializada em finanças — até mesmo por
não terem outro caminho, impedidos de serem industriais e fazendeiros —
precisam compreender, com muita tolerância, a reação violenta dos palestinos
mais aguerridos à ocupação maciça de suas terras. Ocorresse o contrário, com
palestinos chegando em ondas a Israel, os judeus locais reagiriam como reagiram
os árabes à chegada dos judeus. Recorreriam também ao terrorismo, como
realmente recorreram contra os ingleses, a ponto de dinamitar um hotel, em
Jerusalém, em 1946, o King David, que
servia como moradia dos funcionários ingleses encarregados de administrar a Palestina,
finda a Primeira Guerra Mundial.
Enfim, o livro de Ivan Sant’Anna
é bastante informativo e explicativo, principalmente no item petróleo.
Segundo a mídia, está havendo um
recrudescimento do antissemitismo na Europa. Isso corre em maior parte por causa
do estilo truculento e arrogante de seu Primeiro Ministro que não quer “dar
satisfação” à opinião pública internacional.
Netanyahu não explica nada, e nada
concede. Só reage, “na bruta”, esmagando com seus aviões e tanques, os inimigos
de Israel, muito inferiorizados em armas. Para cada israelense morto morrem dez
ou vinte árabes. Quer representar apenas a força e talvez uma imaginária
superioridade racial, esquecido que essa força não foi apenas a própria, teve o
anterior apoio americano.
Netanyahu considera-se — e é —, um patriota,
mas no seu sentido mais estreito, primitivo, nunca tentando entender a
motivação do adversário. Ama Israel, mas Hitler também amava a Alemanha. Só que
“amava em excesso” e por isso teve um triste fim. Se Israel tratasse melhor a
população palestina, compreendendo sua reação de “país invadido” e fornecendo a
ela serviços básicos, saúde, educação, transporte e o usual para uma vida
digna, essa conduta obviamente levaria a população árabe, paulatinamente, a
diminuir sua animosidade. Não é com vinagre que se atrai abelhas. Não podemos
esquecer que elas transportam mel mas também têm ferrão.
Fiquemos por aqui. Quem sabe
assistiremos a entrevista de Ivan Sant’Anna. Não consultei o jornalista antes
de redigir este texto.
(18-07-2015)
sábado, 20 de junho de 2015
Nova CPMF: contra a sonegação e caminho para o “Imposto Único”.
Perdão
por título tão extenso. Considerando a falta de tempo da maioria
dos leitores e a pletora de textos disponíveis, é recomendável
esclarecer logo, ao estilo do twitter, se quem escreve é contra ou a
favor de tal ou qual proposta legislativa.
Neste
artigo, usarei os termos “imposto, tributo e contribuição” como
se fossem sinônimos, o que não são, obviamente. Tributo é um
termo genérico. Tomo essa liberdade redacional apenas evitando dano
à eufonia, com a repetição cansativa da mesma palavra, às vezes
na mesma linha. Prossigamos.
Em
fevereiro de 2013 publiquei no meu site —
www.franciscopinheirorodrigues.com.br
— um artigo, “Imposto único, com redução da carga tributária”.
Como esse artigo deve ter sido lido por pouquíssimas pessoas e o
tributo, hoje extinto, voltou à discussão, resolvi reapresentá-lo,
parcialmente modificado. Agora não mais como “provisório”. Seu
grande mérito está em possibilitar a substituição — sem risco
para as finanças públicas e com alívio do contribuinte —, de
dezenas de tributos por um pequeno número deles, no médio prazo. No
longo ou longuíssimo prazo a meta — talvez impossível — seria a
existência de um único tributo. O sonhado “paraíso tributário”.
Quando
se menciona, neste artigo, “Imposto Único” essa expressão deve
ser entendida menos como um “único” imposto — algo próximo da
utopia — e mais como um drástico enxugamento dos mais de cinquenta
tributos que hoje atormentam e sugam os contribuintes brasileiros.
Atormentam com a burocracia e sugam com o saque excessivo do dinheiro
do cidadão. A “nova” CPMF deve ser encarada pelo seu melhor
ângulo, aparentemente não percebido pelo próprio governo federal:
um teste de arrecadação e uma forma de tributar a movimentação da
riqueza de uma forma prática, sem burocracia e sonegação. Se todos
pagarem, da mesma forma, os tributos, todos pagarão menos, e com
menos papelada.
