quinta-feira, 21 de março de 2019

"As baratas herdarão a Terra”.


          Duas baratas, macho e fêmea, distinto casal, conversam, no idioma delas, na tubulação de esgoto, enquanto mordiscam restos estragados de comida. Ele chama-se Glutof e ela, Kiti.
 — Por que o entusiasmo? — pergunta o marido em tom desconfiado. Glutof é cético, convencido, solene, cascudo, culto, repulsivo, olhos de coruja. Nutridíssimo, lembra uma tâmara escura e obesa, dotada de pernas finas porém musculosas e cabeludas — ou que melhor nome tenham suas cerdas. Felizmente, não engorda nas coxinhas, o que lhe permite disparar em incrível velocidade nos momentos de perigo, caçado pela tríade maldita de homens, ratos e gatos. Estes últimos uns farristas preguiçosos que matam por diversão porque nem mastigam as presas. Sentem nojo.
Glutof orgulha-se do brilho castanho, quase negro, das suas asas, que consegue rufar com enorme sucesso, provocando gritinhos e desmaios no sexo oposto. Apesar de gordão, é mulherengo, ou melhor, “baratengo”, palavra que pretende incluir no primeiro dicionário de uma nova língua, o “baratês”, em elaboração — ele coordenador. Também gosta muito de filosofar, superior, deliciando-se com a basbaquice dos colegas de sua espécie, “quase todos uns ignorantes, quando comigo comparados”. Ocorreu uma mutação genética nas baratas domésticas, caracterizada pela maior longevidade e tamanho do cérebro. Mas nem todas foram igualmente aquinhoadas com o aumento da inteligência. Aliás, um problema também humano, só que bem mais antigo.
— Você, crítico e convencido como sempre! — Kiti protesta. — Que mania a sua de me diminuir, quebrar o meu barato! Não é entusiasmo, diabo! É que fiquei espantada, ou melhor, horrorizada — tá bem assim? — vendo a asquerosa limpeza do novo restaurante da esquina. Consegui entrar lá uma única vez, por baixo da porta, na véspera da inauguração, e dei uma espiada. Ontem, após a inauguração, tentei voltar para beliscar umas coisinhas, esgueirando-me pelos cantos, mas fiquei com medo. Movimento demais. A única fresta que poderia me dar uma boquinha já foi fechada. A prevenção dos canalhas humanos contra nós é perfeita. Entrada, só se for pela porta da frente, mas com o risco de ser esborrachada pela sola do porteiro.
— Pela sua linguagem corporal ainda acho que você parece meio eufórica, quase contente, aprovando inconscientemente a abominável limpeza... — insistiu o marido, teórico respeitadíssimo pelo zelo na defesa dos imorredouros valores da imundície. Interrompeu as chupadinhas que dava num pão embolorado para sorver, estalando os beiços, um copinho de muco, escorrido de uma casa de repouso de velhos pobres.
— É que eu, mesmo não aprovando, lógico, qualquer limpeza — tá pensando que sou o que?! — gosto de ver coisas bem feitas, mesmo discordando delas. Você sabe que sempre fui perfeccionista...
— Em termos... — cortou o marido. — Lá em casa você relaxa. Ainda há muita limpeza aqui e ali... O asseio está ficando insuportável. Você não é muito boa dona de casa, desculpe a franqueza...
— Mas você também não coopera! — ela ergueu a foz fininha, indignada, vibrando as antenas. — Fica lá, paradão, no gabinete daquele advogado velho, dono da casa, mordiscando livros antigos, engordurados, comprados no sebo. Você, meu caro, é um viciado em sal e gordura humana velha.
— Você é que não enxerga um palmo adiante do nariz. Não é só gula, minha cara. Eu estudo. Minha ociosidade é aparente. Está certo que também gosto de comer. Leio, porém, tanto quanto como. Opa! Merece até um trocadilho — sorriu, encantado com o achado: — Como leio! Exclamação. Principalmente saboreio, devagar, degustando não só o sebo dos dedos da decadente prole de Adão, como também a parte abstrata, as próprias ideias impressas. Isso para não ficar dizendo besteira por aí, como nossos irmãos cascudos de pernas finas. Um dia herdaremos a Terra... Lembra-se da profecia? Já li que se houver um conflito nuclear, apenas nós sobraremos. Estaremos bem protegidos aqui no fundo, enquanto a canalhada bípede torra lá em cima, merecidamente. Já imaginou a farra, depois? Tudo será nosso... Do lixo aos computadores...
