segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O enforcamento de Saddam.


(Este artigo foi escrito em janeiro de 2007 mas como não foi promovido, poucos o leram. Penso que conserva alguma atualidade, nas suas considerações).

Qual a “seriedade” de nossos sentimentos e julgamentos? Quase nenhuma. Flutuamos, em nossas opiniões, ao sabor dos ventos. E não se trata tanto de volubilidade de caráter. Mesmo gente “firme” muda de opinião, conforme o que lhe transmitem os sentidos, notadamente a visão — não a razão mais profunda. Por vezes, aquele homem “firme como uma rocha” não altera seu parecer porque não quer ver abalada sua reputação. Mudou, mas só poderá dizer isso em doses homeopáticas. Fica menos vexatório assim. Se trocar bruscamente de opinião, mais de uma vez, como ficarão aqueles, bem mais “borboletas”, que dele dependem psicologicamente? É por isso que Margaret Thatcher dizia que o político não pode ficar no meio da estrada. Não pode ser meio de direita e meio de esquerda. Se agir desse modo, “justo em excesso” — expressão minha, não da Thatcher —, será atropelado pelos veículos das duas faixas. “Não podemos contar com essa besta...”, murmura o colega de partido. Isso porque somos noventa por cento emoção.

 Conhecem aquelas birutas dos aeroportos? Somos muito parecidos.   Marionetes das impressões que chegam ao nosso computador de carne, principalmente as visuais. Isso significa que se fossem diferentes as imagens recebidas — meras imagens — nossa opinião seria talvez oposta. Não é estranhável isso nos orgulhosos e “lógicos” campeões da evolução biológica e cerebral do nosso planeta? Afinal, raciocinamos com a mente ou com olhos e ouvidos? Um choro de mulher muda muita coisa...

Sempre fui favorável à pena de morte, embora não disposto a mover uma palha para que ela vigorasse no Brasil. No “olho por olho” há uma proporcionalidade justa, embora primária, com um efeito intimidativo útil, quando a pena é cumprida à risca e com pouca demora. Ocorre que é uma punição que passou de moda, soa como peça de museu de horrores.  Parecia-me, no entanto, que a aversão que ela desperta origina-se da circunstância das execuções terem sido filmadas e exibidas ao público, sem o “contraditório visual” da cena da vítima sendo esfaqueada, estuprada, martelada, queimada viva ou morta a cacetadas, conforme o caso. Achava que se aparecesse na televisão, juntamente com a cena da execução, a cena — com atores profissionais — da vítima apavorada e ensangüentada, a “biruta” da indignação mudaria totalmente de direção. Aplaudiríamos até mesmo a forca.

Saddam foi enforcado. Parecia ser um decisão justa, pois matou milhares. Todavia, quando assisti — houve uma filmagem não autorizada —, pela internet, seus momentos finais, praticamente mudei de opinião sobre a pena capital. E depois de duas horas mudei de novo após ler a lista de suas maldades e ver fotos de crianças e mulheres curdas “gasificadas”. Meus olhos mandavam em mim mais do que a razão. Decidiam por mim? Alguns anos atrás, assistindo parcialmente um júri, ouvi um eloqüente criminalista, Waldir Troncoso Peres, perguntar aos jurados — sem esperar resposta, claro — se algum deles já havia entrado na casa de um ladrão. Referia-se, presumo, ao ambiente de miséria de um ladrãozinho barato e não agressivo, com família para sustentar. Patrão inflexível que entre, por acaso, na moradia do ascensorista de sua empresa talvez sinta imediata vontade de lhe aumentar o salário. Só porque entrou na modesta habitação. É o olho, é o olho...

Admitido que a condenação de Saddam foi “legal” — embora melhor teria sido se julgado por um tribunal internacional, sem juízes inimigos — foi-lhe negado, censuravelmente, o pedido de morrer fuzilado. Ele queria morrer como soldado. A forca, no seu país, é reservada aos criminosos. Bush poderia ter satisfeito seu desejo, pedindo ou pressionando o governo iraquiano nesse sentido. Alegou — a meu ver falsamente —, que a legislação local determinava que a execução previa a morte por enforcamento, e “dura lex, sed lex”. Falsamente, porque Bush não é assim tão fanático na obediência às leis, notadamente as internacionais.

Não acredito que a justiça iraquiana teria coragem de negar esse pedido dos Estados Unidos, que praticamente montaram o tribunal, escolheram e treinaram seus juízes, todos presumíveis inimigos do réu. Não consta que sunitas figurassem entre os julgadores. Além do mais, leis podem ser mudadas. A Bush interessava mais um Saddam enforcado que fuzilado. O tempero gostoso da humilhação. Só que, pelo simples detalhe do enforcamento, notadamente filmado, mais soldados americanos morrerão, vitimados por explosões oriundas do ódio exacerbado dos seguidores do líder derrotado. A generosidade do vencedor para com o vencido, mesmo com fins obviamente políticos, sempre gera simpatia. Mas é preciso alguma inteligência para perceber isso e Bush dá o que tem.

Faço aqui um confissão um tanto exótica: quando Saddam foi retirado do buraco em que se refugiara — estratégia nada inteligente, alguém acabaria revelando o segredo... — senti a tentação de me oferecer como mais um dos advogados que integrariam seu grupo de defesa. Como advogado poderia, sem infração da ética profissional, me oferecer como defensor, desde que não cobrasse pelo serviço.  E, como eu, certamente pensaram centenas de advogados do mundo inteiro. Medalhões e ilustres desconhecidos em busca de “vitrine”. No meu caso, buscaria o “frisson”, a excitação de fazer parte de um julgamento de tal envergadura. Naquela época, uma das filhas de Saddam estava na Síria. Obtendo o e-mail da embaixada ou consulado do Iraque na Síria seria, provavelmente, possível fazer chegar a ela meu oferecimento, mais um entre centenas. Evidentemente, eu teria que me limitar a sugerir algumas abordagens de defesa, pois não falo árabe e meu inglês é suficiente apenas para ler, não para falar fluentemente. Se conseguisse evitar a pena de morte já seria uma vitória excepcional, porque Saddam realmente cometeu muitos crimes.

Se tivesse participado — mera elocubração — da equipe de defesa, teria sugerido as seguintes atenuantes: a) Saddam teve uma infância difícil, onde não faltaram espancamentos, vindos de um padrasto meio sádico que não lhe poupava varadas. Isso deforma o caráter de um menino, com reflexo na idade adulta; b) o Iraque é um Estado artificial, “montado” pelos ingleses após a 1a.Guerra Mundial, sem nenhum respeito à natureza dos três grupos que integram o país: xiitas, curdos e sunitas. Argumentaria, mera comparação, que se tivesse sido criado, pela força, no início do século XX, um “país” composto de ingleses, franceses e alemães, certamente apenas um punho de ferro, extremamente temido e implacável, conseguiria governar essa salada indigesta, impedindo que esses três povos se digladiassem continuamente; c) o Iraque era — ainda é, os americanos constatam isso ainda hoje — uma mistura incontrolável de antagonismos fomentados pela grande mestra das discórdias insolucionáveis pela argumentação lógica: a religião. Qualquer coisa você pode discutir neste planeta, exceto a religião. O que contraria nossa religião é considerado desrespeito ou insulto. Saddam — eu diria aos juízes —, só poderia manter “ordem na casa”, essa casa artificial, pelo temor e uso efetivo da força bruta, caso desobedecido; d) diria que quando os curdos tentaram matá-lo, em uma visita, Saddam raciocinou que se não “punisse” fortemente o atentado, estaria desmoralizado, estimulando novos atentados contra sua pessoa. Por isso, não conseguindo saber exatamente quem participara do grupo conspirador, mandou matar número indeterminado de pessoas; e) diria, ainda, que no Oriente Médio, essa prática de punir pessoas indeterminadas — quando não se sabe exatamente quem praticou um atentado —, é ainda hoje prática rotineira. É o caso dos israelenses, embora em menor escala. Quando vítimas de um atentado terrorista palestino, revidam bombardeando e demolindo casas que apenas presumem abrigar terroristas, ou amigos, ou parentes de terroristas, mesmo que nesses revides morram inúmeros civis inocentes. Eu diria que essa é a forma usual, embora primitiva, de se “fazer justiça” no Oriente Médio. E Saddam era um governante nessa região, governando um país especialmente complicado, mesmo para a região. Pensa-se, no Oriente Médio, que se não houver um “castigo exemplar” para cada atentado — pouco importando a “culpa” individual dos fulminados —, estimularemos novos atentados, seremos rotulados de “fracos”.

Saddam não era flor que se cheirasse. Faltava-lhe um ingrediente indispensável ao grande estadista: um certo grau de bondade, ou empatia, mesmo usada com moderação, como tem que ser em assuntos de Estado. Sua única virtude era a coragem, que tinha, ou aprendera a ter, em excesso. Subiu à posição política máxima não por sua inteligência, que era bem mediana, mas por sua bravura, que exibiu até o último momento, recusando o capuz do carrasco e insultando-o. Valente até com a corda no pescoço. Fosse mais inteligente, teria pensado melhor antes de invadir o Kuwait. Aliás, dizem os historiadores que Sadan, após uma conversa com uma diplomata americana, pensava que os Estados Unidos apoiariam discretamente a invasão. E, fosse ele mais inteligente, não teria se refugiado num buraco, em terreno tomado pelo inimigo. Talvez sua coragem — não fugindo do Iraque — tenha atrapalhado a já medíocre inteligência de que dispunha. Possivelmente, queria manter-se não muito longe do invasor, pretendendo liderar um movimento de resistência. Para isso precisava ficar por perto, mesmo numa toca. E essa coragem, nada inteligente, foi sua perdição.

Como se vê, até as virtudes — no caso, a coragem — precisam ser utilizadas com moderação. A própria esperteza, quando em excesso, prejudica, dizia Tancredo Neves. A coragem é uma virtude. Churchill dizia que a coragem é a mãe de todas as virtudes porque sem ela todas as demais virtudes não se manifestam. Com algumas operações plásticas, e vivendo em algum país árabe, Saddam poderia estar hoje vivo e fazendo o que mais gostava: brigar. No vasto frigir internacional dos ovos, e vistas as coisas no longo prazo, sua morte provavelmente ajudará na pacificação do mundo, embora, no curto prazo, acrescente algumas labaredas na já grande fogueira do Oriente Médio.