Na
Biologia, na Física, na Medicina, na Engenharia, e demais áreas,
até mesmo artísticas, a experimentação serve como prova da
verdade ou mentira, utilidade ou desperdício na forma de executar
qualquer trabalho. Sem testes a Ciência nunca poderia ter chegado
onde chegou. Na tributação o emperramento e os desvios continuam
firmes, por décadas. Basta ver as constantes divergências
interpretativas, nos Tribunais, entre fisco e contribuintes. Até
pouco tempo atrás, mais de um trilhão de reais de crédito — ou
abuso — tributário estava pendente, na justiça federal,
aguardando a decisão “final” — uma quase utopia —, do Poder
Judiciário. E sem culpa dos magistrados. Assim, por que não adotar
um sistema mais simples de arrecadação em que o dinheiro do
imposto, vá direto, para o Tesouro Nacional? Como, depois, dividir
sensatamente o “bolo” entre Estados e Municípios já é outro
assunto, aqui não abordado.
Grandes
avanços — em qualquer área —, geralmente dependem de um
sacrifício inicial. É o caso do algo “idealista” Imposto Único
que jamais poderá ser adotado sem um sério “teste” de
arrecadação. Esse “teste”, circunstancial, seria uma nova CPMF,
cobrando um determinado percentual em toda movimentação financeira
via cheque, cartão de crédito ou de débito, e transferência
eletrônica. A meta de toda tecnologia — inclusive a fiscal — é
atingir um resultado com o mínimo de gastos, desperdícios, demoras,
fraudes, burocracias e cansaço de quem a utiliza. U’a melhor
tecnologia interessa tanto para o governo — seja qual for o partido
— quanto para o contribuinte.
Sei
perfeitamente que 98% dos brasileiros não suporta a mera menção de
qualquer novo tributo, provisório ou não. Não querem ler, ou
sequer ouvir, nenhuma palavra em favor de novo ônus financeiro.
Sentem-se, no geral, tão “saqueados” pelos governantes, nas
esferas federal, estadual e municipal, que muitos já consideram
“compreensível” algum grau de sonegação, vista como única e
informal “legítima defesa contra esses governos que só pensam
neles mesmos, gastando a rodo, aqui e no estrangeiro, nomeando
parentes, amigos e cabos eleitorais, etc.” Em síntese, o grito do
brasileiro que paga os inúmeros tributos mas não recebe os serviços
correspondentes é um só: “os brasileiros não aguentam mais tanto
imposto!”
No
entanto, é justamente para diminuir a excessiva quantidade de
impostos no Brasil que se faz necessário um tipo de tributo que
suprima inúmeros outros. Sem prejuízo da arrecadação — até
melhorando-a! — e permitindo a todos — “cereja do bolo” —,
ricos e pobres, pagarem futuramente menos tributos. Isso mesmo, um
bendito paradoxo: pagar menos impostos logo após encerrado o “teste
de arrecadação” (a nova CPMF). O tão odiado “imposto do
cheque”, extinto em 1º de janeiro de 2008, já comprovou sua
eficácia, sem o desvio do dinheiro público antes dele chegar ao
Tesouro. Ele foi extinto porque foi mal utilizado. Era para ser
destinado apenas à Saúde mas isso não ocorreu. Por isso
desmoralizou-se. E tinha um defeito grave: não cancelava outros
tributos, apesar do montante arrecadado (mais de 40 bilhões por
ano).
Agora
poderia ser diferente. Com a nova versão da extinta CPMF, todos
pagarão, em igual proporção, um imposto que acompanha, sem ilusões
e constantes desvios, a real circulação do dinheiro.
Quando
redigia este artigo fiquei agradavelmente surpreendido, ao ler, no
jornal “O Estado de S. Paulo”, pág. A4, edição de 16/06/15,
que nosso íntegro Ministro da Fazendo, Joaquim Levy, em artigo
publicado no jornal Valor Econômico, edição de 17 de setembro de
2007, teceu elogios rasgados à CPMF, nos seguintes termos: “A CPMF
é hoje um dos tributos que gera menor distorção na economia. Além
de sua arrecadação, verificável e barata, ela alcança agentes que
escapam de outros impostos, aumentando a equidade do sistema como um
todo”.
Críticos
da CPMF quiseram tirar proveito da suposta contradição do ministro
porque agora mostra-se contrário à sua reutilização. Não há
contradição dele quanto às virtudes desse tributo. Como explicou,
ele é momentaneamente contra a proposta porque “há pouca
disposição do Congresso para aumentar a carga tributária”.