— Isso se der tempo de você correr pra cá. Se estiver na biblioteca na hora do “Big Bum!” — como provavelmente estará, viciado em livro sebento — não herdará coisa nenhuma! Será apenas mais uma tâmara tostada. Além disso, a que guerra atômica você se refere? Os dois únicos gigantes que poderiam nos prestar esse favor já fizeram as pazes! Está tudo desmoralizado! O chefe russo, aquele urso loiro e cardíaco — referia-se a Boris Yeltsin —, com olhos puxados de mongol — a mãe dele deve ter tido um vizinho japonês mais bonito do que o marido — virou capitalista! Em vez de utilizar os roliços dedos apertando os botões de lançamento dos mísseis, diverte-se beliscando as secretárias! É de desanimar...
— Não perca as esperanças, Kiti. — Ela é graciosa, pestanuda, cérebro rico de intuições loucas e acertadas, tudo misturado. Boazudinha, quase só feromônios e órgãos reprodutores, tem fama de leviana, mas até agora ninguém teve coragem de testemunhar contra ela porque é influente e vingativa. É o quinto casamento do intelectual cara de coruja, que prossegue, doutoral: — Parodiando o que já disse um empresário americano, ninguém, até agora, perdeu dinheiro apostando na idiotice dos chefes de estado valentões. Melhor dizendo, na idiotice da espécie humana, toda ela, sem exceção, que se diz tão racional, espiritual. Nós, que a conhecemos bem e comemos o que jogam fora, sabemos o que eles são no fundo. Principalmente nos fundos...
Fez uma pausa para mordiscar um resto de banana podre e continuou, erudito, deliciado de ouvir aquela voz que sabia modular com tanta autoridade:
— Felizmente, as chamadas potências emergentes estão aí, preocupadas em dominar o átomo, com isso assustando os vizinhos. Portanto, não desanime. Um dia, estarão fazendo bombas atômicas de fundo de quintal. Chegará a nossa vez, Kiti. Sempre acreditei que nossos ideais de justiça e supremacia final acabarão prevalecendo. O poder dos impérios sobe e desce, qual uma gangorra. Está nos livros de história que lambo, digo, leio. O Poder muda de mãos. Sinto no ar, principalmente no poluído — essa cheirosa e estimulante lixeira aérea — os sinais de que está chegando a nossa vez! É sumamente injusto o atual sistema de dominação! Qualquer humano, idiota ou sabidinho, mal nos vê comendo uma mísera migalha no chão da cozinha, morrendo de fome, arregala os olhos como um assassino louco e corre pra cima, com a pata erguida. Por que esse preconceito? Afinal, estamos limpando a cozinha deles, sem nada cobrar! Economizariam com faxineiras! Poderíamos viver tão bem, em harmonia! À noite, os humanos espalhariam suas roupas sujas pelo chão, iriam dormir nus, e nós invadiríamos a casa, comendo toda a sujeira digerível deixada em copos, corpos, pratos e talheres. As roupas teriam essa “lavagem a seco” diária. Lamberíamos todo o pessoal da casa, dispensando-os do banho matinal. Baita economia pra eles! Acordariam limpinhos! No entanto, as bestas nos esmagam!
— Que tal a gente montar um rodízio de roupas íntimas? Deve dar dinheiro... — ela propõe, olhos brilhando, sempre atenta a sacar um lucrinho de qualquer ideia. Considera-se uma grande empresária.
— Desta parte, você cuidaria. Não gosto de me meter em assuntos de dinheiro. Sinto-me como se perdesse a dignidade.
— Tudo bem com essas teorias. Você sabe que não esquento a cabeça com leituras. Só gosto de leitura a jato, dinâmica, mas gostaria de saber como vamos comer, se estourar uma guerra nuclear. Os alimentos não estariam contaminados pela radiação?