Fica aqui minha despedida ao hipotético e virtual ex-cliente que, pelo menos no item bravura, merece o respeito normalmente devido aos mortos.

                                                                                  Francisco Pinheiro Rodrigues (19-01-2007)













Interrogatórios e depoimentos pessoais.


(Tenho no mínimo duzentos artigos publicados mas não promovidos. Como o que não foi lido é como não tivesse existido, tomo a liberdade de publicá-los novamente, quando o assunto é de interesse geral. Escrito em outubro de 2006).

Nunca me conformei com a sub-utilização, pelos magistrados, dos contatos diretos, em audiência, entre o juiz e o réu — nas ações penais —, e as partes — quando necessário — nas ações cíveis. Interrogatório e depoimento pessoal são encarados, usualmente, mais como meras formalidades do que como fonte valiosa para o conhecimento da verdade dos fatos que originaram o processo. O juiz parece pensar que é inútil perguntar ao réu — na maioria dos casos é do réu que se trata — o que ele fez, ou o que realmente aconteceu, porque ele jamais dirá qualquer verdade que o prejudique. Assim, por que perder tempo?

Essa conclusão, no entanto, é equivocada.

Fiquemos, inicialmente, na área cível. Embora eu tenha permanecido na magistratura apenas 22 anos e meio — digo “apenas” porque colegas meus nela ficaram por mais de 40 anos, e só nela não continuaram em razão da “expulsória” — tenho a convicção de que em pelo menos 80% dos casos em que converti o julgamento em diligência, consegui extrair a verdade diretamente da boca da parte que não tinha razão. Muitas vezes vi o advogado do depoente cobrir, disfarçadamente os olhos numa postura que significava: “Esse meu cliente é uma besta... Como pôde admitir isso? Acabamos de perder a causa...”

 Para que determinar o depoimento pessoal finda a instrução da causa, quando o momento processual “normal” seria fazê-lo apenas na audiência de instrução e julgamento, como prevê a lei processual?

A explicação é que somente após encerrada a instrução dispõe o juiz de várias informações valiosas sobre os fatos, o que não ocorria antes. Em conseqüência, pode fazer aquelas perguntas mais perigosas, que “acertam na mosca”. Além do mais, nas questões cíveis, a parte que depõe é geralmente uma pessoa de honestidade, digamos, mediana — não vamos aqui exigir a santidade. Sendo uma pessoa pelo menos “normalmente” honesta, ela se acanha de negar frontalmente a evidência, ou pedaços de verdades praticamente irrefutáveis. Respondendo às perguntas do juiz e estando presente o advogado da parte contrária — que sabe o que aconteceu — o depoente imagina que ficará desmoralizado e ridicularizado mentindo deslavadamente, insistindo, qual um palhaço de circo, que o preto é branco ou vice-versa. Imaginará que a parte contrária vai caçoar dele depois da audiência, espalhando que para poupar algum dinheiro ele rebaixou-se moralmente, “agachou-se”, o que afronta o seu orgulho. Que ele não queira, por exemplo, pagar o que deve, ou que queira retardar o cumprimento de sua obrigação é humano, não vexatório. Mas mentir deslavadamente perante outras pessoas que sabem que ele está mentindo — o juiz (que praticamente já formou sua convicção, tanto assim que converteu o julgamento em diligência para “arrancar” a confissão), o advogado da parte contrária e a própria parte contrária, já é exigir demais do orgulho humano.

Quando as perguntas do juiz cível, alicerçadas em fragmentos da prova oral ou documental, são por demais pertinentes, o depoente que não está com a razão só escaparia da mentira deslavada se se recusasse a responder. Mas aí seu silêncio implicaria em confissão quanto à matéria de fato. Não querendo isso, tenta “dourar a pílula”. E aí é que “se dana”, como diz a linguagem popular. Querendo emprestar alguma verossimilhança à versão apresentada na contestação, ou na inicial, ele admite coisas que seu advogado, se previamente consultado, jamais permitiria.

O depoimento pessoal, se colhido por quem leu atentamente os autos, tem sua eficácia persuasiva auxiliada pela “linguagem do corpo”, principalmente dos olhos. Mas às vezes das botas. Certa vez, em uma cidade do interior, interrogando um cidadão de botinas que mentia deslavadamente, tive que afastar minha cadeira da mesa, tal o perigo de levar algumas “caneladas” involuntárias. Cada vez que o depoente mentia, sua consciência reagia com um forte protesto neurológico que descia pela espinha até o calcanhar, ameaçando a integridade de qualquer canela vizinha. E os repelões também apareciam em movimentos inquietos na cadeira, que parecia cheia de pregos. No fundo, esse depoente não era um marginal, porque sua consciência conservava uma certa integridade, tanto assim que reagia fisicamente escoiceando à própria mentira. Já um velho estelionatário, com a consciência amortecida por anos de falsidades, pode mentir com tranqüila desenvoltura. Em questões cíveis, felizmente, as partes são pessoas não acostumadas a mentir continuamente. Daí sua utilidade depois de finda a instrução, quando permanecem algumas dúvidas na cabeça do magistrado.

Há algo, porém, que diminui a utilidade desses interrogatórios: a vontade do juiz em provar que é esperto, inteligente. Quando ele pega o depoente em uma contradição, em vez de simplesmente ditar, sem destaque, a resposta, ele faz questão de verbalizar que “pegou o depoente em uma contradição”. Aí o depoente, percebendo o próprio “escorregão” corrige o que disse antes, dizendo, por exemplo, que entendeu mal a pergunta, ou se expressou incorretamente. E essa correção tem que constar do termo. Com isso, o valor negativo indiciário da contradição perde força — pelo menos no julgamento da apelação —, porque o tribunal não terá certeza, julgando o recurso, se houve apenas uma distração ou imprecisão verbal do depoente, ao afirmar ou se contradizer, ou se houve falha do juiz ao ditar o depoimento. O recomendável, portanto, é o juiz — qual um bom jogador de pôquer — passar por crédulo e ditar ao escrivão o que ouviu. A contradição, não corrigida, o ajudará na fundamentação da sentença.

Na área criminal, o interrogatório tem sido ainda menos útil. Com o intenso movimento forense, o juiz não tem tempo de ler com cuidado os autos do inquérito policial, antes de interrogar o réu. Assim, só pergunta, praticamente, o que a lei manda perguntar. Se quiser “arrancar” a verdade mais a fundo — mesmo sem qualquer ameaça de violência — terá desvantagem nesse “diálogo” inicial, porque o réu conhece os fatos muito melhor do que ele. Se o juiz, finda a instrução, convertesse o julgamento em diligência, para novo interrogatório do réu, esse ato — embora autorizado, em tese, pela legislação — seria considerado um quase “massacre” dos acusados, aumentando a superlotação das cadeias. É que o juiz estaria enfronhado nos fatos, e o defensor não pode se intrometer no interrogatório, exceto para impedir que o réu seja ameaçado, sofra violências, ou caso o juiz dite, no termo de audiência, algo diferente do que disse o réu. E se o acusado é instruído para nada responder ao juiz, essa conduta representa um risco, uma indireta admissão de culpa. O juiz, queira ou não a doutrina, extrai do silêncio o que achar que deva extrair. Sua convicção é livre. E todo advogado prefere que seu cliente seja absolvido já na primeira instância.

A velha discussão sobre se o interrogatório é meio de prova ou de defesa, tende a ser superada. O interrogatório é tudo: meio de prova, de defesa e de acusação. Mais de defesa, mas, ao se defender, o acusado pode, involuntariamente, fornecer a melhor prova de acusação. E a comunidade, se consultada, não concordaria com a assertiva, usualmente feita, de que o acusado não tem necessidade de mover uma palha em favor de sua inocência. O sentimento popular mais esclarecido é francamente favorável a que o réu também colabore na demonstração da verdade, não tendo o direito de ficar mudo e de braços cruzados quando fortes indícios, comprometedores, apontam em sua direção. O povo ainda tende a pensa que “quem cala consente”. E é salutar, para a democracia, que as decisões judiciais tenham uma certa sintonia com aquilo que o povo espera da Justiça. Esta não pode curvar-se à demagogia, aos “arreganhos” populares — por vezes “fabricados” pelos donos da mídia —, mas também não pode ser vista como uma entidade totalmente estranha ao mundo real.

Quanto ao depoimento de acusados, nas CPIs, a legislação, ou a jurisprudência, não deveria permitir que o depoente a todo momento consultasse seu advogado. Afinal, trata-se de um depoimento “pessoal’, não “bi” ou “tri” pessoal, um advogado em cada lado do cliente dizendo como responder. Afinal, quem está sendo interrogado? O depoente ou seu advogado? Quando há contínua interferência do advogado, qual a utilidade do depoimento? Nessa ventriloquia ridícula, melhor será que o advogado diga ao cliente para não responder nada e ponto final. A Comissão conclua como quiser. É pelo menos algo franco e direto.

                                                                                       Francisco Pinheiro Rodrigues (2-10-06)







 



domingo, 9 de fevereiro de 2020

O julgamento da “suspeição” de Moro pelo STF



A qualquer momento a 2ª. Turma do STF decidirá, em habeas corpus requerido a favor de Lula, se o então juiz Sérgio Moro era juridicamente “suspeito” ao julgar e condenar o ex-presidente no caso do tríplex de Guarujá.

 Caso o Supremo decida pela suspeição, será anulada a condenação de Lula nas três instâncias em que, por unanimidade, foi considerado culpado. Um imenso esforço judicial — com inegável contraditório em juízo — será anulado por causa de três hackers, criminosos confessos, que ilicitamente gravaram conversas e mensagens entre juiz e promotor — e cerca de mil pessoas que trocavam ideias livremente, pensando estar em um país que protege a privacidade de seus cidadãos.

Quem foi o bobo que disse, pela primeira vez, que “o crime não compensa”? Ele estava errado. No Brasil compensa. Vale mais, para vencer uma complexa demanda, contratar um hacker, acoplado a um “difusor” — que divulga umas partes e esconde outras —, que um ótimo advogado.

