terça-feira, 24 de novembro de 2020

Marte é hoje o que será a Terra, amanhã.



Resumindo o presente artigo: Marte é, tudo indica, o túmulo de uma avançada civilização, soterrada na poeira de milhões de séculos.

Tolice — com o devido respeito —, essa miúda preocupação com a existência, ou não, de água salgada, ou doce, na superfície, ou abaixo dela, em Marte; com a existência de vestígios de seres microscópios, vírus e bactérias; com o metano substituindo o oxigênio; com a existência de água em estado líquido e com possibilidade, ou não, de abrigar terráqueos futuramente.

Com tantas terras desocupadas no nosso planeta, não passa de infantil ficção científica as atuais especulações sobre migrações de terráqueos para viverem em Marte. Tais preocupações poderão, talvez, ter sentido daqui muitos milênios. O que precisamos, agora, isto sim, é cuidar do nosso planeta em termos de desflorestamento, redução da camada de ozônio e da poluição, partilha racional da água doce, e uma inteligente e não agressiva contenção no crescimento desordenado da população, gerando pobreza e migrações em massa, com sofrimentos de toda ordem, tanto na saída quanto na chegada dos fugitivos a outros países.    

Se o Planeta Vermelho, eventualmente — como já disse —, conseguiu, com avançada tecnologia, sobreviver, no ambiente hostil, frio e sem oxigênio, isso ocorreu reduzindo tremendamente sua população, vivendo abaixo do solo, o que explicaria a existência de discos voadores — caso ficar comprovado que eles existam.      Pessoalmente, acho que existem, embora não tenha avistado nenhum. E, se existem — progredindo na dedução —, seria bem lógico, normal, que eles estivessem nos observando como futuro habitat, uma maravilha se comparado com o gelado e hostil Marte.

Nunca fui muito interessado em discos voadores mas quando leio alguma coisa sobre eles impressiona-me a constante indagação dos que afirmam a sua existência: — Por que esses tripulantes dos discos só nos espiam, evitando um contato? Qual o interesse deles? Planejam alguma coisa má?

Paro por aqui, no item flying saucers, porque o foco do presente texto é sugerir — com desculpa pelas repetições — que Marte, quando menos gelado, com clima semelhante ao nosso, hoje, teve tempo para crescimento de uma civilização que, ou se extinguiu por completo — deixando suas ruínas cobertas por toneladas de poeira —, ou conseguiu, com muito esforço, sobreviver com reduzida população, vivendo no subsolo, aquecido com a perigosa tecnologia nuclear, mas ambicionando, talvez, colonizar seu planeta mais próximo, no caso, a Terra. 

Obviamente, prefiro que minha hipótese não esteja certa porque já temos confusão demais em nosso planeta, liderado por burros ou espertíssimos governantes, de todos os calibres, que não conseguem, sequer — mesmo com uma ONU — impedir que verdadeiros jumentos, escudados em ilimitada “soberania”, façam o que lhes dá na veneta.

As presentes considerações vieram-me à cabeça com a notícia de que o módulo espacial InSight, da Nasa, pousou anteontem (26/11/2018), com sucesso, na superfície de Marte, pretendendo estudar o interior do planeta.

Arrisco, sem medo do ridículo, acreditar que Marte, hoje, corresponde à Terra no distante futuro, vítima, a Terra, de suas loucuras ambientais e possível guerra nuclear, desencadeada por mero acidente. A estratégia nuclear de “resposta imediata” — contra-atacar antes de verificar se o primeiro ataque não foi acidental — em um planeta, o nosso, cada vez mais recheado de armas nucleares, é convite para o caos.

As considerações, acima e abaixo, neste texto, partem da presunção, que só pode ser correta, de que o nosso Sol era, em “seu início”, bem mais volumoso e quente. Como o combustível dessa gigantesca bola de fogo foi progressivamente se esgotando, sem reposição, houve em um longo período, no passado, em que a Terra era quente demais, inabitável, porém Marte — mais distante do Sol —, tinha uma temperatura agradável, como a Terra, hoje.

Astrônomos afirmam que a cada segundo mais de 4 milhões de toneladas de matéria solar são convertidas em energia. Isso significa um constante esfriamento do “forno”. Um dia, o sol se extinguirá — afirmação unânime da Astronomia —, por esgotamento, após um súbito crescimento que queimará nosso planeta. Será o “canto do cisne” da nossa estrela.

Repetindo, o Sol no seu início era mais quente que agora. Tão quente que nosso planeta não podia hospedar a vida. Marte, porém, naquela época, podia florescer em crescente civilização, porque mais distante do sol. Depois dessa longa fase, com o sol se esfriando progressivamente, a Terra se tornou habitável e Marte, mais distanciado do sol, tornou-se frio demais, só podendo, talvez, e dificilmente, abrigar uma vida subterrânea de seres inteligentes com um altíssimo nível de tecnologia.

Não tenho a menor dúvida de que a vida brota em todo corpo celeste com tamanho suficiente para sua longa duração, desde que receba luz, calor adequado e contenha água. Isso aconteceu com Marte, antes de a Terra, quente demais, não possibilitar a vida. Marte e Terra são como que planetas irmãos, só que Marte nasceu primeiro. Quando a Terra ainda era habitada por dinossauros, ou nem isso, Marte talvez fosse uma espécie de Idade Média terrestre.

Como todos os seres vivos — todos, sem exceção — nascem com duas tendências que sempre me impressionaram pela constância — o instinto de auto conservação e de propagação — isto é, comida e sexo —, os “bichos” marcianos também evoluíram lentamente de bactérias até seres inteligentes, semelhantes a humanos. De mutação em mutação — por acidente genético e também por pressão do ambiente hostil — os marcianos inventaram a escrita, descobriram as matemáticas e chegaram ao conhecimento profundo da matéria.

Parece-me lógico concluir que em Marte também tenha surgido um Albert Einstein, ou teórico de igual nível. Pensando, pensando e pensando, o “Einstein marciano”, igualmente cismado, cavando nas suas especulações, acabou esbarrando no mistério das partículas quase invisíveis da matéria, só enxergáveis com microscópio eletrônico. Enquanto isso, na Terra, sequer sabíamos, que nosso órgão pensante era o cérebro e não o coração, ou fígado.

Sendo o marciano um animal inteligente, tal como o homem, os dois impulsos primordiais, acima referidos — auto preservação e propagação da espécie — com o constante estímulo de luta pela supremacia, “governos” marcianos devem ter entrado em conflito global que acabou destruindo a vegetação e o meio ambiente. Lembremo-nos que nosso oxigênio origina-se das plantas. Sem estas, vida somente elementar e rara.

                 Finalizando, futuras escavações ou prospecções, em Marte, se encontrarem alguma coisa “interessante”, não será apenas água, ou extintas formas primárias de vida microbiana. Encontrarão é construções de cimento, ou material equivalente, soterradas. Vestígios de extinta civilização, ou — mais dificilmente —, provas de uma atual e diminuta “civilização subterrânea”, inteligente e talvez pacífica porque avançada demais.

                 Acredito que quanto mais avançada for qualquer civilização, mais compreensiva e ética ela se torna, o que explicaria a não-tentativa, até agora, dos eventuais marcianos, de dominar a terra, tirando proveito de seu maior avanço tecnológico. Se eles foram capazes de construir discos voadores, isso será prova de sua superioridade, demonstrada na aeronáutica.

                Não me venham com o argumento de que nem sempre o avanço tecnológico ou científico tende para bem porque a ciência nazista era extremamente cruel. Na verdade a “ciência nazista” não passava de asneira demagógica buscando prestigiar o regime com uma fantasiosa aura científica.

               Aguardemos as prospecções em Marte.

               (28/11/2018) 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Mars is today what Earth will be tomorrow.

Foto divulgação

(English-speaking readers, please note: this article was written, in Portuguese, in November 2018, but not widely published. When it was written, the media only discussed the possibility of some form of life on Mars. Basically, whether or not there was water on the planet. Hence my focus on the existence of water and the possibility – in my opinion, almost a certainty - that there was a more advanced civilization than ours, when the Earth just “roasted”, uninhabitable, the Sun being much hotter than it is at present. As solar heating diminished, the Earth became habitable, giving rise to the evolution of a plethora of life forms; Mars, on the other hand, farther away from the heat source, became too cold, possibly requiring the existence of underground life, if permitted by its degree of technological development. When the text below was written, there was no coronavirus pandemic, with no new facts allowing for deductions or intuitions regarding possible “Martian” intent or necessity to occupy another planet - our Earth - much more comfortable than Mars. I am therefore preparing an article that will supplement the previous one, to be published in a few days). (02/11/2020)

Summarizing the present article: Mars seems to be, from all indications, the tomb of an advanced civilization, buried in the dust of millions of centuries.