— Bem, ora... — ele pareceu surpreso. Nunca meditara sobre isso. Rotulava esses lampejos de bom senso da esposa de “faíscas da ferradura da cavalgadura”, como já dissera um famoso crítico. Mas não deu o braço a torcer: — Realmente, claro, hum, de fato, já havia pensado nisso... Durante algum tempo, que nossos técnicos determinariam, não comeríamos o que está na superfície.  Temos nas redes de esgoto um gigantesco e delicioso estoque de supermercado natural, tudo já prontinho e temperado para o nosso consumo. Assim, seria só esperar algum tempo no esgoto, até que diminuísse a radioatividade. — Fez uma nova pausa para lamber, estalando os lábios, uma espécie de musse de chocolate extraída de um papel branco, quadrado, textura suave, e concluiu:
— Seria a glória!, como se estivéssemos no Camboja...
— Por que o Camboja?
— Porque houve lá uma suculenta guerra civil que durou vinte e cinco anos. Nesse período, foram plantadas entre seis e dez milhões —  hesitou: ou seriam dez mil? — de minas terrestres. O resultado é que agora, todo mês, entre duzentas e trezentas pessoas vão pro espaço. Não em aviões de carreira. É o país, embora minúsculo, que tem o maior índice de amputações do mundo. Convenhamos, um paraíso terrestre! Houvesse turismo entre nós, você já imaginou?... Ai, ai, ai! Dá até água na boca, só de pensar! E os lança-chamas? Poderíamos escolher entre carne mal passada, bem passada, saignant, rare, medium.
— Lá vem você com suas exibições de poliglota...
— E dizem os especialistas que serão necessários uns trezentos anos para localizar e desmontar todas as minas.
— Por que eles plantavam tanta bomba? Não era possível uma agricultura mais tradicional?
— Kiti... Você precisa ler mais devagar... Ninguém planta bombas, querida. Eles enfiam explosivos no chão! Cada ala rival, ao se retirar, espalhava as minas para fod..., digo, estrepar — ele não aprovava palavrões na boca de grandes líderes — a cambada rival. E como havia muitas idas e vindas nas contínuas escaramuças, perdendo e reconquistando terrenos, o resultado é que o país virou um vasto açougue, fornecedor de pernas, cabeças e braços humanos — em peças avulsas. Para nós, um paraíso, pois somos levezinhas e podemos caminhar sem susto sobre as minas. Nossas primas cambojanas, aquelas sortudas, têm sangue e carne fresca à vontade. Já está até fazendo mal ao fígado, dizem, devido ao excesso de ferro na alimentação. É como porre de vinho, dá aquela bruta dor-de-cabeça no dia seguinte. Os “inteligentíssimos” humanos, hi!, hi! — riu, erguendo as sobrancelhas, rufando as asas em desprezo — não pararam para pensar que, um dia, o tiroteio iria terminar? Esqueceram a velha definição de que são “bípedes implumes”? Como não voam, pisam... e só então voam. Soube que uma horrorosa princezinha inglesa, uma tal de Lady Di, vinha pregando a proibição de minas terrestres. Será que vem mais essa desgraça por cima de nós? Infelizmente, ela morreu.
— Infelizmente? — Kiti abriu as asas com espanto. — O que deu em você? Foi bom ela ter morrido, parando com essa campanha nojenta.
— Você não tem visão, Kiti. Digo infelizmente porque, com a morte dela, a imprensa passou a venerá-la; consequentemente, dando força ao que ela pregava. Antes continuasse viva, só enchendo a paciência. Viva, seria menos prejudicial para nossa causa. Perseguiram a infame por anos e anos, vigiando-a, fotografando-a à distância, criticando e fofocando o tempo todo. Queriam até, por causa dela, a queda da monarquia inglesa. Agora, bastou a maléfica reformista morrer e pronto! Virou deusa! E aí é que está o perigo para nós! Doravante, em crise de consciência — essa coisa tão doentia nos humanos, e principalmente para vender revistas — a mídia vai querer pôr em prática a pregação dela. Entre os humanos é assim. Só depois da pessoa morta, não mais despertando inveja, porque está apodrecendo, é que é valorizada. Só espero que aquela princezinha, mais feia que a higiene, não tenha sucesso póstumo na sua absurda campanha para abolição das minas terrestres. Mesmo que não haja guerra nuclear, eles morrerão de qualquer forma, só que lentamente, cozidos no fogo lento do efeito estufa, ou envenenados pelas porcarias de comem, cheias de química cancerígena de efeito remoto. São burros e ambiciosos demais para parar a tempo. Felizmente, para nós, nossa alimentação, no esgoto há milênios, já nos tornou imunes a tais venenos.
