quarta-feira, 30 de março de 2022

Bolsonaro, fazendo isso, poderá ser reeleito.

 


Foto divulgação 

— “Isso o quê? Perguntarão.  Digo: permitir — pelas vias legais —, que as pessoas que recebem Bolsa Família e/ou Auxílio Brasil, possam continuar recebendo tais benefícios mesmo que consigam trabalho com carteira assinada.

A atual sistemática legal tem muitos inconvenientes: desestimula o necessitado a procurar um emprego porque, conseguindo-o, perde um ganho certo, governamental. Prudentemente, não trocará o certo pelo duvidoso. Seu patrão também vive rodeado de incertezas. Milhares de empresas fecharam suas portas por causa da pandemia, e a situação mundial ainda é vacilante.  Novamente desempregado, o trabalhador teria que pleitear novamente a ajuda governamental, sem a certeza da sua concessão com urgência. Há em tudo uma burocracia. Um incentivo à ociosidade. Para não morrer de fome, terá que ou mendigar, ou ingressar na criminalidade ou na prostituição.

Outro inconveniente, agora político, da atual legislação: o pobre, vivendo somente com as modestas quantias das “bolsas” torna-se completamente dependente do governo de plantão. para poder viver, juntamente com sua família. Torna-se eleitor forçado, porque sem dinheiro ninguém vive. Quem sabe — pensa o infeliz —, mudando o governo na próxima eleição, o sucessor não manterá o auxílio, ou diminuirá a quantia mensal.

Acredito que a maioria das pessoas que recebem o Auxílio Brasil gostariam de poder melhorar de vida, trabalhando de fronte erguida, sem medo, como se fosse um infrator, um criminoso “proibido de trabalhar”. Somando os dois ganhos — o auxílio e o salário — poderiam ingressar mais depressa na classe média. Estudando e trabalhando sem medo, na legalidade. Em troca, o governo federal, a cada dois anos, revisaria a necessidade, ou não, de manter, diminuir ou aumentar o valor do auxílio, conforme a situação econômica do país. O leitor pode confiar que a soma do trabalho honesto mais o auxílio governamental não vai enriquecer ninguém. São quantias insignificantes, mesmo somadas.

Espero que esta sugestão chegue aos ouvidos do atual governo federal.

(30/03/2022)

 

   

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

A PECHINCHA

 

Foto divulgação 

            Era um senhor muito interessado em finanças. Via nelas uma certa sofisticação intelectual. Mais isso, talvez, do que a pura e simples cobiça, pois, vez por outra, sofria esquisitos ataques de liberalidade. Se bem que jamais escondendo tais impulsos. Por que ocultar — justificava-se —, algo tão nobre e contagioso: o bem que fazemos aos nossos irmãos? Fazendo uma “honesta” autoavaliação — mais tortuosa que um saca-rolhas —, não lhe seria difícil argumentar, confundindo detratores, que, se era esperto, também ajudava pessoas quando podia. E citaria exemplos. Insistia em definir-se como um homem de arguta visão comercial, capaz de extrair de todas as situações um específico proveito econômico.

            É claro que, neste mundo cruel, sempre existe uma alma invejosa pensando, a nosso respeito, coisas más. Um outro senhor, com quem mantivera pequena sociedade — dissolvida quase a tiros — dizia, abertamente, sem escolher audiência, que “se houvesse, na Europa, uma máquina capaz de extrair o mau cheiro de um fedorento resíduo humano, ele” — o nosso biografado — “importaria essa máquina para tirar o fedor, comendo depois seu próprio resíduo, economizando o gasto com a própria alimentação”.

Esse ex-sócio, escritor frustrado, era um tanto maníaco por metáforas, como é fácil perceber. Gostava de se expressar com rodeios, o que irritava nosso financista, adepto da fria objetividade. Pelo menos entre sócios. Com os fregueses e fornecedores — era sua opinião —, tudo bem com as voltinhas, reticências e mal-entendidos propositais porque “guerra é guerra”! Esclareça-se, porém, que a briga com o sócio foi mesmo por dinheiro, não por questões de estilo.

            Admitia que “não gostava de perder dinheiro”, ocasião em que seus empregados comentavam, à boca pequena: — “Mas não precisa exagerar...”. E ficava doente quando lucrava menos que seus concorrentes. Enganado, então, mesmo em centavos, sentia vontade de agredir, morder; impulsos só contidos porque um processo criminal implicaria gastos com advogado.

            Aos domingos, bem cedo — antes que algum outro, seu igual, corresse na frente — gastava uma ou duas horas lendo, nos jornais, anúncios de vendas, na esperança de localizar uma pechincha. Se encontrasse alguém “com a corda no pescoço” por que não aplicar as normas do capitalismo? Se não o fizesse, algum outro o faria, não é verdade?

            Tendo acumulado, em “verdinhas” americanas, uma boa reserva de dólares, guardada em casa num pequeno cofre metálico, disponível precisamente para negócios urgentes, percorria, naquela manhã, os classificados. E seus olhos brilharam ao se depararem com um pequeno anúncio: uma senhora “de oitenta e um anos” — a menção da idade era estimulante — vendia “bem barato” seu apartamento de quatro quartos, com duas vagas na garagem em excelente bairro. Pedia noventa mil dólares, mencionava a grande área útil, endereço e horário para visitas.

            “Caramba! Se o apartamento estiver em bom estado” — logo pensou —, “e não houver problemas de vizinhança, é uma pechincha! Não haverá alguma cilada? Está bom demais! Um apartamento com essa área, em bairro tão bom, deveria valer no mínimo o dobro, ou triplo”!

            Como o anúncio não mencionava telefone, o arguto financista acabou de engolir às pressas o café, pegou o carro e rumou para o endereço, já pensando em como ser simpático com velhinhas. Sabia que pessoas idosas frequentemente perdem o senso de proporção em negócios imobiliários. O cérebro delas — era sua opinião, não a minha, prezada e inteligente leitora — não acompanhava as mutações do mercado. Às vezes exageravam, pedindo preços altíssimos, irreais. Outras vezes, quando não tinham parentes mais moços que as orientassem, pediam muito menos do que valia a coisa. Quem sabe, no caso, a velha vivia sozinha e não tinha aqueles mesquinhos parentes, espertos, mesquinho, justamente porque interessados na herança. Era sua convicção, por experiência pessoal, que o interesse financeiro multiplica a força dos neurônios.

            Localizado o prédio, o financista não se dirigiu de imediato à portaria. Não, um grande general nunca se precipita em qualquer refrega. Sem descer do carro, percorreu lentamente a redondeza. Deu uma volta completa no quarteirão, examinando tudo com olhos de lince. Um satélite artificial da mais alta tecnologia, na Guerra do Golfo, não esquadrinharia com tanta exatidão uma determinada área terrestre.

            Tudo bem. Nenhuma casa de comércio. Apenas uma banca de jornal, limpa e organizada, instalada quase em frente.

            Por via das dúvidas, seria bom sondar o ambiente. Desceu do carro e dirigiu-se à banca. Comprou um jornal qualquer, só para ter a oportunidade de bater um ligeiro papo investigatório com aquele senhor que, pela roupa, parecia ser o dono da banca. E este confirmou a tranquilidade local. A criminalidade ali era muito baixa.

            Não satisfeito, espiou as paredes laterais do prédio, à procura de manchas de infiltrações ou rachaduras, perceptíveis mesmo com eventuais disfarces de pinturas. Nada viu de suspeito.

            Terminada a arguta inspeção, no item engenharia, dirigiu-se à portaria do edifício, explicando a razão de sua presença. E, em tom casual, indagou se ali havia problemas de condomínio; isto é, se o pessoal pagava direitinho, se existiam conflitos. O porteiro, com a naturalidade de quem diz a verdade, informou que os condôminos eram muito pontuais. — “A maioria, aqui, é gente velha, acomodada”, explicou.

            O apartamento localizava-se no sétimo andar, de frente para a rua. O elevador, bem conservado, subiu sem muito ruído e, quando ele saiu do elevador, a autora do anúncio, avisada pelo interfone, já o aguardava, sorrindo, convidando-o para uma xícara de chá.

            A velha chamava-se Dona Philomena. Era viúva, morava sozinha e parecia uma personagem extraída daquelas inocentes novelas inglesas do início do século 20. Magrinha, pele clara, enrugada, olhos azuis e um jeitinho de olhar que lembrava um passarinho assustado. Usava um vestido leve, simples, que parecia feito em casa, cheio de desenhos florais. Ela e a roupa formavam um conjunto bonitinho, adequado para um camafeu ou lata de biscoitos finos importados da Dinamarca. Enquanto ela servia o chá em xícaras antigas, delicadas, o visitante sentiu-se como que transportado para uma Inglaterra de antes da Primeira Guerra Mundial.

            Nosso financista vistoriou o imóvel e nada encontrou de suspeito. Realmente era um “negocião”. Considerando-se um grande psicólogo, concluiu que, não obstante o jeitinho saltitante, a velha era bem tolinha. — “Esse tico-tico tem apenas a vivacidade física. O cérebro é mesmo de passarinho”.

            Todavia, não queria correr o risco de comprar o imóvel de uma velha gagá, com a possibilidade, depois, de enfrentar uma ação judicial visando à anulação do negócio. Era preciso verificar melhor seu grau de discernimento. Faria isso com sua indiscutível habilidade:

            — O chá está excelente, dona Philomena — agradeceu, devolvendo a xícara à mesinha baixa, cheia de vidrinhos, caixinhas de remédio e chocolates. Sem tocar nos remédios, pôde ler os rótulos com máxima atenção, isso porque entendia um pouco do ramo. E, no chão, perto da poltrona onde estava a dona da casa, havia empilhados três ou quatro livros de Direito Civil, dois deles com o título “Direito das Sucessões”.

            — A senhora é advogada?

            — Por que pergunta? — ela indagou, sorrindo, algo envaidecida.

