domingo, 21 de abril de 2019

Proposta legislativa pró liberdade de opinião



 Não obstante nossa “total” liberdade de opinião, na imprensa e na internet, essa liberdade é teórica, fictícia — mesmo quando exercida sem abuso. Isso ocorre por causa de uma ameaçadora possível ação de “indenização por dano moral”, movida por quem errou, sabe que errou, continua errando mas pretende silenciar seus críticos — mesmo quando mentalmente honestos —, “usando” a Justiça para seu astuto objetivo. 

Espero que as entidades encarregadas da defesa da liberdade de expressão leiam este despretensioso texto, redigido em estilo coloquial, compreendendo que com a atual legislação — em um país atolado em milhões de processos demorados —, o receio de uma arrasadora condenação por “dano moral” paralisará a busca da verdade ou a tornará imensamente arriscada.

Friso que este artigo não ataca o demandante bem intencionado que realmente foi caluniado, ou difamado. Visa apenas os que utilizam o “medo financeiro” como forma de manter escondidos seus malfeitos.

Em toda ação judicial, deve estar presente a máxima genial de Voltaire que gosto de invocar: “A vantagem deve ser igual ao perigo”. Hoje, na ação por dano moral movida pelo poderoso contra o remediado — por exemplo um jornalista —, este pode perder todo o seu patrimônio, enquanto o risco patrimonial do poderoso é praticamente nenhum, “coisinhas”. Isso leva o poderoso a abusar de seu poder de intimidação econômica, forçando o jornalista a calar a boca porque, se não o fizer, poderá perder o pouco que tem.

O presente artigo sugere uma curta modificação legislativa, no processo civil, que funcionará como desestímulo para tais ações quando visam apenas intimidar o réu — jornal, jornalista, repórter, revista, rádio, televisão, blogs e opinião desfavorável de qualquer modo publicada. Ao mesmo tempo, essa lei, aqui sugerida, teria o bom efeito colateral de desestimular, na mídia, críticas desnecessariamente ácidas — até com obscenidades, dando uma péssima imagem do país, — com ofensas pessoais que aproveitam a oportunidade da crítica, talvez justa, para insultar e desmoralizar uma pessoa física ou jurídica. A tentação do abuso, tanto de um lado quanto do outro, é uma constante na história do Direito. 

O sofrimento apenas moral varia muito, conforme  a sensibilidade de cada um. Tais ações podem demorar vários anos — quanto mais, melhor para o autor, em certos casos, porque sua verdadeira intenção é calar o réu, que precisa ser silenciado “a qualquer custo!”. Um custo financeiro previsível para o autor da ação, mas imprevisível para o réu, pois não há uma tabela legal impondo limites máximos para indenizações por dano moral. A quantia em jogo é uma caixa misteriosa.

 Penso, até, que a legislação poderia fixar o limite máximo da condenação do réu nessas ações, mas com um parágrafo, de exceção, permitindo condenação indenizatória superior ao teto, se confirmado, nos autos, que o autor agiu com indiscutível má-fé, na certeza de que poderia insultar à vontade porque o juiz estaria impossibilitado de aplicar uma condenação alta, exemplar, acima da tabela. 

A propósito, diz a história, ou lenda, que na Roma antiga uma lei previa que um tapa da cara tinha como castigo uma pequena indenização de xis moedas de cobre, o sestércio. Apoiado nessa legislação, um ousado gaiato rico saía na rua, acompanhado de um escravo forte carregando um saco de moedas. Quando o excêntrico topava com alguma pessoa cuja cara não lhe agradava o maldoso a esbofeteava e seu escravo pagava, no ato, à própria vítima, a multa prevista em lei, que era modesta. Daí a minha sugestão de que se houver uma eventual fixação de teto para indenização do dano moral que a lei preveja também uma indenização alta, caso bem comprovado o permissivo abuso do poder econômico. 

Em algumas ações de indenização por dano moral, paradoxalmente — porque nas ações judiciais, é o autor quem tem pressa no término da demanda —, quanto mais tempo ela demorar, melhor para o criticado, autor, porque sua verdadeira intenção não é obter o dinheiro da indenização mas incutir medo paralisante — na alma e/ou no “bolso” — de quem apontou suas falhas. O réu sabe que o tema “dano moral” é, por natureza subjetivo, “escorregadio”, e os juízes variam muito na quantificação da dor moral. A sorte do réu vai depender, em muito, da distribuição do processo, ou do recurso.

É por causa da desigualdade de forças financeiras entre autor e réu que muitas investigações importantes, iniciadas por órgão de imprensa, somem do noticiário. A investigação, a “busca da verdade” contra um poderoso pode significar um pesadelo capaz de arruinar uma vida ou uma empresa.

Um “detalhezinho” jurídico-processual que facilita a intimidação de jornalistas e críticos em geral — mesmo quando mentalmente honestos — está na permissão de o Autor da ação dar à causa um valor mínimo, “simbólico”, como, por exemplo, R$1.000,00, frisando o Autor, na petição inicial, que deixa “a critério de Vossa Excelência” (o juiz cível) “fixar o valor da indenização”.  Esse “valor simbólico” representa uma enorme vantagem psicológica para o autor da ação, o criticado — quando mentalmente desonesto —, porque caso ele perca a demanda — algo bem previsível para ele —, sua condenação pela “sucumbência” (pagar honorários à parte contrária) será mínima, eis que a condenação dele não poderá exceder 20% do valor da causa. 20% de R$1.000,00 é R$200,00. Essa ridícula “condenação”, de duzentos reais em honorários, estimula sua prepotência, o uso “baratinho” da Justiça para silenciar, durante  muitos anos de demanda, quem revelou suas faltas.

Ocorre, no entanto, que como o valor da causa, dada pelo autor da ação, foi “simbólico”, esse baixo valor não proíbe o juiz — segundo a jurisprudência — de condenar o réu (o jornalista, p. ex.) a pagar uma altíssima indenização, sem valor previsível, caso entenda que a crítica ofendeu moralmente o autor. Enfim, o réu, mesmo ciente de que não fez nada errado, vê-se obrigado, por mera prudência, a sempre contestar a ação, mesmo com baixo “valor da causa”, contratando advogado e sofrendo um longo desgaste emocional. Nenhum jornalista previdente, p. ex., se absterá de contestar uma ação dessa natureza presumindo que, se condenado, a condenação será pequena. O juiz pode pensar diferente. Se o autor não contestar a ação será revel, “confesso”. Perde a ação por omissão.

É, portanto, de urgente necessidade moral e jurídica — tendo em vista que tais ações podem estender-se por muitos anos — que o legislador conceda ao réu — um jornalista, por exemplo — o direito de, quando citado em ação cobrando “danos morais’, apresentar “reconvenção”, pedindo contra o autor uma indenização, de igual valor ao pretendido pelo autor, também por dano moral, só pelo fato de estar sendo processado injustamente. Na sentença, o juiz decidirá, com base na prova, a boa e a má intenção do criticado e do crítico. Não tem cabimento, é injusto exigir que o jornalista seja obrigado a ser “fritado” vários anos, apenas se defendendo, aguardando o remoto trânsito em julgado de sua inocência para, só depois, poder processar quem o processou injustamente. Propõe-se aqui, em vez de duas ações, em sucessão, apenas uma, simultânea. 

Alguém poderá alegar que a lei agora proposta é desnecessária porque se o autor perder sua ação poderá ser condenado por “litigância de má-fé. Ocorre que os que frequentam o fórum sabem que, nessas ações, a condenação por “litigância de má-fé” do autor é raríssimamente aplicada tendo em vista que a sensibilidade moral é muito variável na sua ocorrência e medição. 

Se, com a legislação atual, um juiz admitir — por economia processual —, a utilização da reconvenção nessas ações de indenização por dano moral, essa decisão ensejará infindáveis e sutis discussões acadêmicas e judiciais, com o argumento de que a “mera” condição de Réu em ações desse tipo não representa um “sofrimento moral” já ocorrido, passado. “Seria necessário” — dirão os críticos da ideia — “um prolongado tempo de sofrimento do jornalista, após sua citação, para justificar o pedido do Réu”. Este teria — “tecnicamente” — que sofrer longamente para, só depois, muitos anos depois, transitada em julgado sua absolvição, ter o direito de pretender cobrar do Autor a mesma quantia pretendida pelo Autor que o intimidou financeiramente por longo período.

Ponha-se o leitor na pele de um jornalista que foi citado judicialmente para pagar, digamos, uma indenização de cinco milhões de reais, porque não comprovou uma falcatrua — ouvida de fonte confiável, em tese crível. Essa ameaça tira-lhe todo o estímulo para o jornalismo investigativo. E pode ocorrer que, devido a globalização, a ação por danos morais seja processada em país estrangeiro propenso a indenizações milionárias.