It’s logical nonsense — with all due respect — this little concern for the existence of salty or fresh water on or below the surface of Mars; with the existence of traces of microscopic organisms, viruses and bacteria; with methane replacing oxygen; with the existence of water in liquid state and with or without the possibility of harboring Earthlings in the future.

With so many unoccupied lands on our planet, the current speculations about migrations of human beings, to live on Mars is a mere childish science fiction. Such concerns will perhaps make sense in a thousand years from now. What we need now is to take care of our planet in terms of deforestation, ozone depletion and pollution, rational sharing of fresh water, and an intelligent and non-aggressive restraint in the disorderly growth of the population, generating poverty and mass migrations, with sufferings of all kinds, both leaving and arrival of immigrants, fugitives, to other countries.

Eventually if the Red Planet — as I have already said — managed to survive in the hostile, cold and oxygen-free environment with advanced technology, this occurred by means of tremendously reducing its population, living beneath the ground, which would explain the existence of flying saucers — provided their existence is proven. Personally, I think they do, in spite of not having seen any. And if they exist — progressing in the deduction — it would be quite logical, normal, that they were watching us as future habitats, a real wonder compared to the cold and hostile planet Mars.

I have never been very interested in flying saucers, but when I read something relating to this issue, I am impressed by the constant questioning of those who affirm their existence: — Why does UFO’s crew only spy on us, avoiding contact? What is their interest? Do they plan something bad?

I shall leave the item flying saucers since the focus of this text is to suggest — with apologies for the repetitions — that Mars, when less cold, with a climate similar to our current one, had enough time for the growth of a civilization which has either completely extinguished — leaving its ruins covered by tons of dust — or managed with great effort to survive with a small population  living underground, warmed by dangerous nuclear technology and, perhaps, with high hopes to colonize its nearest planet, in this case Earth.

Obviously, I prefer my hypothesis to be wrong since we already have too much confusion on our planet, led by dumb rulers or very smart leaders, of all calibers, who cannot — despite the presence of the UN — prevent half-witted people, shielded by unlimited "sovereignty", from doing what they feel on a whim.

The present considerations came to my mind with the news that Nasa's space module InSight landed successfully on Mars’ surface on 26/11/2018, attempting to study the interior of the planet.

I venture, without fear of ridicule, to believe that Mars today corresponds to Earth in the distant future falling prey to environmental insanities and a possible nuclear war, triggered by mere accident. The nuclear strategy of immediate response "- to counter-attack before verifying that the first attack was not accidental - on a planet, in this case ours, increasingly filled with nuclear weapons, is an invite to chaos.

The above and below considerations in this text are based on the assumptions, which may only be correct, that the  Sun — in our solar system — was, in its "beginning", much more voluminous and hot. Since the fuel of this gigantic fireball has been progressively depleted without replacement, there has been a long period in the past, when Earth was too hot, therefore uninhabitable, but Mars — farther from the Sun — had a pleasant temperature like the Earth, today.

Astronomers claim that every second more than 4 million tons of solar matter is converted into energy. This means a constant cooling of the "oven". One day, the Sun will be extinguished — unanimous statement of Astronomy — by exhaustion, after a sudden growth which will burn our planet. It may well be the "swan song” of our star.

Again, the sun at its commencement was warmer than it is now. So hot that our planet could not host life. Meanwhile Mars at that time could thrive in growing civilization by being farther away from the sun. After this long phase, with the sun gradually cooling down, Earth became livable and Mars, farther away from the sun, became too cold, being able perhaps and rather hardly, to harbor an underground life of intelligent beings with cutting edge technology.

I have no doubt that life sprouts in every celestial body of sufficient size for its long duration, as long as it receives light, adequate heat, and contains water. This happened to Mars, before the Earth, too hot to make life possible. Mars and Earth are like sister planets, but Mars was born first. When the Earth was still inhabited by dinosaurs, or not even that, Mars was perhaps a kind of Middle Age.

Since all living beings — without no exception — are born with two tendencies which have always impressed me by the consistency — the instinct for self-preservation and propagation — that is, food and sex — the Martian "bugs" also slowly evolved from bacteria to intelligent, human-like beings. From mutation to mutation — by genetic accident and also by pressure from the hostile environment — Martians invented writing, discovered mathematics and achieved a deep knowledge of matter.

It seems to me to be logical to conclude that on Mars there has also been an Albert Einstein, or theorist of the same level. Thinking, thinking and thinking, the "Martian Einstein", equally mystified, digging into his speculations, ended up bumping into the mystery of the almost invisible particles of matter, only visible with an electron microscope. Meanwhile, on Earth, we did not even know that our thinking organ was the brain, neither the heart, nor the liver.

Since Martians are an intelligent species, such as man, the two primordial impulses, referred to above — self-preservation and propagation of the species — with the constant stimulus of a struggle for supremacy, Martian "governments" must have clashed into a conflict that ended up destroying vegetation and the environment. Let us remember that our oxygen originates from plants. Without these, only elementary and rare life could exist.

Finalizing, future excavations or prospections on Mars, if anything "interesting” is found, will not be just water, or extinct organic matters of microbial life. They will find it cement construction, or equivalent material, buried.  Remains of an extinct civilization, or — even more difficult — evidence of a living and tiny "underground civilization", intelligent and maybe peaceful as a result of being too advanced.

I believe that the more advanced any civilization is, the more understanding and ethical it becomes, which would explain any attempt of  Martians to dominate  Earth, taking advantage of its great technological advance. If they were able to build flying saucers, this would be proof of their superiority, proven by aeronautics.

Do not come to me with the argument that not always technological or scientific advance tends towards the good because the Nazi science was extremely cruel. In fact, "Nazi science" was nothing more than a demagogic blunder seeking to support the regime with a fanciful scientific aura.

Let's wait for prospecting on Mars.

(November, 2018)

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

A burocracia pode matar mais rápido que a doença.

Machado de Assis — para mim um tremendo filósofo informal, além de literato — já disse que “Em matéria de língua, quem quer tudo muito explicado, arrisca-se a não explicar nada”. Disse ainda que “Se quiser aconselhar, aconselhe, mas seja breve”. 

Seguindo o conselho de Machado, tentei ser o mais breve possível, mesmo porque não sou médico. Mas como convencer sem explicar direitinho? Tudo em excesso é prejudicial, até o pouco. 

As sugestões abaixo são apenas “ideias” que, após as discussões econômicas e jurídicas, poderão ser transformadas em lei. Rebater as possíveis críticas ao aqui proposto, sob todos os ângulos, afastaria os leitores. Deixaria de ajudar os candidatos a prefeitos e vereadores, em todo o Brasil, interessados em iniciativas que salvarão vidas, hoje perdidas por causa de burocracias pouco inteligentes. As sugestões interessam aos políticos e, mais ainda, à comunidade. 

As propostas não têm ordem de prioridade. Cabe a cada candidato avaliar a que lhe pareça mais útil.  São elas: 

1ª Sugestão. 

Obrigar os postos de saúde, e autorizar, as farmácias, querendo, a medir a pressão arterial de qualquer adulto que solicite esse serviço, mesmo sem pedido médico. A medição será feita por um profissional de farmácia, ou funcionário do estabelecimento comprovadamente apto para esse trabalho. A remuneração da farmácia para cada verificação será módica, com um teto anual fixado em percentual do salário mínimo. Sugiro não mais de dez reais, no momento, quando o serviço for prestado em farmácia. Se a medição for feita no posto de saúde, obviamente será de graça, ou também módica. 

Motivação da proposta: poucos meses atrás, no começo da pandemia do coronavírus, fui a um Posto de Saúde, na cidade de São Paulo, para medir a pressão arterial. Como a tenho normalmente baixa, tendência de família, e gosto de sal, achei prudente saber como ela estava. Se estivesse normal, eu não precisaria ir a um médico, do meu plano de saúde, com risco de contágio pelo vírus. 