            — Porque estou vendo esses livros de Direito aí no chão.

            — Ah! Mera curiosidade! São de uma amiga, advogada, do apartamento de baixo. Sou muito curiosa... Mas, para dizer a verdade, não consegui entender muito. Como esses juristas escrevem difícil!

            — Sabe de uma coisa? — ele perguntou, sorrindo, dando ao rosto o máximo de inocência e simpatia. — Olhando para a senhora, nesta sala, servindo chá com bolachinhas, parece que estou visitando a Agatha Christie, aquela novelista inglesa. Nunca vi uma foto dela, mas suponho que as duas são muito parecidas. É impossível alguém ser mais “lady” do que a senhora...

            — Ah! Que chique! — gorjeou a velha, dando um gritinho e batendo as mãos, enquanto se inclinava para trás, quase se deitando de costas. Postura exagerada que logo corrigiu, voltando o tronco à posição vertical. — Já li um livro dela... melhor, quase li, mas gostei demais de um pedacinho. Hoje leio pouco, a vista não dá... E tudo parece muito longo, complicado. Os escritores ficam dando voltas...Prefiro os jornais ou até mesmo um livro, mas com letras grandes. Só que de Direito ou de Economia não adianta! É nó mental... Minha cabeça esquenta e acabo desistindo. E tem ainda o problema da vista, como disse. Um início de catarata nesta vista — e pôs o dedo embaixo do olho direito. — Quando operar, se operar!, voltarei a ler jornais. Exceto a seção de Economia porque tenho verdadeiro horror, horror! a questões de dinheiro!

            — Caramba! Somos iguaizinhos nesse ponto! Se há um tema que detesto, é dinheiro! Acho que se houvesse um jeito de a humanidade se livrar dessa praga, viveríamos felizes e bem mais sadios.

            — É exatamente o que penso! — ela assentiu, com expressão preocupada. — Preciso cuidar da minha saúde. Estou com oitenta e um. Apesar deste meu jeito vivo, enérgico, sou diabética, sofro dos rins e do coração. Quando começo a sentir uma opressão no peito, no coração, tomo logo uma aspirina e isso alivia. Estou rezando para não precisar fazer hemodiálise. A trabalheira que isso vai causar! Meu neurologista me deu, sobre o conjunto de minhas doenças, uma explicação tão complicada, que pouco entendi. Toda vez que eu tentava resumir o que ele explicava, só para poder entender, ele corrigia dizendo “que não era bem assim”, ou “a não ser que...”. Acabei desistindo porque fiquei com medo da resposta... Sou fatalista... O que tiver de ser, será! E não vou comer sem sal, como ele quer! Gosto do salgado bem salgado e do doce bem doce. Depois da janta como meu chocolate, não aceito viver como uma condenada... Bom, deixa pra lá... Não vou aborrecer o senhor com lamúrias de velha doente.

            — Protesto! A senhora não é uma velha. Está muito forte. Vai chegar aos cem anos! Mas, passando ao motivo de minha visita, quero dizer que li hoje, por acaso, o seu anúncio e estou mais ou menos interessado no apartamento. O preço não está excessivo mas...

            — Excessivo?! — a velha o interrompeu, quase ofendida. — O preço está ótimo! Este apartamento vale o dobro!

            Por essa, ele não esperava. A velha não era tão tola. Fingindo surpresa, justificou-se:

            — Desculpe, não quis ofender. É que não estou familiarizado com preços de imóveis. Mas, se vale o dobro — o que não sei, realmente — por que está pedindo só a metade, segundo diz?

            — Porque gostaria de continuar morando aqui até morrer. Apesar de muito grande para uma pessoa só, tenho um apego sentimental a este apartamento. Acontece, porém, que preciso muito de dinheiro. Minha aposentadoria é uma merreca. Se for necessário fazer hemodiálise, onde vou arranjar recursos?  Ou operar o coração?  Ou um transplante de rim? A proposta que faço ao comprador do imóvel é a seguinte: eu vendo ao senhor por noventa mil dólares, mas fica constando na escritura que tenho o direito de continuar morando aqui até morrer, sem pagar aluguel. Minha vizinha advogada, essa que me emprestou os livros, disse que não há lei alguma proibindo essa cláusula. Há até um nome para isso no Código Civil, mas esqueci. E acho que essa fórmula é um bom negócio para o senhor. Qual é a média de vida neste país? Com oitenta e um, acho que já entrei no vermelho...

            — Não diga isso, minha senhora! A senhora, pelo aspecto, vai longe... Bem, não vejo nada de ilegal nessa proposta, mas há algo de mórbido nela, não acha? Vão pensar que estarei torcendo para que a senhora faleça logo. Por que não contratamos uma venda pura e simples? Aumento um pouquinho o preço pedido pela senhora e a senhora e pode ficar seis meses sem pagar aluguel, mas depois tem que sair. Algo mais simples, direto.

            — Bem, se o senhor quiser assim, tudo bem. Mas nesse caso vou vender o apartamento por um preço muito mais alto.

            — Mas eu não tenho tanto dinheiro!

            — Então aceite a minha proposta! Quanto tempo o senhor acha que ainda vou viver?

            Ele sorriu, procurando ser simpático, desinteressado, enquanto fazia intensos cálculos mentais. Pensou na hemodiálise, nos remédios sobre a mesa, no chocolate e respondeu à pergunta da vendedora: — Para dizer a verdade, não obstante conheça a senhora há poucos minutos, quero que viva muitos e muitos anos... Que chegue aos cento e dez!... Acontece que isso pode realmente acontecer, não é mesmo? E eu teria que esperar todos esses anos para poder ocupar ou vender imóvel.

            — Olha, é só examinar esse monte de remédio pra ver que não aguento muito... O senhor está comprando para morar ou como investimento?

            — Para morar — mentiu. — Vivo em uma casa até confortável, mas a insegurança hoje é demais.

            — Isso é verdade. O senhor mora sozinho?

            — Somos só eu e minha mulher. Não tivemos filhos.

            — Um pouco solitário, isso... Algo triste... Mas certamente tem pais vivos, ou irmãos...

            — Meus pais já faleceram. Sou filho único. Os pais de minha mulher também já morreram. Ela tinha uma irmã, que faleceu solteira. Realmente, não vamos deixar semente. Por que pergunta?

            — Porque ter família grande dá uma sensação de apoio... Olha... Sabe de uma coisa? Simpatizei com o senhor... Para provar isso, vou abaixar o preço para oitenta e cinco mil dólares. Sobre o valor real do imóvel, informe-se com qualquer corretor. É uma pechincha! Eu espero uma resposta até amanhã no fim da tarde. Até lá, deixo em suspenso duas outras propostas. Quase fechei negócio com um casal, mas algo me segurou. Não eram simpáticos. Começaram a achar defeitos, coisinhas, no apartamento. O senhor não fez isso.

            Despediram-se e, uma hora mais tarde, ele, excitado, andava de um lado para outro na cozinha da casa dele. Conversava com a esposa, a qual, junto à pia, lavava a louça da véspera.

            Ela o escutava, pouco entusiasmada. Qual uma ratazana esperta, ela confiava muito mais no seu instinto do que em qualquer cálculo, por mais fundamentado que fosse. E geralmente acertava mais do que o marido, que por causa disso ficava uma fera. Ele não podia aceitar o triunfo da “mais elementar ignorância”, calcada apenas na desconfiança, contra suas tão amadas sutilezas, ricamente dedilhadas na maquininha de calcular.

            — Esquece! Guarda o dinheiro —, foi a conclusão dela, enxugando as mãos numa toalha. — É bom ter uma reserva.

            — Mas é uma pechincha! — ele mal se continha, eufórico. — O apartamento vale, no mínimo, o dobro! E ela foi com minha cara. No duro! Acabou tirando mais cinco mil dólares no preço.

            — E se a velha não empacota?

            — Você e sua eterna desconfiança... Nunca vi mulher mais terra-a-terra, sem visão comercial!... Escuta: é uma velha de oitenta e um! E com um monte de doenças!

            — Magra ou gorda?

            — Um palito.

            — Sei não... Essas magrinhas têm uma fibra...

            — Não há fibra que resista a maus rins, diabetes, coração, pressão alta... Você sabe que burro eu não sou. Vi os rótulos dos remédios dela. Estavam numa mesinha. Uma UTI domiciliar! Como você sabe, já trabalhei como propagandista de laboratório. Estou por dentro. Li dezenas e dezenas de bulas.  Ninguém resiste muito tempo a essa trindade mortal: diabetes, rins estragados e problemas de pressão. Está quase fazendo hemodiálise.

            — Se ela obedecer direitinho ao regime de diabético, pode viver muitos anos.

            — Acontece que a velha não tem autodisciplina alguma. Já me disse que vai comer sal à vontade. E não resiste a um docinho. Pode crer: ela não aguenta mais de dois anos, se tanto.

            — Será que ela não está fingindo? — ela sorriu, parecendo reconhecer que exagerava nas suspeitas.

            — Pensei nisso. Mas se quisesse fingir, simularia estar cansada, se arrastando. No entanto, parecia uma passarinho dançando o Tico-Tico no Fubá. Ela pode ser uma lutadora, mas com sua idade e suas doenças, não aguenta muito. Vai por mim.

            — Bem, você é quem decide... Se ela morrer, mesmo daqui a três ou quatro anos, terá sido um ótimo investimento. Teremos dobrado capital. E pode também esticar as canelas logo, logo.

            A venda foi formalizada trinta dias depois porque o comprador exigiu inúmeras certidões da vendedora. Na última hora, esta conseguiu que ficasse a cargo do comprador o pagamento das despesas de condomínio. Assinada a escritura, as partes contratantes se despediram, alegres, com tapinhas nas costas. A mulher do comprador não compareceu ao cartório porque estava com o pé engessado. E sua presença não era essencial. Quando dona Philomena e o comprador já estavam distantes, quase na rua, o escrevente comentou com um colega: — Esse malandro vai aprontar alguma macumba contra a pobre velha!