— Será que um dia seremos também assim, digo, com essas falhas de caráter dos humanos?
— Provavelmente... — ele suspirou. — Lamento dizer. É o preço da civilização... — Sentia vaidade da sua frieza de estadista. — A menos que criemos uma nova Ética, na qual venho trabalhando há tempos, com a profundidade que todos notam em mim. Para começar, precisamos inventar um reforço de coação, um deus-barata à nossa imagem e semelhança: cascudo, antenudo, poderoso, vingativo. A chefe, diretor, presidente, nem todos obedecem. Mas a um deus-barata, com poder realmente de vida e morte, a barataiada planetária vai tremer... e obedecer. Conversarei privadamente com “ele”, nosso deus — eu mesmo, claro... — uma vez por semana no telhado de um prédio alto — sorriu, irônico, fechando um olho de coruja — e em seguida transmitirei ao nosso povo qual foi a mensagem que só eu ouvi... Que tal a ideia?
— E você acha que nosso pessoal vai acreditar nisso, nesse colóquio privado divino? Nossa gente é mais desconfiada que os humanos, porque sofreu mais...
— Acredita, sim, porque faz bem à alma acreditar. Acredita-se sempre naquilo que se deseja acreditar.
— Mas você mesmo acredita?
— Claro que não! Mas ninguém poderá provar que não acredito. A menos que você abra a linda boquinha, mas aí já sabe o que a espera. Apenas vendo um produto muito necessário, a esperança, enquanto houver medo no coração das baratas. “Business”, apenas. E por falar em medo, a civilização dos humanos está afundando justamente por falta de medo. A moda deles agora, o “must”, é a compreensão profunda da motivação dos atos humanos. Os patetas querem é “entender”, vejam só... Resultado: concluíram, por exemplo, que não adianta encher as cadeias, porque a prisão não recupera. Claro que não recupera! Mas a impunidade por acaso recupera? Ficam como baratas tontas — epa! digo, humanos tontos! — não sabendo o que fazer. E malandramente dão um jeitinho de conciliar o velho desejo de retirar de circulação o asqueroso bandido, ao mesmo tempo que podem se elogiar, dizendo que lhe fazem um grande bem, “reeducando-o”. Eu, quando estiver mandando nessa joça, já sei como vou resolver o problema da criminalidade: pena de morte imediata para toda barata cometendo um crime grave. Será um exemplo e tanto. Não gastaremos com processos, papeladas, cadeias e principalmente comida. Para pequenas infrações torturaremos o cara mantendo-o alguns dias num lugar doentiamente asseado. Para ele será a morte! Nunca mais vai querer errar de novo! Do contrário volta para a limpeza.
— Caramba! Que finura! A limpeza! Quando quer, meu querido, você sabe ser mauzinho... Talvez fosse melhor matar logo de uma vez... Desculpe, meu bem, sou contra torturas.  Mas como vamos matar os criminosos mais perversos, se não temos armas, dentes e nem mesmo mãos?
— Amestraremos os ratos. Eles são astutos, mas burros. Há uma grande diferença entre astúcia e inteligência. Eles só pensam em roer e fornicar. A menos que também sofram uma mutação, como a nossa. Aí estaremos ferrados porque eles têm um cérebro maior... e dentes... Aliás, já instruí nosso staff para me informar sobre qualquer material radioativo encontrado na tubulação. Isolaremos imediatamente a área porque, com a radiação, tudo pode acontecer. Se os ratos ficarem como nós, adeus ao nosso milênio de glórias! Eles é que substituirão os homens no domínio da Terra.