Pelo andar da carruagem constata-se que a “prova seletiva” do hacker, mesmo sendo juridicamente nula, tem mais efeito concreto, decisório, que dezenas de páginas de argumentação jurídica no lugar certo: nos autos do processo judicial, não na fase do inquérito.

É um paradoxo judicial que um ato nulo possa ter, eventualmente, um efeito decisório com força equivalente ao da coisa julgada, caso apreciada em última instância, irrecorrível.

Se o juiz Moro, na primeira instância, era eventualmente suspeito ao examinar a prova colhida em juízo — a única que importa para condenar ou absolver qualquer réu — como se explica que os três magistrados que julgaram a apelação e os outros que julgaram o recurso ao STJ, não perceberam erros no julgamento de Moro? Será mera coincidência o convencimento unânime quanto a culpa do acusado?

Tais julgadores são, por acaso, analfabetos funcionais? Ou porventura os advogados de Lula eram tímidos, ou incapazes de argumentar contra as deduções do juiz que condenou o generoso cliente?

Ninguém pode dizer isso de boa-fé. Nas audiências televisionadas os defensores argumentavam com pertinácia e habilidade, tentando extrair água das pedras. Não conseguiram mais porque as “pedras” eram secas, objetivas, ingratas. Por isso, adotaram as alternativas do mantra genérico do “é golpe” e da provocação do juiz, na esperança de desequilibrá-lo emocionalmente. Se Moro passasse a gritar, nervoso, ameaçando o réu, ou seu advogado, com a prisão por desacato, quem sabe — pensavam —, conseguiriam trocar o juiz, obtendo um julgador menos familiarizado com os métodos de enriquecer rápido sem ser descoberto. Seria a glória. Só que não deu certo. Moro conseguiu manter a serenidade, sem elevar a voz.

A defesa fez o impossível para salvar o cliente. Lula chegou a perguntar a Moro, com estudada tranquilidade — um Freud pernambucano —, se ele, quando chegava em casa, tinha coragem de se olhar no espelho. Moro, em lugar de responder que quem deveria se olhar no espelho era quem perguntava, não se exaltou. Não caiu na armadilha, e, no caso, não adiantaria prender Lula, por desacato, porque ele já estava preso.

Espera-se — como mero parêntese —, que jovens advogados brasileiros que começam a trabalhar na área penal não fiquem entusiasmados com a essa “inovação técnica” de defesa, gritando e “interrogando” o juiz visando tirá-lo do caminho, com isso conseguindo rápida troca e visibilidade profissional. E se o juiz substituto não fosse tímido ou indeciso o suficiente, por que não repetir a dose da provocação e substituição de juiz até encontrar um magistrado temeroso, ao gosto da defesa?   

Como Lula já está solto e o propósito básico do “habeas corpus” (“tenha, apresente o corpo”) é a liberdade física, pessoal —, não se sabe se a Suprema Corte julgará — corretamente — prejudicado o pedido de Lula, arquivando o HC, ou continuará — erradamente — o julgamento só para decidir sobre a suspeição do juiz que o condenou.

A rigor, o pedido de suspeição apresentado em um HC que perdeu seu objeto — a liberdade do réu —, não tem a mínima razoabilidade ou condição jurídica de prosperar porque qualquer estudante de direito sabe perfeitamente que em habeas corpus não cabe examinar com exaustão provas ainda discutíveis, incertas. Ainda mais no caso do tríplex do Guarujá, em que a condenação do réu foi confirmada na apelação e em recurso especial ao STJ.

O habeas corpus, em matéria de prova, assemelha-se ao mandado de segurança, que exige, para sua concessão, um “direito líquido e certo”, isto é, um direito facilmente comprovado, emergente de uma situação de fato em que não caiba qualquer dúvida. No caso da condenação de Lula, a “prova” da suspeição — frases esparsas, contestadas pelo juiz e pelo promotor— ainda permite dúvidas, porque as gravações, ainda não foram periciadas. Quem detém o material ilícito — o jornalista americano Glenn Greenwald — nega-se a apresentá-lo, alegando “sigilo da fonte”. Que sigilo? Que fonte? Todo mundo sabe quem fez as gravações, as três “fontes”.

Impossível saber, por enquanto, se o trio criminoso que confessou a colheita do material gravado tem, ou tinha, à época, uma competência técnica capaz de fazer montagens e simulações de voz.

A criminalidade eletrônica é engenhosa e aumenta rapidamente, visando a “nobre arte do mal”, atormentando a população honesta que sente-se cada vez mais indefesa, temendo abrir qualquer mensagem ou entrar em um site aparentemente do seu banco. Se entrar, pode perder suas reservas financeiras com um clique. Tem que viver assustada e grudada no celular porque se o aparelho estiver desligado, ou sem carga — no momento em que o setor do cartão telefona para consultar sobre movimentações suspeitas — sua conta pode estar sendo esvaziada .

 Está cada dia mais perigoso clicar no computador ou conversar no telefone. E todo cidadão tem, teoricamente, o direito à privacidade. Isso não existe mais, para “glória” dos hackers, sempre na dianteira da lei, que diz, inutilmente, que uma escuta ilegal “não tem valor”. Tem, pelo menos na área judicial — justamente onde não deveria —, se o STF vier a anular condenações em três instâncias, com base em escutas ilegais ainda não periciadas.  

Com o progresso da tecnologia sabe-se que gravações podem ser manipuladas. Até que ponto, só um especialista pode dizer. Em tese, palavras podem mudar de posição, alterando o conteúdo. Seria o caso das gravações em discussão? Somente com o exame do conjunto das gravações é que poder-se-ia chegar a uma conclusão.

Diz o art.158 do Código de Processo Penal que “ Quando a infração deixar vestígios, será indispensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado.”

Ocorre que Greenwald recusa-se a mostrar seu material criminoso por inteiro. Considerando-se que Greenwald apresenta-se como um grande idealista, paladino da verdade, por que ele não apresenta as gravações, ou pelo menos uma cópia fiel e completa?

Será porque nelas se verificarão cortes, interrupções e outros detalhes, mostrando que houve manipulações? Ou será porque no conjunto das gravações haverá frases altamente prejudiciais à defesa do réu, reforçando sua culpa? Ou talvez serão frases de magistrados da alta cúpula que, divulgadas, os tornem suspeitos ou impedidos de julgar a eventual suspeição do juiz que primeiro condenou o réu?

Fossem as conversas ouvidas involuntariamente, por mero acaso — por exemplo, linhas cruzadas em que uma pessoa ouve a confissão de um crime que foi atribuído a um inocente — elas poderiam ter validade, porque não houve má-fé na escuta. Mas não foi esse o caso. As escutas foram montadas com o específico intuito criminoso, de “pescar”, durante horas e dias as conversas particulares de dois profissionais que visavam uma investigação bem feita, isto é, que, pudesse ser confirmada em juízo. E ela foi confirmada, com o contraditório, por todos os magistrados que julgaram o mesmo processo.

Isso é o que vale, o que está nos autos, e não nos diálogos particulares. Se todas as pessoas fossem julgadas pelo que conversam livremente nos telefones, particularmente, metade do planeta estaria presa.

Se um juiz, no recesso do lar, no jantar, conversando só com a esposa, respondendo a sua pergunta indagando se ele iria condenar um ganancioso estelionatário, ou serial killer de crianças, ele dissesse à mulher: — “Já o condenei! Redigi a sentença hoje mesmo! Apliquei a pena mais alta possível. Vou tirar esse canalha de circulação por milênios!” e alguém tivesse ilegalmente, a pedido do réu, colocado um gravador por baixo da mesa em que jantavam, esse desabafo emocional, depois divulgado, anularia sua sentença se ela estivesse fundamentada nos autos, com provas, indícios e defesa jurídica normal?   

Cabe, aqui, uma conjetura indiscreta, mas justificável ante a gravidade do perigo iminente de se inutilizar, no STF, o mais importante processo criminal das últimas décadas, no Brasil, na luta contra a corrupção.

Se, eventualmente, nas centenas de gravações em poder de Greenwald houver frases desinibidas de magistrados da instância máxima conversando entre si, ou com advogados de defesa amigos, revelando raivosas críticas ao ex-juiz Moro e/ou profunda amizade pelo réu Lula, esses sentimentos os tornariam suspeitos para decidir sobre a suspeição do juiz?

A conjetura é incômoda, mas juridicamente pertinente porque a suspeição de magistrados vale para toda a magistratura, de todas as instâncias, não só na primeira. Frise-se que, ocorrendo substituição de ministros tecnicamente suspeitos, o resultado da votação da suspeição de Moro poderia ser diferente da hoje previsível, com imensa repercussão em muitos julgamentos futuros. A Lava Jato poderia continuar firme, ou se tornar um “faz de conta”, conforme a composição votante.

Desnecessário detalhar aqui os nomes e a opinião de quatro ministros do STF na repulsa, ou ódio contra o ex-juiz Sérgio Moro e à Lava Jato. Seus votos, ouvidos nas sessões de julgamento, quando o tema é Lula, são bem previsíveis, de tal maneira o julgamento foi politizado.

Por exemplo, um dos ministros mais hostis ao Moro e a Lava Jato, Gilmar Mendes, proibiu, com liminar, até a investigação sobre a participação de Glenn Greenwald na “recepção, obtenção ou transmissão” das informações publicadas no site que fundou, o The Intercept Brasil”. É o que nos informa o jornal Estado de S.Paulo de 07/02/20.

Como consequência dessa proibição, um juiz da Justiça Federal do Distrito Federal, lendo uma denúncia apresentada pelo MPF, contra sete pessoas — incluindo o jornalista —, recebeu a denúncia somente contra seis deles, excluindo, “por hora”, o jornalista, tendo em vista a proibição de Gilmar. Como a liminar está em vigor, o juiz achou prudente não tumultuar os procedimentos. Na sua decisão escreveu que vê “dúvida razoável” sobre se a decisão do ministro impediria o recebimento da denúncia ofertada pelo Ministério Público Federal contra o jornalista. A liminar de Gilmar ainda não foi julgada pelo Tribunal. E não se sabe quando será porque não há um STF, mas onze Supremos.