Para minha surpresa, a farmacêutica, ou médica, do posto — não me lembro do detalhe —, disse-me, educadamente, que para medir a pressão eu precisaria apresentar um pedido médico, sem o qual ela não poderia fazer a medição. Espantei-me com a exigência porque é comum ver-se, em farmácia, u’a máquina em que a pessoa pode, inserindo uma moeda no aparelho, medir a pressão. Se uma simples máquina pode fazer isso, por que a obrigatoriedade de procurar um médico? Com o SUS já sobrecarregado, por que esperar meses, para ser atendido em algo tão simples? 

2ª Sugestão 

Verificar o nível de glicose no posto de saúde, ou na farmácia. 

A burocracia municipal, porém, não se limitou a isso. Quando solicitei à mesma enfermeira, ou médica, que tirasse uma gota de sangue do meu dedo, para verificar a glicose, ela, sempre educada, me disse que isso também não seria possível, porque também nesse caso era necessário pedido médico. Ela me perguntou se eu era diabético. Disse que não, porque a cada dois ou três meses eu pedia a uma pessoa amiga, diabética, que examinasse minha glicose, usando o aparelhinho dela, e nunca passei de 108 mg/dl, mas essa amiga estava agora fora do Brasil. Por isso tinha ido ao posto.

 Essa burocracia municipal, ou estadual, ou federal parece pensar que nosso país é riquíssimo, todos com um excelente médico a seu dispor, quando o que existe é o contrário, com pessoas deitadas no corredor do hospital, por falta de leitos e de médicos. Em linguagem franca, a burocracia está, embora involuntariamente, matando, cegando e amputando pernas, por falta de realismo, de senso de proporção e excesso de zelo profissional dos médicos, confundindo o país como uma Suíça do futuro. 

Por que matando ou aleijando? Porque o homem pobre que está com pressão muito alta, pode imaginar que apenas anda “meio indisposto” porque dorme ou se alimenta mal. Na verdade está é, apressando sua morte com um ataque cardíaco. Procurar um médico depois de ver negado seu pedido no posto de saúde? Nem pensar. E se estiver altamente diabético, pode nem saber qual é sua real situação porque sua doença é silenciosa. Até que um dia acorda cego ou é o brigado a cortar uma perna. Ou duas, como relato a seguir. 

Lembro-me da conversa que tive, anos atrás, com um senhor cego e sem as pernas, quando eu estava na Flórida, em viagem de turismo. Enquanto minha mulher visitava uma igreja eu a aguardava, na calçada, próximo da porta de entrada. Ao meu lado estava um cadeirante não muito idoso. Ele tinha no peito uma placa mencionando que era cego e pedia esmola. Dei a ele uma cédula, ele agradeceu e mantivemos uma breve troca de palavras. 

Como as duas pernas tinham sido amputadas na altura dos joelhos, simetricamente, atrevi-me a lhe perguntar se perdera as pernas em um acidente de trem. Ele me explicou que não. Estava sem as pernas por causa do diabetes. Não sabia que tinha essa doença, até que um dia acordou cego e pouco depois teve que amputar os membros por causa da gangrena. 

No Brasil, com tanta pobreza, haveria menos casos de cegueira, ou de amputação de dedos, pés, ou pernas, se o cidadão pudesse verificar sua glicose de graça, em posto de saúde, ou pagando menos de dez reais em uma farmácia. Constatado o diabetes, seria encaminhado a um médico, ou orientado para isso, sob pena de ficar fora do SUS, ou repreensão equivalente. Há um velho ditado: “o ótimo é inimigo do bom”, conselho que deve estar sempre presente no legislador.   

3ª Sugestão 

Testes médicos — visão e audição — obrigatórios ao entrar nas escolas públicas municipais. 

Resumo: toda criança, ou adolescente, admitida a uma escola pública deveria ter sua visão e audição examinadas. Se o aluno não ouve bem, apesar de dizer, ofendido — “eu não sou surdo!”—, ou não consegue ler textos com letras pequenas, com ambos os olhos — um de cada vez —, deveria, na escola, por lei, ser examinado por a um especialista para se ver o que é possível se fazer para que se interesse pelo que diz o professor. 

Ou, “se não gosta de ler” — talvez por um problema visual — é preciso saber se os dois olhos veem perfeitamente, com ou sem lentes corretivas. Se um olho enxerga bem e o outro não, isso trará aversão à leitura, que deveria sempre ser agradável, visualmente. 

A maioria dos dicionários, impressos com letras quase microscópica, desestimula sua leitura, que seria muito útil  porque, se lidos com frequência, habituam o consulente, ou leitor prazeiroso, a pensar e se expressar com concisão, tal a objetividade das definições, um bom remédio contra o “analfabetismo funcional”. Os dois olhos devem trabalhar com igualdade de forças, principalmente nas leituras mais extensas. 

 Posso lhes garantir que há muitos “maus alunos” que poderiam se transformar em “bons alunos” se ouvissem e lessem perfeitamente. Como não podem ficar, o tempo todo, pedindo ao professor para repetir o que disseram — seriam vaiados —,  sentam-se no fundo da classe, pensando em tudo, menos no que diz o professor. 

Outras vezes os maus alunos precisam apenas de óculos, com os graus certos para cada olho. Se os pais não têm dinheiro para a comprá-los a escola faria isso, pensando do futuro do menino ou rapazola. Se o glaucoma, por exemplo, já lesou o nervo ótico do olho deficiente, o aluno, ou responsável será orientado para um treinamento que lhe permitirá ler textos, usando as técnicas que  os oculistas já ensinam quando o cliente perdeu um olho em acidente. 

Ficam por aqui minhas sugestões na esfera municipal. Com perdão pela extensão inevitável, exigível para eventual convencimento. Daqui a uns dias, farei novas sugestões, se alguém gostou destas. 

(21/10/2020)

sábado, 10 de outubro de 2020

Celso de Mello está claramente enganado no seu último voto

Foto divulgação

O decano, homem inteligente, de invulgar memória mas excessivamente politizado na sua função judicante, insistiu, no seu voto de despedida, que o presidente Jair Bolsonaro é obrigado a prestar um depoimento presencial, físico ou virtual, no inquérito — inquérito, vejam bem, não ação penal —, que investiga a suspeita — mera desconfiança de Sérgio Moro — de que Bolsonaro pretendia influir na Polícia Federal, protegendo seus filhos em investigações. Moro não chegou a dizer que Bolsonaro interveio na investigação, disse apenas que provavelmente tinha essa intenção. 

O ilustre Ministro Celso de Mello, no seu voto, insistiu na ideia de que “todos são iguais perante a lei”. Lei que, no caso, seria o CPP, Código de Processo Penal, que no seu capítulo VI, contém vários artigos, a partir do 202 até o art.225, orientando o juiz — juiz, frise-se — como proceder a respeito de depoimentos de vítimas e testemunhas. 

O art.221 diz que “O Presidente e o Vice-Presidente da República, os senadores”... (segue-se longa lista de autoridades) “serão inquiridos em local, dia e hora previamente ajustados entre eles e o juiz”.    (Redação dada pela Lei nº 3.653, de 4.11.1959).  

E no seu parágrafo 1º está expresso que “ O Presidente e o Vice-Presidente da República, os presidentes do Senado Federal, da Câmara dos Deputados e do Supremo Tribunal Federal poderão optar pela prestação de depoimento por escrito, caso em que as perguntas, formuladas pelas partes e deferidas pelo juiz, lhes serão transmitidas por ofício. (Redação dada pela Lei nº 6416, de 24.05.1977)    

O leitor já deve ter notado que todos os artigos acima citados, usam a palavra juiz para designar quem fará as perguntas ao acusado, ou réu. E na nossa sistemática legal, juiz é a pessoa mencionada nas transcrições acima mencionadas. A figura jurídica do juiz só “existe”, legalmente, depois que um promotor — que não é juiz —, ofereceu a denúncia contra alguma pessoa que já foi investigada em inquérito policial que concluiu haver provas ou indícios da existência de um crime previsto na legislação penal. E Bolsonaro ainda não foi nem investigado, nem indiciado, nem denunciado como autor de Fake News. Esse inquérito estranho, um tanto vago, e sem precedentes, um dia será classificado como uma excrescência jurídica, de triste memória, na sua formação e desenvolvimento. Uma espécie de tribunal de exceção. 

Apenas a título de ilustração do leitor não afeito a temas jurídicos, vejamos o que diz Guilherme Nucci, no seu Dicionário Jurídico:

“INQUÉRITO POLICIAL: trata-se de procedimento administrativo preparatório da ação penal, conduzido pela autoridade policial, de natureza inquisitiva, regido pelo sigilo, voltado à formação do convencimento do Ministério Público para que possa propor demanda policial”. Como diz, deve ser conduzido pela polícia, não pelo STF.