— Mas voltando ao novo restaurante da esquina, você precisava ver a limpeza da cozinha! Tudo brilhando! Nenhuma sujeira capaz de...
— Para! Para! — ele a interrompeu aos gritos sapateando, tremendo de ódio, amassando e jogando fora o papel higiênico manchado de chocolate. — Não aguento mais esta sua conversa porcalhona, bem na hora da refeição! Quer me fazer vomitar?!
— Chiii!... Precisava gritar desse jeito? Tá com nojinho da limpeza? Que sensibilidade delicada... Parece uma mocinha...
— Olha lá como fala... — suas grandes antenas vibravam de indignação. Nunca batera na esposa, mas estava prestes a fazer isso.
Kiti não se intimidou: — De tanto ler livros de humanos, tá ficando com faniquitos de poeta, todo delicado, sensitivo de torre de marfim. Cuidado, hein... Conheço um que virou a mão...
— Que livros você queria que eu lesse, sua burra? Barata, por acaso, já tem editoras e indústria gráfica? Agora somos inteligentes, claro — tanto assim que os humanos nem suspeitam, pois disfarçamos. Mas temos que, por enquanto, haurir a única cultura disponível, a dos humanos, até que elaboremos a nossa, própria, que será, claro, muito superior.
— Falei só pra te chatear... Porque você foi grosseiro. — Com as duas grande antenas, nela especialmente graciosas, fez um agrado na antena do marido, alisando-a, enquanto emitia feromônios que o excitaram. Mas ele se dominou porque achava perigoso fazer sexo após lautas refeições.
— ... Amorzinho — ela indagou, meiga, — por que você lê tanto? Não acha que exagera? Pode prejudicar a vista... E não temos ainda oculistas entre nós. Por falar nisso, acho que você ficaria bacana usando óculos com armação de tartaruga. Impossível ar mais intelectual! Você é meu pão embolorado, meu doce de coco com validade vencida há mais de três anos. Tem muita pilantrinha cascuda por aí me invejando, pensa que não sei?
— Leio porque, se houver algum cataclismo mundial, quero estar preparado para organizar nossa espécie rumo ao milênio. Nós, baratas, não repetiremos os erros dos humanos.
— Que erro, amorzinho? Desculpe, mas com ou sem erro eles estão por cima... Estão milênios à nossa frente. Nossa mutação genética — graças à bendita sujeira radioativa que jogam em qualquer lugar — é muito recente. Os humanos nos esmagam de tudo quanto é jeito. Ou nos envenenam com aquelas esguichadinhas mortais. Um dia, quase morri, te contei não? Por pouco você estaria conversando agora com um fantasma. Acho até que restou sequela. Nunca mais fui a mesma, uma sensação esquisita no baixo ventre... A dona da casa, cafajesta promíscua — provavelmente vinha da farra porque estava com umas enormes olheiras — mal acendeu a luz da cozinha e me viu ali, bem no meio, estonteada pela claridade, correu para pegar um tubo de inseticida. A carrasca não queria melecar a rica solinha... Nessa hora disparei em círculos, como um busca-pé, até me lembrar de que o melhor seria escapar por baixo da porta que dá para o quintal. Enquanto isso, a fera humana, esbaforida, rodopiando, com medo de que eu subisse nela, sapateava uma dança guerreira, tentando esguichar o veneno na minha direção. Felizmente, quase não me atingiu, mas, assim mesmo, só com a neblina, senti cólicas na hora. Penso que abortei... Saiu tudo misturado. Eles não erram, meu bem. Não adianta, o mundo é deles... Até hoje me arrependo de não ter subido pelo meio das pernas dela, até o fim. Daria uma mordidinha caprichada bem ali. Garanto que a vagabunda desmaiava de pavor!
— Quando digo errar, Kiti, refiro-me ao comportamento dos humanos com os próprios humanos. Eles mesmos se eliminarão, seja com bomba, poluição ou criminalidade nas ruas e bancos. Não precisamos interferir. É só esperar. Na Argélia, alguns caras fanáticos ganharam mas não levaram uma eleição. Estão degolando centenas de pessoas nas aldeias mais afastadas. Vítimas, inclusive crianças, que em nada contribuíram para a ilegalidade política. Também estupram mulheres jovens, antes de matar, porque ninguém é de ferro. E matam a machadadas. Nossas primas argelinas é que se deliciam com esses humanos do capeta, nossos preparadores do terreno.