            Depois disso, de três em três meses, mais ou menos, o comprador fazia uma visita “de cordialidade” à dona Philomena. Nessas ocasiões, estudava zelosamente o rosto e a postura geral da velha. Isso, sem prejuízo de se informar de sua saúde junto ao porteiro e ao zelador.

            Aos conhecidos, que sabiam do estranho negócio, o comprador se dizia sinceramente satisfeito por saber que a velha estava “firmona”. Se bem que, no íntimo, ela lhe parecesse um tanto sadia demais.

            Quando ele chegava em casa, depois dessas visitas, comentava com a mulher: — Sabe? Não há dúvida que sou um sujeito muito humano...Não estou nem um pouco aborrecido, claro, por saber que dona Philomena está vivinha da silva. E que simpatia de pessoa!

            Decorridos, porém, mais de dois anos, o entusiasmo dele começou a diminuir substancialmente. Principalmente porque havia uma forte recessão econômica e os negócios iam pessimamente. Os dólares empregados na aquisição daquele apartamento desnecessário faziam agora imensa falta. E cada vez que chegava pelo correio o boleto para pagamento do condomínio, o comprador sentia um azedume na alma. Por que, idiota, concordara com esse encargo?

            E assim se passaram os anos. Seis anos depois da compra, ele, meio desesperado, chegou a consultar um advogado quanto à possibilidade de anular o negócio. Mas foi desaconselhado: — Pouca chance, meu velho! Você teria de alegar que foi vítima de uma fraude. E isso você não tem como provar. Ou será dificílimo! A velha não tinha obrigação de morrer logo. O juiz do caso pode até dizer, na sentença, se for irônico, que você quis “tirar a lã e saiu tosquiado”. Ou que o “tiro saiu pela culatra”. Você entrou num jogo e as cartas saíram ruins, só isso. E perdendo a ação, ainda terá que pagar honorários advocatícios. Uma ação dessa demora. Antes dela terminar, a tal da dona Philomena já estará comendo grama pela raiz...Aguenta as pontas. Afinal, pelo que você disse, ainda está lucrando. Foi uma pechincha...

            E ele aguentou as pontas por mais quatro anos. Dez anos pagando bestamente o condomínio, era o que mais o irritava. A velha já estava com noventa e um, e não parecia ansiosa para esticar as canelas fininhas.

            Perto do Natal, o desanimado casal, que envelhecera proporcionalmente mais depressa que a velha, pensou em fazer-lhe uma visita, dita de “cortesia”, mas na realidade uma inspeção médica. Por pouco não levaram com eles, sem mencionar, claro, sua profissão, um clínico geral. Chegaram mesmo a pensar nisso, mas ficaram receosos do ridículo. O médico não só poderia se recusar a esse papel, como ainda comentar indiscretamente sobre o estranho pedido “daquele casal de urubus”.

            — Vamos lá, só nós dois — decidiu a mulher, olhando sombriamente o marido. — Quero ver por que essa múmia não morre.

            Foram recebidos com uma alegria de periquito:

            — Viva! Quanto prazer! Quem é vivo sempre aparece! Vamos entrar... Aceitam um chá?

            O casal engrolou uma explicação qualquer sobre a acidentalidade da visita e aceitou a bebida, sempre acompanhada dos biscoitinhos.

            Servindo o chá, dona Philomena perguntou:

            — Sabem da novidade? Estou completamente boa do diabetes! Aliás, já fazem uns oito anos, que estou boa. Os médicos dizem que era uma doença de fundo emocional. Preocupações, sabem? Eu tinha uns problemas financeiros, quando da venda, mas, resolvidos, tudo melhorou. Meu pâncreas agora é um relógio! Joguei fora aquela batelada de remédios que mantinha em cima dessa mesa. O senhor lembra? Resolvido o diabetes, melhorou a pressão. Os rins parecem filtros novos. Estou até sem jeito, de tanta saúde! — sorriu, envergonhada, trincando um biscoito.

            A compradora, com menos traquejo social que o marido, ouviu aquilo como se escutasse a notícia do descarrilamento de um trem cheio de crianças aleijadas. Apenas engoliu em seco.

             Ele, porém, por força do hábito, ainda disfarçou:

            — Sem jeito, por quê? Gostamos muito da senhora. Graças a Deus, não temos problemas financeiros. O imóvel está sendo bem cuidado pela senhora. Decidimos continuar morando na nossa casa. Assaltos, hoje, ocorrem em toda parte. Só queremos que nos explique o segredo de tanta saúde pra gente seguir a receita.

            — Paz de espírito, como disse! E moderação no comer... Ah! E um copinho de vinho tinto após o almoço antes da soneca. Afastados meus problemas econômicos, fiquei logo boa. — E ele notou, desanimado, que agora havia apenas um inofensivo vasodilatador sobre a mesinha.

            A conversa não se prolongou por muito tempo. Os visitantes estavam visivelmente sem ânimo para suportar tanta desgraça. A velha continuava quase com a mesma energia de dez anos antes e perfeitamente lúcida.

            De volta ao carro, foi a esposa que primeiro desabafou:

            — Admito que sou má! Sou mesmo, não me envergonho! Tanta gente morre! Por que só ela não? Será que essa periquita colorida não nos passou uma rasteira? Nunca soube que alguém, na idade dela, ficasse curada do diabetes. “Fundo emocional” suspeito, esse. A periquita envelheceu menos que a gente. Está só mais enrugada. Sabe o que estou pensando? Não é nada impossível que a gente morra antes... Você come demais, de tanta frustração... Olha, desculpe a franqueza, mas vou dizer uma coisa: Você pode entender de Finanças, maquininhas, triquetraque, mas em Biologia é nota zero!

            — Não se esqueça que você concordou.

            — Espera... — ela teve uma ideia — Por que não vendemos o apartamento com ela dentro? Damos uma compensação, um bom desconto ao adquirente. Nós já estamos com mais de sessenta anos, cansados de esperar pela morte dela. O novo comprador, porém, não terá que esperar muito, suponho. É melhor a gente perder um pouco do que não lucrar nada. Que tal a ideia?

            O marido se encolheu. Até aquele momento, não tivera coragem de contar que a velha concordara em reduzir o preço para oitenta mil dólares — quase tudo o que ele tinha em verdinhas, na época — mas exigira, em contrapartida, que constasse da escritura que, enquanto ela vivesse, o apartamento não poderia ser vendido a terceiro, mesmo com a cláusula deste último respeitar a permanência dela no imóvel. Argumentara que um outro proprietário poderia pressioná-la para que saísse do apartamento, aproveitando-se da sua idade e fragilidade. Um outro dono poderia não ser tão cavalheiro, explicara. E ele concordara porque desembolsaria menos cinco mil dólares e não esperava jamais ter de aguardar tanto tempo por sua morte.

            A esposa se resignou com mais este golpe: — É, a velha bem que merece a presidência do FMI. Sinto-me de quatro, dando coices no ar... Bom, não adianta ficar me lamuriando... Vamos logo para casa. Estou meio tonta.

            Em casa, ambos chuparam um comprimido branco contra azia. Ele disse que ia tomar banho.

            Banho demorado demais, pelo visto. Passados uns quarenta minutos, o chuveiro sempre ligado, a mulher, preocupada, abriu a porta do banheiro. O marido estava morto, meio dobrado dentro do box, a boca aberta e os olhos semicerrados. Segundo informação do médico que redigiu o atestado de óbito, o enfarto foi do tipo fulminante.

            O velório esteve quase vazio. Vinte pessoas, incluindo o próprio defunto. Ele não tinha parentes, nem verdadeiros amigos. Os negócios iam mal.

            Dona Philomena soube da morte e logo apareceu para dar os pêsames, aceitos de cara feia. E quando se ofereceu para “puxar” o terço, foi obstada, com grosseria, pela viúva:

            — A senhora não se atreva! Prefiro que dê o fora!

            Os presentes ficaram horrorizados com tanta grosseria, mas não disseram nada. Atribuíram tal excesso à perturbação causada pela dor. E dona Philomena saiu de mansinho, com uma auréola de santinha incompreendida.

            Dez meses mais tarde, a velha — agora subitamente mais lenta, pois dera para fazer algumas extravagâncias alimentares, comendo até feijoada — mandou perguntar à viúva, através de um corretor, se não queria receber a posse imediata do apartamento, mediante uma compensação financeira. Essa compensação seria no valor de vinte e cinco mil dólares. Achava que não tinha mais condições de viver sozinha. Pretendia morar com uma sobrinha casada.

            A proposta não chegou a ser transmitida à viúva. Ela estava em coma, há dois dias, vítima de uma inflamação algo misteriosa. Uma sua amiga, que sabia do caso, rotulou essa moléstia de “philomenite”. Passados uns vinte dias, faleceu.

            A velha pareceu desolada, ouvindo a notícia dessa segunda morte. Mas, no dia seguinte, no início da noite, estava no apartamento de baixo, consultando a advogada se, não tendo os compradores “herdeiros necessários”, não poderia ela, Philomena, requerer o usucapião do imóvel? Afinal, estava lá há tantos anos...

            A advogada, algo surpreendida com tanto oportunismo, achava que não, mas tinha dúvida. Se o casal falecido não tinha herdeiros, nem deixara testamento, por que não deixar o imóvel para a amiga, em vez de para o Estado? Ficou de estudar o caso e dar uma resposta dentro de alguns dias.

 

FIM (26/01/2022

 

 

sábado, 15 de janeiro de 2022

SUICÍDIO

                                                                                

            Foi uma tristeza quando, lendo o jornal, ontem de manhã, soube do suicídio do Nilsen, meu colega de faculdade de direito e atualmente Delegado de Polícia. Eu o visitara uma semana antes, num ato de solidariedade. Estava afastado do trabalho, sob acusação de “violência policial”.