Não sendo Bolsonaro réu em processo judicial relacionado com Fake News, descabe a fundamentação do ilustre decano. Ele cita artigos só aplicáveis quando o procedimento já está em juízo, quando houve inquérito, denúncia e esta foi recebida por um juiz de direito. 

Se Alexandre de Morais sente-se à vontade, juridicamente, para continuar com sua incumbência de atacar e desmoralizar um presidente — agindo simultaneamente como vítima, investigador, delegado, promotor denunciante e juiz recebedor de denúncia — cabe-lhe prosseguir colhendo provas, onde ela existirem, sem a necessidade de obrigar um “mero” investigado, presidente da república, a ser interrogado com possível arrogância de um delegado que talvez o detesta e só fará perguntas maldosas,  relacionadas com eventuais maus procedimentos de filho ou amigos de longa data. 

O leitor talvez não saiba que em um “interrogatório” policial, ou judicial, só quem interroga tem o direito de escolher os tópicos do “diálogo” unilateral. O interrogado não pode criticar a eventual má intenção oculta das perguntas, e muito menos criticar o possível jeitão agressivo, arrogante, da autoridade. Se fizer isso, leva um pito, com um “cala a boca”! E pito em presidente da república dá um cartaz tremendo. Mesmo quando maneiroso, um delegado ou juiz pode, por fingida “livre associação momentânea de ideias”, insistir em lembrar malfeitos de parentes ou amigos do interrogado. E se o interrogado tiver pavio curto, tornando-se agressivo, isso trará prejuízo de sua imagem pública. 

Alguém dirá que Bolsonaro pode apenas silenciar, alegando que ninguém pode ser obrigado a se auto acusar. Se ele fizer isso, na frente da televisão, seus inimigos, e pessoas ignorantes dirão que “quem cala consente, se fosse honesto não teria o que esconder”. 

Para não cansar os leitores — deve haver mais de um — concluo que essa exigência de depoimento do Bolsonaro presencial visa apenas prejudicá-lo politicamente. 

Apoio Bolsonaro, pelo conjunto da obra, pela sua coragem, por ser inimigo da corrupção e por ter sido legitimamente eleito pela população. Não sou cego para suas falhas e penso que algumas das suas más decisões são fruto do seu isolamento político e da falta de leituras de alto nível. Os ataques coordenados contra ele não visam apenas tirá-lo do poder. Querem caçar a “chapa” inteira, presidente e vice, porque querem logo o poder. Para tais inimigos, é uma imensa alegria cada vez que ele, atacado, reagem conforme seu temperamento. E quando ele, contrariado, reage de modo pacífico, é atacado por ter sido brando demais, “ele no fundo é mole e só tem objetivos eleitorais”. 

Por acaso, os ataques contra ele não têm intenções eleitorais? 

(10/10/2020)

sábado, 26 de setembro de 2020

Gunshot extraction of lower jaw

   


Francisco C. P. Rodrigues 

(This short story is merely a description of a robbery that actually occurred in Brazil, if I remember rightly in Rio de Janeiro, a few years ago. The person who told me what happened was a friend of the victim of the robbery. I read nothing about it; I only heard an account of it, coming from a person who had no interest in lying and never imagined that the occurrence would be transformed into a story, many years later. Let’s say that it is “a tale based on real life”. It is violent but, in this case, not due to a decision made by the author. The real world is violent.)

         Just before seven in the morning, Benvinda arrives at the residence where she has worked for several years. Her steps show an unusual vivacity.

        A forty-year-old, dark-skinned housemaid, she is smart and level-headed, despite little schooling. She has an eighteen-year-old daughter, who is just as level-headed as she is and who works in a bank, studying at night.

        Walking to work, today Benvinda experiences a euphoria that she has not felt for years. She is in love... And also surprised. How could that handsome, virile “hunk”, with a Spanish accent, have a “fixation” on her, a woman older than he is?

        — Does it have to do with love? — she asks herself. — Why not?! — On one occasion, she heard her employer, exhibiting a magazine, with photos, comment to her husband, a court judge, that a certain Arabian sheik, passing through Brazil, fell in love with a chambermaid at the hotel where he was staying, taking her to marry him in the Middle East.

        For sure — Benvinda reminds herself — the powerful Arab had several wives in his homeland. But this was another matter, a question of country, of legal differences that should be respected. As far as she knew, in his land, the big boss could have as many wives as he could support. What interested her was the fact that, in a “flash” — “the craziness of love!” — the hotel chambermaid had become the third or fourth — she couldn’t remember exactly —  rich “madam” of a wealthy, important man. With a right to luxury, servants, limousine, chauffeur, etc. And the photo of this lucky chambermaid, in her opinion, did not show any unusual beauty. It was an ordinary face, more or less like her own, only younger. Comparing the two males, Benvinda smiled, feeling superior. In the photo, the sheik was fat, rather old and ugly, whereas the object of her affections was a handsome “hunk”, capable of seducing any rich “lady of leisure” with the utmost ease. In addition, he is not likely to be short of cash, bearing in mind the elegant shirts that he wore.

        Speaking of a lady of leisure, Benvinda nurtures an intense contempt for young women who, dressed in miniskirts, over ventilate their “private parts”... By the way, she likes this expression, considering it to be very “chic” and uses it frequently... She believes it to be elegant, making it unnecessary for her to mention ugly words. And she was even more shocked with the first “dental floss” swimwear, which would certainly be uncomfortable and itchy “down there”, in the aforementioned “private parts”. She would never wear such “indecencies”. And her daughter, miraculously — because the second generation almost always reacts against the first — agreed with her.

        One day, when washing one of these items of swimwear — or cord? —, owned by one of her employer’s nieces, she was greatly impressed by the diminutive size of the item. On the occasion in question, it was impossible not to indulge in some wry speculation, of an odoriferous nature, related to that cord that permitted display of the bu…., or should I say “private parts”, so shamelessly. But what was more baffling for her was the fact that the wearer of that swimsuit seemed to be a sensible level-headed girl. If she was level-headed, why did she not wear a complete swimsuit? How could fashion have so much power? And why did the government no take any appropriate action?

        Júlio — the name of the “hunk” — had been courting her for almost a week; however, to date, he had not made any more amorous advances, one of those “petting” sessions, so normal at all times. And this worried her a little. It seemed that his approach was to solely converse, show concern for her, a tenderness more appropriate for an older man, making it impossible for something more primitive, concrete and carnal. At most, he took her hand, but only for a short time. And she thought: respect is good, of course, but in excess, it’s disturbing.

        Benvinda is not a shameless woman. Only in need of affection. She suffers a little with prolonged abstinence, but she would never give herself to a man on the first or second encounter. However, let’s say after the third or fourth, there would be no reason to maintain so much formality, that exaggerated respect, which is no longer adhered to by other young people. That would be too much! “After all, I’m not the Queen of England!”

        She even thought, for a moment, that there was something amiss in such shyness: — “Damn it! Could he be gay? I had not thought of that! No, it’s not possible! That virile manner, hairy forearm, chest with hair coming out of the opening of his shirt, thick beard, man’s voice. No. Gay? No way!”

        Benvinda had known, in the biblical sense, very few men; a maximum of eight. She was terribly deceived when, very young and pregnant with her daughter, she discovered that her boyfriend was married and lived with his wife. The shock was too much for her. She hoped to get married, or to at least live together in a decent manner; however, instead, she was left with loneliness and a growing belly. She even thought of killing herself. Or of having an abortion. But she was supported by her employer at the time, a kind, wise, Catholic woman, firm in her convictions, who dissuaded her from committing a sin. She would be killing an innocent being who could come to bring her happiness in her old age. And, in fact, being sensible just like her, her daughter only brought her happiness.

        This relationship left her with a very bitter opinion of the character of men in general: “liars and egoistic”. After the birth of her daughter, she only “lost her head” occasionally, when her libido started to bother her like a pressure cooker, almost exploding. When things got to this point, she went to public dance halls — known as “forrós”, “gafieiras” and “pagodes” — where she always managed to find provisory company; equally in need of discharging their libido free of responsibilities.  Although plain rather than pretty, she had a body that was sculpted by involuntary, forced domestic gymnastics — sweeping, washing, making beds — the “gym” of the poor, who are paid to “work out”.

       Unfortunately, she left these libidinous meetings only physically satisfied. Catholic by instinct, without any indoctrination, she could not free herself of a feeling of blame after such encounters. In order to cleanse her soul, she prayed and promised to no longer permit such liberties. 