Houve, no caso, por parte de Gilmar Mendes, um pré-julgamento de uma investigação sobre um crime que esclareceria se Greenwald foi um mero receptor idealista, um planejador ou  um  incentivador de conduta criminosa, porque escuta ilegal é crime.

Se Moro for considerado suspeito, no julgamento de um HC sem objeto, a única coisa boa que pode resultar desse julgamento será o fortalecimento da tese de que o STF precisa ser reformulado, com urgência, quanto aos critérios de nomeação e prazo de permanência de seus ministros, porque a vitaliciedade estimula o abuso, inerente a todo ser humano, com ou sem toga.


O lado ruim da decisão de que Moro é suspeito será a não percepção de que o trabalho desse juiz deve ser julgado pelo “conjunto da obra”. Não tivesse agido como agiu, com a necessária “dureza”, bilhões não teriam sido devolvidos pelos réus condenados, e outros bilhões continuariam sendo escoados pelo grande ralo do dinheiro desviado.

Parar uma longa tradição de dolo ou tolerância no desvio de dinheiro público exigiu coragem — até de vida —, perspicácia, imensa, paciência e espírito público. Para mim, Moro deve ser visto como aquele modesto juiz que apoiou a ânsia de justiça da maioria do povo brasileiro cansada de ver a corrupção em toda parte. Sonhou que, ao contrário da Itália — que voltou atrás na “limpeza das mãos” — o Brasil conseguiria afastar a desculpa do tradicional “ele rouba mas faz”.

A obrigação do político é fazer, mas sem roubar”.

(08/02/2020)

domingo, 26 de janeiro de 2020

Juiz de garantia é presente de grego


                                                                                                                                                                         Foto: Getty Images 

(Sobre o “regalo” equino leiam o final do artigo)

No dia três de janeiro corrente tuitei: “O juiz de garantia, criado pela Lei 13.964/19, é um traiçoeiro "Cavalo de Troia" na luta contra os crimes do colarinho branco. Será um reizinho, anulando investigações, concedendo habeas corpus na fase de investigação, etc. Será muito mais poderoso que o juiz do processo. Enterrará a Lava Jato”.

Como no Twitter o espaço é restrito, sinto-me na obrigação de fundamentar minha opinião, como mero cidadão, alertando que na redação da lei que criou o “juiz de garantia” ficou comprovada a intenção de “escorregar”— para dentro de uma lei que deveria ser “contra o crime” —, algumas facilidades “garantistas” que visam, no fundo, proteger os autores desses mesmos crimes, quando descobertos.

Concordo com o velho ditado popular que não se mexe em time que está ganhando. A Lava Jato até o momento vinha ganhando o “primeiro tempo” da luta contra o tenaz “clube da corrupção”, recuperando milhões de dinheiro público desviado.

Isso nunca foi conseguido antes no Brasil. Significou risco de vida, ou pelo menos de reputação, para quem primeiro —, Sérgio Moro —, se atreveu a usar as armas jurídicas imprescindíveis para barrar um tipo de criminalidade só vencível com alguma audácia jurídica.

Considerando a enorme dificuldade em combater as complexas transações bancárias e informáticas que facilitam os crimes financeiros — exigindo meses de investigação, até no Exterior — seria necessário que o juiz de tais processos mantivesse provisoriamente presos os investigados para que revelassem quando, onde, o que, quanto e quem participou dos esquemas de enriquecimento, rápido ou mensal, mas sempre vultoso. Um pensador antigo, não me lembro qual, já ponderou, séculos atrás, que “quem quiser enriquecer em um dia será enforcado em um ano”.

O juiz de garantia, tal como configurado na lei 13.964/19, funcionará, na prática — caso ele seja um petista apaixonado, mesmo não sendo corrupto —, como uma espécie de advogado de defesa dos infratores de alto gabarito. “Cortará as asas” dos agentes da lei, do delegado e do promotor — profissionalmente interessados em descobrir a realidade fática de crimes — e não moverá um dedo para corrigir as eventuais omissões de delegados temerosos de serem removidos para lugares distantes, caso se mostrem “investigativos demais”.

Essa lei só se preocupa em cortar excessos investigativos, mas nada prevê contra omissões — involuntárias ou propositais —, que só protegem o investigado. E o juiz que vai processar e julgar o caso sentir-se-á travado, porque não pode, legalmente, interferir na atuação omissa ou voluntária do colega de profissão que está apenas arruinando uma investigação. Seria malvisto para o juiz que vai julgar a acusação, na fase judicial, ficar o tempo todo enviando mensagens à cúpula judiciária criticando um colega. O mesmo ocorre com o promotor que estiver funcionando no inquérito. Se ele quiser pressionar o juiz “garantista” para que faça direito o seu trabalho, que colha tal prova antes que ela desapareça, como resolver o impasse entre esse juiz e o promotor? Essas divergências sobre busca das provas no inquérito criará uma série de conflitos que só irão retardar um procedimento já demorado demais com as atuais “quatro” instâncias de julgamento.

Quem redigiu — ou melhor, alterou —, a Lei 13.964/19 parece não entender qual é a função do inquérito policial. O inquérito não é uma investigação concebida para ser “simpática”, “socialite”, defensora de distintos cidadãos suspeitos de cometeram crimes, em especial os financeiros. Não pretende fazer justiça total antes que o caso chegue à fase judicial. Atualmente, antes da aplicação dessa estranha lei, quando no inquérito fica comprovado que o suspeito é evidentemente inocente, vítima de uma calúnia, por exemplo, o delegado reconhece isso e o suspeito nem chega a se tornar réu.

 O inquérito policial é, por natureza, unilateral, “desconfiado”, “bisbilhoteiro”, sem medo de investigar ou desagradar. Nele não há espaço para funcionar como se fosse um prévio e exaustivo “contraditório administrativo” antes do contraditório propriamente dito, o judicial, que só existe após o recebimento da denúncia. Se no inquérito houve abusos, violências, falsidades, etc., esses abusos serão discutidos e corrigidos na fase judicial, com amplo contraditório. Não há “contraditório” em inquérito. Lembre-se ao leigo que não é possível, legalmente, condenar alguém só com as “provas” contidas no inquérito. Se neste houver alguma prova contra o indiciado — não confirmada depois, em juízo —, o réu não será prejudicado por ela.

No inquérito — mesmo hoje, antes da lei em exame estar sendo aplicada —, se houve espancamentos, tortura física ou mental, pau de arara, privação do sono, de alimentação, ou tratamento desumano, a justiça intervém, e pode prender o policial, o delegado ou o próprio promotor, caso tenha participado do evidente abuso.

O Min. Gilmar Mendes, notório inimigo da Lava Jato, argumentou em um julgamento visto na TV, que Sérgio Moro, quando juiz, mandava prender o investigado para coagi-lo a delatar seus cúmplices. Isso, segundo Gilmar, seria uma forma de “tortura”.

É descabida, data vênia, a comparação do ministro porque quem aparentemente desviou milhões do governo automaticamente “torturou” número indeterminado de pessoas, embora sua intenção criminosa tenha sido apenas enriquecer ilicitamente. Poderia, no máximo, tal prisão cautelar — censurada por Gilmar Mendes —, configurar um “constrangimento”, fruto, porém, de uma situação causada pelo próprio infrator, que não deveria, por mera cobiça, ter desviado enormes recursos financeiros que, se aplicados no lugar certo, alimentaria melhor as crianças pobres, ampliaria o saneamento básico, a segurança, a instrução pública e o padrão de vida dos menos favorecidos.

Uma vida de pobreza, com humilhações diárias, já é, por si só, uma forma de “tortura” silenciosa. “Tortura” que pode resultar até em morte, por exemplo, quando um doente, dispondo apenas do SUS para se tratar, não é atendido com a necessária rapidez, por escassez de médicos, e por isso morre antes de ser medicado. Houve, neste caso, uma espécie de “tortura indireta” com resultado morte, causada pela carência de recursos, desviados por quem se apoderou do dinheiro público. Lembre-se, sempre, que a Lava Jato só conseguiu as condenações mais importantes porque conseguiu delações de investigados presos, delações comprovadas em juízo, segundos os magistrados que julgaram os casos em duas ou três instâncias.

É quase impossível descobrir a ponta do fio da meada sem a ajuda de algum participante, do esquema criminoso. Foi assim na Itália, na luta contra a Máfia, e no Brasil, na luta contra o Mensalão e o Petrolão.

O dinheiro furtado dá mil voltas, no país e no exterior, fugindo da luz em grande velocidade e o sigilo bancário é protegido pela lei. Os “laranjas” às vezes nem sabem direito o que têm nos bancos. O fatiamento do cobiçado “salame” monetário, para não aparecer na conta corrente, obriga o transporte de malas de cédulas e a polícia não tem como abrir toda mala que vê pela frente. Quem afirma, a sério, que a confissão e a delação só podem valer, judicialmente quando resultam do santo arrependimento — sem a mínima pressão do medo —, vive no mundo da lua. Quando o enriquecimento ilícito não é descoberto, ninguém se arrepende. Pelo contrário, quer mais. É uma “doença”, como já admitiu um ex-governador do Rio de Janeiro, condenado a centenas de anos.

Uma coisa é certa: se não tivesse havido prisões cautelares — provisórias e preventivas, na Lava Jato, possibilitadas pelas “delações premiadas”, o dinheiro desviado não teria sido devolvido. E o Brasil continuaria como o campeão mundial da impunidade, refúgio tão comum que até figurava, poucos anos atrás, nos roteiros cinematográficos como sinônimo de paraíso.

A Lava Jato, ao tempo de Moro, foi muito criticada porque fazia uma condução coercitiva, não precedida de uma intimação para o suspeito comparecer à delegacia em determinada data e hora para prestar “esclarecimentos”.

Sejamos realistas. Se sempre assim agisse a polícia, apenas intimando para futuro depoimento, é claro que o intimado, sabendo-se infrator, imediatamente procuraria um advogado criminalista que logo o orientaria sobre como melhor proceder. Fugir? Permanecer em silêncio? Destruir provas? Jogar toda a culpa em outra pessoa?