O jornalista Paulo Francis, por exemplo, na década de 1990, foi condenado, pela justiça americana, a pagar uma indenização de cem milhões de dólares por haver mencionado — em entrevista, divulgada também nos EUA —, que a diretoria de uma empresa estatal brasileira, teria desviado altas somas da empresa para contas particulares dos diretores, em banco suíço. Como Francis não comprovou em juízo esse desvio — o sigilo bancário era inviolável —, o jornalista foi condenado a pagar os cem milhões. Ele justificava-se, dizendo que ao fazer suas denúncias pensava que o governo brasileiro iria investigar o fato, supostamente ilícito, mas a investigação não ocorreu. Pelo que presumia a mídia, nos anos 1990, o enfarte do jornalista foi apressado com tal condenação.

 Não sei se Paulo Francis tinha, ou não, razão no que disse, mas de qualquer forma, é impossível escapar da insônia — do enfarte, ou do mesmo do câncer induzido por angústia — com tal espada sobre a nuca. Não tem cabimento impor tal sofrimento moral, por muitos anos, a qualquer réu que vive da escrita, para só depois de transitar em julgado sua absolvição ter ele, réu, o direito legal de requerer uma indenização por dano moral contra alguém que o processou sem razão, conforme reconhecida pela justiça. O dano moral, o sofrimento psíquico, começa a existir a partir do momento em que o jornalista é citado e prolonga-se enquanto o processo caminha lentamente, como uma máquina de moer neurônios, no processo de milhões em que só sofre o réu.

Por que não, repita-se, decidir as culpas recíprocas no mesmo processo? Se ficar provado, no conjunto da prova, que o jornalista abusou, que pague pelo abuso. Se ficou provado que não abusou, que receba do “ofendido” a mesma quantia que este lhe cobra. Justo, não? Quem ganhar, leva tudo. Se ambos erraram e também acertaram, que a justiça fixe a divisão da quantia em disputa, na medida e proporção do abuso de cada um. E tem mais: se o conflito em exame exigir dois processos, um após o outro, pode acontecer que a prova apresentada no segundo processo seja diferente da prova produzida no primeiro processo, acarretando uma contradição da justiça, abalando a confiança da comunidade.  

Há mais a ser modificado com essa futura lei. Ela exigirá que em toda ação de indenização por dano moral — seja qual for o motivo — o Autor será obrigado a mencionar expressamente, na petição inicial, o valor que pretende receber do Réu, não podendo deixar isso “o critério do juiz”, na sentença. Nada mais racional que cada ofendido quantifique, ele mesmo, monetariamente, o grau de seu sofrimento psíquico. Só ele é quem melhor pode revelar o grau de seu sentimento. Que assuma sua responsabilidade, e o risco processual da sucumbência. 

A menção obrigatória desse “quantum” pelo autor teria a vantagem de permitir a qualquer réu, quando demandado, abster-se de contestar a ação, quando o valor mencionado for mínimo, não justificando maiores gastos com sua defesa judicial. Como está hoje a legislação — ensejando ao Autor não quantificar o valor que pretende cobrar —, todo Réu sente-se forçado, por prudência, a contestar qualquer ação de danos morais, mesmo que a considere risível.

A lei a ser proposta também deveria ter a virtude “extra” de forçar maior urbanidade, ou compostura, nas críticas, impressas ou orais, antes e depois de proposta a ação, contra pessoas ou instituições. Isso porque, se os fatos criticados forem verdadeiros, mas o crítico aproveitou a oportunidade para enxovalhar, mesmo com algum  “brilhantismo”, a reputação do criticado e de sua família — muito além da intenção de apenas criticar um ato —, ele verá reduzida sua indenização.  Não pela sua crítica — na essência verdadeira —, mas pela forma abusiva, insultuosa, ou obscena, de se expressar.

Essa possível lei teria também um “efeito colateral” civilizador, educador. O direito de livre crítica, reconhecido mundialmente, foi concebido “para o bem”. Não como maldosa oportunidade para ofensas, verbais ou escritas, que estimulam imitadores, do pior nível imaginável, transformando a mídia em um bordel vocal, com insultos de baixíssimo calão, que estimularão novas ações judiciais, ou vinganças à bala. Quem insultar desnecessariamente a parte contrária, mesmo com o direito de receber uma indenização, ficará sabendo que o seu montante indenizatório será diminuído, na decisão, na proporção do exagero no insulto desnecessário. Analogamente, se a lei processual permite que o juiz, nas ações cíveis, pode mandar riscar, nos autos, os insultos incompatíveis com o decoro judicial, poderá também punir financeiramente os palavrões e ofensas equivalentes. Será útil, para a boa imagem do país no exterior, que políticos, economistas e “filósofos” de boca suja policiem seu linguajar, mesmo que façam isso só pensando no dinheiro, não por virtude.

Encerro, aqui, minha sugestão. Observo ao leitor que não escrevo para juristas, mas para pessoas em geral. Daí meu estilo coloquial.  Vou encaminhar esta proposta às entidades de defesa da liberdade de imprensa, as maiores interessadas no direito de informar o que ocorre no município, no estado, no país e no planeta. 

Desnecessário, de minha parte, apresentar agora um esboço de projeto de lei a respeito, pois há advogados e juristas do mais alto nível que podem fazer isso melhor do que eu, afastado que estou, há anos, da atividade forense.

FIM

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Arte Moderna



Ao terminar um artigo da série “A era da mediocridade”, classifiquei Pablo Picasso mais como um hábil psicólogo e expert em marketing e propaganda do que como pintor. Nunca o concebi como grande pintor porque eu considerava, e ainda considero, como necessária qualificação de qualquer pintor, a capacidade de desenhar muito bem.

Repito: muito bem. Um talento pouco difundido e talvez inacessível apenas com a mera insistência “muscular” ou auto- ilusão entusiasmada. Algo assim como o “ouvido musical”, um dom. Realmente, não é fácil reproduzir com fidelidade um rosto, um cavalo galopando, uma figura humana em posição pouco convencional, o movimento das ondas do mar, uma cachoeira, etc.

De todos os itens, porém, de uma global “era de mediocridade”, aquele que me deu maior trabalho para concluir alguma coisa — por conta própria —, foi a definição do que seja arte; como interpretar a reação do público frente a um quadro ou escultura; a difícil “explicação” do sentimento da beleza e a vasta nomenclatura que surgiu depois do classicismo. Quem quiser entender o que significam impressionismo, pós-impressionismo, fauvismo, cubismo, expressionismo, futurismo, dadaísmo, surrealismo, concretismo, abstracionismo, primitivismo, “pop art”, “arte mínima”, etc., enfrentará grande dificuldade em estabelecer fronteiras entre essas variadas “escolas”. E para complicar ainda mais um assunto tão escorregadio, terá que levar em conta os “pós-” isso e aquilo, porque a espécie artística é bastante mercurial.

Há, porém, uma nota comum em todos esses movimentos: quanto mais moderna a obra, menor a necessidade do “suor”, físico e mental, do artista. Dizendo de outra forma: quanto mais moderna a pintura, maior o grau — dispensador de esforço — de imaginação, preguiça, subjetivismo, pretensão, valorização da quantidade sobre a qualidade e a total necessidade da propaganda para venda do “produto”. Sem propaganda, ninguém é “gênio”. Gênio, mesmo, é o cérebro comercial por trás da promoção do pintor.

Se, por mera por brincadeira, uma pessoa que nunca antes pegou em um pincel — e até desprezasse a arte da pintura —, fizesse, com os olhos fechados, alguns traços rápidos em uma tela e solicitasse a Picasso que a assinasse, “só por farra”, esse quadro passaria a valer milhões de dólares, a comprovar que não é o quadro que importa e sim a “marca”. Os supostos e talvez ingênuos “conhecedores” do estilo do pintor famoso, nessa hipotética experiência, vendo confirmada, pelo próprio Picasso — um gozador —, a autenticidade da assinatura, diriam que com esse quadro o “gênio” mostrava, mais uma vez, a “versatilidade de seu talento”.