            Matou-se com um tiro na boca, o que me fez cogitar se essa forma de autodestruição não é influência do cinema. Algumas décadas atrás, os suicídios com arma de fogo geralmente ocorriam com um disparo na têmpora ou no ouvido. Ou, mais raramente, com um tiro no coração, mais discreto, possibilitando ao morto ser visto com aparência digna no velório. Depois, à medida que os filmes americanos difundiam imagens de policiais problemáticos, incompreendidos, colocando o cano do revólver de modo a estourar o céu da boca — nem sempre chegando a disparar —, aumentou significativamente a proporção daqueles que utilizam essa técnica mais impressionante.

            A explicação não é difícil: qualquer policial sabe que o disparo com o cano encostado no céu da boca, é uma garantia de resultado. O que nem sempre acontece quando a bala é disparada, por amadores, com o cano perto do ouvido. Conheço um caso em que o projétil seccionou o nervo óptico e saiu pela testa, acima do olho, poupando a vida do desesperado. Ficou apenas cego desse olho. Nem mais nem menos inteligente, o que nos faz pensar que podemos desperdiçar alguns milhões de neurônios porque os bilhões “restantes” os substituem nas suas funções. Só isso explica porque alcoólatras e drogados, após anos de severos abusos voltam à lucidez — pelo menos aparentemente —, quando abandonam seus vícios e levam uma vida sadia, preocupados com sua recuperação.

            O financista — no geral um sujeito manualmente desajeitado —, não costumava enfiar o cano na boca. Talvez porque, habituados com iguarias finas, sinta instintivo nojo do ferro frio, com gosto de óleo mineral e pólvora. Em suma, incompetência. Ele pode conhecer os segredos do dinheiro — na verdade pensa que conhece, se considerarmos que acabou se matando por causa dele —, mas é o policial que sente, na alma, os dramas da vida e da morte.

            Isso sem considerarmos que o financista, quando — esperto em tudo —, na iminência de ser preso, pode estar fazendo um jogo de cena arriscado, disparando um tiro de raspão na têmpora, de propósito, torcendo para que a bala não penetre no osso, apenas circule entre o osso e o couro cabeludo. Isso ocorrendo, muito sangue vai aparecer na foto do jornal. Um homem que já foi rico, poderoso, agora ensanguentado, comove um bom percentual de leitores de jornais. Prova de que se arrependeu, está sofrendo e merece uma oportunidade. Quem sabe, com o “tresloucado gesto” — bem difundido pela imprensa amiga — receberá pena mais leve. Com tempo, talvez, de desfrutar um descanso bem remunerado. Não no frio Paraíso, mas em algum ameno paraíso fiscal. Os tempos mudam e sua experiência em finanças pode ser útil para quem tem dinheiro mas não tem a experiência.

            Pedindo desculpa à alma do Dr. Nilsen por esta desnecessária divagação técnica, posso afirmar que pela face da Terra passaram pouquíssimas pessoas com tão violenta — esta é a palavra — integridade. Jamais encontrei pessoalmente um homem tão radical e coerente no modo de encarar o mundo e os deveres de sua profissão. E, paradoxalmente, isso o destruiu. Aliás, tinha mesmo que destruir, porque vivemos num mundo — principalmente o jurídico-penal — de eruditos faz-de-conta.

            Em verdade, na Faculdade não éramos amigos firmes. Apenas colegas. Ele era um rapaz de convivência “difícil”, à falta de melhor adjetivo.

            Parecia um fiscal da moral, censor severo, alma nascida velha de muitas décadas. Sério, caladão, alto, aloirado, olhos cinzentos, magro, porém forte, com uma expressão entre pensativa e amarga que já me sugeria tragédia. Quando a estudantada irresponsável fazia algo errado ele só a encarava, melancólico e crítico, como que tentando, só com o olhar, enfiar algum juízo nas alminhas irresponsáveis. Era um olhar de avô em rapaz de vinte anos. Por isso era evitado, o que não lhe fazia qualquer dano porque era um solitário por natureza.

            O pai dele foi assassinado na sua presença, no Brasil, quando Nilsen tinha oito anos, dentro de um banco, morto por haver reagido a um assaltante. Era norueguês ou sueco, coisa assim. Nórdico, com toda a certeza. O pai viera para o Brasil meio fugido, depois de absolvido no seu país num crime de homicídio. Matara um pescador em legítima defesa, mas os irmãos da vítima não concordavam com o veredicto do júri. Para não ter que matar a irmandade toda, que o caçava soturnamente, o pai do Nilsen preferiu viver nos trópicos. A mãe de Nilsen era uma pernambucana bonita, de pele clara, mas eu a conheci apenas de fotografia. Pouco mais de um ano depois da morte do marido, ela se casou de novo, mas Nilsen não se dava com o padrasto e vice-versa.

            Eu costumava pensar, baseado em leituras cheias de lugares-comuns, que as brumas nórdicas, grávidas de melancolia, impregnavam a alma dos descendentes de vikings e adensaram-se no miolo compenetrado desse brasileiro de olhos tristes. Estivemos na mesma classe os cinco anos do curso de direito, ambos com notas boas. Mas ele estudava muito mais do que eu. Aliás, do que todo o mundo. Era inteligente, mas com certa lentidão no se expressar, sempre preocupado com a exatidão de cada palavra, até em coisas mínimas. Sua mente era metódica, consequente, tenaz, pesada, sem nenhuma vivacidade latina. A contribuição genética da mãe foi, nessa área, nula.

            Compartilhamos o mesmo quarto na pensão de estudantes, mas durante poucos meses. Percebendo seu caráter reservado e por demais ordeiro, achei melhor mudar para outro quarto. Inventei uma desculpa, que ele deve ter percebido, mas nada comentou.

            Sempre fui desorganizado com minhas roupas, sem me sentir muito culpado por isso. Contudo, com essa nórdica e ordeira companhia de quarto, quando eu deixava qualquer roupa fora do lugar, logo me apressava em arrumar as coisas antes que o Nilsen a visse, tal qual um menino travesso quando ouve os passos da mãe severa se aproximando. E, para falar a verdade, muitas vezes eu tinha a impressão de estar ao lado de uma bomba-relógio humana, de mecanismo muito complicado para me atrever a desmontar. Embora contido, Nilsen era nitroglicerina pura. E não acredito que seu modo de ser tivesse relação única com o trauma provocado pela morte violenta do pai. Não sou psicólogo, mas meu palpite é que Nilsen nasceu assim.

            Nossos temperamentos eram completamente diferentes. Sempre fui brincalhão, comunicativo, amigo de anedotas e estórias engraçadas. E minhas pretensões de espirituoso tinham com o Nilsen bilhete apenas de ida. O dito supostamente espirituoso lá ia, batia nos olhos contemplativos e caía, sem nenhum retorno. Ou havia um retorno tão sério que eu me sentia como um palhaço leviano. Para piorar minha frustração, finda a anedota, ele me olhava gravemente, como que aguardando uma explicação complementar. Não que ele não entendesse a graça, pois era inteligente. É que aquele desfecho lhe parecia insatisfatório, faltando algo que justificasse tanta alegria. Esse olhar desarmava qualquer um. Se fosse possível alguma analogia entre espírito humano e motor de carro, diria que a mente do Nilsen estava sempre engatada na primeira marcha do câmbio, com força e lentidão. Só servia para subidas íngremes.

            Não me lembro de ter visto o Nilsen dando uma gargalhada. Pensando bem, nem mesmo me lembro de vê-lo com uma boa risada. Estranho que só agora tenha notado isso. Espremendo a memória não encontro nenhum quadro nítido em que ele aparecesse sorrindo, francamente alegre. De alguns raros meios sorrisos irônicos eu me lembro; embora ele não aprovasse, no geral, a ironia. No seu entender a ironia era a arma do medo, da fraqueza, do subterfúgio, do não-enfrentamento direto. E Nilsen gostava de enfrentar. Acho que eram os fantasmas dos vikings, fervilhando no seu sangue. Segundo a informação de um historiador inglês, os vikings, em tempos remotos, cercavam castelos da Inglaterra medieval, exigindo a entrega das mais belas e jovens mulheres, sob pena de morrer todo mundo, flechado ou de fome, porque tais cercos tinham longa duração. Há quem atribua a invulgar beleza das mulheres escandinavas a tais roubos sistemáticos dos mais belos genes da beleza inglesa. Os vikings só aceitavam “doações” de moças bonitas, mas para se “casarem” com seus guerreiros, não para serem estupradas.

            Ele parecia encarar o mundo de maneira séria demais. Quando se sentava para estudar, ficava horas imóvel, uma estátua de persistência. Três, quatro, cinco horas se passavam e o Nilsen de olho vidrado no texto, parecendo nem respirar, fizesse frio ou calor. Eu brincava dizendo-lhe que, a continuar assim, logo seria um erudito hemorroidário. Mas, para compensar tanta imobilidade, ele, todos os dias, sempre metódico, fazia uns vinte, trinta minutos de exercício, com peso, antes do banho. Banho frio sempre, verão ou inverno, coisa de louco. Durante um bom tempo, treinou pugilismo, ao que parece levando a coisa com excesso de rigor, pois com frequência aparecia machucado.

            Nilsen parecia não conhecer o medo. A impressão que me transmitia era de que não apenas dominava o medo — o que basta para nos livrar a cara pois já é uma façanha e tanto. Simplesmente não o sentia. E isso contribuiu muito para sua perdição. Um pouco de medo é imprescindível, salutar, protege o corpo e o bolso nesse medíocre e complicado mundo em que vivemos.

            Uma das violentas ojerizas dele era contra o barulho. Odiava, especialmente, músicas em alto volume. Àquela rapaziada alegre parecia impossível que os demais não gostassem de ouvir música popular “para todo mundo ouvir”. Como ele estava constantemente estudando, qualquer ruído era um estorvo para seus objetivos. E na busca de seus objetivos era extremamente radical.