Lembre-se que a missão essencial do criminalista é livrar o cliente de qualquer punição. Se isso não for possível, amenizá-la. Não tem qualquer compromisso com a verdade. Se necessário, pode inventar álibis. Tudo isso é normal na profissão, em todo o planeta. Já o delegado, o promotor e o juiz, têm uma missão institucional diferente: a busca da verdade. Delegados, promotores e juízes não ganham um “bônus” financeiro quando condenam alguém. Já o advogado ganha a vida favorecendo seus clientes, claro. Só buscam a verdade se estão convictos de que o cliente é inocente, o que é mais raro. Se só perde causas, com a mania de não querer mentir, terá logo que mudar de profissão.

 Em suma, se houve eventualmente provas falsas, na fase do inquérito, essa injustiça será corrigida em juízo. Ela não se sustentará, golpeada pelo contraditório, na primeira ou na segunda instância, onde termina o exame da matéria de fato. Daí a necessidade de prestigiar a condenação de segunda instância.

O leitor pode alegar que tanto o delegado quanto o promotor e o juiz podem, eventualmente, estar interessados apenas em, prejudicar um acusado sabendo que ele é inocente. Se essa anomalia ocorrer existe a segunda instância, com mais de um juiz para julgar o recurso. Não é possível imaginar que toda a magistratura esteja combinada para prejudicar pessoas inocentes.

 A vigência da Lei 13.964/19, no item juiz de garantia, é um retrocesso. Provocará imenso retardamento e confusão nos procedimentos criminais. Criará uma espécie de “5a. Instância”, com a peculiaridade aberrante de ser a primeira dos “cinco degraus” de julgamento.

Na verdade, o juiz de garantia pode se tornar o primeiro e único degrau de julgamento, dispensando os outros quatros, tradicionais, porque, não havendo um inquérito bem feito, não haverá sequer denúncia. Morre tudo antes de ser examinado pelo poder judiciário.

Por outro lado, se o juiz de garantia for eventualmente severo e considerar que o delegado e o promotor são preguiçosos, e apenas “fingem investigar”, pretendendo — ele, o juiz de garantia — um aprofundamento da investigação, esse juiz não poderá tomar diligências para corrigir a omissão do delegado e do promotor, porque diz o Art. 3º-A da Lei 13.964/10 que

 “O processo penal terá estrutura acusatória, vedadas a iniciativa do juiz na fase de investigação e a substituição da atuação probatória do órgão de acusação”. Isto é, se o delegado e o promotor são omissos, o juiz de garantia não pode colher prova contra o indiciado, por sua própria iniciativa, suprindo a inércia daqueles dois. Como se vê, a cobertura de proteção do investigado, nessa lei, é total, quer o delegado seja muito severo, quer seja omisso.

Outro imenso poder conferido ao juiz de garantia está na possibilidade dele

“ IX - determinar o trancamento do inquérito policial quando não houver fundamento razoável para sua instauração ou prosseguimento”. “Fundamento razoável” é muito vago. Em mãos erradas, monocráticas, com convicções políticas influindo na profissão, poderá gerar divergências que precisarão da solução de um terceiro, que certamente não será do juiz do processo judicial. Mais demora para terminar um processo criminal já muito longo antes da referida lei.

Para arrematar a demonstração da confusão dessa Lei 13.964/19, mencione-se que, segundo ela, cabe ao juiz de garantia, no Art. 3ºB, item XIV,

“decidir sobre o recebimento da denúncia ou queixa, nos termos do art. 399 deste Código”.

Hein? Pela mais elementar lógica, caberia a uma outra pessoa, ao juiz do processo judicial, receber ou rejeitar a denúncia, não ao juiz de garantia que, é claro, sempre acharia correta sua própria atuação quando a supervisionava o inquérito.

O juiz de garantia tem, nessa lei, tantas funções, tanto poder, que é inadequado dizer que ele apenas visa coibir excessos. Ele é o excesso em pessoa. Tem o poder de cortar abusos do investigar demais e do investigar de menos. Torna-se uma espécie de instância única, podendo gerar discordâncias entre juiz e promotor que terão a forma de recursos judiciais e que levarão talvez anos para serem solucionados antes da persecução penal entrar na fase judicial.

Em suma, a justiça, em todos os países, deve ser e parecer severa. Não só na letra, na legislação, como na sua efetividade, nos tribunais. Se a lei é aparentemente “dura” mas na prática, é vista como “mole”, omissa, confusa, a ausência de medo cresce e todos os crimes prosperam. É o que acontecia no velho oeste americano, quando enforcavam ladrões de cavalos não por causa do caráter dos ladrões, mas para que os cavalos — único meio de transporte nas vastas pradarias — não fossem roubados.

E por falar em cavalo, para os jovens que nada sabem sobre o tal “Cavalo de Troia” — ficção ou realidade? —, basta dizer que houve uma guerra que durou cerca de dez anos — entre 1.300 e 1.200 a.C., entre Esparta e a cidade de Troia, por causa de uma princesa, Helena, de irresistível beleza, esposa do rei Menelau, de Esparta.
 Ela foi raptada ou seduzida por um príncipe troiano, de nome Páris. Os soldados de Esparta tentavam invadir Troia — hoje está em solo turco —, para recuperar a sequestrada, mas não conseguiam por causa dos altos muros que rodeavam a cidade. Até que um grego esperto mandou construir um enorme cavalo de madeira no qual havia partes ocas, onde ficaram escondidos soldados espartanos. O cavalão foi colocado perto dos altos portões da entrada da cidade e os espartanos se retiraram. Aparentemente.

Os troianos, cansados do longo assédio, pensaram que o cavalo era uma oferta de paz.  Aliviados, puxaram o “presente” para o interior da cidade. Era o que queriam os espartanos. Na madrugada, saíram dos esconderijos, mataram as sentinelas, abriram as portas da cidade e os espartanos não só ganharam a guerra como também queimaram a cidade e mataram os homens.

 Essa estratégia, descrita por Homero, simboliza a astúcia de quem presenteia, aparentando amizade, mas com malévolas intenções. É o caso do “Juiz de garantia”, uma lei que aparenta maior rigor contra o crime em geral, mas, na realidade — queiram ou não seus defensores — protege a criminalidade do colarinho branco, inclusive pelo grande aumento da demora.

Alguém pode perguntar: — Por que os gregos escolheram, como presente, um cavalo e não um burro, ou hipopótamo, por exemplo? Porque os troianos tinham a reputação de serem especialistas em domar cavalos. Os gregos utilizaram o ponto fraco do seu alvo, a novidade de agradar um inimigo simulando ser amigo, como aconteceu com a implantação do juiz de garantia, bom apenas em tese, mas um desastre na presente conjuntura, infestada de hackers que só trabalham para um dos lados. A prova ilícita nada vale, juridicamente, mas tem um efeito psicológico concreto superior à cláusula pétrea.

Desculpem o bom humor, depois de tanta seriedade.

(26/01/2020)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

O congelamento de pessoas e o transhumanismo.

Sobre dois livros: “Criônica” e “A morte da morte”.


                   Quando Alberto Santos Dumont, em 23 de outubro de 1906, nos campos de Bagatelle, Paris, conseguiu erguer no ar seu fantasmagórico e desajeitado "14–Bis", não podia imaginar que naquele momento lançava as sementes de um futuro ramo do Direito, o Aeronáutico, aceito como autônomo nas mais recentes constituições brasileiras.

                   Espantoso é saber, hoje, que no segundo voo, em 12 de novembro no mesmo ano, o aparelho percorreu 220 metros, em 31 segundos, na "vertiginosa" altura de dois metros. Foi o primeiro voo controlado do homem. Uma velocidade — 37,50 km/h — “ligeiramente” inferior, claro, à do "tataraneto" do "14-Bis", o supersônico Concorde.

 A evolução, como se vê, foi rápida. Já em maio de 1927 Charles Lindbergh realizava, sozinho, a primeira travessia aérea do Atlântico, no sentido oeste - leste, a comprovar a velocidade criativa do ser humano, pelo menos na área técnica.

                   Quem, eventualmente, assistiu algum filme documentário sobre a história dos foguetes certamente terá se espantado com o desnorteamento desses primeiros artefatos que, contrariando os cálculos dos engenheiros, mais pareciam gigantescos busca–pés sem vara, destituídos da mais remota noção do lugar em que poderiam cair. 

Nesses antigos documentários é impossível deixar de rir — não obstante o trágico da situação — quando se observa a velocidade de fuga das pernas dos técnicos, engenheiros e operários — muito superior, no chão, à do "14 – Bis", no ar. Filmados de certa distância, os homens parecem formigas desesperadas, fugindo do provável local de impacto da máquina louca e mortal, porque carregada de combustível.

                   Não obstante este difícil começo, em 1969 a "Apollo 11", nave tripulada, pousava no Mar da Tranquilidade, Lua. Algo, inicialmente, para muitos — mesmo com formação científica — inconcebível, porque os foguetes espaciais não possuem aletas, que possam influir no seu direcionamento. No vácuo as aletas são inúteis. Como já observou alguém, o ar é inimigo do foguete e o vácuo é inimigo da aeronave. 

Não esquecer que quando o foguete é acionado, o nosso planeta não está imóvel. A velocidade de rotação da Terra sobre seu próprio eixo é de quase 1.700 Km por hora. Só não somos centrifugamente "cuspidos" para o espaço por causa da gravidade. Um mínimo erro de cálculo no projeto de voo à Lua e a tripulação da espaçonave perder-se-ia no imenso vazio, numa viagem sem volta. Como calcularam, sem erro, tal viagem? Hoje, a tarefa é café pequeno, comparada ao projeto de enviar nave tripulada ao planeta Marte.
                    Os "malucos" do foguete — não esquecer o principal, o alemão Von Braun — não estavam interessados, em plena guerra, nas potencialidades pacíficas do artefato para exploração do universo, encarando-o apenas como um míssil para matar e destruir alvos distantes. No entanto, passada a guerra, o invento — como toda invenção — mostrou-se uma grande conquista da humanidade.