O mundo das artes é estranho. Vincent Van Gogh só vendeu um quadro, enquanto vivo. Aquelas poucas pessoas que adquiriram, por preço vil, seus trabalhos, logo após sua morte, tiveram o máximo interesse financeiro em exaltar a genialidade do pintor. Quanto mais o elogiassem, mais valor teriam os quadros comprados após seu passamento. Não há dúvida que Van Gogh foi uma extraordinária figura humana, mas causa estranheza que só depois de sua morte é que seus quadros tenham passado a valer tanto. Uma prova de que “psicologia financeira”, digamos assim, tem um peso imenso, na realidade total, na valorização das obras de arte. A genialidade do pintor holandês, enquanto vivo — pergunta-se —, estaria tão pouco visível, para os “entendidos”, que foi preciso que seus quadros mudassem de mãos para valer fortunas? Os “negociantes de arte”, que só conhecem a “arte de negociar”, têm melhor “olho artístico” que os verdadeiros estudiosos da pintura?

Eu me sentiria mais confortado se soubesse que a genialidade de Van Gogh tivesse sido reconhecida quando ele ainda estava vivo. Foi um homem sofredor, trágico, que só nos inspira simpatia. E com um detalhe: sabia desenhar. Seu bom caráter, sensibilidade e personalidade merecem o máximo respeito, mas seu exemplo é uma prova de que o dinheiro contaminou e domina o mundo das artes. Quadros e esculturas tornaram-se muito mais um tema financeiro — à semelhança das ações de sociedades anônimas —, do que um assunto de arte propriamente dita. Aqui a explicação do porque incluí as artes plásticas na minha série de artigos sobre a mediocridade em geral. O dinheiro “mediocrizou” as artes.

Leonardo Da Vinci levou cinco anos pintando o “Mona Lisa”. Pintava umas poucas horas em um dia e outro tanto em outros, esforçando-se na busca da perfeição do detalhe. De qualquer forma, gastou um tempo considerável para pintar um único quadro. Em contraposição, Picasso chegou a dizer, conforme suas citações na internet, que “Give me a museum and I'll fill it”. “Dê-me um museu e eu o encherei de quadros”.

Como qualquer museu é enorme, somente um pintor rapidíssimo e malandramente “abstrato” poderia preenchê-lo sozinho. Com uns vinte ou trinta quadros diários Picasso daria conta do recado, em poucos meses. Uma prova de que o que lhe interessava era a quantidade e a mera declaração, dele mesmo, de que havia, naqueles poucos traços, um “significado” profundamente emocional. Tão profundo que só sentido por ele mesmo. Acredite quem quiser.

Um observador da arte moderna, Tom Stoppard, chegou a dizer que o único critério para distinguir um quadro de uma escultura moderna seria o seguinte: se a obra está pendurada numa parede, trata-se de um quadro; se você pode dar uma volta em torno dela, é escultura.

Richard Schmid, provavelmente um conhecedor do assunto — porque mencionado em sites de arte —, dizia que “Eu honestamente acredito que estudantes de pintura no próximo século rir-se-ão do movimento da arte abstrata. Eles se maravilharão de tal regressão das artes plásticas”.

Al Capp, outro demolidor, de estilo mais pesado, dizia que “A arte abstrata é o produto do sem talento, vendido pelo sem princípios para os imensamente estupefatos”.

Outro crítico acerbo da arte moderna chegou a dizer que “Trying to understand modern art is like trying to follow the plot in a bowl of alphabet soup” (Tentar compreender a arte moderna é como tentar seguir o enredo em uma tigela de sopa de alfabeto).

E, finalmente, o que diz o príncipe dos pintores, Leonardo da Vinci? Ele dizia que “Onde o espírito não trabalha com a mão, não há arte”. Elitismo? Não, simples reconhecimento de que à técnica perfeita de desenhar e pintar o artista deve acrescentar alguma emoção.

Com outras palavras: sem a “mão” do verdadeiro artista não basta o subjetivismo do pintor, por mais que ele sinta-se sinceramente emocionado — a grande desculpa para o pintor moderno que confia apenas no que ele sente, não no que sinceramente poderá sentir o público olhando para seu quadro.

No fundo, no fundo, a função essencial da arte é despertar prazer. O prazer verdadeiro, não o fingido, exigido pela moda. Em um concerto de piano, de música clássica, um pianista, mesmo frio no íntimo mas dotado de uma técnica invulgar — tão invulgar que arrebatará o auditório — será um melhor artista do piano do que um martelador de teclas, tremendamente emocionado, suando, gemendo, olhos em alvo, mas tocando tudo errado, quase esmurrando o teclado.

Se, com a arte moderna, o que interessa é a emoção do artista — e não o efeito, nos outros, do produto de suas mãos —, imaginemos que a ciência tenha inventado um aparelho capaz de registrar o grau de emoção e inspiração quando da execução de uma peça musical. Um aparelho, de eficácia comprovada, semelhante àquele usado hoje para medir a pressão arterial. Ou semelhante ao atual detector de mentiras. A diferença é que este último indica a presença da mentira, e o outro, mais moderno, comprovaria a real sensibilidade do artista. E prossigamos dando um exemplo.

Anunciada, com estrondo, a chegada ao país de um novo gênio da música, um pianista estrangeiro — tão genial que poucos ouvintes teriam a capacidade de “entender” a profundidade se sua arte — seu empresário mencionaria que a inspiração do artista não poderia ser fingida porque em seu braço estaria afixado o tal aparelho infalível que comprovaria o grau autêntico de sentimento que um ser humano pode suportar.

Na propaganda, que precederia o concerto inaugural do recém-descoberto gênio, haveria a advertência de que pessoas sem um excepcional grau de sensibilidade musical não deveriam, sequer, comprar os ingressos porque provavelmente não seriam capazes de “captar” a profundidade da arte escondida em aparência simplória. A presença do grande artista no país, seria até um favor prestado aos brasileiros. Mostraria aos próprios nacionais uma riqueza artística que eles não tinham percebido em seu antigo folclore. Essa falta de interesse em vender ingressos a pessoas sem sensibilidade artística até aguçaria a procura desses ingressos. Todos, comprando, estariam demonstrando quão sensíveis são à beleza artística.

No dia anunciado, Teatro Municipal lotado, ao braço do pianista seria atado o “detector de emoções sinceras”. Após impressionante silêncio o artista começaria a tocar, usando apenas um dedo:— “Atirei o pau no gato-to, mas o gato-to, não morreu, reu-reu. Dona Chica-ca, ad’mirou-se-se, do berrô, do berrô que o gato deu, miau!”.

O auditório, pasmo, com vontade de rir mas temendo passar por ignorante, manteria o rosto sério mas ficaria observando o imenso painel eletrônico — conectado ao “aparelho da sinceridade”—, com a esperança de ver um mau “resultado emocional” que autorizasse a vaia represada na garganta. O aparelho, no entanto, confirmaria o ponto máximo da emoção artística sentida por um ser humano. A extraordinária inspiração do pianista estaria tecnicamente comprovada. Com isso, o público apenas se recriminaria intimamente: — “Devo ser um tremendo ignorante, mas não confessarei isso a ninguém. Vou aplaudir de pé”.

E se o artista sofresse um derrame, seu coração incapaz de aguentar tanta emoção, caísse morto ao terminar seu especial concerto, haveria uma longa discussão teórica sobre a genialidade do pianista e os motivos misteriosos que fizeram o artista escolher essa modinha e não outra. As teses seriam, entre outras: — “ Por que dona Chica atirou o pau no gato? Qual a simbologia dessa violência?”, e por aí afora.

Exagero, claro, no exemplo, mas em substância é o que ocorre com a desculpa de que o artista tem que pensar apenas no que sente ao externar sua arte. Pensar apenas em si. Não lhe interessa se o público sentiu ou não prazer autêntico. Se prazer houver no público, será o prazer de “de estar por dentro, enturmado, dentro da moda”.

Voltando à pintura, tudo ia bem com ela, no classicismo, até que surgiu uma novidade técnica, fora do mundo artístico, mas que abalou o pacífico panorama que valorizava a arte de desenhar as coisas tal qual se apresentavam aos olhos: a fotografia. Com um simples “flash” conseguia-se “desenhar” qualquer coisa, com uma precisão de traços e equilíbrio de proporções que só mesmo um Leonardo Da Vinci conseguiria. A difusão e aperfeiçoamento da fotografia foi a desculpa salvadora de muitos artistas que, não obstante o entusiasmo pela pintura, não conseguiam desenhar.

Estava aberto o caminho — ou atalho —, para o homem que admirava as artes, identificava-se emocionalmente com ela e gostaria de fazer parte desse misterioso mundo, cheio de seduções. As mulheres de então — fins do século 19 e início do século 20 —, sentiam uma especial atração pelos artistas, geralmente impetuosos e libertos de restrições em assuntos relacionados com a mulher alheia. Hoje, provavelmente, elas preferem os “artistas das finanças” e dos esportes de massa, muito mais lucrativos, digo, atraentes para elas. Os pintores eram, então, quase sempre homens.