            Um dia, numa aula de Medicina Legal, ele deu uma amostrazinha do seu radicalismo.

            O caso foi assim: o professor explicava que todo bebê vem ao mundo coberto com uma espécie de gordura — não me lembro exatamente da palavra técnica. E quando não respira de imediato, médicos e parteiras costumavam — não sei se ainda fazem assim — pegar o recém-nascido pelos pés e dar uns tapas na bundinha, ou, balançar o bebê, forçando com isso a respiração e o choro. Relatava o professor, na aula, que, num desses balanços o recém-nascido escapara das mãos do médico e voara pela janela. Caindo do terceiro andar, morrera na hora. A menção da morte não é desnecessária porque esses bebês são de lascar, havendo alguns casos de sobrevivência em quedas de altura semelhante quando caíram sobre toldos.

            Algumas alunas, escutando o que acontecera com o bebê, expressaram sua surpresa e dor — o meigo instinto maternal —, com gritinhos aflitos. Uns poucos marmanjos chegaram a sorrir discretamente porque o fato, não obstante trágico, comportava um toque de humor negro. Numa comédia dos Três Patetas, por exemplo, a cena provocaria risos; mesmo porque o bebê sairia ileso e ainda contando uma anedota. Mas um determinado colega de classe, gozador, sentado duas carteiras atrás, começou a rir abertamente. Parecia achar uma graça enorme na provável cara espantada do azarado médico.

            Não obstante o professor já houvesse mudado de assunto, o referido estudante continuou, à meia voz, fazendo comentários engraçadinhos sobre o arremesso. A cena lhe parecia um tema inesgotável. O próprio professor, um homem tímido, paciente, já dava sinais de estar incomodado, mas sem se atrever a mandar o estudante — um rapaz alto, agressivo, filho de um figurão —, calar a boca.

            As piadinhas, mesmo ditas em voz baixa, já estavam beliscando as orelhas sensíveis do Nilsen que virou-se ostensivamente para trás para ver se, só com o olhar, convencia o colega a parar com aquilo. Era o barulho, certamente, que o incomodava, não o tema em si.

            A olhada melancólica de Nilsen não surtiu qualquer resultado. O gozador prosseguiu nas observações intermitentes, provocando risinhos no colega ao lado.

            A insistência do piadista levou Nilsen a novamente se voltar na carteira e colocar o dedo indicador na vertical, junto aos próprios lábios, no clássico gesto de quem pede silêncio.

            O estudante falador novamente não deu bola. Talvez tenha pensado que silenciar, naquele momento, seria uma demonstração de medo. Estaria acatando ordem de um simples colega. E para agravar a coisa, havia três ou quatro moças observando a cena, detalhe que já provocou muita desgraça. Como todos sabem, o cheiro de mulher — leitora amiga, falo metaforicamente — alvoroça, do jeito errado, a valentia de macho idiota. Assim, o engraçadinho continuou com as piadinhas.

            Meio minuto depois, o Nilsen, em plena aula, levanta-se calmamente, pede licença para o estudante que estava logo atrás, afasta-o para o lado e desfere violento murro junto à orelha do falador, que caiu desacordado. Se não houve um nocaute puro e simples, ocorreu pelo menos um nocaute técnico.

            Foi realmente uma pancada e tanto. Vendo que o outro não levantava para o revide — não havia mínimas condições fisiológicas —, Nilsen pareceu hesitar se voltava para sua carteira ou deixava a sala. Mas logo percebeu — o professor estava bestificado — que não havia clima para o prosseguimento normal da aula e retirou-se.

            O agredido foi levado para ser medicado na diretoria e Nilsen só não foi expulso da Faculdade porque a vítima tinha realmente passado dos limites. O professor depôs em seu favor. E deve ter delirado de alegria, intimamente, sentindo-se reconfortado com o punho vigoroso do anjo vingador. Nilsen pegou uma suspensão de alguns dias, mas o “nocauteado” também, por atrapalhar a aula.

            Pelo que lembro, não houve vingança, ou porque o agredido compreendeu que havia se excedido na falação ou, mais provavelmente, porque a potência da porrada, conjugada à calma de seu autor, eram um indício seguro de que piores desgraças aguardariam a vítima se convidasse Nilsen para um acerto de contas na esquina.

            Mas esse não foi o único incidente de Nilsen na Faculdade.

            É de tradição — idiota, mas tradição — que os aprovados no vestibular de carreiras universitárias recebam pequenos, médios ou grandes ultrajes — denominados “trotes” — quando da matrícula no primeiro ano. Os veteranos mais sádicos, geralmente os menos inteligentes — o sadismo exagerado funciona, no caso, como uma forma de compensação —, não podem perder aquela chance única de “brilhar”, impondo aos inseguros calouros pequenas humilhações, tais como lhes cortar o cabelo, pintar o rosto e o corpo, despejar cerveja na cabeça, etc.

            Nilsen não se incomodou com o fato de se tornar careca durante algumas semanas. Definiu que essa imposição era “normal”, uma tradição “bobinha”, mas tolerável. Assim, antes mesmo de se dirigir à secretaria da faculdade, raspou a cabeça numa barbearia e foi se matricular.

            Ocorre que aos veteranos não interessava o fato do calouro se tornar careca. O importante era que a “tosquia” fosse feita por eles mesmos. Malfeita, deixando a cabeça do noviço igual a um ninho de ratos. Foi um choque, uma tremenda ofensa, portanto, a visão daquele calouro alto, já careca, limpinho, passando confiante para se matricular. Cena que destoava naquele grupo de calouros assustados que se deixavam tosquiar e pintar com resignação e até fingindo alegria.

            — Ei! Aonde vai? — perguntou um veterano.

            — Vou me matricular.

            — Quem te cortou o cabelo? — o veterano imaginou que esse calouro já fora devidamente “troteado”, tomara banho e depois voltara para a matrícula. Tanta segurança não teria outra explicação.

            — Ninguém. Achei melhor eu mesmo cortar. Serviço mais bem feito, não acha?

            Se havia tom de provocação nisso, ninguém informou depois.

            — Você mesmo cortou?!

            — Eu não. O barbeiro.

            O veterano não acreditava nos próprios ouvidos. Tendo ao lado dois outros veteranos, sentiu-se confiante para algo mais concreto que o simples espanto. Teria apoio.

            — ... Bicho, se você cortou no barbeiro, gastou dinheiro à-toa, porque vamos cortar outra vez.

            — Impossível. Não há mais o que cortar... — se sorriu, nesse momento, também não sei, porque esse diálogo me foi contado por um colega.

            O veterano não acreditava em tanta segurança. Mas não podia se desmoralizar. Ocorre que realmente não havia mais cabelos ao alcance de sua velha tesoura enferrujada, utilizada por sua mãe nos cuidados do jardim. Assim, pensou em derivar a poda capilar para o trote de pintar o rosto e o corpo do Nilsen.

            Mal o veterano iniciou os atos concretos para essa forma de humilhação acadêmica, Nilsen o agarrou pela camisa, com a mão esquerda, pondo-o contra parede, ao mesmo tempo em que, com a direita, desferia potentes socos no rosto e abdômen do veterano. Suponho que foi tal a massagem nas tripas, que o dono delas não veio jamais a sofrer de prisão de ventre nos vinte anos seguintes. E se pensou em reagir, pensou tarde, ou melhor, sonhou, pois já repousava nos braços de Morfeu.

            E o que fizeram os outros veteranos? — deve estar se perguntando o leitor. Eu também me pergunto. Segundo relatos, um deles esboçou um soco, sem muita convicção — todo veterano sente, no fundo, no fundo, que está sendo injusto — mas recebeu a sua dose, também cavalar, do “xarope porrada”, irregistrável no Ministério da Saúde. Com a pancada, cambaleou, estuporado. Nilsen largara o primeiro veterano, que simplesmente escorregou docemente pela parede, em câmera lenta, como se vê nos desenhos animados, passarinhos cantando e voando em círculo sobre sua cabeça. Enquanto isso, outros veteranos, sem compreender bem o fenômeno que ocorria, simplesmente olhavam, não se atrevendo a modificar aquela excêntrica realidade. É sabido que uma excessiva — mas tem que ser autêntica —, autoconfiança produz esse efeito inibitório nos circunstantes. E Nilsen afastou-se, sem pressa, apenas ligeiramente alerta, para fazer a matrícula.

            Nós dois, já bacharéis, eu fui trabalhar com um advogado da área cível e mantive alguns contatos com o Nilsen, que se tornara Delegado de Polícia e odiava, pessoalmente, a criminalidade de rua. Tivemos, nesses encontros, longas conversas. Ele se casara logo depois de entrar na polícia.

            De vez em quando, comíamos uma pizza, juntamente com outros ex-colegas da Faculdade.

            Dois anos depois de formado, numa tarde de pouco trabalho, ocorreu-me a ideia de assistir aos exames orais de candidatos que prestavam o Concurso de Ingresso à Magistratura. E não fiquei surpreso ao encontrar, entre os candidatos, o Nilsen que, então, ainda era delegado de polícia.

            Boa decisão, a dele, pensei então. Seu cérebro era, em todas as suas dobras, o de um juiz severo. Se havia perigo em seus punhos, a toga era uma quase garantia de sua não-utilização porque ninguém, hoje em dia, no seu juízo perfeito, desafia o juiz para acertar, no braço, a decisão da causa. Isso só acontecia na Idade Média, nas “Ordálias de Deus”. Explico: um Deus todo-poderoso “não permitiria que, em duelo, vencesse quem não tinha razão”, segundo a ingênua teologia da época. Porém, com o passar do tempo, o próprio juiz da ordália poderia ser pessoalmente ser desafiado, pelo perdedor, para um novo duelo — seria uma “segunda instância” de julgamento. O que, certamente, aconselharia os árbitros de duelos a frequentar cursos de equitação, uso da lança, espada, maça e machado. Presumo que as ordálias desapareceram devido ao risco profissional.