                    Von Braun era tão importante para os previdentes norte-americanos — que pouco sabiam, então, da tecnologia dos foguetes — que as bases de lançamento das "V-2" (foguetes que castigavam Londres na 2ª Guerra Mundial) deveriam ser destruídas  pela aviação inglesa, mas poupados os dormitórios que abrigavam os cientistas, detalhe que dificultava a tarefa dos pilotos britânicos, obrigando-os a se aproximar perigosamente na seleção dos alvos. Mas os ingleses, embora contrariados com a restrição, provaram ter boa pontaria. Von Braun e seus colegas não morreram nos bombardeios e, finda a guerra, foram requisitados para trabalhar nos Estados Unidos, apressando a conquista espacial.

                    Um outro avanço tecnológico que, suponho, ainda vai abalar nossa civilização — talvez em escala muito mais profunda que a invenção do avião e do foguete —, está na utilização do frio como forma de preservação de corpos humanos, afetados por graves acidentes ou moléstias no momento incuráveis. Se bem conservados, e depois bem ressuscitados, nada impediriam que voltassem a viver e se tratar com uma tecnologia muito mais adiantada.

Se não nossos filhos, pelo menos nossos netos bacharéis terão que coçar a cabeça e criar normas jurídicas para disciplinar o espinhoso campo da criogenia, ou criobiologia, no item de conservação de seres humanos em temperaturas extremamente baixas, para descongelamento futuro. Haverá, consequentemente, no futuro, um "Direito Criônico".
                     A conservação, pelo frio, de frutas, carnes, peixes, sêmen, ou óvulos fertilizados é, hoje, rotineira. Tais atividades referem-se à criogenia. Todavia, para a "ciência", ou técnica — ainda incipiente — de conservação de seres humanos não foi ainda cunhado um específico termo, no nosso idioma. E o caminho natural para esse "batismo" parece ser o aportuguesamento da palavra inglesa "cryonics", adotada por Robert Ettinger, professor de Física norte americano, no seu livro "The Prospect of Immortality", publicado em 1964. O acesso a informações sobre esse tema, na Internet, só era possível, quinze anos atrás, digitando-se a palavra  "cryonics".

    "Criônica", portanto, será a provável denominação dessa novíssima área de pesquisa. De qualquer forma, a palavra é o que menos importa.
Mesmo o leitor mais tolerante deve estar se perguntando: — O que leva o autor deste artigo a procurar tão esdrúxula matéria? Não estaria o tema melhor localizado em uma revista de Ficção Científica?

Realmente, o assunto cabe em vários espaços. Inclusive no jornalismo, na religião, na filosofia, na política, na psicologia, em tudo.

 Vários meses atrás li, nas notícias internacionais de um jornal paulistano, que uma senhora inglesa, portadora de doença incurável — a notícia era muito sumária —, havia procurado uma firma especializada em congelamento de seres vivos em nitrogênio líquido — 196 graus Celsius negativos. Essa senhora pretendia manter-se congelada até o momento em que a ciência estivesse em condições de, não só curar sua doença, como também de reparar os danos causados pelo prolongado congelamento.

Dizia ainda o jornal que o preço exigido para a conservação do corpo dessa senhora era elevadíssimo. Não dispondo da quantia, ela — muito imaginativa e curiosa sobre o futuro —, contratou a empresa para que conservasse apenas sua cabeça ("neurossuspensão"), o que implicaria na redução dos custos. Confiava, certamente, na possibilidade, embora remota, de "transplante de corpo", porque para ela o importante não era seu corpo, mas a cabeça, o cérebro. Quem sabe, pensava, poderia, “ver”, pessoalmente, outros planetas, em futuras décadas.

Aparentemente, referida senhora pagou caro pelo seu impulso, porque alguns anos depois, no Arizona, EUA, uma entidade denominada "Alcor Life Extension Foundation" cobrava muito menos a conservação de um corpo inteiro. Redução que parece ser um grande avanço, em termos de incentivo à difusão da ideia e presumindo-se que se trate de entidade séria. O exótico da iniciativa, por si só, não implica em desonestidade da empresa, que não sei se ainda existe, porque frequentemente presenciamos novidades impensáveis poucas décadas atrás. E pelo que tenho lido, um grande entusiasmo contagia os poucos interessados em transformar a mera possibilidade em realidade.

                   Como se tratava de uma notícia sobre fato real, não uma brincadeira de ficção científica, ou literatura de horror — a menos que se cuidasse de pouco provável irresponsabilidade do jornal —   interessei-me pelo problema como tema para futura obra de ficção, sem pensar em múltiplos desdobramentos.

                   Procurando material informativo, a primeira providência natural seria dirigir-me às livrarias especializadas em Medicina, mas as funcionárias de plantão nem mesmo sabiam do que se tratava. Desconheciam até as palavras criogenia e criônica.

                    Através da "Livraria Cultura", que lida com livros importados, fiquei ciente da existência de um livro, "The First Immortal" ("O Primeiro Imortal"), de James L. Halperin, editora Del Rey. Trata-se de um romance, obra de ficção, mas que poderia trazer as primeiras informações. Afinal, seria preciso começar a pesquisa por algum lugar. À míngua de obras "sérias" — jurídicas, nem pensar! — a solução seria começar pelo referido livro.

                        Ao iniciar a leitura não esperava que o autor da obra fosse tão aberto, tão sinceramente entusiasta de um tema cujo simples enunciado provoca imediata reação de incredulidade. O autor mostrava-se absolutamente confiante quanto à real utilidade dessa nova tecnologia, que mexerá com a profunda fome de eternidade que assola o homem desde o momento em que começou a refletir sobre a inevitabilidade da própria morte. Ao contrário de muitos autores que, se "fecham" quando encontram um novo filão, James Halperin menciona, no livro, todas as fontes informativas, possíveis e imagináveis, dando endereços completos e praticamente oferecendo a casa dele para receber as visitas dos interessados no assunto.

Da leitura do livro e de outras fontes, via Internet, conclui-se que as entidades que iniciaram, efetivamente, essa atividade pioneira — ditas sem fim lucrativo, não sei se todas, e que não relaciono aqui porque não visitei pessoalmente nenhuma delas —, admitem que até agora não conseguiram a "vivificação", digamos assim, de nenhum dos "pacientes" (eles utilizam essa palavra, jamais "cadáveres", "defuntos", ou termos semelhantes).

Os adeptos da revolucionária novidade apoiam-se na possibilidade teórica da preservação das células, na temperatura do nitrogênio líquido — 196 graus Celsius negativo, como disse — até o momento em que não só a doença do paciente for facilmente curada como também revertidos os danos causados pelo esfriamento. E com o bônus eventual de um indefinido prolongamento da vida se detido, ou parcialmente revertido, o processo de envelhecimento, pois a longevidade tem aumentado, não diminuído.

Que o frio extremo paralisa a atividade das toxinas destruidoras das células, não é novidade. Em regiões geladas, há casos de pessoas encontradas aparentemente mortas, com grave hipotermia, congeladas por algumas horas, e que, convenientemente aquecidas e com auxílio de medicamentos conseguem voltar ao estado normal. E, como disse, o congelamento de esperma de bovinos e humanos também é procedimento cientificamente banal, não havendo indícios de que bezerros e pessoas concebidas com sêmen congelado sejam, de alguma forma, inferiores àquelas concebidas normalmente.  
                    
O grande problema técnico da criônica — adotemos, pelo menos por enquanto, essa denominação — reside no fato de que a água representa 60% do nosso peso, quando adulto, e 80% quando somos crianças. Essa agua toda está dentro de nossas células. Ocorre que quando essa água celular se congela ela sofre uma dilatação e toma a forma de cristais, dotados de arestas que perfuram a membrana celular.

 Ao que deduzi, no processo de descongelamento do paciente a água da célula vaza pelos “furinhos” ou “estouro” da membrana e, sem água a célula morre. Morre não no início do congelamento, mas no fim do processo. Lembre-se o leitor que com a conversão da água em gelo ocorre um processo de dilatação de seu volume. Nos países frios é comum a ruptura dos canos, nas residências, quando o inverno é especialmente rigoroso.

Tentando minimizar danos celulares, as entidades que atualmente congelam seres humanos retiram o sangue do indivíduo imediatamente após o seu falecimento, injetando em suas artérias e veias uma substância chamada glicerol, que suavizaria o problema da formação dos minúsculos cristais. A seguir impregnam os corpos com anticongelantes, permitindo que a água permaneça em baixíssimas temperaturas, em estado líquido (é, pelo menos, o que pretendiam). Tais anticongelantes exerceriam função semelhante àquela exercida por seus equivalentes usados em radiadores de veículos, nos climas gelados.

A meu ver, o centro do problema, do fracasso — temporário — da criônica está na ausência de uma substância que impeça o congelamento da água dentro das nossas células. Não adianta colocar anticongelantes fora das células, isto é, nas artérias e veias.

Prosseguindo. Os entusiastas da criônica apostam na invenção de uma técnica futura que resolva esse problema dos cristais de gelo no interior das células. Problemas muito maiores já foram solucionados pela humanidade. Por que apenas esse — relativamente mínimo, se comparado à “colonização de Marte — seria insolúvel?

Outra abordagem dos novos desbravadores está na utilização futura da nanotecnia, ou nanotecnologia, isto é, a técnica de construção de "máquinas" microscópicas que, injetadas imediatamente após o descongelamento, reparariam, uma por uma, as células danificadas. Quem, ao que sei, mais desenvolveu as especulações a respeito dessa ultra-revolucionária perspectiva — a nanotecnologia, reconstrução das coisas em nível molecular — é um cientista de nome Eric Drexler, que publicou um livro denominado "Engines of Creation", e um trabalho mais técnico chamado "Nanosystems".

O uso da nanotecnologia ("nano" vem de "anão") para reparação de milhões de células danificadas pelo congelamento já é algo mais duro de "digerir". 
A confecção de tais "máquinas" parece-me coisa para se pensar somente em futuro remotíssimo, bem além de um século. É certo que a engenharia genética já trabalha a nível molecular, alterando a posição dos genes dentro dos cromossomos, mas é pedir demais acreditar que tão cedo se possam criar essas microscópicas "máquinas" — ainda mais feitas com um material mole, as proteínas! —, aptas a consertar, uma por uma, as células danificadas. Para ser um consertador é preciso uma “formação profissional”, difícil até mesmo de se imaginar.