       She had already changed religion three times, in a search for peace that was never attained. And it was in this way that her life continued until, unexpectedly, the attractive and respectful young man came onto the scene. She got to know him by chance, on leaving the residence where she worked, at the end of an afternoon. He was on the other side of the road, looking for an address that was impossible to find because the number did not exist. On seeing her leave the house, he asked for her help. And so, the chaste and unexpected romance began.

        What left Benvinda “uneasy” was his habit of asking questions. It was impossible to imagine someone more curious: — “Are you happy? Are you sure?” — She thought this part was rather idiotic. — “Are you well paid? Couldn’t your employer pay you more? It has come to my knowledge that, a few days ago, he received several gold bars and thousands of dollars as an inheritance... He needs to be careful and keep these valuables safe; if not, you know what may happen... Has he considered keeping the gold in a bank?”

        Such questions left her worried. She asked Júlio how he came to know of the inheritance, but he explained that he came to know about it by mere coincidence, as he had a friend who was an employee of the Law Court, working in the registry office that was dealing with inventory proceedings involving the judge’s father. On telling his friend that he had a girlfriend in the same street — Benvinda herself —, working at the residence of a judge, the young man inquired as to the name of the judge. Once informed, he mentioned the inheritance. The court employee commented on the fact because, in general, beneficiaries do not mention inheritances in gold and dollars, in order to pay less tax on the inventory.

        The explanation was plausible but, even so, Benvinda continued to be uneasy. But, on the other hand, if Júlio were a bandit, a robber, he would not need to beat around the bush so much. He would only need to draw his revolver and overpower the head of the household at the right moment, when he arrived by car at night or when he left home in the morning.

        She put an end to these reflections when she arrived at the home of her employer, situated in an upper-middle-class district.

        She had hardly put the key in the lock when she felt a hand, coming from behind, firmly secure her left arm, at the same time that the barrel of a revolver pressed into her ribs.

        Behind her, there were two assailants, both with stockings covering their heads. She was pushed forward and, in a matter of seconds, all three were already inside the house.

        The initial scare was followed by a diffuse weakness. Benvinda felt her legs grow weak. She almost lost control of her bladder, a common reaction of hers in moments of great fear. Despite her natural quickness of mind, her head froze, empty, dominated. Her mouth was firmly covered by the same man who  grabbed her from behind and now closed in on her from the front.

        — Not a sound, auntie! — was the firm but whispered warning of the bandit who dominated her. — If I shoot, I will blow your brains out! — And she clearly imagined, “saw”, her bloody brains, in pieces, flying in slow motion through the living room.

        — Where does your employer keep the gold and the dollars? — questioned the robber in her ear. In the meantime, his partner made a quick inspection of the ground floor of the beautiful two-story house.

        — What gold? — murmured Benvinda, becoming surprisingly quick-witted once again.

        The villain through it was amusing. He did not seem to be tense. Calmly, without desire, he pawed her with his left hand, massaging her breast, while he smiled beneath his disguise.

        — Congratulations! I never imagined that you would recover so quickly auntie! But the time for playing games is over. I know that your employer has gold and dollars. Do you want to play Joan of Arc? Look, we’ll rape you and even torture everyone here! — And, on saying this, he pressed the barrel of the revolver hard against Benvinda’s left nostril, hurting her with the gunsight. Her eyes filled with tears, but she did not dare to shout.

        — You don’t need to reply... He must be in the bedroom... Let’s go upstairs very slowly; you in front and me holding a gun to your head. At the bedroom door, you are going to ask your employer whether he wants to have breakfast. Pretend that you are taking it to him on a tray. Did you understand? Or do I need to beat you? If you obey, I’ll let you live. I’ll even let everyone live! I only want the dollars and gold bars. So, don’t try to be a heroine.

        Dominated, she nodded her head in agreement and, without noise or stumbling, she was pushed up the stairs that led to the upper floor.

        The three stopped at the door of the couple’s bedroom, Benvinda in front. She received a prod on the back of her neck with the gun barrel and a sign that it was time to play her role as a waitress. So, she asked in quite a loud voice:

        — Dr. Nelson... do you want breakfast? I’ve brought it on a tray.

        Benvinda, despite being smart, or exactly because of this, was not a good actress. The question came out in a shrill, strange voice, both screechy and irritating.

        Her employer, a little more than forty years of age, a Criminal Court judge and also a professor of criminal law at a private university, awoke to the sound of this harsh, strident voice. Without any difficulty, as it was at this hour that he normally arose. He soon found two things rather odd: first, the change in voice of his housemaid; second, the offer of breakfast in bed, something that never occurred. Why this change in routine now? Even so, he did not immediately think of a robbery and only thanked her:

        — ... Thank you, Benvinda, but I will have breakfast downstairs, as always.

        On hearing this, the “principal” villain, holding the housemaid — the other one had still not opened his mouth — hesitated a little. He didn’t expect this reply, but thinking quickly whispered in Benvinda’s ear: — Again... Offer it again!

        And she insisted: — You must have breakfast! — she shouted, almost wailing, desperate.

        This immediately aroused the judge’s suspicions in a manner he could not ignore. — Something’s up! — he thought, his heart racing.

        He jumped out of bed and, without putting on his slippers, he tip-toed to the door. Crouching as low as possible, he peeped through the gap under the door. Based on the shadows and considering that Benvinda was not an insect, with various legs, he found that there were other people in the corridor. This abundance of legs, together with the desperate appeal for him to have breakfast in bed, could only be yet another chapter of the menacing “true crime stories” that he read on a daily basis in court case files.

        — Just a moment, I’m going to open the door! — the judge shouted, while trying to maintain a normal tone of voice. He immediately drew close to his wife who, already standing, immobile, stared at him with eyes wide open, aware of the situation. In her ear, he whispered: — Lock yourself in the bathroom. Quickly! Without making any noise!

        Following this, he took a few steps in the direction of the fitted wardrobe, where he kept a double-barreled hunting shotgun that was always loaded, despite the risk implicit in this practice. He did this because, as a judge, he had heard innumerous accounts of robbery victims who did not have time to load their weapons when the robbers were already inside their homes.

        The judge took the shotgun and returned to the bed, where he reclined and placed the butt on his shoulder. He cocked the weapon and waited, pointing the barrels at the middle of the door. At this moment, his wife was already locked in the bathroom.

        The excessive delay and suspicious silence convinced the principal robber that the owner of the house was up to something. It was now or never. He pushed the maid aside and kicked the door vigorously three times, making a noise that echoed through the silent house. With the fourth kick, the door suddenly opened.

        At this exact moment, the judge squeezed one of the triggers. Apparently, — based on that subsequently found in the court case files —, for some reason, the robber in front turned his head. This was because his lower jaw had been ripped away, almost entirely, by the joint pressure of the small lead spheres fired, at short range, by the powerful hunting weapon.

        The shot also had the effect of a violent “Heavyweight” blow on a frail “flyweight”, as the robber in front was thrown backwards, taking his companion with him in the confusion, as well as Benvinda, who had not had time to go down the stairs, as she was rather dumbstruck.

        All three went tumbling down the stairs, while the involuntary “hunter of jawbones” rose from the bed and prepared for a possible second shot.

        From the top of the stairs, the owner of the house saw that, down below, neither of the two assailants were holding a firearm at that moment and both were dizzy. A revolver had fallen at the bedroom door, on the upper floor, and another on the top step, both out of reach of the robbers.

        Although lacking his lower jaw, the criminal who seemed to lead the robbery managed to lift himself up, stumbling, confused, eyes staring, with one hand holding on to the lowest part of the banister. With the other hand, he touched the hole where there was formerly a chin. A large amount of blood flowed from this hole. His companion, also injured, but not severely, sought to drag his colleague away in a supportive gesture, holding him by the waist and placing the injured arm on his shoulder. They dragged themselves in the direction of the kitchen, certainly with a view to escaping via the back yard of the house, where there was a wall that was not very high. Their only thought now was to escape.

        With the utmost caution, Benvinda’s employer followed them at a distance, attentive to what was happening, taking care regarding the possible existence of a third robber providing cover for the others. However, he soon convinced himself that they were alone.