— Com relação a nós — ele prosseguiu, porque sentia-se especialmente inspirado — e aos ratos, por exemplo, esses canalhas resistentes, mas de visão curta, que também nos atacam quando esfomeados, eles, humanos, são muito eficientes... Bem, eficientes em termos, porque soube que no prédio do Pentágono havia uma praga de milhares de baratas americanas, nas barbas deles, exímios guerreiros de computador que são. Sim, os humanos sabem matar, mas, felizmente para nós, odeiam-se mutuamente. Amam-se nos pequenos intervalos da vida, mas, quando contrariados, odeiam-se. Basta discordar e o cara está ferrado. Pai odeia filho e vice-versa. Uma beleza.
— Desculpe, mas não é bem assim... — ela sentia um prazer sutil quando achava uma falha nos argumentos dele . — Alguns humanos não são agressivos nem mesmo com nós. Semana passada, eu e mais umas cinquenta amigas estávamos fofocando no teto da tubulação de esgoto da rua quando um trabalhador da rede pública desceu até ali por uma escadinha. Vendo-nos a poucos centímetros de sua cabeça, gritou para alguns colegas que estavam logo acima, no nível da rua: — “Tudo bem, pessoal! Não há perigo!”. E começou a trabalhar na tubulação, sem nos causar qualquer dano. Um santo! Fiquei muito comovida. Quase voei nos lábios dele para lhe dar um beijo... Realmente os humanos são surpreendentes. Nem sempre são maus.
Glutof sorriu, superior, divertido com a inocência da companheira: — Então a lindinha pensou que ele te poupou porque gostou de você? Nada disso, candura. Ele te deixou viva porque o fato de haver baratas na tubulação significa que por ali não há gases tóxicos. Justamente quando não há baratas é que existe o perigo. Se há, podem trabalhar sem susto. Só nos poupam quando somos úteis, manjou?
— Caramba, eles não dão ponto sem nó... — Desconcertada, ela coçou a primeira axila direita, como sempre fazia quando sentia-se ridicularizada. — Como você sabe das coisas... Por que, com toda essa sabedoria, não organiza um ataque em massa contra os humanos? Eles são medrosos. Comem muito e têm a vida mansa. Já vi um homenzarrão pular como um macaco, apavorado, só porque havia duas baratas dentro da camisa, que ele vestiu no escuro. Ou porque uma inocente coleguinha nossa voou e entrou casualmente dentro da boca de um velho. Ele praticava exercícios respiratórios, com a boca aberta, fazendo profundos movimentos de inspiração. Foi realmente o beijo da morte. A pobrezinha foi cuspida como se fosse uma coisa nojenta, e esmigalhada! O mais espantoso é que o velho, em seguida, foi rezar! Pode?!
— Sei que o homem é medroso, mas tem a tecnologia da morte. Numa guerra, seríamos derrotados. Ganharíamos umas mínimas escaramuças iniciais, dando apenas alguns sustos. Voando, por exemplo, nos olhos, ou na boca, ou escondendo-nos dentro das cuecas de alguns figurões, vibrando as asas perto do... você sabe onde... Mas seria só isso, sustos, coisinhas. No máximo alguns enfartes porque esses importantões, cheios de poder, pizza, lasanha e filé mignon estão com os tubos... — como é que chamam, mesmo? Ah!, artérias! — igualmente cheios de gordura. A natureza nos foi madrasta. Nem ferrão nós possuímos...