Apenas por motivos táticos, políticos, ele discorda de sua nova
cobrança, neste delicado momento político. Não chegou a relacionar
expressamente esse tributo com a ideia do Imposto Único (ou tendente
a ele) porque não foi indagado a respeito. Talvez, se indagado
especificamente, em “off”, considere que um novo sistema
tributário — mais simples, não burocrático, indesviável na sua
arrecadação — seria benvindo, e não só no Brasil. Um sistema
que dispensasse os cidadãos de uma enorme perda de tempo guardando
comprovantes, preenchendo guias e mais guias, contratando contadores
e advogados para solucionar as constantes e inevitáveis dúvidas
jurídicas decorrentes da pletora legislativa e reguladora, bem como
a repercussão de um tributo nos demais. Um péssimo subproduto desse
cipoal tributário é, como disse atrás, o congestionamento da
Justiça, travada por milhões de demandas tributárias.
Realmente,
pelo que se lê na mídia, a nossa carga tributária é uma das mais
altas do mundo, com pouco retorno. Por que isso ocorre? Por vários
fatores: incompetência, desonestidade, inércia, demagogia,
irresponsabilidade pessoal e fiscal, amor à “prole ampliada”
(nepotismo e empregos públicos sem concurso), e tudo o mais
relacionável ao caráter. Tais condições não serão abordadas
aqui mas uma coisa é incontestável, e digo de novo: se todos os
brasileiros pagassem os respectivos tributos, todos pagariam menos.
Uma melhoria da justiça fiscal, a nível pessoal. O montante da
arrecadação seria maior. Bancos e demais instituições financeiras
certamente não se atreveriam a alterar seus computadores e demais
aparelhos eletrônicos para não registrar as movimentações
financeiras. O Banco Central e a Polícia Federal teriam meios de
fazer a fiscalização. É mais fácil fiscalizar um número
relativamente pequeno de bancos do que centenas de milhares de
firmas. Uma das vantagens secundárias de um imposto do tipo da CPMF
está em preservar a moral de eventuais funcionários, menos
resistentes em resistir às tentações do dinheiro.
Obviamente,
se a transferência do dinheiro ocorre entre contas da mesma pessoa,
não há o que tributar, porque na verdade o dinheiro não circulou,
a menos que alguém explique, e convença, que essa operação pode
esconder alguma fraude fiscal.
Verificada
a arrecadação efetiva desse novo e inteligente tributo — por um
período de poucos meses, talvez três ou quatro — a critério do
Congresso e do Poder Executivo — esses dois Poderes extinguiriam
determinados tributos ou reduziriam as alíquotas de outros, tendo em
vista o enorme reforço financeiro resultado da alta arrecadação da
nova CPMF, que não será usada apenas visando à saúde, embora, no
momento esta mereça um cuidado preferencial.
Tento,
aqui, convencer o leitor a repensar o assunto, visto ainda com enorme
antipatia porque encarado como “mais um imposto!” e ponto final.
Não poderá ser apenas isso. A própria lei que criar esse
“revolucionário” tributo dirá expressamente que após “x”
meses de arrecadação o Governo terá que reduzir a sua arrecadação,
em “y %”. Ou extinguindo tributos ou reduzindo alíquotas em tais
ou quais impostos, sob pena de processo de responsabilidade. Essa
cláusula, da obrigatoriedade da diminuição do número de impostos,
ou dos percentuais atualmente existentes, não pode faltar, caso
vigore a nova CPMF. Os contribuintes já não confiam nos governos.
Sem uma ameaça legal de perda do cargo e/ou cadeia, os contribuintes
não aprovarão uma nova CPMF.
A
CPMF extinta em 2007 arrecadou, só naquele ano, com uma alíquota de
0,38% a quantia de 36,5 bilhões de reais. Há quem mencione que foi
mais do que isso.
Não
se alegue que com o desconto do “imposto do cheque”, no cartão
de crédito/débito e no pagamento via transferência eletrônica, o
sonegador passará a transportar fisicamente — no bolso, cueca,
pasta e mala —, grandes volumes de dinheiro vivo. Se ele assim
agir, os primeiros a saberem disso serão os assaltantes,
transfigurados em sanguinários “fiscais” da sonegação. Após
os primeiros tiros ou coronhadas dos meliantes, os “cofres ou mulas
de duas pernas”, assustados e sangrando, voltarão às formas
tradicionais de pagamento.
Não
teríamos, portanto, frise-se, apenas “mais um imposto”. Ele
seria o passo inicial para a substituição gradativa de “n”
tributos por uns poucos. Sua finalidade máxima estaria no combate à
sonegação e na simplificação das obrigações tributárias. Hoje,
quem paga Imposto de Renda são os assalariados e os contribuintes
mais íntegros — prejudicados pelos concorrentes que pagam pouco,
ou nada, e com isso podem vender seus produtos e serviços com preço
mais baixo. A obediência fiscal, atualmente, é uma desvantagem.