        The robbers reached the yard wall, beyond which was an empty plot of land. The individual who was less injured quickly managed to climb the wall and, straddling it with one leg on each side, attempted to lift his companion. But his efforts were in vain. The man without a lower jaw had no strength. He seemed to be giddy. He could hardly remain standing. Loss of blood, together with violent trauma, had weakened him to the extent that he could do no more than decrepitly lift his arms and emit a few groans — an expression of pain or an explanation of the fact that he lacked strength. Subsequently, at the time of the autopsy, the owner of the house found out that the lead shot had dilacerated his tongue.

        The robber who was on top of the wall explained, shouting, to his companion — as understood by the judge — that he needed to escape, leaving him there, but that he should keep calm because he would soon return, well-armed, to take him.

        The other, however, seemed not to accept this solution. He wanted his companion to take him right away. Although weak, he protested, wheezing and coughing. Until, exasperated, the man on top of the wall fixed his gaze on the owner of the house. He raised his fist in hatred and yelled: — I’ll be back to kill you!

        This robber had hardly lifted his leg, preparing to jump down from the wall, when the owner of the house fired a second shot, which hit the criminal full-on. As the distance was now greater, the lead shot was able to spread to a greater extent, also hitting his companion who, stumbling, took a few steps from the wall and fell face-down into a small swimming pool. The other robber fell dead on the other side of the wall.

        When the police arrived, half an hour later, Benvinda was already being medicated — noting serious — and told her employer about the fleeting and extremely chaste “affair” that she had with that young man, who asked so many questions and was dead on the other side of the wall. Pulling the stocking from the face of this robber, she recognized Júlio, the chaste boyfriend. At the beginning of the robbery, he did not utter a single word in order to avoid being identified. During the police inquiry, it was found that the two robbers were brothers, born in Paraguay, and with criminal records both here and there.

        With regard to the judge, this traumatic event for particularly bitter for him. To date, as far as mammals are concerned, he had only killed a capybara in the state of Mato Grosso. Afterwards, he had felt a certain malaise, observing the dilacerated state of the animal.

        Going against his principles — he was a law-abiding man —, but due to his understandable defensive instinct, he found himself obliged to change the facts a little when he reported them to the Police Chief who arrived at the scene. He said that the robber, on the wall, mentioned drawing a firearm to shoot him.

        That second shot made with the shotgun — he knew, it was written in all treatises on Criminal Law — could not be considered to be legitimate defense, as the danger had passed. The robber’s threat was only hypothetical. However, as a citizen, he asked himself, seeking to clear his conscience: — “And if the robber came back in order to fulfill his promise? Was I not duty-bound to protect my home, wife and children?

        A few days later, he asked to be re-allocated to a Civil Court. He felt traumatized, without the level headedness necessary for judging violent criminals.

        He continued lecturing on Criminal Law, but his students complained that, although he was a demanding teacher, paying attention to details, he became evasive and brief when he explained the formal requirements for legitimate defense. Most notably the item “actual or imminent aggression”. He did not seem to feel at ease explaining this aspect, and quickly went on to another topic.

        One month later, they moved to an apartment, where they have not been robbed to date.

        With regard to Benvinda, she spent several months in a state of sadness, disappointed with herself. Every time that she looked in a mirror, it seemed that a stupid ass was staring back at her. 

END 

(Francisco Cesar Pinheiro Rodrigues is a Brazilian writer, retired judge, who resides in São Paulo, Brazil, owner of the website www.500toques.com and the blog francepiro.blogspot.com. Contact by email: oripec@terra.com) 

Translated by: John Upson

john@wetranslate.com.br

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Benedito Moraes, um impressionante e modesto desenhista

                                            

A modéstia não pode ser considerada uma virtude, pois assemelha-se mais a um sofrimento do que a uma qualidade”. Aristóteles. 

Desenhar é a integridade da arte. Não há possibilidade de trapacear. Ou é bom ou é ruim”. Salvador Dalí. 

Este artigo visa dois objetivos: proclamar o valor de um invulgar artista do desenho, residente na cidade de Tietê-SP, e também moderar, nele, a simpática virtude da modéstia, porque todo talento especial que se esconde — mesmo com a mais santa das intenções —, significa um desperdício da natureza no mecanismo evolutivo, que ocorre com saltos, por mero acaso. 

O talento, qualquer talento, é como o raio, pode cair em qualquer parte: numa árvore ou numa santa mulher rezando de joelhos em uma praia deserta. O pai de Leonardo Da Vinci era tabelião. Provavelmente, para desenhar o círculo precisava de um copo. No entanto, seu filho..., bem, todos sabem quem foi, talvez, o maior pintor de todos os tempos, além de cientista e inventor. 

Dando outro exemplo: 

Se Thomas A. Edison, que inventou a lâmpada elétrica, caso se se limitasse a fazer, por diletantismo, um aparelho que iluminasse apenas sua casa, sem usá-la para iluminar cidades — para não prejudicar o comércio do óleo de baleia, causando prejuízos e desemprego — seria correta essa omissão? Não. Até as baleias, impiedosamente caçadas com arpões, implorariam a Edison que difundisse sua invenção, diminuindo o massacre. O arpão geralmente, acerta no pulmão, não no coração, prolongando a agonia.

                                              

No caso do Benedito Moraes — seu nome completo é Benedito Moraes Leite, mas não é afrodescendente —, seu “desperdício” consiste em desenhar, gratuitamente, por mero prazer, os rostos de parentes e amigos, provocando exclamações de surpresa e alegria, tal a exatidão do seu lápis. Antes disso, Moraes já pintava quadros, paisagens, flores, qualquer coisa. Certa vez, uns vinte anos atrás, estando eu em sua casa, em Tietê — salvo engano durante um churrasco —, vi uma sua pintura que me impressionou pelo realismo e beleza. Perguntei se ele tinha outros quadros e ele me mostrou vários, todos bonitos. Só então fiquei sabendo que o Moraes, dono de uma ótica, tinha também “veleidades artísticas”. Nossos papos eram geralmente mais uma troca de anedotas — limpas — e com elas abastecíamos nossos respectivos repertórios de humor.

Como ele não praticava a chamada arte moderna, e não se empenhava comercialmente para promoção dos seus quadros, sempre no estilo clássico, realista, não fiquei ruminando minha estranheza em ver tanto talento guardado como simples hobby. Mesmo porque já vi — e o leitor também já deve ter visto — quadros de paisagens, pintados por ilustres desconhecidos, que despertavam admiração pelo simples fato de que eu, ou o leitor, nunca teríamos a capacidade de fazer algo semelhante.

                                              

Passados vários anos, em outra visita casual a Tietê — onde moram parentes de minha mulher —, um deles me mostrou alguns desenhos do Moraes, retratando, com lápis, pessoas que conheço, gente famosa, cães, qualquer coisa viva. Fiquei, de novo, espantado com a perfeição. Pensei: — “Como pode!? É mais perfeito que uma foto! Deve haver algum truque nisso”! 

Como teste, enviei-lhe um pequeno retrato, 3x4, de minha cara, e em dois ou três dias vi que tinha sido “fotografado”, tal como sou, pelo lápis do Moraes. Pensei: “Será o Benedito”!?  Nem mostro esse desenho porque, vendo-o tal como sou, octogenário, acabado, pessoas que leem meus textos deixarão de me ler: — “Se eu gostasse de olhar múmias eu passaria minhas férias no Egito”. 

Após investigar, com a ajuda do Google, a possibilidade do computador fazer maravilhas — como se fosse um retratista de carne e osso —, cheguei à conclusão, segura, de que os desenhos do Moraes são mesmo autênticos, feitos à mão. Talento puro e simples, complementado com um curso que o Moraes disse ser “do Neves” que ele considerava um dos maiores desenhistas do Brasil, juntamente com Carlos Laveso. Não sei se ambos estão vivos. 

Não entro em detalhes técnicos para a conclusão de que Moraes desenha com a mão — não com computadores —, que só prejudicariam esse texto, pela extensão. Ele desenha, informou-me, em papel Canson MI-TIENTES e usa grafites importadas, detalhes que, salvo engano — não sou perito no assunto — indicam que não usa qualquer truque de computador. 

 É claro que devem existir grandes desenhistas realistas, igualmente extraordinários — vi alguns desenhos na internet — mas presumo que não sejam muitos os que conseguem desenhar um rosto exatamente como está na foto, como o Moraes. Digo assim porque algumas pessoal, retratadas, fazem questão de aparecerem, no desenho, exatamente como são na vida real. Não “melhoradas”, ou rejuvenescidas. Embora o desenho seja lindo, quem está no papel é outra pessoa, não a da foto.