            Voltando ao Nilsen, logo depois de minha chegada ao local onde se realizava o exame oral dos candidatos, ele foi chamado.

            Pelo que depreendi, Nilsen saiu-se muito bem na inquirição dos examinadores. Respondia com precisão e sem pressa, com altivez, muito assertivo. Não se desculpava por falar com tanta segurança. Nunca dizia “a meu modesto ver”, ou “estou inclinado a pensar que...” e frases assemelhadas, respondendo a desembargadores — como é comum nesses concursos em que o candidato se preocupa também em agradar . Mas com um deles houve um certo alvoroço. O magistrado, antipatizando com o tom professoral do candidato — que parecia pretender saber tanto ou mais que ele, sobre o tema em discussão — disse, encerrando sua inquirição, que Nilsen “demostrava estudo” mas estava totalmente “equivocado”. E disse isso com um sorriso condescendente, acrescentando a observação de que o candidato, lendo com mais atenção um autor que citara, mudaria de opinião. Disse, finalmente, que não tinha mais perguntas.

Antes que outro examinador se manifestasse, Nilsen perguntou ao presidente da banca se poderia fazer uma observação. O presidente, pensando que o candidato iria dizer algo agradável, submisso, preocupado em ser aprovado na prova oral, concedeu-lhe a palavra. Se conhecesse melhor o Nilsen não teria feito isso. O viking guerreiro embutido no candidato veio à tona e, sem nervosismo, mas com argumentação pesada, citando detalhes, procurou demonstrar, por a+b que estava certo e que o seu oponente, o examinador, é que estava “equivocado”. Inclusive porque o jurista apoiado pelo examinador já escrevera um artigo, mais recente, dizendo que estava enganado na sua opinião anterior. Seguiu-se um quase bate-boca entre ambos, mas a “plateia” parecia ser favorável ao candidato.   

            Nilsen, eu soube dias depois, foi reprovado. A meu ver, pelo que ouvi, injustamente, ainda que não possa garantir essa opinião, como disse, por falta de meu conhecimento específico do detalhe causador da discórdia. Outros que assistiram ao “duelo” verbal também se surpreenderam com a reprovação. Pelo menos em razão da firmeza das respostas, sem entrar no seu mérito. Mas dias depois correu a notícia de que sua não-aprovação resultou do exame psicotécnico: — “Componente de agressividade muito elevado”. — Outros ainda asseguraram que foram seus antecedentes, como policial, a causa da não-aprovação. Tais antecedentes mostravam um temperamento “incompatível” com o tipo de personalidade serena, aconselhável para um magistrado.

 Talvez o fato que relatarei a seguir tenha pesado contra sua pretensão de ser juiz. Em uma cidade do interior — onde Nilsen era delegado — um valentão disse, em um bar, na presença de muitas pessoas, que se encontrasse, por sorte, na calçada, o “temido” delegado Nilso” — não sabia direito o nome dele —, “lhe daria uns bons tapas na cara para deixar de ser besta”. Acontece que um mês depois o valentão foi preso em flagrante por ter agredido alguém e conduzido à delegacia. Ao chegar, um policial contou ao Nilson que o conduzido era aquele valentão que, em público, prometera lhe dar uma surra.

Mal ouviu isso, o Nilsen, convidou-o a cumprir o que prometera, dizendo-lhe que “hoje é seu dia de sorte, me encontrou!”.  Assim dizendo, tirou o paletó e mandou o valentão entrar numa sala vazia. Entrou junto com ele e ordenou aos demais policiais que não interviessem, em hipótese alguma. Trancou-se com o detido e do lado de fora os policiais, com os ouvidos encostados na porta, ouviam os ruídos de uma luta, prontos até para arrobá-la caso os gemidos fossem identificados como sendo do delegado. Aberta a porta, vários minutos depois, constataram que os gemidos não eram do delegado, que estava apenas com a camisa rasgada e com alguns sinais de que o valentão não apanhara sem reagir. Talvez esse incidente tenha chegado aos ouvidos de seus superiores.

            Poderia continuar resumindo a filosofia de vida do falecido delegado. Daria um livro. Suponho, no entanto, que o leitor não está interessado em conjeturas. O que realmente o interessa é saber por que, afinal, Nilsen se matou.        

            Lamentavelmente, não tenho essa informação. Poderia no máximo conjeturar quatro ou cinco motivos prováveis, que tomariam um enorme espaço neste “conto” já longo demais. Depois de conhecer, na internet, as motivações suicidas fiquei espantado com a variedade de “motivos” que levam uma pessoa a se matar. Nem sempre é desespero, ou falta de dinheiro, amor ou saúde. Se o leitor se interessa pelo tema, acesse a Wikipédia, clicando “Lista de suicídios” e ficará abismado com a quantidade de suicidas e métodos de execução de pessoas famosas, ou conhecidas do público, que, por desespero, tédio de viver, ou calma e coerente filosofia preferiram decidir, “soberanamente”, quando e como deixar esta vida. Entre os suicidas existem milionários, grandes escritores, cineastas, políticos, atores, cantores, cientistas e até Prêmio Nobel de Literatura. Embora possamos entender porque muitos se mataram, porque o futuro seria só de humilhação — como foi o caso de Hitler e outros ditadores —, há dezenas e dezenas de pessoas vencedoras, ricas, realizadas. Nesses casos, certamente a causa terá origem orgânica, talvez glandular. Se a pessoa tem tudo para ser feliz, e se mata ainda moça, deve existir uma causa orgânica. A tal “depressão” deve servir como alerta. Algo deve estar errado em seu corpo.

        Essa explicação Nilsen guardou-a para sempre. Para mim, o mundo perdeu um desconhecido grande homem que não teve tempo suficiente para mostrar todo seu potencial.

       Nilsen deveria ter sido militar. De preferência em tempo de guerra. Chegaria a marechal. Nenhum “jogo de cintura”, como se diz. Justamente por isso, reconheço aqui, por escrito, sua integridade.

            Num mundo povoado de trêfegos rebolantes, físicos e/ou morais, sempre atentos à direção dos ventos, é um conforto encontrar uma forte personalidade. Nilsen acreditava em enfrentar o mal. Se exagerou, cabe a cada leitor avaliar, pela amostra aqui lida.

            Pelo jeito, morreu frustrado. Ou vitimado por uma inata inquietação interior. Mas se existe uma sobrevida — pouco provável, mas altamente desejável — exigência de justiça —, espero que nosso guerreiro, lá de cima, sinta algum conforto lendo estas páginas que o colocam na minha galeria de heróis anônimos.

 Francisco Cesar Pinheiro Rodrigues
             Desembargador aposentado
             oripec@terra.com.br

 FIM

 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

A POUPANÇA

 

Foto divulgação: Freepik

          João, metalúrgico, parece reunir coragem, olhando a marmita de alumínio que se encontra no colo, destampada. — “Hoje ou amanhã? — questiona-se. Está com medo — e não é para menos —, mas sabe que terá coragem de fazer o que considera necessário. Na verdade, necessário não é, mas quem consegue enfiar juízo na cabeça de um homem, na sua situação? Hesita apenas quanto ao momento de agir. Mas se deixar para amanhã, a tensão será a mesma ou maior. Quanto mais depressa resolver o problema, melhor.

            Neste exato momento, encontra-se sentado no chão da fábrica, pernas estendidas, costa apoiada na parede. É hora do almoço e, à sua volta, cerca de quinze colegas comem o almoço que trouxeram de casa. O operário mais próximo, o “Canhoto” — que ele considerar um mau caráter — está saboreando, com exibicionismo, uma sobrecoxa de frango grelhado. Dos presentes, é o que sempre come melhor. Frequentemente se dá ao luxo de almoçar na lanchonete da esquina, sem preocupação com o preço, às vezes até pagando a despesa de alguns colegas. Tem prestígio dentro do sindicato. — “O que está acontecendo com ele? Matou a tia rica solteira e recebeu a herança”?

            A visão do frango grelhado aguça involuntariamente o apetite do João que passa a olhar o ovo frito, montado no arroz, que trouxe de casa. A sobremesa será uma banana. Não compreende como possa sentir fome num momento tão difícil quanto este. Pelo jeito, corpo e alma, nele, vivem separados.

            Teme vomitar se logo após o almoço fizer o que pretende. Mas, se agir antes permanecerá com fome, pois não conseguirá comer em seguida.

            Enquanto hesita, confere seu “extrato bancário”, que não está escrito em papel, mas em carne, ossos e unhas: sua mão esquerda, um membro grande, moreno, ossudo. Mão de homem alto. Difere anatomicamente da normalidade pela falta de duas falangetas. E também difere em seu significado econômico porque ela é sua “caderneta de poupança”.

            Explico: nosso homem, quando em dificuldade financeira, esmaga “involuntariamente” na prensa rápida da fábrica um pedaço de dedo, recebendo a indenização acidentária.

            A primeira “aplicação dedal”, lembra-se, foi uma falangeta que serviu para pagar aluguéis atrasados, evitando o despejo. A segunda — pasmem, mas com cautela, porque o consumismo inventa coisas do arco da velha — para comprar uma televisão a cores, pressão das duas filhas, já mocinhas, que alegavam passar muito tempo na rua porque não havia televisão “que prestasse” em casa. Elas nunca souberam do sacrifício.

            A ideia de obter recursos “aplicando” pequenas frações de sua anatomia surgira por acaso, quando de um acidente — verdadeiro, involuntário — sofrido por um colega. Este, no fim do horário de trabalho, distraído, não afastara a tempo a mão. Apenas levara um susto quando a prensa baixara, com força e velocidade. Retirando a mão de imediato, esse colega chegara a pensar: “Quase pegou minha mão!”  Mal pensou isso viu dois dedos bem amassadinhos na placa de aço. Aí, quase desmaiara. Não de dor, mas de susto. A dor veio depois.