O mundo artístico — quando sincero, autêntico — tem realmente uma faceta interessante. Suas intuições são, frequentemente, certeiras. Freud confessou que raramente chegou a alguma descoberta sem que algum poeta não tenha estado lá primeiro. A verdadeira arte tem isso de bom: ela alcança, “sem querer”, por intuição, áreas ainda não alcançadas pela ciência. Voa, mesmo caindo frequentemente, enquanto o cientista vai a pé.

Houve, também, com o advento da fotografia, o aparecimento dos “pintores espertos” que queriam apenas um caminho fácil e rápido para a fama e seu sub (ou super?) produto: dinheiro. Era a “democracia” artística que permitiria a qualquer audacioso, sem talento para o desenho, mas na caradura, “aparecer”, chamar a atenção. “A ordem, agora, é escandalizar!”. E quanto mais chocante seu trabalho — desconforme com a aparência normal dos objetos —, maior o “escândalo” capaz de chamar a atenção, com boas consequências comerciais.

Para enfrentar os observadores mais desconfiados, ou céticos, que diziam que ali só havia audácia, não arte, havia duas desculpas espertas: 1) quem quiser a reprodução exata de uma paisagem ou objeto, que tire uma foto; 2) nas artes, o que importa é sentimento do artista, não o produto físico, visível, dessa emoção.

Pablo Picasso foi quem, com maior franqueza, externou o argumento de que na pintura e na escultura o que vale é a emoção do artista, não aquilo que conhecemos como a “mera realidade”. Para ele, o pintor pode até pintar de olhos fechados, desde que esteja “inspirado”. O público não deve ser importar com a aparência. Deve apenas “sentir” o mesmo que “sentia o artista”. E falava essa bobagem com tanta convicção — extraordinário psicólogo que era — que alguns milionários passaram a comprar seus quadros, com isso provocando imensa valorização de qualquer quadro com a assinatura “Picasso”. Ele se dava ao luxo de dizer não ser suficientemente rico para ter em sua casa um “Picasso”.

Vejamos algumas citações dele, obtidas na internet.

“I paint objects as I think them, not as I see them”.   
(Eu pinto objetos como os penso, não como os vejo)

“Painting is a blind man's profession. He paints not what he sees, but what he feels, what he tells himself about what he has seen.”.
Comentário: era um engraçadinho.
(Pintar é a profissão de um homem cego. Ele pinta não o que vê, mas o que sente, o que ele diz a ele mesmo sobre o que viu).

“The people who make art their business are mostly imposters”.
(As pessoas que fazem da arte seus negócios são  na maior parte impostores)

“The world today doesn't make sense, so why should I paint pictures that do?”
( O mundo hoje não faz sentido, assim, por que eu deveria pintar os quadros que pinto?)

“To draw you must close your eyes and sing”.
( Para desenhar, você precisa fechar seus olhos e cantar”)  

“Who sees the human face correctly: the photographer, the mirror, or the painter?”
( Quem vê a face humana corretamente: o fotógrafo, o espelho, ou o pintor?).

O que explica, então, a permanência da arte moderna, seu alto valor econômico, mesmo sendo fácil, breve, chocante e nada coincidente com a realidade visível?
Para mim, a explicação está na personalidade do artista. Na audácia, na firmeza, na caradura, no “carisma”, na “personalidade forte”, como foi o caso de Picasso, grande psicólogo. Ou na integridade e compaixão, como foram os casos de Vincent Van Gogh e de seu amigo Paul Gauguin. É impossível ler a biografia desses dois sem que fiquemos comovidos com almas tão sensíveis. Sabiam desenhar? Sabiam o suficiente, mais que a média das pessoas que não são artistas. No entanto, eram pessoas de imensa integridade.

O caráter de um artista “contamina” sua obra, positiva ou negativamente. Influi bastante no que se refere a sua aceitação pelo público. Inclusive sua orientação política. O próprio Picasso se beneficiou disso. Tinha ideias generosas e era franco em suas opiniões, como se lê nas citações acima. Se ele tivesse sido um homem de direita, ou nazista, jamais seria considerado um pintor famoso. “Guernica” o impulsionou. O mesmo ocorre em outras artes: a personalidade do artista “contamina” sua obra, para cima ou para baixo.

Abstração é terreno mais apropriado para a filosofia, não para a pintura ou escultura. Penso que, pelo menos por longo tempo, o ser humano ainda exigirá algum grau de virtuosismo, dificuldade e trabalho em todo pintor. Nas competições esportivas, no circo, no desempenho cinematográfico, na redação de contos, romances, crônicas e poesias espera-se que o artista se expresse com uma habilidade acima do comum. Não aceito que um escritor apenas “sinta” emoções refinadas na sua misteriosa cachola, escrevendo apenas tolices, ou coisas incompreensíveis até para o próprio escritor. Daí o preconceito geral, fundamentado, contra aquela arte moderna que não agrada nem à vista e pode significar qualquer coisa: — “É fácil demais. Assim, até eu mereço um prêmio qualquer...”, pensam as pessoas mais sensatas.

Agora, uma palavra ligeira sobre a música. De todas as artes, penso que ela é a menos suscetível de enganação. A mediocridade musical não consegue flutuar muito tempo porque pode ser avaliada em questão de minutos. Afunda porque não há qualquer vantagem financeira em mantê-la à tona, quando não agrada a praticamente ninguém. Basta ouvir uma música nova, durante um minuto, para sabermos se vale ou não a pena continuar ouvindo. A abundância de sua produção e o tamanho do público são tais que não vale a pena gastar com propaganda de músicas que ninguém quer ouvir, nem muito menos comprar em forma de disco. Já com a pintura moderna, existe algo material e um restrito mercado de ricos compradores, funcionando os quadros como reserva de valor, quando o nome do pintor é muito conhecido. O quadro é físico, palpável, concreto, como se fosse um título de crédito. Já a música que ninguém quer ouvir é mero ruído, não interessa a ninguém, não há como transformá-la em joia.

Apenas com relação ao jazz é que cabe uma dúvida. A maioria das pessoas não gosta, porque não há uma melodia identificável. A meu ver, o jazz deveria ser utilizado apenas como técnica de composição. Os músicos ficariam na improvisação sem fim mas quando, por mero acaso, os errantes executores “topassem” com uma nova melodia, passariam a desenvolvê-la, compondo uma música “normal”.

Encerrando, a arte moderna tem sua utilidade na propaganda, no humorismo, na caricatura, na fabricação de enfeites, brinquedos, móveis, capas de livros, etc. Não como grande pintura ou escultura.

Alguém poderá perguntar: porque dizer tais coisas óbvias, desprestigiando museus e exibições de quadros e esculturas que servem como local de passeio, distração, conversas e namoros, dando emprego a muita gente?

É uma boa pergunta. Minha desculpa é que muitos pensam como eu e sentem-se insultados na inteligência. Pelo menos coloquei no papel o que muitos pensam mas não se atrevem a dizer. Ficarão mais confortados na nossa “santa ignorância”.

FIM

quinta-feira, 21 de março de 2019

"As baratas herdarão a Terra”.