   

A cópia “apenas” perfeita, com lápis, não é uma deficiência de imaginação do artista. É uma virtude técnica, deliberada, quando o retratado deixou expresso que deseja ser visto “tal como sou!”, não apenas “parecido”. Se bem que o Moraes, querendo — consultando quem pediu o próprio retrato — possa fazer ligeiras “melhorias” quando uma mulher não acha ruim aparecer com menos rugas. Direito dela, afinal o rosto lhe pertence. Tinha orgulho da própria beleza. Prefere ter seu desenho como ela era antes, nos melhores anos de sua vida. Já vi, na internet, alguns desenhos belíssimos, de outros desenhistas, mas não sei se correspondem ao que está na foto enviada pelo interessado. 

Perguntei ao Moraes como é que ele justifica ter começado como pintor e só depois se tornado mais desenhista que pintor, vez que a pintura tem muito mais prestígio que o desenho. Aí ele me explicou que quando pintava quadros, sempre em estilo clássico, ele antes fazia um desenho, com lápis, ou carvão — porque é mais fácil de apagar. Desenhava antes de pintar para manter o senso de proporção nas coisas a serem pintadas. 

Essa falta de senso de proporção na “pintura rápida” da arte moderna — fruto do comodismo, ou da inata incapacidade do pintor para o desenho —, foi “aproveitada” pela arte moderna, usando um palavreado filosófico como substitutivo do desenho difícil, quando a “dura mão não colabora”. Na arte moderna as deformidades fáceis que nela aparecem — museu de horrores sem qualquer beleza — seriam “propositais”, porque o valor da arte — segundo os modernistas — residiria somente na “emoção” do pintor enquanto pinta, não na emoção de quem olha. Uma inversão do objeto da arte, na história da humanidade, porque sua função primeira é provocar um sentimento agradável de beleza. Ou, se o quadro retrata uma cena de horror, um sentimento de espanto pela capacidade técnica do pintor, de conciliar o horror com o domínio de sua arte. Técnica, exatidão e beleza, ou choque emotivo não podem faltar em uma Arte que mereça esse nome. O resto pertence à outras áreas, como, por exemplo, a propaganda e marketing. A literatura, igualmente, consegue conciliar a descrição do horror real com a “força literária” de um estilo preciso e impressionante.    

 Em suma, ainda sobre a arte moderna, se o artista estava, eventualmente, embriagado ao pintar — com mão trêmula, misturando errado cores e fragmentos de objetos  —, se ele for famoso ou cara de pau, pode alegar que seu fraco “trabalho” tem um “significado “profundo”, só “captado” pelos realmente entendidos de arte. E se o jornal disser que seus quadros estão no Louvre, e valem milhões, ninguém tem coragem de, em público, dizer que tudo aquilo é ridículo. 

Não sei o que Benedito Moraes pensa sobre a arte moderna. Nunca conversamos a respeito. As opiniões críticas acima esboçadas são apenas minhas. 

O termo Arte, pela sua abrangência, dificulta muito a discussão de seu conteúdo. A Arte está em toda parte. No desenho, na pintura, na escultura, na música, na dança, na literatura, no cinema. Até nas artes marciais já a vi mencionada. Ou na guerra. Victor Hugo dizia que “A música está em tudo. Do mundo sai um hino”. No cinema é mais difícil enganar o público. Se o filme, exibido na televisão, não presta, o espectador não tem paciência de ficar mais de quinze minutos olhando o besteirol, a menos que aguente somente porque está muito interessado em saber o final do enredo. Esse truque — a curiosidade em saber como o roteirista tentou salvar a mixórdia — já me fez perder muito tempo, porque é difícil mudar de canal sem saber como termina o filme. 

Depois da invenção da fotografia — tão prática, tão rápida — a pintura realista foi se tornando “desnecessária”. Dá muito trabalho, consome um tempo enorme. Consta que Leonardo Da Vinci levou cinco anos pintando a Mona Lisa. Pintava um pouco de cada vez. Picasso disse que poderia encher de quadros vários museus de arte, em dois ou três meses, insistindo que podia pintar até de olhos fechados, apenas sentindo. E um malandro desses, pasmem, chegou a ter o mesmo “cartaz” que o Leonardo. 

Para encerrar, considerando, porém, que o impulso artístico faz parte da natureza humana, é útil, benéfico, que milhares de pessoas, em todo o planeta — aquelas mais sensíveis —, disponham de uma atividade que alivie sua tensão, nem sempre explicável racionalmente, usando, pacificamente, as mãos — ou pés, quando não têm mãos — ou boca, segurando um pincel — pintando, desenhando, ou tocando um instrumento. É uma forma de terapia, seja bom ou feio seu produto final. 

Por isso, não sou contra qualquer “hobby”, com ou sem talento para a coisa. Mas quem tem esse nobre impulso interior e demonstra um especial talento, deve difundi-lo em grande escala, porque todo trabalho bem feito gera admiração e o desejo de fazer igual ou melhor. O desejo de aperfeiçoamento deve ser estimulado em todas as pessoas. 

Com este artigo publico alguns desenhos feitos pelo Benedito Moraes, em dois ou três dias, como amostragem.

Se o leitor, ou eleitora tiver dúvida sobre o talento do Benedito Moraes, querendo uma prova de sua expertise, solicitando um retrato, deixo aqui seu e-mail para eventual contato: 

 opticamoraes@hotmail.com e seu endereço comercial: 

Benedito Moraes Leite - Óptica Moraes

Largo São Benedito, 07 - Centro - Tietê - SP - CEP 18530-000

Telefone 15 - 3282.3034

terça-feira, 1 de setembro de 2020

“Rachadinha” é pretexto para depor Jair Bolsonaro

Complô mesquinho e sem nexo, porque todo ser humano só pode responder, moralmente, pelos próprios atos, não por eventuais atos de filhos ou cônjuge. Ainda mais quando alegadamente praticados anos atrás, bem antes de Bolsonaro ser candidato a presidente. 

A se pensar o contrário, será arriscado a qualquer cidadão, doravante — quando tímido —, disputar uma eleição presidencial porque nem sempre conhecemos completamente a biografia de nossos parentes e afins. Se um pretendente à presidência tiver filho, ou pai, tio, avô ou avó — próprio ou do cônjuge — envolvido em algum ato discutível, no passado, seus inimigos não lhe darão trégua quando o entrevistarem depois de eleito. Ficarão felizes com a devassa minuciosa, dos parentes do “alvo”, martelando no assunto, com perguntas ofensivas, buscando o máximo de audiência. Tentarão, pela insistência exasperante, tirar o presidente do sério. 

Razão tinha Rui Barbosa, nosso jurista máximo, ao dizer que “Um homem irritado é um indivíduo que não responde pelos seus atos, com que o inimigo pode contar para suas manobras: é um instrumento nas mãos do seu adversário” (“Migalhas de Rui Barbosa”, citação 684). Digo “razão” porque Bolsonaro estava certo defendendo, com energia, pessoa acusada ausente, sua esposa, em pergunta desrespeitosa de um repórter. 

Lembram-se, os leitores, da fábula do lobo e do cordeiro, de Jean de La Fontaine?  Resumo-a aqui: um cordeiro estava bebendo água, à beira de um riacho quando percebeu que alguns metros mais acima, no terreno inclinado, havia um lobo, também bebendo, que lhe perguntou como é que ele, cordeiro, tinha coragem de sujar a água dele, lobo. O cordeiro respondeu que isso era impossível porque água corre pra baixo e não pra cima. Inconformado, o lobo insistiu: — “Você fica agitando a água e, além disso, falou mal de mim no ano passado. — Impossível, porque no ano passado eu não havia nascido. — Se não foi você, foi seu irmão. — Não tenho irmão. Sou filho único. — Humm..., se não foi você, foi algum seu amigo, ou outro cordeiro, ou o pastor do rebanho, ou algum cão-pastor e por isso preciso me vingar”. Dizendo isso avançou contra o cordeiro, matou-o e o arrastou para a floresta, para comê-lo com a consciência do dever cumprido. 

É isso o que vem acontecendo com Jair Bolsonaro, quando entrevistado por repórteres ou jornalistas enviados por patrões inimigos declarados do presidente. Ocorre que Bolsonaro não é tímido — muito pelo contrário. Tem pavio curto, por tendência natural, e por mais que tenha se esforçado, ultimamente, para se modificar seu temperamento, às vezes não consegue. Por isso respondeu violentamente, sugerindo um soco na boca porque a intenção do repórter era denegrir a imagem de uma mulher, não presente, só para prejudicar o marido dela. O repórter deveria perguntar a um presidente sobre fatos e decisões dele, não sobre fatos eventualmente praticados pelo cônjuge, ainda mais ocorridos vários anos antes da eleição presidencial. 