Os defensores dessa nova técnica, a nanotecnologia — que seria, na Biologia, e demais áreas, mais revolucionária que o "chip" do computador — argumentam que alguns seres microscópicos, os vírus, já fazem, “naturalmente”, tais operações celulares, sem qualquer diploma de “formação” universitária. Esses minúsculos seres grudam-se à membrana de uma bactéria, fazem nela um orifício, injetam seus DNA dentro da bactéria e esta passa a gerar não novas bactérias mas novos vírus. Tornam-se "fábricas", ou "úteros", de vírus invasores.

 Como a natureza consegue criar tais engenhosidades é realmente um mistério. Pessoas religiosas têm um nome para isso, Deus, enquanto os cientistas agnósticos ficam pensando, mudos, intrigados com o fenômeno. Parece-nos demais — eu, inclusive — aceitar que nós, humanos, possamos fabricar e instruir uma "maquininha", infinitamente pequena, capaz de “reparar” células danificadas pelo frio, ou provocar a formação de réplicas sãs dessas mesmas células, quando irreparavelmente destruídas.

Parece-nos tarefa científica para um futuro remotíssimo, se é que chegaremos lá um dia. Mas quem arriscaria todo o seu patrimônio na aposta de que tais “maquininhas” não sejam construídas nos próximos cinquenta anos, com a nova técnica da nanotecnologia? Estados Unidos e Japão investem pesado nessa área, o que basta para o cético por suas barbas de molho e não arriscar demais em qualquer aposta com base apenas no genérico bom senso, ou ceticismo.

Nada a opor, entretanto, quanto a essa ambiciosa intenção de utilização da nanotecnologia para o conserto de células danificadas. O mundo nada tem a perder, exceto tempo, com tais projetos e tentativas. Particularmente, arrisco meu palpite mais na possibilidade da ciência resolver o problema da danificação das células congeladas de outro modo: impedindo a formação dos cristais de gelo.

Alguém, com senso prático, poderá perguntar: Como é que existem pessoas, nos EUA. que arriscam seu dinheiro nessa aventura quando os próprios técnicos confessam que a ainda não "ressuscitaram" um só paciente? Nem mesmo um gato foi “revivido”.

A explicação é simples: o alto componente emocional do ser humano. Se o paciente sofre de moléstia incurável — apenas aguardando a morte para breve, com enterro ou cremação —, o percentual da chance de retorno à vida é zero. Se, entretanto, for congelado, e "acordado" daqui a quinze, vinte, quarenta anos, a chance será superior a zero, porque a evolução científica é rápida e imprevisível. Em teoria, pelo menos, é perfeitamente concebível um demorado congelamento, seguido da volta ao "status quo", desde que descoberta a técnica adequada para consertar os danos causados pelo frio. Enquanto perdurar o congelamento não há qualquer apodrecimento dos tecidos. É como um “pause” na TV.

Em 1966 um cientista japonês, Isamu Suda, congelou o cérebro de um gato após impregná-lo com glicerol. Um mês depois, descongelou cuidadosamente o órgão. Submetido a um eletroencefalograma o aparelho registrou “traços” de algumas funções cerebrais. É pelo menos o que diz uma página da Internet, "A Short History of Cryonics", de autoria de Charles Platt. A tese do japonês, segundo o mesmo autor, teria sido publicada na revista "Nature", periódico de bom conceito no campo da Biologia.

Há uma boa justificativa, ou desculpa, para não se descongelar, hoje, pacientes mantidos em refrigeração só para testar se o processo funciona. Trata-se de pessoas portadoras de males incuráveis, quase sempre cancerosas, doença para a qual ainda não existe tratamento seguro. Descongelar pacientes, no momento, a título de demonstração de tese — matando o paciente —, seria irresponsabilidade e quebra de contrato. O compromisso da entidade é de descongelar o “cliente” apenas quando a sua doença for perfeitamente curável, quando será aplicada a técnica capaz de reverter os danos causados pelo frio extremo. É preciso lembrar que o frio extremo também pode provocar fraturas nos ossos.

Ao que dizem os entusiastas da criônica, alguns cães foram descongelados, aparentemente sem dano, mas somente poucas horas após o congelamento. Uma afirmação que se precisaria conferir.

Um problema que ainda amarra a difusão dessa inusitada — os espiritualistas diriam “aberrante” — tentativa de sobrevivência física após a morte está no custo financeiro. Não vou expor neste artigo os problemas financeiros relacionados com o congelamento porque o assunto estende-se longamente no meu artigo de 2005, fatigando demais um leitor já presumivelmente cansado. Não sendo o leitor um financista pessoalmente interessado em investir nesse estranho “negócio”, será previsível que, desesperado, deixe de ler o resto do artigo.

 O mesmo ocorre com o ângulo jurídico civil e penal. O que acontece com os bens do “falecido”, com a herança deixada por ele? Os herdeiros terão que devolver? O paciente congelado estando legalmente “morto”, a viúva pode casar novamente. Se o “falecido” for ressuscitado com sucesso, cabe à viúva escolher com qual marido ficará? Se o “congelado” estava sendo processado criminalmente mas ficar “morto” durante xis anos, seu crime estará prescrito? E por aí vai, em bem mais de dez parágrafos longos e cansativos.

As religiões se levantarão contra a ideia de um eventual “retorno”. Dirão: - " E a alma, como fica? Nos anos de congelamento, por onde andará? Um budista dirá que ela foi reencarnada. Assim, como trazê-la de volta? Abandonado o novo corpo, este ficará sem alma, morto?"

Tudo isso soa como divagação ociosa, um quase insulto à inteligência. Mas tenho certeza que a humanidade — melhor, uns poucos obcecados — persistirão nesse caminho que ainda vai conseguir “acordar” pessoas após longo congelamento. Se vai ser recomendável, socialmente, não sei. Mesmo porque, dando certo, surgirão novos problemas, inclusive de aumento populacional. O que pode frear o desenvolvimento dessa atividade é a perspectiva, cada vez maior, de a engenharia genética alterar o processo de envelhecimento, fazendo com que as células se renovem como se integrassem um organismo jovem.

Uma coisa é certa: o homem anseia pela imortalidade. Da forma que for possível. Espiritual ou material. Atualmente, apenas espiritual — mesmo porque não há outra alternativa. Agora, com este mero aceno de uma quase eternidade biológica, centenas ou milhares de pessoas ricas tentarão embarcar nessa aventura, desde que economicamente viável. Assumirão o risco, pura e simplesmente. Inclusive o de "acordar" em um mundo totalmente diferente, o que para muitos é algo excitante, não triste. Presumem que o "novo mundo" será menos hostil que o atual, porque mais civilizado. Algo assim como homens e mulheres da idade da pedra acordando em pleno centro refinado de Paris.

Sempre existiram e existirão os aventureiros. Os vikings arriscavam-se pelos mares sem grandes cautelas, até mesmo desconhecendo a bússola. Saindo de barco pelos mares levavam um determinado pássaro dentro de uma gaiola. Quando longe demais da costa, meio perdidos, utilizavam a “bússola biológica”: soltavam o pássaro. Este voava, inicialmente também incerto, mas logo sentiam alguma coisa e voava, confiante em direção à terra mais próxima, salvando a vida dos marinheiros.

Para muitos, a vida é excessivamente curta. Mesmo agora, com uma expectativa média de setenta e cinco anos. Até os vinte anos o "cavalinho" humano galopa alegremente pelo mundo, relinchando e escoiceando de alegria — isso se tiver tido sorte na "escolha" dos pais antes de nascer; ou, com a sorte de nascer com ótima inteligência e energia. Depois, cai na dura luta pela sobrevivência. Luta para sustentar a família, raramente trabalhando no que realmente gosta. Entrando na aposentadoria, poderia fazer o que realmente sempre quis, mas aí constata que suas forças estão em clima de fim de festa, acenando adeusinho em despedida. E morre frustrado.

A criônica será essencial para a conquista do espaço. Para o homem atingir outros sistemas solares, mesmo da nossa galáxia, terá que tripular as naves espaciais com pessoas de extrema longevidade, tendo em vista as enormes distâncias. E nenhum cosmonauta espera dormir, “míseros” trezentos ou quatrocentos anos enquanto espera chegar a outro corpo celeste.

"Ars longa, vita brevis", foi sempre a queixa dos artistas. E não se argumente que nossos filhos e netos terminarão as obras por nós iniciadas. Não! Eles nascem com outros interesses. E têm direito a isso. O pai é, digamos, um grande cientista, com longo projeto de trabalho pela frente. O filho, porém, prefere passear de moto, escrever versos, construir prédios, desenhar carros, chutar bola ou ser um prêmio Nobel.

Cada geração que vem ao mundo é uma nova invasão de bárbaros, já disse alguém. O trabalho do cientista será, talvez, terminado por um estranho. E muito depois da morte do grande sábio, porque o sucessor não vinha tão "embalado" quanto o falecido. Mesmo um médico, interessado apenas em sua profissão, dificilmente poderá abarcar todo o conhecimento médico de nossa época. E essa limitação, para alguns, "dói". 

Se há quem repreenda essa excessiva curiosidade intelectual, outros a defendem, dizendo que tais curiosos são o sal da terra.  Outros gostariam de dominar várias línguas. Para gente tão curiosa nossa atual extensão de vida é insatisfatória. Há quem goste de viver, aprender e produzir coisas do mundo do espírito. Disposto a lutar por uma duração muito maior que a atual. Quem quiser morrer, que morra logo; ele, não!

Até agora a "eternidade" estava restrita à alma, ou memória. Deixar um bom nome na face da terra. Escrever um grande livro, pintar um quadro famoso, compor música inigualável, ser indicado para um "Oscar". Pelo menos uma placa de rua, ou um banco de cimento, com seu nome, na pracinha do interior. Ou, até mesmo, paradoxalmente — se não houver outra alternativa —, cometer um crime que lhe dê notoriedade, mesmo negativa. Uma forma de continuar “vivendo”, pelo menos na memória de alguém.