Não
muito tempo atrás li, na imprensa, que os brasileiros estão, em
massa, comprando apartamentos na Flórida, pagando com dinheiro vivo,
“cash”. Essa forma preferencial de pagamento não seria um
indício de “Caixa 2” em grande escala?
Não
sou, obviamente, um tributarista. Opino aqui como mero cidadão
contribuinte, sempre surpreendido com a imensa complexidade fiscal.
Não consigo entender como ainda existem contadores e tributaristas
em condições de acompanhar, com total rigor, as abundantes e por
vezes discutíveis obrigações fiscais. Quando leio sobre a
infindável luta das nossas autoridades, tentando inibir a evasão de
divisas, e do Ministério Público tentando trazer de volta ao país
o produto do Caixa 2 — ou façanhas mais sérias —, fico me
perguntando se os crimes financeiros não ocorreriam em muito menor
escala se a carga fiscal fosse mais reduzida, mais clara e mais
justa, alcançando todos os contribuintes e não apenas, como disse,
os “certinhos”, por índole ou “coagidos” pelo desconto no
holerite.
Somente
grandes estadistas ou invulgares parlamentares terão coragem de
convencer os cidadãos de que a obsessão pelo imediatismo é própria
das crianças e dos adultos de curta visão. Quanto aos espertos, que
hoje desfrutam das falhas ou contorções legais, esses jamais
aceitação a mudança do status quo.
Vale
a pena tentar modificar essa desigualdade, em que o punido é o
contribuinte cumpridor da lei, não o que consegue viver à sua
margem, usando truques contábeis ou “molhando a mão” de algum
eventual funcionário conivente.
(19-06-2015)
segunda-feira, 8 de junho de 2015
Sobre o autor
Dr. Francisco César é desembargador aposentado do TJESP e escritor. Autor dos romances "A rainha da boate", "Do amor e outras fraudes" e "Criônica". Este último ele não classifica como ficção-científica.Descreve apenas a angústia de um banqueiro brasileiro que se considera injustiçado. Tanto pela Justiça — que o condenou como homicida da esposa — como pelas limitações da Medicina, que rotulou seu câncer como incurável.
Depois de solto, cheio de planos, soube, pelos médicos, que estava condenado. Mas não aceitou o prognóstico. Pensou assim: — “Daqui a dez, vinte ou trinta anos, a Medicina estará diferente. Esperarei, congelado, o progresso técnico na única forma hoje a meu alcance: na ‘geladeira’ de -196 graus Celsius negativos. Podre, isso é certo, não estarei.
O resto são detalhes, vencíveis. A humanidade já realizou ‘milagres’ técnicos muito mais difíceis que impedir o congelamento da água em nossas células, o maior problema da Criogenia. Importante: depois de escrito e publicado o romance o autor soube da existência de rãs das regiões árticas que ficam congeladas durante meses, sem que a água das suas células se congele e, dilatando-se, rompam a membrana celular.
Sobre esse detalhe, o leitor poderá ler o sucinto “complemento” do livro em um artigo no seu blog, “Um livro injustiçado: Criônica. Autor? Este seu criado”
Francisco Cesar publicou também um livro de contos, "Tragédia na ilha grega" e duas coletâneas de artigos (mais de160), “Verdades que melindram”, I e II, na forma de eBooks — bem como alguns exemplares impressos e distribuídos como brindes — sobre política internacional e justiça.
Francisco Cesar nasceu em Fortaleza-CE mas vive em São Paulo desde os dois anos de idade. Formou-se em Direito pela Faculdade Paulista de Direito (PUC). É casado, pai de quatro filhos e avô de seis netos.
Depois de aposentado, vem escrevendo assiduamente na internet, sobre justiça brasileira, política internacional, governo mundial e outros temas gerais, os mais polêmicos da atualidade.
Dr. Francisco Cesar escreve também sobre assuntos de interesse apenas humano, trágicos e cômicos, interessado que é na compreensão — a mais abrangente possível —, do ser humano como um todo. Segundo ele, o Homem é uma pulga de duas pernas, simultaneamente vulgar e nobre, lixo e diamante, conforme o momento. Se não se autodestruir, talvez ainda conquiste o universo. Talvez sejamos, hoje, o equivalente da ameba terrestre primordial que um dia navegará entre as galáxias. Como? Não sabemos. Assim como nossas vovós amebas também não sabiam que evoluiriam até o presente momento.
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www.franciscopinheirorodrigues.com.br
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