          Duas baratas, macho e fêmea, distinto casal, conversam, no idioma delas, na tubulação de esgoto, enquanto mordiscam restos estragados de comida. Ele chama-se Glutof e ela, Kiti.
 — Por que o entusiasmo? — pergunta o marido em tom desconfiado. Glutof é cético, convencido, solene, cascudo, culto, repulsivo, olhos de coruja. Nutridíssimo, lembra uma tâmara escura e obesa, dotada de pernas finas porém musculosas e cabeludas — ou que melhor nome tenham suas cerdas. Felizmente, não engorda nas coxinhas, o que lhe permite disparar em incrível velocidade nos momentos de perigo, caçado pela tríade maldita de homens, ratos e gatos. Estes últimos uns farristas preguiçosos que matam por diversão porque nem mastigam as presas. Sentem nojo.
Glutof orgulha-se do brilho castanho, quase negro, das suas asas, que consegue rufar com enorme sucesso, provocando gritinhos e desmaios no sexo oposto. Apesar de gordão, é mulherengo, ou melhor, “baratengo”, palavra que pretende incluir no primeiro dicionário de uma nova língua, o “baratês”, em elaboração — ele coordenador. Também gosta muito de filosofar, superior, deliciando-se com a basbaquice dos colegas de sua espécie, “quase todos uns ignorantes, quando comigo comparados”. Ocorreu uma mutação genética nas baratas domésticas, caracterizada pela maior longevidade e tamanho do cérebro. Mas nem todas foram igualmente aquinhoadas com o aumento da inteligência. Aliás, um problema também humano, só que bem mais antigo.
— Você, crítico e convencido como sempre! — Kiti protesta. — Que mania a sua de me diminuir, quebrar o meu barato! Não é entusiasmo, diabo! É que fiquei espantada, ou melhor, horrorizada — tá bem assim? — vendo a asquerosa limpeza do novo restaurante da esquina. Consegui entrar lá uma única vez, por baixo da porta, na véspera da inauguração, e dei uma espiada. Ontem, após a inauguração, tentei voltar para beliscar umas coisinhas, esgueirando-me pelos cantos, mas fiquei com medo. Movimento demais. A única fresta que poderia me dar uma boquinha já foi fechada. A prevenção dos canalhas humanos contra nós é perfeita. Entrada, só se for pela porta da frente, mas com o risco de ser esborrachada pela sola do porteiro.
— Pela sua linguagem corporal ainda acho que você parece meio eufórica, quase contente, aprovando inconscientemente a abominável limpeza... — insistiu o marido, teórico respeitadíssimo pelo zelo na defesa dos imorredouros valores da imundície. Interrompeu as chupadinhas que dava num pão embolorado para sorver, estalando os beiços, um copinho de muco, escorrido de uma casa de repouso de velhos pobres.
— É que eu, mesmo não aprovando, lógico, qualquer limpeza — tá pensando que sou o que?! — gosto de ver coisas bem feitas, mesmo discordando delas. Você sabe que sempre fui perfeccionista...
— Em termos... — cortou o marido. — Lá em casa você relaxa. Ainda há muita limpeza aqui e ali... O asseio está ficando insuportável. Você não é muito boa dona de casa, desculpe a franqueza...
— Mas você também não coopera! — ela ergueu a foz fininha, indignada, vibrando as antenas. — Fica lá, paradão, no gabinete daquele advogado velho, dono da casa, mordiscando livros antigos, engordurados, comprados no sebo. Você, meu caro, é um viciado em sal e gordura humana velha.
— Você é que não enxerga um palmo adiante do nariz. Não é só gula, minha cara. Eu estudo. Minha ociosidade é aparente. Está certo que também gosto de comer. Leio, porém, tanto quanto como. Opa! Merece até um trocadilho — sorriu, encantado com o achado: — Como leio! Exclamação. Principalmente saboreio, devagar, degustando não só o sebo dos dedos da decadente prole de Adão, como também a parte abstrata, as próprias ideias impressas. Isso para não ficar dizendo besteira por aí, como nossos irmãos cascudos de pernas finas. Um dia herdaremos a Terra... Lembra-se da profecia? Já li que se houver um conflito nuclear, apenas nós sobraremos. Estaremos bem protegidos aqui no fundo, enquanto a canalhada bípede torra lá em cima, merecidamente. Já imaginou a farra, depois? Tudo será nosso... Do lixo aos computadores...
— Isso se der tempo de você correr pra cá. Se estiver na biblioteca na hora do “Big Bum!” — como provavelmente estará, viciado em livro sebento — não herdará coisa nenhuma! Será apenas mais uma tâmara tostada. Além disso, a que guerra atômica você se refere? Os dois únicos gigantes que poderiam nos prestar esse favor já fizeram as pazes! Está tudo desmoralizado! O chefe russo, aquele urso loiro e cardíaco — referia-se a Boris Yeltsin —, com olhos puxados de mongol — a mãe dele deve ter tido um vizinho japonês mais bonito do que o marido — virou capitalista! Em vez de utilizar os roliços dedos apertando os botões de lançamento dos mísseis, diverte-se beliscando as secretárias! É de desanimar...
— Não perca as esperanças, Kiti. — Ela é graciosa, pestanuda, cérebro rico de intuições loucas e acertadas, tudo misturado. Boazudinha, quase só feromônios e órgãos reprodutores, tem fama de leviana, mas até agora ninguém teve coragem de testemunhar contra ela porque é influente e vingativa. É o quinto casamento do intelectual cara de coruja, que prossegue, doutoral: — Parodiando o que já disse um empresário americano, ninguém, até agora, perdeu dinheiro apostando na idiotice dos chefes de estado valentões. Melhor dizendo, na idiotice da espécie humana, toda ela, sem exceção, que se diz tão racional, espiritual. Nós, que a conhecemos bem e comemos o que jogam fora, sabemos o que eles são no fundo. Principalmente nos fundos...
Fez uma pausa para mordiscar um resto de banana podre e continuou, erudito, deliciado de ouvir aquela voz que sabia modular com tanta autoridade:
— Felizmente, as chamadas potências emergentes estão aí, preocupadas em dominar o átomo, com isso assustando os vizinhos. Portanto, não desanime. Um dia, estarão fazendo bombas atômicas de fundo de quintal. Chegará a nossa vez, Kiti. Sempre acreditei que nossos ideais de justiça e supremacia final acabarão prevalecendo. O poder dos impérios sobe e desce, qual uma gangorra. Está nos livros de história que lambo, digo, leio. O Poder muda de mãos. Sinto no ar, principalmente no poluído — essa cheirosa e estimulante lixeira aérea — os sinais de que está chegando a nossa vez! É sumamente injusto o atual sistema de dominação! Qualquer humano, idiota ou sabidinho, mal nos vê comendo uma mísera migalha no chão da cozinha, morrendo de fome, arregala os olhos como um assassino louco e corre pra cima, com a pata erguida. Por que esse preconceito? Afinal, estamos limpando a cozinha deles, sem nada cobrar! Economizariam com faxineiras! Poderíamos viver tão bem, em harmonia! À noite, os humanos espalhariam suas roupas sujas pelo chão, iriam dormir nus, e nós invadiríamos a casa, comendo toda a sujeira digerível deixada em copos, corpos, pratos e talheres. As roupas teriam essa “lavagem a seco” diária. Lamberíamos todo o pessoal da casa, dispensando-os do banho matinal. Baita economia pra eles! Acordariam limpinhos! No entanto, as bestas nos esmagam!
— Que tal a gente montar um rodízio de roupas íntimas? Deve dar dinheiro... — ela propõe, olhos brilhando, sempre atenta a sacar um lucrinho de qualquer ideia. Considera-se uma grande empresária.
— Desta parte, você cuidaria. Não gosto de me meter em assuntos de dinheiro. Sinto-me como se perdesse a dignidade.
— Tudo bem com essas teorias. Você sabe que não esquento a cabeça com leituras. Só gosto de leitura a jato, dinâmica, mas gostaria de saber como vamos comer, se estourar uma guerra nuclear. Os alimentos não estariam contaminados pela radiação?
— Bem, ora... — ele pareceu surpreso. Nunca meditara sobre isso. Rotulava esses lampejos de bom senso da esposa de “faíscas da ferradura da cavalgadura”, como já dissera um famoso crítico. Mas não deu o braço a torcer: — Realmente, claro, hum, de fato, já havia pensado nisso... Durante algum tempo, que nossos técnicos determinariam, não comeríamos o que está na superfície.  Temos nas redes de esgoto um gigantesco e delicioso estoque de supermercado natural, tudo já prontinho e temperado para o nosso consumo. Assim, seria só esperar algum tempo no esgoto, até que diminuísse a radioatividade. — Fez uma nova pausa para lamber, estalando os lábios, uma espécie de musse de chocolate extraída de um papel branco, quadrado, textura suave, e concluiu:
— Seria a glória!, como se estivéssemos no Camboja...
— Por que o Camboja?