            Por se tratar de um típico acidente de trabalho, a indenização foi paga imediatamente, sem burocracia ou contestação na justiça. Houve ainda, no caso desse colega, um período de afastamento do trabalho, remunerado. Quando o acidentado retornou ao trabalho, não parecia muito infeliz, porque, com o dinheiro da indenização, comprara uma lambreta usada, o que lhe permitia passear e escapar dos ônibus superlotados. Vendo-o partir motorizado nosso João, ficara refletindo sobre a utilidade de certos acidentes. Um ano depois, do acontecido com o colega, na iminência do despejo por falta de pagamento, João sacrificara parte do dedo mínimo da mão esquerda. Foi um ato de desespero, certo, mas precedido de alguns cálculos. Um ano depois, “perdeu” parte de outro dedo, vizinho do primeiro. E de tanto calcular, tornara-se quase um especialista em matéria de indenização por perda de membros. Uma espécie de gerente de banco, que conhece, na palma da mão, digo, nos cotos dos dedos, o rendimento de seus “papéis”.

            O homem que neste momento se domina para não almoçar — Pretende perder algumas falanges, mas não a vida, com uma congestão, esmagando um dedo estando com o estômago cheio. Ganha mal, mas não tão mal assim. Recebe três salários mínimos brasileiros, o que lhe permite uma subsistência cautelosa, difícil, mas não impossível. Razoável, portanto, que o leitor pergunte qual a terrível necessidade que o empurra para tão absurdo e doloroso “investimento”.

            A explicação é simples. Nosso homem sofre do “coração”. Se ele fosse mulher berbere, no Marrocos — segundo um livro de curiosidades antigas —, e estivesse apaixonada, diria que seu “fígado” tinha sido “roubado”.  Para esse povo marroquino, a sensação do amor vinha do fígado, anatomicamente, assim como falamos em “coração”, embora sabendo que a “coisa” atua no cérebro. Enfim, ele está amando. Sabe-se apaixonado, escravizado por sensações de adolescente mórbido do século passado. Mas a consciência desse ridículo não o alivia nem um pouco. Está de tal modo caído por uma mocinha de nome Neusa, que quando não a pode ver sente uma espécie de garra apertando seu coração. A todo momento, pensa nela, uma “durona”, porque até agora não se entregou a ele. Por duas vezes, distraído, com dolorosa saudade, João quase perdeu a mão em acidente verdadeiro na mesma “agência bancária”, a prensa. Está casado há quinze anos, tem sido um marido oitenta por cento fiel, mas ao contrário de seus colegas de fraqueza, cada vez que “pula a cerca” se apaixona como um adolescente romântico.

            Neusa é uma mocinha bonita e decidida, que gosta de pôr “os pingos nos is”. Aliás, ela usa e abusa dessa expressão. Desde que começou seu “flerte” com nosso “investidor” — na opinião dela, um “coroa” bonitão — vem sofrendo uma terrível guerra psicológica, auditiva e até mesmo braçal dentro de casa. Sua mãe mantém uma vigilância constante e desagradável contra esse flerte ou namoro com um homem casado. Aliás, com qualquer homem que não demonstre desejo de casar e fazer tudo direitinho, no cartório e na igreja, com bom emprego e sem vícios. Ameaçou-a de expulsão, caso não parasse com aquilo. Presume que sua filha ainda é virgem. E se ela for expulsa, para onde irá?

            Neusa precisa urgentemente sair de casa. Mas morar onde? Na casa dele, juntamente com sua mulher? Não chegaria viva até a cozinha. A esposa do João é uma senhora vigorosa, até musculosa, trabalhadeira, moralista e corajosa. Certa vez, saíra no tapa com um cobrador de ônibus que pretendia iludi-la no troco. É muito mais enérgica do que o marido, um sonhador. Este sempre reconhecera o valor da sua mulher, sendo-lhe grato por muitas coisas. E tem-lhe medo, devido à retidão e firmeza dela, não obstante seja um homem que não teme outros homens. Mas a força da nova paixão supera qualquer outro sentimento.

            Com o sacrifício que fará daí a instantes, poderá “montar casa” para a Neusa. Ela deixara claro que gostava muito dele, não obstante a diferença de idade, mas que não aguentava mais o ambiente de perseguição dentro de casa. Ameaçava fugir para outra cidade, em outro Estado, sem deixar endereço. E bonitinha como ela só, ele pensou, logo arranjaria outro homem. Assim, onde arranjar dinheiro urgente, de modo a mantê-la na cidade?

            Nosso angustiado, vez por outra, lia em jornais, nos fins de semana, que um homem matara a amante, ou esposa, e depois se suicidara. Nessas ocasiões, quando seus colegas ou familiares censuravam, até com gracejos, tão louco sacrifício pelo amor de uma mulher, nosso homem respondia apenas com o silêncio. Conhecia-se. Sabia que, um dia, poderia chegar a tanto. Se teria coragem até para colocar sua cabeça debaixo de uma prensa, por que não poderia deixar ali apenas alguns dedos? Ouvindo, dias atrás, a expressão “Vão-se os anéis, fiquem os dedos”, ele intimamente adaptara o conselho para “Vão-se os dedos, fique a Neusa!”.

            Não! Não tinha mais dúvidas. Para reforçar a decisão, tomar coragem, era só lembrar o rosto dela, sempre presente na sua alma. Mesmo que levasse um fora após um ano, dar-se-ia por recompensado. Aquilo já não era um caso de amor, mas uma doença, da qual só se livraria “comendo” a causa.

            O horário de descanso estava se esgotando. “Afinal, almoço agora ou não?”, ele se perguntou. Se comesse, o acidente planejado pareceria mais natural, pois ninguém pode imaginar que uma pessoa vá almoçar prosaicamente, sabendo que logo em seguida perderá os dedos, esmagados. Comeu rapidamente, procurando não pensar e, quando se dispunha a ir até o bebedouro, a campainha da fábrica tocou, anunciando o término do intervalo para o almoço. Tinha que ser agora! Desistiu da água e aproximou-se da prensa onde trabalhava.

            Olhou em volta e percebeu que “Canhoto” o observava. Desviou a vista, mas quando olhou outra vez na direção do colega, este continuava olhando. — “O que quer esse desgraçado?” — perguntou-se. Teria adivinhado sua intenção?

            Lembrou-se, então, que tendo sofrido já duas lesões na mesma mão, a esquerda, não sendo canhoto, não seria melhor sofrer o “acidente” na mão direita? — Não, não deformaria sua mão direita, seu único ganha-pão, sendo destro. Melhor seria caprichar na “cena”, com a mão esquerda, dando um “escorregão” bem convincente. Para isso, precisava de um pouco de lubrificante nas solas dos sapatos. Pequenas manchas de óleo eram comuns no chão, naquela parte da empresa.

            Com forçada naturalidade, deu alguns passos para pegar o recipiente de óleo, mas, lembrando-se que a presença do recipiente, perto do “acidente”, poderia causar estranheza, decidiu utilizar apenas um pouco da substância na palma da mão, o suficiente para passar nas solas. Retornou para perto da prensa e fingindo amarrar o sapato, agachou-se, saindo do campo de visão do “Canhoto”. Agachado, besuntou as solas de seus sapatos. Em seguida, limpou a mão em um pano sujo e pegou uma peça que precisaria realmente ser amassada, colocando-a na posição adequada. Preservaria o polegar, o indicador, e o dedo médio da mão esquerda. O resto podia virar bife com osso.

            Para que não houvesse dúvidas, depois, quanto ao “escorregão” que explicaria o acidente, o operário posicionou suas mãos e pés — tal qual um meticuloso diretor de filmes — para que a cena ficasse bem convincente. Para isso, fez um “ensaio” antes de acionar a prensa.

       Algo errado, porém, aconteceu no ensaio do “escorregão acidental”. Com o movimento rápido e deslizante de um dos pés, ele perdeu o equilíbrio e, instintivamente, tentando não cair, sua mão direita foi inteiramente esmagada.

            Não houve dor imediata. Apenas um choque, seguido da sensação de horror, porque de forma alguma João queria aquilo. Sentiu um calafrio quando viu o sangue saindo do coto sangrento. Tentou correr, para pedir auxílio e estancar a hemorragia, mas por causa do óleo na sola escorregou de novo e caiu, batendo a testa na quina de uma caixa de metal. Permaneceu meio minuto desacordado. Socorrido por dois funcionários que trabalham no escritório e raramente transitavam pela área de produção, foi levado ao pronto socorro e dali para um hospital.

            Alguns dias depois, já fora de perigo, mas deprimido por perder a mão, sentindo ainda a “dor fantasma” na mão ausente, encontrava-se em casa, fazendo contas, com a mão esquerda, usando a maquininha de calcular — presente da esposa. Refazia os cálculos porque a indenização agora seria muito maior. Provavelmente seria aposentado por invalidez, porque era destro.

            Sua esposa parecia-lhe um tanto indiferente, como se carregasse no íntimo algum rancor. Mas poderia ser simples tristeza ou consciência pesada dele mesmo. Afinal, fizera uma tremenda burrada. Sem a mão direita, precisaria se acostumar com a outra e arranjar nova profissão em que utilizasse mais a mente que as mãos.

            A empresa onde trabalhava estava demorando para se pronunciar sobre a indenização. Alguma coisa não estaria bem?

            Alguns dias depois do acidente, alguém bateu palmas junto à sua porta. A mulher foi atender. Era um advogado da empresa, simpático, delicado, com pouco mais de cinquenta anos. O operário se animou, pensando: — “Ôba! Ele veio trazer o cheque pessoalmente”. Estranhou, porém, o fato de ser procurado, em casa. Em vezes anteriores, não fora tão prestigiado.