Na verdade, certas perguntas são feitas já sabendo, o perguntador, que provavelmente não serão respondidas. O repórter provavelmente foi orientado para exasperar, provocar uma reação violenta que possa tirar do sério o entrevistado. — “Maravilha! Conseguimos nosso objetivo! O presidente, irritado, será visto como uma espécie de animal violento que odeia todos os jornalistas”! Generalização enganosa, porque ainda há muitos jornalistas sensatos que sabem como e quando perguntar sobre atos parentes ou cônjuge do entrevistado. Costumo lembrar uma frase de Napoleão Bonaparte, que dizia ter mais medo de três jornais de oposição do que de milhares de baionetas inimigas. 

No incidente do hipotético soco na boca, a pergunta foi: — “Porque sua esposa recebeu R$89 mil de Queiroz”? Note-se que o repórter nem pergunta ao entrevistado se sua esposa recebeu. Dá como pressuposto que recebeu, e com intenção criminosa. 

Uma resposta possível de Bolsonaro poderia ter sido: “Não sei se ela recebeu. Se recebeu, pergunte a ela”. Tal resposta, educada mas, ingênua, seria logo classificada, na mídia inimiga, como própria de um “sangue de barata”. E o repórter, estimulado com seus cinco minutos de fama, continuaria cutucando a ferida, buscando, com novas perguntas — um oportuno “tribunal do júri” —, humilhar publicamente o presidente e sua mulher, mesmo não estando ela presente para se defender. 

Vamos supor, imaginar, que tenha havido esse depósito, talvez perfeitamente legal — mas sem prévio conhecimento de Bolsonaro — e que ele, posteriormente, sabendo disso, tenha repreendido a esposa, explicando que tudo pode ser desvirtuado pelos seus inimigos. Deveria Bolsonaro, na referida entrevista, ficar discutindo conjeturas com o repórter, sabendo que milhões de brasileiros escutariam esse diálogo? Que marido — banana, e burro —, seria ele se ficasse dando corda ao entrevistador, discutindo detalhes e hipóteses que só serviriam para diminuir a reputação da mulher? E se ficasse em silêncio essa recusa seria interpretada pelos jornais como um “quem cala, consente”.         

 O simples fato de a oposição, no Brasil, neste momento, ficar esmiuçando o passado de parentes e esposa de um presidente em exercício é um indício de que o presidente Bolsonaro tem, individualmente, um passado e um presente limpos no que se refere a honestidade pessoal com o dinheiro público. E foi só por isso que ele foi eleito, não pela elegância verbal de seus pronunciamentos. Se é desaforado, não engolindo provocações, perderá muitos votos, claro, na próxima eleição. Cabe, porém, só aos eleitores, não aos jornalistas — ou melhor, aos donos dos jornais —, decidir se preferem um presidente com pavio curto, mas que não rouba, ou outros de fala bonita, mas com honestidade incerta, a ser conhecida só depois de eleito, quando pode ser tarde. 

É revoltante a desonestidade mental da mídia escrita quando tenta convencer o país que o presidente Jair Bolsonaro precisa sofrer um impeachment porque um de seus filhos, Flávio, teria, como deputado estadual no Rio de Janeiro, vários anos atrás — alegadamente entre 2011 e 2016 — provavelmente criado ou participado de um esquema de “rachadinha” no valor total de 89 mil reais. Em cinco anos — 60 meses — isso daria um ganho ilícito mensal de R$1.483,00, “grande prejuízo”, se comparado com os desvios petistas naqueles cinco anos. 

O que é, juridicamente, uma “rachadinha”? Para início de conversa, a legislação penal não a formalizou como “crime”, com a necessária descrição da conduta infratora, o tal “tipo penal”. Nem o Código Penal, nem qualquer lei avulsa, descreve, com precisão, qual seria o crime batizado hoje com o apelido de “rachadinha”. 

 Consideram-na, com razão, como “algo desonesto”, embora provavelmente praticado em grande parte dos legislativos municipais, estaduais e federais. Como temos 26 estados e 5.570 municípios, essa prática talvez tenha sido não rara, pelos motivos que menciono em seguida. 

Nos 12 anos de domínio do PT, provavelmente houve centenas ou milhares de “rachadinhas”, que não serão investigadas porque para os inimigos de Bolsonaro essa investigação seria contraproducente. Eles pensarão: — “Se havia milhares de “rachadinhas”, na era petista, como justificar que apenas Flávio Bolsonaro esteja sendo investigado? Ficará comprovado que estamos apenas de olho no impeachment do pai dele!” 

Se o leitor pesquisar a respeito, na internet jurídica, verificará que há muita discórdia no enquadramento jurídico da “rachadinha”. Para alguns seria peculato. Outros a consideram como corrupção passiva; para outros seria concussão, ou emprego irregular de verbas públicas, ou improbidade administrativa. Transcrever aqui tais discordantes opiniões cansaria o leitor, que pode conferir na internet. 

Há também quem considere a “rachadinha” como não sendo crime algum, sendo apenas falta de ética, conforme o caso concreto, porque se o dinheiro fornecido ao parlamentar entrou na sua conta, ele pode fazer o que quiser com seu patrimônio. 

Já ouvi a explicação — deve ser verdadeira — de que quando um parlamentar é eleito ele recebe uma verba, legal e não módica, para pagamento de despesas de contratação de pessoas, de sua confiança, que o ajudará na atividade parlamentar. Quando ele já se deu por satisfeito com determinado número de funcionários ele teria legalmente — presumo —, que devolver ao governo a parte da verba não utilizada para as contratações. Não sei se essa obrigação de “devolver o não usado” é expressa igualmente na União, Estados e em todos os Municípios, tendo em vista a extensão da pesquisa.

  De modo geral, as pessoas não gostam de devolver sobras de verbas públicas que poderiam gastar inteiramente. Esse assunto só agora veio a público porque era preciso, aos inimigos de Bolsonaro, descobrir uma falha legal ou moral qualquer — se não no próprio Jair pelo menos de algum filho. 

Friso que não estou, aqui, sugerindo — pelo contrário —, que o governo faça uma ampla investigação para saber quem devia devolver ao governo a parte que não foi usada pelo parlamentar, nos governos petistas e do presidente Temer. Essa obrigação de devolver é perniciosa — no meu entendimento —, porque, sendo formalmente ilegal —, mas provavelmente não obedecida em milhares de casos —, acaba criando um dispensável complexo de culpa dos parlamentares, estimulando neles a sensação de que é um hipócrita, um impostor, desde que tomou posse no cargo. Fica “com o rabo preso”, robustecendo a ideia de que neste país “todos são corruptos” e “quando em Roma, como os romanos” — referência ao passado daquela nação.  Estimula o auto desprezo, quando o novel parlamentar deveria entrar no parlamento de cabeça erguida. 

Melhor seria, psicologicamente, se não houvesse obrigação de restituir parte de sua verba parlamentar quando, em vez de, por exemplo, contratar dez assessores, contratasse só metade — o suficiente para ele — e o resto utilizasse para pagar suas dívidas pessoais, oriundas das despesas para se eleger. Na minha opinião, essa verba para contratação de funcionários dos parlamentares deveria ser apenas de "ida” e não de “ida e volta”. Se for o caso, reduzam-na. Mantê-la como “crime” é uma forma — talvez não intencionada —, de incutir no novel parlamentar a ideia de que ele, e o próprio parlamento, não são lá muito honestos. E acaba, pelo hábito e pelo convívio com colegas, incorporando na alma a sensação de que é um hipócrita. “Mas quem não é”? 

Se o leitor discorda de meu ponto de vista, pergunto-lhe se nunca “burilou” a descrição de seus ganhos na declaração do imposto de renda. E se a Receita — por remoto acaso —, errasse nos seus cálculos de restituição de imposto, favorecendo o contribuinte, o leitor iria notificar o fisco para lhe restituir menos? 

O Brasil, tem um excesso de leis e regulamentos de toda ordem. “Quanto mais leis, mas corrupto é o país”, já disse alguém. Onde tudo é proibido, nada é proibido, porque a auto convicção de que é um hipócrita enfraquece sua coragem de enfrentar outros Poderes, que não fizeram “rachadinhas” mas talvez coisas piores. 

(01/09/2020)