— Porque houve lá uma suculenta guerra civil que durou vinte e cinco anos. Nesse período, foram plantadas entre seis e dez milhões —  hesitou: ou seriam dez mil? — de minas terrestres. O resultado é que agora, todo mês, entre duzentas e trezentas pessoas vão pro espaço. Não em aviões de carreira. É o país, embora minúsculo, que tem o maior índice de amputações do mundo. Convenhamos, um paraíso terrestre! Houvesse turismo entre nós, você já imaginou?... Ai, ai, ai! Dá até água na boca, só de pensar! E os lança-chamas? Poderíamos escolher entre carne mal passada, bem passada, saignant, rare, medium.
— Lá vem você com suas exibições de poliglota...
— E dizem os especialistas que serão necessários uns trezentos anos para localizar e desmontar todas as minas.
— Por que eles plantavam tanta bomba? Não era possível uma agricultura mais tradicional?
— Kiti... Você precisa ler mais devagar... Ninguém planta bombas, querida. Eles enfiam explosivos no chão! Cada ala rival, ao se retirar, espalhava as minas para fod..., digo, estrepar — ele não aprovava palavrões na boca de grandes líderes — a cambada rival. E como havia muitas idas e vindas nas contínuas escaramuças, perdendo e reconquistando terrenos, o resultado é que o país virou um vasto açougue, fornecedor de pernas, cabeças e braços humanos — em peças avulsas. Para nós, um paraíso, pois somos levezinhas e podemos caminhar sem susto sobre as minas. Nossas primas cambojanas, aquelas sortudas, têm sangue e carne fresca à vontade. Já está até fazendo mal ao fígado, dizem, devido ao excesso de ferro na alimentação. É como porre de vinho, dá aquela bruta dor-de-cabeça no dia seguinte. Os “inteligentíssimos” humanos, hi!, hi! — riu, erguendo as sobrancelhas, rufando as asas em desprezo — não pararam para pensar que, um dia, o tiroteio iria terminar? Esqueceram a velha definição de que são “bípedes implumes”? Como não voam, pisam... e só então voam. Soube que uma horrorosa princezinha inglesa, uma tal de Lady Di, vinha pregando a proibição de minas terrestres. Será que vem mais essa desgraça por cima de nós? Infelizmente, ela morreu.
— Infelizmente? — Kiti abriu as asas com espanto. — O que deu em você? Foi bom ela ter morrido, parando com essa campanha nojenta.
— Você não tem visão, Kiti. Digo infelizmente porque, com a morte dela, a imprensa passou a venerá-la; consequentemente, dando força ao que ela pregava. Antes continuasse viva, só enchendo a paciência. Viva, seria menos prejudicial para nossa causa. Perseguiram a infame por anos e anos, vigiando-a, fotografando-a à distância, criticando e fofocando o tempo todo. Queriam até, por causa dela, a queda da monarquia inglesa. Agora, bastou a maléfica reformista morrer e pronto! Virou deusa! E aí é que está o perigo para nós! Doravante, em crise de consciência — essa coisa tão doentia nos humanos, e principalmente para vender revistas — a mídia vai querer pôr em prática a pregação dela. Entre os humanos é assim. Só depois da pessoa morta, não mais despertando inveja, porque está apodrecendo, é que é valorizada. Só espero que aquela princezinha, mais feia que a higiene, não tenha sucesso póstumo na sua absurda campanha para abolição das minas terrestres. Mesmo que não haja guerra nuclear, eles morrerão de qualquer forma, só que lentamente, cozidos no fogo lento do efeito estufa, ou envenenados pelas porcarias de comem, cheias de química cancerígena de efeito remoto. São burros e ambiciosos demais para parar a tempo. Felizmente, para nós, nossa alimentação, no esgoto há milênios, já nos tornou imunes a tais venenos.
— Será que um dia seremos também assim, digo, com essas falhas de caráter dos humanos?
— Provavelmente... — ele suspirou. — Lamento dizer. É o preço da civilização... — Sentia vaidade da sua frieza de estadista. — A menos que criemos uma nova Ética, na qual venho trabalhando há tempos, com a profundidade que todos notam em mim. Para começar, precisamos inventar um reforço de coação, um deus-barata à nossa imagem e semelhança: cascudo, antenudo, poderoso, vingativo. A chefe, diretor, presidente, nem todos obedecem. Mas a um deus-barata, com poder realmente de vida e morte, a barataiada planetária vai tremer... e obedecer. Conversarei privadamente com “ele”, nosso deus — eu mesmo, claro... — uma vez por semana no telhado de um prédio alto — sorriu, irônico, fechando um olho de coruja — e em seguida transmitirei ao nosso povo qual foi a mensagem que só eu ouvi... Que tal a ideia?
— E você acha que nosso pessoal vai acreditar nisso, nesse colóquio privado divino? Nossa gente é mais desconfiada que os humanos, porque sofreu mais...
— Acredita, sim, porque faz bem à alma acreditar. Acredita-se sempre naquilo que se deseja acreditar.
— Mas você mesmo acredita?
— Claro que não! Mas ninguém poderá provar que não acredito. A menos que você abra a linda boquinha, mas aí já sabe o que a espera. Apenas vendo um produto muito necessário, a esperança, enquanto houver medo no coração das baratas. “Business”, apenas. E por falar em medo, a civilização dos humanos está afundando justamente por falta de medo. A moda deles agora, o “must”, é a compreensão profunda da motivação dos atos humanos. Os patetas querem é “entender”, vejam só... Resultado: concluíram, por exemplo, que não adianta encher as cadeias, porque a prisão não recupera. Claro que não recupera! Mas a impunidade por acaso recupera? Ficam como baratas tontas — epa! digo, humanos tontos! — não sabendo o que fazer. E malandramente dão um jeitinho de conciliar o velho desejo de retirar de circulação o asqueroso bandido, ao mesmo tempo que podem se elogiar, dizendo que lhe fazem um grande bem, “reeducando-o”. Eu, quando estiver mandando nessa joça, já sei como vou resolver o problema da criminalidade: pena de morte imediata para toda barata cometendo um crime grave. Será um exemplo e tanto. Não gastaremos com processos, papeladas, cadeias e principalmente comida. Para pequenas infrações torturaremos o cara mantendo-o alguns dias num lugar doentiamente asseado. Para ele será a morte! Nunca mais vai querer errar de novo! Do contrário volta para a limpeza.
— Caramba! Que finura! A limpeza! Quando quer, meu querido, você sabe ser mauzinho... Talvez fosse melhor matar logo de uma vez... Desculpe, meu bem, sou contra torturas.  Mas como vamos matar os criminosos mais perversos, se não temos armas, dentes e nem mesmo mãos?
— Amestraremos os ratos. Eles são astutos, mas burros. Há uma grande diferença entre astúcia e inteligência. Eles só pensam em roer e fornicar. A menos que também sofram uma mutação, como a nossa. Aí estaremos ferrados porque eles têm um cérebro maior... e dentes... Aliás, já instruí nosso staff para me informar sobre qualquer material radioativo encontrado na tubulação. Isolaremos imediatamente a área porque, com a radiação, tudo pode acontecer. Se os ratos ficarem como nós, adeus ao nosso milênio de glórias! Eles é que substituirão os homens no domínio da Terra.
— Mas voltando ao novo restaurante da esquina, você precisava ver a limpeza da cozinha! Tudo brilhando! Nenhuma sujeira capaz de...
— Para! Para! — ele a interrompeu aos gritos sapateando, tremendo de ódio, amassando e jogando fora o papel higiênico manchado de chocolate. — Não aguento mais esta sua conversa porcalhona, bem na hora da refeição! Quer me fazer vomitar?!
— Chiii!... Precisava gritar desse jeito? Tá com nojinho da limpeza? Que sensibilidade delicada... Parece uma mocinha...
— Olha lá como fala... — suas grandes antenas vibravam de indignação. Nunca batera na esposa, mas estava prestes a fazer isso.
Kiti não se intimidou: — De tanto ler livros de humanos, tá ficando com faniquitos de poeta, todo delicado, sensitivo de torre de marfim. Cuidado, hein... Conheço um que virou a mão...
— Que livros você queria que eu lesse, sua burra? Barata, por acaso, já tem editoras e indústria gráfica? Agora somos inteligentes, claro — tanto assim que os humanos nem suspeitam, pois disfarçamos. Mas temos que, por enquanto, haurir a única cultura disponível, a dos humanos, até que elaboremos a nossa, própria, que será, claro, muito superior.
— Falei só pra te chatear... Porque você foi grosseiro. — Com as duas grande antenas, nela especialmente graciosas, fez um agrado na antena do marido, alisando-a, enquanto emitia feromônios que o excitaram. Mas ele se dominou porque achava perigoso fazer sexo após lautas refeições.
— ... Amorzinho — ela indagou, meiga, — por que você lê tanto? Não acha que exagera? Pode prejudicar a vista... E não temos ainda oculistas entre nós. Por falar nisso, acho que você ficaria bacana usando óculos com armação de tartaruga. Impossível ar mais intelectual! Você é meu pão embolorado, meu doce de coco com validade vencida há mais de três anos. Tem muita pilantrinha cascuda por aí me invejando, pensa que não sei?