            Após os cumprimentos de praxe, o advogado pigarreou e perguntou à mulher do acidentado se poderia falar a sós com seu marido.

              A mulher pareceu surpresa e ofendida com a solicitação:

            — Não há necessidade, doutor. Aqui em casa não temos segredos.

            O advogado hesitou, constrangido, mas logo insistiu: — Minha senhora, não há o que temer. Nesses assuntos — mentiu —, é exigência da firma que a conversa seja apenas entre o empregado e o representante da firma. Evita discussões entre familiares, com versões diferentes sobre o fato. Não leve a mal.

            — Por que não posso ouvir? — insistiu a mulher, com as mãos na cintura, erguendo as sobrancelhas. Era de sua natureza brigar, discutir, nada entregar de modo fácil. Seria uma grande líder em outro meio, se fosse interessada em política.

            — Porque tem que ser assim! É a regra — mentiu o advogado, erguendo a voz, já aborrecido com a insistência. — Se a senhora não aceita as normas da empresa, muito bem! Eu volto agora mesmo para meu escritório e seu marido que vá tratar de seus interesses no departamento do pessoal.

            Vendo que a mulher ainda assim hesitava, fez menção de se levantar para sair.

            — Está bem... — ela concordou, de má vontade. — Preciso ir à padaria... Podem conversar à vontade... — E saiu da sala de cara feia, fechando a porta.

            O advogado voltou a sentar-se e encarou o operário como se o estudasse, em total silêncio.

            — Então? — perguntou o maneta, inquieto.

            O advogado pigarreou. Procurando deixar o interlocutor à vontade, observou de maneira simpática, com um meio sorriso nos olhos:

            — Está se sentindo melhor?

            — Ah, já... Mas ainda dói. A gente tem a impressão de que é a mão que está doendo. O médico me explicou que é a “dor fantasma”.

            De repente sério, o advogado, fitando o operário bem nos olhos perguntou:

            — Por que você fez isso?

            O coração do operário imediatamente acelerou. Cauteloso, respondeu:

            — Isso o quê?

            O advogado sorriu, compreensivo. Sentia uma certa simpatia pelo homem a sua frente. — Vou ser franco com o senhor... Pessoalmente, se dependesse só de mim, até apressaria o pagamento da sua indenização. Mas lamento dizer que há uma coisa em jogo e que torna isso impossível.

            O operário retesou-se, inquieto, no velho sofá, sentindo a ameaça no ar. Mas precisava reagir:

            — Impossível?! O que é impossível?

            — O pagamento da indenização.

            — Diabo! E por que não? Isso não vale nada? — perguntou, erguendo o toco, quase encostando-o no nariz do advogado. — Que “maracutaia” é essa? Quem paga é o INSS, não o patrão!

            O advogado não se abalou:

            — Você sabe muito bem porque não pode ser indenizado...

            — Não sei! — não ia ser agora, aleijado, que se entregaria facilmente.

            — Olha... — o advogado procurava ser didático e sem tom de crítica. — Quando você fazia toda aquela encenação, estava sendo filmado. A câmera registrou tudo: você pegando o lubrificante, abaixando-se, escondendo-se para passá-la na sola do sapato, ensaiando o acidente. Na verdade, você acabou escorregando de verdade, não foi? Deu para perceber que você se feriu além do planejado. Quantos dedos você queria perder?

            O operário estava arrasado. Não era, no fundo, um homem de mau caráter. Sentia-se esvaziado de energia, frio como uma lagartixa, mas sabia que deveria continuar lutando, mesmo sem forças. Com voz apagada, perguntou:

            — Não sei do que o senhor está falando...

            — Sabe, sim... Tenho pena do senhor... Pessoalmente, vejo a coisa com certa simpatia, mas...

            — Por que estavam me filmando? Sou tão importante assim?

            — A filmagem nada tinha a ver com a sua pessoa... Há tempos que suspeitávamos do seu colega, aquele apelidado de “Canhoto”. Ele vinha furtando peças pequenas, as mais caras, há vários meses, mas não tínhamos uma prova segura. Furtava e ainda “fofocava”, a mando do sindicato, incentivando greves e falando mal da empresa. Tem ambições políticas. Aí, o chefe da segurança sugeriu que a firma instalasse uma filmadora escondida entre aquelas caixas da prateleira mais alta, onde ninguém mexe. Assim, pegamos o “Canhoto” com a mão na massa, e você por mero acaso. Quando você estava caído, desmaiado, ele tratou de encher os bolsos extras que tinha mandado costurar dentro das calças. Agora, a pergunta mais importante: Por que você fez isso?

            Responder o quê, João pensou. Se me filmaram até passando o óleo na sola, não adianta continuar mentindo, mas quem sabe esse advogado talvez invente uma saída que me ajude:

            — O senhor não vai acreditar... Precisava de dinheiro...

            — Isso não precisa dizer... Ninguém joga fora os dedos por diversão. Minha pergunta é: para que você precisava do dinheiro?

            — Tenho dívidas. Estou para ser despejado...

            O advogado se ergueu, impaciente:

            — Por favor, diga a verdade... Você inventou isso agora... Antes de procurá-lo, examinamos a sua vida. Seu aluguel está em dia. E não consta que você é viciado em drogas. Vamos ser francos: não seria alguma complicação amorosa? Você tem sido visto com uma mocinha...

            — “Mais essa, a Neusa!” — pensou o acidentado. Não adiantaria mentir. Quem sabe, sendo sincero, comoveria aquele advogado tão compreensivo.

            — Desculpe, vou ser franco... Fiz isso por amor... Estou apaixonado... Não posso viver sem ela... Precisava alugar uma casa ou quarto e, sem dinheiro, o senhor sabe que não dá...

            O advogado já passara também por dois problemas assemelhados. Sentiu um impulso de solidariedade. Pretendia ser também escritor, além de advogado. Neste caso não agia apenas como advogado. Só mesmo uma paixão louca — e muita coragem —, pensava, levaria um homem a esmagar partes de seu corpo, para não perder uma mulher. 

            — Por mim, como já disse, o senhor receberia a indenização, mesmo porque quem paga é o INSS . Num país de tantas fraudes, seria uma coisinha de nada... Afinal, você acabou perdendo a mão inteira. Ocorre que, sem esse filme, nós não podemos “pegar” o “Canhoto”, que tem bons advogados no sindicato...

            — Não dá para cortar, no filme, a parte em que apareço?

            — Pensei nisso, mas não dá... Se eu cortasse, o advogado do “Canhoto” diria depois que se trata de um filme editado, cortado. Não serviria como prova.

            — O canalha! — exaltou-se o operário, pensando no colega de fábrica. — Sempre tive nojo daquele cara! Era por isso, então, que ele me olhava, disfarçando... Era o contrário! Que mal esse cara me fez... Mas o senhor não pode examinar de novo e descobrir uma saída? Olhe como estou — e ergueu o toco, dispondo-se a tirar as ataduras.

            — Não, não preciso ver! Não adianta! O problema é que, se nós escondermos a sua manobra, não informando o INSS — que estava sendo prejudicado com a tua fraude , inclusive dando mal exemplo aos outros empregados —, posso entrar numa fria, como advogado, porque quem se auto lesiona, comete crime de estelionato. Eu seria um cúmplice, no que se refere ao prejuízo do INSS... O Canhoto precisa ser demitido por cometer furtos contra a empresa, sem sair como herói e vítima do patrão.

            — Uma paixão desvairada, tenho que confessar... — explicou o operário, dramático, erguendo a voz, aproveitando o inesperado bafejo de simpatia que lhe poderia trazer alguma vantagem.

            Nem bem disse isso sua mulher abriu a porta com violência, entrando na sala como um furacão, aos gritos:

            — Desvairada! Paixão desvairada! Sem vergonha! Maneta burro! Só não meto a mão na tua cara porque não bato em aleijado!

            — Calma, você não entendeu!

            — Entendi tudo! Estava escutando atrás da porta, me dominando para não te meter a mão! O “Romeu” burro então ia perder os dedinhos por causa de uma biscate sem vergonha? Pois informo que perdeu a mão e a putinha! Nesses dias em que você esteve no hospital, tive uma “conversinha” com ela. Uma vizinha já vinha me buzinando no ouvido sobre esse “romance” escondido. Mas perca as esperanças, bobão, porque depois da nossa conversa ela não terá coragem nem de olhar pra tua cara. Está apavorada. Se eu mandar ela lamber meu sapato, ela lambe! Eu não tinha te contado nada, até agora, porque você tinha perdido a mão. Pensei que tinha sido um acidente. Fiquei até com pena, mas estou vendo que não devo ter pena de um fraco, que aceita perder os dedos por uma biscate. Eu já vi que não valho nada pra você... — E, dizendo isso, saiu da sala para não chorar.

            Silêncio sepulcral na sala.

            O advogado se ergueu, impressionado com aquela tragédia doméstica. Gostava de teatro, mas aquilo suplantava qualquer peça. Ao sair, disse que iria reexaminar o assunto e que esperasse alguns dias, não fazendo nenhuma “besteira”. Mas não lhe garantiu coisa alguma.

            Caminhando até o carro, o advogado estabeleceu um plano de ação. Iria trocar ideias com um dos diretores da firma, que já tinha tido alguns problemas domésticos assemelhados. Um pouco de “precedentes amorosos” operaria maravilhas. Tinha quase certeza que encontraria alguma saída para o maneta. Afinal, para que existem os advogados?

            Quando o causídico se retirou, o operário foi para o quarto, deitou-se de costas, cobriu os olhos úmidos com o antebraço dobrado e ficou quase tão imóvel quanto um morto. Não tinha ânimo nem para respirar.

            Na cozinha, a mulher, zonza, pressão arterial nas alturas, mexia mecanicamente nas panelas e enxugava as lágrimas. Precisava fazer o almoço.

        FIM

 Francisco Cesar Pinheiro Rodrigues
                   oripec@terra.com.br

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 07.01.2022