Glutof fez uma pausa involuntária. Estava emocionado com seus pensamentos, quase chorando. Lamentou não estar sendo visto e ouvido, naquele momento, por muitas baratas, porque a dor moral autêntica, na política, é coisa rara. Sua eloquência, sincera e triste, estava sendo desperdiçada. Mas precisava aproveitar o embalo. Quem sabe diria coisas interessantes. Por isso prosseguiu:
— Se fosse possível uma mutação genética direcionada nesse sentido, dando-nos armas naturais, por exemplo, veneno, como nas aranhas... Mas essas mutações ocorrem sem nenhum controle. Agora nós temos apenas inteligência, mas você já percebeu que nem todos. Estamos muito longe de manipular a engenharia genética. Sem mãos, seres pequenos que somos, o que podemos fazer por enquanto? Apenas pensar e nos organizar. E esperar que eles se matem, o que é quase certo. Para os que gostam de ação, tiveram o IRA, o ETA, o Oriente Médio, eterna fonte de ódio, guerra comercial entre os maiorais, etc.  Jamais chegarão, assim espero, a um acordo de convivência porque a cobiça por terras, petróleo e poder não deixam. A paz não interessa, no fundo. Todos aqueles chefões, terroristas e antiterroristas, não vão jamais se conformar em retornar à vidinha pacata, sem brilho, chata, ganhando pouco, batendo ponto em fábrica, escritório ou repartição. Iriam lá trocar uma vida excitante, cheia de charme ideológico, dinheiro fácil e mulheres, por ofícios tais como carteiro, cozinheiro, comerciário, comerciante, feirante, etc.? Uma desmoralização!
— Mas, meu bem, alguns explodem junto com as bombas. Parecem idealistas.
— Certo, certo... mas só os tolinhos... Os intelectuais, os chefões, jamais fazem isso. Soldado do terror, explode; general do terror não explode. Jamais! A não ser de raiva! Afinal, “a causa” precisa de seus “potentes” cérebros. Correto? Por outro lado, a ala oposta, que andou dispersa pelo mundo, imaginava o quê? Que iriam retomar a antiga terra, a Palestina, milênios depois, expulsando os locais de turbantes, colonizando e ficando com tudo, sem qualquer reação? Não sei, eles que são humanos que se entendam. Ou melhor, que não se entendam nunca! São nossos votos.
          — Além disso — prosseguiu —, não esquecer a sacrossanta AIDS, néctar dos deuses! É uma praga do bem, o nosso, que, espero, faça uma grande limpeza porque somos a ela imunes. E as drogas, então, essa nossa aliada vingadora, que quando pega não larga mais! Fracos como são, e sabem que o são, os palhaços humanos ainda as experimentam, só para “conferir” e constatar depois que a coisa era como diziam, vicia. Talvez para passarem malandramente à condição de vítimas, coitadinhos, viciados. No fundo uma boa, pois aí todo mundo paparica eles. Viciado não precisa trabalhar, nem estudar, nem fazer coisa alguma. Precisa só continuar viciado. Um achado! E por falar em achado, eu já tomei meu porre involuntário, pois, quando chega a polícia, a primeira coisa de que o traficante se lembra é de jogar o pó branco na privada e dar a descarga. Sem a mínima preocupação com a nossa saúde, pois vivemos no esgoto. Eu vi aquele pó clarinho boiando e logo pensei que era açúcar. Meti a boca e chupei. Quando dei por mim, estava fogueteando pelas paredes e desafiando ratões para sair no braço.

             — Não esqueçamos — ele prosseguiu — a maravilhosa infecção hospitalar, um dos poucos segmentos em que podemos colaborar pessoalmente para o êxito de nossa causa. Estamos organizando cursinhos de orientação sobre como chupar a gaze infectada e em seguida beliscar a comida dos doentes. Principalmente das criancinhas, porque é melhor matar o inimigo no ovo. Enquanto as faxineiras fingirem que limpam o chão dos hospitais e seus chefes fingirem que as fiscalizam — pois na verdade têm medo delas, o receio de parecerem “autoritários” — as coisas irão às mil maravilhas. Mas, voltando ao que dizia antes, nós, baratas, precisamos, acima de tudo, é disfarçar a nossa recente inteligência. Contei o caso do Tico?
— Acho que não... Você fala tanto, meu bem, que eu às vezes fico tonta...
— Em você isso é normal... O Tico é também uma barata, amigo meu. Foi um dos primeiros mutantes. Mas em lugar de disfarçar, bancando o burro, cedeu à tentação de se exibir. E acabou mal, claro. Uma noite, enveredou por uma longa tubulação que não conhecia — ah, o apelo do desconhecido! — muito longa mesmo, e desembocou num ralo da cela solitária de um presidiário. Quando o preso o viu, teve uma ideia: — “Vou amestrar esta barata... De outro modo, enlouqueço. Tenho ainda três anos para cumprir”.