— Leio porque, se houver algum cataclismo mundial, quero estar preparado para organizar nossa espécie rumo ao milênio. Nós, baratas, não repetiremos os erros dos humanos.
— Que erro, amorzinho? Desculpe, mas com ou sem erro eles estão por cima... Estão milênios à nossa frente. Nossa mutação genética — graças à bendita sujeira radioativa que jogam em qualquer lugar — é muito recente. Os humanos nos esmagam de tudo quanto é jeito. Ou nos envenenam com aquelas esguichadinhas mortais. Um dia, quase morri, te contei não? Por pouco você estaria conversando agora com um fantasma. Acho até que restou sequela. Nunca mais fui a mesma, uma sensação esquisita no baixo ventre... A dona da casa, cafajesta promíscua — provavelmente vinha da farra porque estava com umas enormes olheiras — mal acendeu a luz da cozinha e me viu ali, bem no meio, estonteada pela claridade, correu para pegar um tubo de inseticida. A carrasca não queria melecar a rica solinha... Nessa hora disparei em círculos, como um busca-pé, até me lembrar de que o melhor seria escapar por baixo da porta que dá para o quintal. Enquanto isso, a fera humana, esbaforida, rodopiando, com medo de que eu subisse nela, sapateava uma dança guerreira, tentando esguichar o veneno na minha direção. Felizmente, quase não me atingiu, mas, assim mesmo, só com a neblina, senti cólicas na hora. Penso que abortei... Saiu tudo misturado. Eles não erram, meu bem. Não adianta, o mundo é deles... Até hoje me arrependo de não ter subido pelo meio das pernas dela, até o fim. Daria uma mordidinha caprichada bem ali. Garanto que a vagabunda desmaiava de pavor!
— Quando digo errar, Kiti, refiro-me ao comportamento dos humanos com os próprios humanos. Eles mesmos se eliminarão, seja com bomba, poluição ou criminalidade nas ruas e bancos. Não precisamos interferir. É só esperar. Na Argélia, alguns caras fanáticos ganharam mas não levaram uma eleição. Estão degolando centenas de pessoas nas aldeias mais afastadas. Vítimas, inclusive crianças, que em nada contribuíram para a ilegalidade política. Também estupram mulheres jovens, antes de matar, porque ninguém é de ferro. E matam a machadadas. Nossas primas argelinas é que se deliciam com esses humanos do capeta, nossos preparadores do terreno.
— Com relação a nós — ele prosseguiu, porque sentia-se especialmente inspirado — e aos ratos, por exemplo, esses canalhas resistentes, mas de visão curta, que também nos atacam quando esfomeados, eles, humanos, são muito eficientes... Bem, eficientes em termos, porque soube que no prédio do Pentágono havia uma praga de milhares de baratas americanas, nas barbas deles, exímios guerreiros de computador que são. Sim, os humanos sabem matar, mas, felizmente para nós, odeiam-se mutuamente. Amam-se nos pequenos intervalos da vida, mas, quando contrariados, odeiam-se. Basta discordar e o cara está ferrado. Pai odeia filho e vice-versa. Uma beleza.
— Desculpe, mas não é bem assim... — ela sentia um prazer sutil quando achava uma falha nos argumentos dele . — Alguns humanos não são agressivos nem mesmo com nós. Semana passada, eu e mais umas cinquenta amigas estávamos fofocando no teto da tubulação de esgoto da rua quando um trabalhador da rede pública desceu até ali por uma escadinha. Vendo-nos a poucos centímetros de sua cabeça, gritou para alguns colegas que estavam logo acima, no nível da rua: — “Tudo bem, pessoal! Não há perigo!”. E começou a trabalhar na tubulação, sem nos causar qualquer dano. Um santo! Fiquei muito comovida. Quase voei nos lábios dele para lhe dar um beijo... Realmente os humanos são surpreendentes. Nem sempre são maus.
Glutof sorriu, superior, divertido com a inocência da companheira: — Então a lindinha pensou que ele te poupou porque gostou de você? Nada disso, candura. Ele te deixou viva porque o fato de haver baratas na tubulação significa que por ali não há gases tóxicos. Justamente quando não há baratas é que existe o perigo. Se há, podem trabalhar sem susto. Só nos poupam quando somos úteis, manjou?
— Caramba, eles não dão ponto sem nó... — Desconcertada, ela coçou a primeira axila direita, como sempre fazia quando sentia-se ridicularizada. — Como você sabe das coisas... Por que, com toda essa sabedoria, não organiza um ataque em massa contra os humanos? Eles são medrosos. Comem muito e têm a vida mansa. Já vi um homenzarrão pular como um macaco, apavorado, só porque havia duas baratas dentro da camisa, que ele vestiu no escuro. Ou porque uma inocente coleguinha nossa voou e entrou casualmente dentro da boca de um velho. Ele praticava exercícios respiratórios, com a boca aberta, fazendo profundos movimentos de inspiração. Foi realmente o beijo da morte. A pobrezinha foi cuspida como se fosse uma coisa nojenta, e esmigalhada! O mais espantoso é que o velho, em seguida, foi rezar! Pode?!
— Sei que o homem é medroso, mas tem a tecnologia da morte. Numa guerra, seríamos derrotados. Ganharíamos umas mínimas escaramuças iniciais, dando apenas alguns sustos. Voando, por exemplo, nos olhos, ou na boca, ou escondendo-nos dentro das cuecas de alguns figurões, vibrando as asas perto do... você sabe onde... Mas seria só isso, sustos, coisinhas. No máximo alguns enfartes porque esses importantões, cheios de poder, pizza, lasanha e filé mignon estão com os tubos... — como é que chamam, mesmo? Ah!, artérias! — igualmente cheios de gordura. A natureza nos foi madrasta. Nem ferrão nós possuímos...
Glutof fez uma pausa involuntária. Estava emocionado com seus pensamentos, quase chorando. Lamentou não estar sendo visto e ouvido, naquele momento, por muitas baratas, porque a dor moral autêntica, na política, é coisa rara. Sua eloquência, sincera e triste, estava sendo desperdiçada. Mas precisava aproveitar o embalo. Quem sabe diria coisas interessantes. Por isso prosseguiu:
— Se fosse possível uma mutação genética direcionada nesse sentido, dando-nos armas naturais, por exemplo, veneno, como nas aranhas... Mas essas mutações ocorrem sem nenhum controle. Agora nós temos apenas inteligência, mas você já percebeu que nem todos. Estamos muito longe de manipular a engenharia genética. Sem mãos, seres pequenos que somos, o que podemos fazer por enquanto? Apenas pensar e nos organizar. E esperar que eles se matem, o que é quase certo. Para os que gostam de ação, tiveram o IRA, o ETA, o Oriente Médio, eterna fonte de ódio, guerra comercial entre os maiorais, etc.  Jamais chegarão, assim espero, a um acordo de convivência porque a cobiça por terras, petróleo e poder não deixam. A paz não interessa, no fundo. Todos aqueles chefões, terroristas e antiterroristas, não vão jamais se conformar em retornar à vidinha pacata, sem brilho, chata, ganhando pouco, batendo ponto em fábrica, escritório ou repartição. Iriam lá trocar uma vida excitante, cheia de charme ideológico, dinheiro fácil e mulheres, por ofícios tais como carteiro, cozinheiro, comerciário, comerciante, feirante, etc.? Uma desmoralização!
— Mas, meu bem, alguns explodem junto com as bombas. Parecem idealistas.
— Certo, certo... mas só os tolinhos... Os intelectuais, os chefões, jamais fazem isso. Soldado do terror, explode; general do terror não explode. Jamais! A não ser de raiva! Afinal, “a causa” precisa de seus “potentes” cérebros. Correto? Por outro lado, a ala oposta, que andou dispersa pelo mundo, imaginava o quê? Que iriam retomar a antiga terra, a Palestina, milênios depois, expulsando os locais de turbantes, colonizando e ficando com tudo, sem qualquer reação? Não sei, eles que são humanos que se entendam. Ou melhor, que não se entendam nunca! São nossos votos.
          — Além disso — prosseguiu —, não esquecer a sacrossanta AIDS, néctar dos deuses! É uma praga do bem, o nosso, que, espero, faça uma grande limpeza porque somos a ela imunes. E as drogas, então, essa nossa aliada vingadora, que quando pega não larga mais! Fracos como são, e sabem que o são, os palhaços humanos ainda as experimentam, só para “conferir” e constatar depois que a coisa era como diziam, vicia. Talvez para passarem malandramente à condição de vítimas, coitadinhos, viciados. No fundo uma boa, pois aí todo mundo paparica eles. Viciado não precisa trabalhar, nem estudar, nem fazer coisa alguma. Precisa só continuar viciado. Um achado! E por falar em achado, eu já tomei meu porre involuntário, pois, quando chega a polícia, a primeira coisa de que o traficante se lembra é de jogar o pó branco na privada e dar a descarga. Sem a mínima preocupação com a nossa saúde, pois vivemos no esgoto. Eu vi aquele pó clarinho boiando e logo pensei que era açúcar. Meti a boca e chupei. Quando dei por mim, estava fogueteando pelas paredes e desafiando ratões para sair no braço.