O homem não aceita é a ideia do nada. Principalmente do “seu” nada. Revira-se como que inquieto na tumba, meio descarnado, fedendo, rilhando os dentes, falsos ou verdadeiros, só em pensar que ninguém se lembrará dele como uma pessoa importante, de algum modo.
Assim é a humanidade. E por isso não tenho dúvida de que, mais cedo ou mais tarde, aqui mesmo no Brasil, surgirão as entidades — honestas ou desonestas, como em tudo o mais — que explorarão esse anseio jamais satisfeito por uma vida bem mais longa e certamente mais promissora, em tempos desconhecidos. Se o “cliente” vai acordar — se acordar — meio abobado, paciência. É o que possivelmente acontecerá nas primeiras tentativas da criônica. E as companhias seguradoras estarão de olho nesse novo mercado.

Faço aqui, encerando, um acréscimo ao artigo que redigi e publiquei por volta de 2005. Esse acréscimo relaciona-se com o problema da inexistência de uma técnica que impeça a formação de gelo dentro das células do paciente congelado para ressuscitação anos depois, quando sua doença estiver derrotada pela medicina futura.

Cerca de dois anos atrás, a mídia revelou que rãs das regiões próximas do Polo Norte ficam congeladas, praticamente mortas, no inverno, mas ao chegar a primavera, acordam lampeiras, serelepes, procurando comida e sexo. O organismo delas produz uma espécie de açúcar que impede que o frio intenso congele a água de suas células. Se algum cientista, provavelmente um químico, conseguir sintetizar um produto químico que faça o mesmo com a água de nossas células, talvez poderemos driblar a morte, aguardando, no gelo, o nosso retorno à vida. E retornando, anos depois, poderemos auferir muitos dos benefícios tecnológicos mencionados em um livro importantíssimo publicado dias atrás.

O título desse livro é “A morte da morte”, com o subtítulo “Como a medicina tecnológica vai transformar profundamente a humanidade”, Edições Manole, escrito por um pensador francês, Laurent Alexandre. Com sua leitura, nada fácil, fiquei bastante estimulado ao saber dos rápidos avanços da nanotecnologia, biologia, informática e ciências cognitivas (“a grande convergência” NBIC).

É um livro especial, muito bem traduzido, mas que justamente por ser especial, exigirá alguma autodisciplina do leitor que não seja médico, nem biólogo. Por mais que o autor e sua tradutora tenham se esforçado para facilitar sua compreensão para o leigo em biologia — com notas explicando os termos técnicos — a própria complexidade dos temas exigirá alguma persistência. É, por isso, um livro especial, a merecer particular atenção para quem quer realmente se inteirar de um assunto especialíssimo.

Há nele não só ciência. Há também uma mescla de filosofia, biopolítica e transhumanismo.
Por falta de tempo — viajo amanhã bem cedo —, não posso fazer aqui um resumo do que li até agora, cerca de 25% da tradução do “La mort de la mort”.
Caso o leitor esteja curioso sobre os temas, leia também — de preferência antes do livro do francês —, meu romance “Criônica – o primeiro romance brasileiro sobre o congelamento humano”, EI- Edições Inteligentes, publicado em 2005 (ISBN:85-7615-132-4).

Sugiro a leitura prévia de meu livro não por egoísmo, mas porque trata-se de um romance, bastante dialogado, de fácil compreensão, como é próprio dos romances. Lendo-o, ficará mais fácil entender o referido “A morte da morte”, um livro muito mais técnico e especializado. Insisto, porém, que o livro do francês não pode deixar de ser lido, antes ou depois do meu romance.

Quanto ao meu “Criônica”, em ebook, poderá ser lido gratuitamente até o dia 10 de fevereiro de 2021. Está disponível na Amazon.

Finalizo dizendo que como os imensos benefícios mencionados no “A morte da morte” só estarão disponíveis daqui a alguns anos, os interessados em não morrer proximamente poderão — se corretamente congelados — aguardar, mais esperançosos, “dormindo”, o momento de “acordarem’ com  renovadas esperanças de viverem mais de cem anos com energia, boa memória, boa aparência e alegria de viver. Quem sabe, algum cientista brasileiro pode, lendo o livro, estudar o segredo químico das rãs mencionado na parte final do presente artigo. Se conseguir façanha igual à da natureza merecerá o Nobel de química. O Brasil ainda não ganhou um Prêmio Nobel. Nem mesmo o mais fácil, o de Literatura.

Depois de ler inteiramente o livro do francês, talvez faça algumas observações, com mais tempo e espaço disponíveis.
Feliz Natal a todos e perdão pelo abuso da paciência alheia. Agradeçam, porque, na primeira redação era quase o dobro do tamanho. (22/12/2019)

EM TEMPO:

 Retornando de minha curta viagem, mas ainda sem condições para continuar a leitura do livro “A morte da morte”, li alguns e-mails de pessoas discordando da mera ideia de controlar a morte depois de cessados os batimentos cardíacos. Tais mensagens censuram a pretensão de uma vida eterna, em um mundo tão cheio de maldades. Alegam que “Deus é amor”; “não permite isso”; “a morte é o preço do pecado” e por aí vai.
Compreendo essa revolta, sincera e direta, porque é realmente uma espécie de insulto ao bom senso imaginar que o fenômeno natural e mundial da morte — presente em todos os seres vivos — possa ser controlado pelo insignificante “bípede implume”, que se comporta, às vezes,  como uma mescla de demônio e jumento, conforme revela a mídia diariamente.

Em defesa de meu apoio à Criônica — congelamento de pessoas — tenho a dizer resumidamente o seguinte: Não estou interessado, primordialmente, na imortalidade física, embora reconheça que em distante futuro isso seja teórica e praticamente possível, com a possibilidade de substituições periódicas de nossas células, técnicas esboçadas no mencionadas no livro “Mort de la mort” e em outros livros que abordam o mesmo tema.

Meu interesse prático na Criônica está na possibilidade de salvar vidas em casos que hoje significam “morte certa e próxima”. Quem sabe, congelando e, depois de alguns anos, “acordando” pessoas doentes incuráveis ou gravemente acidentadas, elas possam ser salvas e curadas, prosseguindo suas vidas.

Pergunto ao inimigo da Criônica o seguinte: Se tua hipotética filha de dez anos está com um câncer hoje incurável, ou com uma doença genética e deformante — ou foi terrivelmente mutilada em um atropelamento, só esperando a morte na UTI —, pudesse ser congelada e ressuscitada quando a medicina estiver em condições de salvá-la, por dentro e por fora, recuperando sua aparência anterior, o senhor preferiria vê-la morta, com isso mantendo intacta sua “humanidade”?

Se o senhor disser “prefiro!”, isso mostraria que não gosta da filha. Gosta mais de teus preconceitos. E, por coerência, deveria mandar retirar teu marca passo, teus dentes postiços, teus óculos, tuas próteses, teu aparelho contra surdez, teu coração ou rim transplantado, etc., porque você já é um ser parcialmente híbrido com a tecnologia. E se disser que não permitiria o congelamento da menina apenas porque não acredita na “ressuscitação”, aí trata-se apenas de insatisfação com uma tecnologia que ainda poderá encontrar o caminho certo, por tentativa e erro.

A respeito disso, sugiro que algum empresário, ou governador ousado —, tipo João Dória, mero exemplo — forme um pequeno grupo de químicos biólogos e médicos para estudar como a “doutora natureza” inventou a substância que permite às já mencionadas rãs, ou sapos, ficarem congeladas no inverno ártico e na primavera voltando à vida. Conseguindo façanha equivalente nos seres humanos, um Nobel de Medicina talvez venha, finalmente, para o Brasil. Esqueçam a faceta “vida eterna”. 

Não sei qual o limite atingível e recomendável do aperfeiçoamento do homem, pelo lado físico, moral e mental, em décadas e séculos. Com o avanço, cada vez mais rápido da ciência e da tecnologia, como seremos daqui a quinhentos ou mil anos? Talvez não tenhamos religiões diferentes, mas uma mescla delas, eliminando rivalidades que, atualmente, com armas nucleares e biológicas, vivemos à beira da destruição global.

Moralistas, escritores, educadores, juristas e religiosos devem, claro, continuar seus tradicionais esforços para, usando apenas argumentos, palavras, corrigir as maldades, mentiras, hipocrisias, egoísmo e tudo o mais que possam se identificar como sendo resíduos de nossa resistente ancestralidade animal, feroz, egoísta, sem a qual não poderíamos ter sobrevivido em ambientes hostis, rodeados de feras e potenciais inimigos da mesma espécie, disputando comida e fêmeas. Principalmente se o inimigo tem feições e cores diferentes.

Penso que os preconceitos raciais têm um componente também biológico, enraizado no subconsciente, só vencível com um persistente esforço educacional e legal.
Na batalha contra os vários resíduos de animalidade que dormem dentro de nós, não podemos fazer muito apenas falando, escrevendo ou mesmo dando exemplo com a própria conduta. Essa técnica de modificação humana, por melhor que se aperfeiçoe, via educação, não consegue sempre atingir a parte mais recôndita do ser humano. Que tal melhorar o homem “por dentro”, literalmente, usando uma engenharia genética até mesmo antes dele nascer?

Você pode tratar um filho da melhor maneira possível mas existe, dentro de cada ser humano, um ou alguns genes, até agora inextirpáveis, rebeldes e avessos a qualquer influência educacional. Assim, parece factível que a engenharia genética possa, em breve tempo, “pinçar” certos genes — os “maus” ou “inconvenientes” — que explicam porque existem criminosos, e maus caracteres irrecuperáveis mesmo quando tratados com bondade, bem alimentados, etc. É o resíduo genético de um “animal especial”, que pode ser simultaneamente “louco” e inteligente.

Com os avanços da ciência será possível, provavelmente, alterar fisicamente “por dentro”, literalmente, cerebralmente, as más tendências e o retardamento mental que atormenta considerável parcela da humanidade. Se um sujeito nasce com um QI muito baixo, que culpa ele tem por essa infelicidade? A injustiça biológica é também uma forma de injustiça, causando sofrimentos físicos e morais, na forma de pobreza e uma sensação de inferioridade.

Não há que se condenar a Criônica pensando apenas em “vida eterna”. Esse é o lado apenas “espetacular”, excêntrico, remoto, do tema, porque a imortalidade biológica não estará acessível a toda a humanidade. Sem a morte, o planeta seria sufocado pela superpopulação.

Isso sem falar no robô superinteligente, que deve continuar como escravo, vigiado de perto, porque senão, pobre de nós.
(02/01/2020)