             — Não esqueçamos — ele prosseguiu — a maravilhosa infecção hospitalar, um dos poucos segmentos em que podemos colaborar pessoalmente para o êxito de nossa causa. Estamos organizando cursinhos de orientação sobre como chupar a gaze infectada e em seguida beliscar a comida dos doentes. Principalmente das criancinhas, porque é melhor matar o inimigo no ovo. Enquanto as faxineiras fingirem que limpam o chão dos hospitais e seus chefes fingirem que as fiscalizam — pois na verdade têm medo delas, o receio de parecerem “autoritários” — as coisas irão às mil maravilhas. Mas, voltando ao que dizia antes, nós, baratas, precisamos, acima de tudo, é disfarçar a nossa recente inteligência. Contei o caso do Tico?
— Acho que não... Você fala tanto, meu bem, que eu às vezes fico tonta...
— Em você isso é normal... O Tico é também uma barata, amigo meu. Foi um dos primeiros mutantes. Mas em lugar de disfarçar, bancando o burro, cedeu à tentação de se exibir. E acabou mal, claro. Uma noite, enveredou por uma longa tubulação que não conhecia — ah, o apelo do desconhecido! — muito longa mesmo, e desembocou num ralo da cela solitária de um presidiário. Quando o preso o viu, teve uma ideia: — “Vou amestrar esta barata... De outro modo, enlouqueço. Tenho ainda três anos para cumprir”.
Glutof prosseguiu : — Esse preso havia assassinado, a mulher pensando que ela o traíra — e estava certo — mas depois pensou que estava enganado — e não estava —, mas aí já era tarde. O sofrimento na cadeia tornou-se duplo porque estava arrependido. Assim, pacientemente — já fora amestrador de cães —, ensinou o Tico a escrever pensamentos famosos de grandes retardados, isto é, de filósofos humanos. O Tico enfiava a perninha num tinteiro e tascava um pensamento profundo. Às vezes, misturava as fontes, mas quem é que ia conferir? O fato de uma barata escrever já era um fenômeno.
— Como é que esse tal de Tico se rebaixava tanto?! Filósofos humanos! Dá até nojo!
— Por interesse, claro. O Tico logo aprendeu as frases acacianas, mas disfarçava a sua rapidez no aprender porque cada vez que ele escrevia um pensamento filosófico, ganhava uma guloseima. Assim, comilão como ele só, esticou quanto pôde o seu aprendizado, fingindo assimilar com vagar. Não podia exibir sua genialidade sendo uma barata. Ele era mais inteligente que seu professor. Se ele já escrevesse tudo, de cara, só comeria uma única vez. E nisso se passaram meses. Aí, como ainda lhe faltava muito tempo para sair, como  “reeducando” — outra estupidez porque na cadeia ninguém se modifica para melhor, só para pior — ensinou Tico a dançar de pé nas patas traseiras.
  Glutof fez uma pausa, esfregando umas pernas nas outras e prosseguiu: — O prisioneiro ensinou ao Tico algo espantoso: dançar o “cancã”, igualzinho àquelas bailarinas francesas, dando enérgicas pernadas que muitas vezes levavam o Tico ao chão. Afinal, nossas perninhas curtas não foram feitas para o “Folies Bergère”. Se a natureza nos deu seis pernas, como se virar com apenas duas? E o Tico, extremamente vaidoso, já por iniciativa própria, sentindo-se o máximo, virava-se de costas para a plateia imaginária e fremia as asas, empinando o traseiro, igualzinho às bailarinas que levantam a saia e mostram o “bumbum”. Acho que o presidiário chegou a pensar que o Tico era uma fêmea. E, terminada a exibição, Tico curvava-se em reverências, mandando beijinhos para a plateia e gritando com voz afeminada, quase inaudível: — Je vous aime! Je vous aime! Penso que, com um pouco mais de ensaio, o Tico cambiava de sexo.
                 — Meu bem, desculpe interromper. Estou preocupada com a hora... Você não acha que já devíamos estar em casa? Daqui a pouco os ratos começam a acordar. Diga logo como terminou a história de seu amigo.
— Terminou que, finda a pena, o preso deixou a cadeia, levando o Tico no bolso do paletó, dentro de uma caixinha. Ia procurar um empresário. Contava ficar rico porque jamais, jamais, em toda a história do show business, houve um espetáculo semelhante. Ganharia rios de dinheiro. Mas, infelizmente, a coisa não deu certo.
 — Já sei, já sei! — Kiti se antecipou, eufórica, batendo palmas. — O empresário tapeou o Tico!
 — Não! Caramba! Como funciona a tua mente! Que alegria torpe! Não, foi algo muito pior. O ex-presidiário fazia um tempão que não tomava uma cerveja decente, bem geladinha. No presídio conseguia, no máximo, uma “Maria Louca”, digna do nome porque, na sua composição, entra até verniz. Assim, dirigiu-se a um bar a fim de se deliciar com uma “loirinha”. Mas acabou bebendo quatro ou cinco copos. E não resistiu à ideia de fazer uma pequena exibição. Tirou a caixinha do bolso, mandou o Tico sair e o colocou em cima do balcão. Ia mandá-lo dançar e chiar uns trechinhos da canção “La Vie en Rose”. Chamou o barman com um “psiu!” e, orgulhoso, meio embriagado, indicou o Tico com o dedo, enquanto perguntava “Tá vendo?” Mas o barman, um bronco, tão logo viu aquela barata cascuda no balcão, a esmagou com um estrondoso tapa. Vê se pode... E assim, bestamente, morreu um grande artista. Quando nós, do Comitê, soubemos do caso, baixamos instrução proibindo, até segunda ordem, qualquer demonstração de inteligência na presença de humanos.
— Que estória mais triste... Um mártir! E como reagiu o ex-presidiário?
— Pulou o balcão na hora e esganou o barman, chorando e gargalhando como um louco. Foi o caso de reincidência criminal mais rápido da história da Criminologia. Criminólogos, desconhecendo nossa mutação, gastaram rios de tinta dissertando sobre o caso, até sugerindo possíveis ligações passionais e freudianas entre um homem e uma barata, que simbolizaria a própria mãe. Tudo consequência do isolamento brutal no regime carcerário. Fizeram até analogias com um tal de Kafka, um maluco que escreveu besteiras sobre um cara que se deitou como homem e acordou como barata, ou inseto. Como se fosse possível um aperfeiçoamento tão súbito. Ninguém acreditou na estória do Tico de que a barata dançava cancã e cantava em francês.
— Se dominarmos a Terra, você deveria, para homenagear esse herói, instituir um “Prêmio Tico”, o equivalente ao Oscar humano. Eu mesmo gostaria de concorrer. Adoro o palco, qualquer palco...
— Não é o seu caso, mas todo ator só pode ter mau caráter. Como é possível passar a vida toda fingindo sentir o que não sente, sem ter um parafuso frouxo, pelo menos no caráter?
— Estou começando a ficar zonza. Você é tão profundo que após uns dez minutos, escutando-o, sinto um torpor... Vou dormir um pouco e depois assistir um jornalzinho na televisão para me atualizar.
— Cuidado, não acredite muito em jornais! A imprensa também é ... — ele se interrompeu porque viu que Kiti roncava suavemente.
Sentiu pena dela. Parecia tão tolinha e desamparada... Delicadamente a despertou. Já tinha passado da hora de voltar.
Enlaçados, caminharam lentamente na direção do buraco embaixo da pia da casa em que viviam. Sem perceber que dois ratões esfomeados, de olhos maus, vinham logo atrás, na ponta dos pés, já salivando com as “tâmaras” que consideravam no papo.
Kiti, mais leve, menos glutona, escapou milagrosamente do ataque, mas perdeu duas pernas, uma antena e uma asa. E chorava, de luto, no dia seguinte, no enterro do marido. Ou melhor, das duas coxinhas cabeludas e uma asa, o que restou do grande líder, “Glutof, o Libertador”, que já ingressara na história.
Mas ela estava grávida e, logo, logo, todos aqueles projetos de heróis, ainda dormindo nos ovos, nasceriam e substituiriam o pai na criação heroica de uma nova civilização.

             FIM


Observação: 

Este meu conto, ou fábula, foi redigido cerca de dez anos atrás e publicado em meu antigo site.Como não foi difundido, dei uns pequenos retoques e agora o republico porque é uma espécie de súmula — gaiata, porém verdadeira —, da evolução do mundo, vista pelos mais pessimistas. Ou realistas.