Glutof prosseguiu : — Esse preso havia assassinado, a mulher pensando que ela o traíra — e estava certo — mas depois pensou que estava enganado — e não estava —, mas aí já era tarde. O sofrimento na cadeia tornou-se duplo porque estava arrependido. Assim, pacientemente — já fora amestrador de cães —, ensinou o Tico a escrever pensamentos famosos de grandes retardados, isto é, de filósofos humanos. O Tico enfiava a perninha num tinteiro e tascava um pensamento profundo. Às vezes, misturava as fontes, mas quem é que ia conferir? O fato de uma barata escrever já era um fenômeno.
— Como é que esse tal de Tico se rebaixava tanto?! Filósofos humanos! Dá até nojo!
— Por interesse, claro. O Tico logo aprendeu as frases acacianas, mas disfarçava a sua rapidez no aprender porque cada vez que ele escrevia um pensamento filosófico, ganhava uma guloseima. Assim, comilão como ele só, esticou quanto pôde o seu aprendizado, fingindo assimilar com vagar. Não podia exibir sua genialidade sendo uma barata. Ele era mais inteligente que seu professor. Se ele já escrevesse tudo, de cara, só comeria uma única vez. E nisso se passaram meses. Aí, como ainda lhe faltava muito tempo para sair, como  “reeducando” — outra estupidez porque na cadeia ninguém se modifica para melhor, só para pior — ensinou Tico a dançar de pé nas patas traseiras.
  Glutof fez uma pausa, esfregando umas pernas nas outras e prosseguiu: — O prisioneiro ensinou ao Tico algo espantoso: dançar o “cancã”, igualzinho àquelas bailarinas francesas, dando enérgicas pernadas que muitas vezes levavam o Tico ao chão. Afinal, nossas perninhas curtas não foram feitas para o “Folies Bergère”. Se a natureza nos deu seis pernas, como se virar com apenas duas? E o Tico, extremamente vaidoso, já por iniciativa própria, sentindo-se o máximo, virava-se de costas para a plateia imaginária e fremia as asas, empinando o traseiro, igualzinho às bailarinas que levantam a saia e mostram o “bumbum”. Acho que o presidiário chegou a pensar que o Tico era uma fêmea. E, terminada a exibição, Tico curvava-se em reverências, mandando beijinhos para a plateia e gritando com voz afeminada, quase inaudível: — Je vous aime! Je vous aime! Penso que, com um pouco mais de ensaio, o Tico cambiava de sexo.
                 — Meu bem, desculpe interromper. Estou preocupada com a hora... Você não acha que já devíamos estar em casa? Daqui a pouco os ratos começam a acordar. Diga logo como terminou a história de seu amigo.
— Terminou que, finda a pena, o preso deixou a cadeia, levando o Tico no bolso do paletó, dentro de uma caixinha. Ia procurar um empresário. Contava ficar rico porque jamais, jamais, em toda a história do show business, houve um espetáculo semelhante. Ganharia rios de dinheiro. Mas, infelizmente, a coisa não deu certo.
 — Já sei, já sei! — Kiti se antecipou, eufórica, batendo palmas. — O empresário tapeou o Tico!
 — Não! Caramba! Como funciona a tua mente! Que alegria torpe! Não, foi algo muito pior. O ex-presidiário fazia um tempão que não tomava uma cerveja decente, bem geladinha. No presídio conseguia, no máximo, uma “Maria Louca”, digna do nome porque, na sua composição, entra até verniz. Assim, dirigiu-se a um bar a fim de se deliciar com uma “loirinha”. Mas acabou bebendo quatro ou cinco copos. E não resistiu à ideia de fazer uma pequena exibição. Tirou a caixinha do bolso, mandou o Tico sair e o colocou em cima do balcão. Ia mandá-lo dançar e chiar uns trechinhos da canção “La Vie en Rose”. Chamou o barman com um “psiu!” e, orgulhoso, meio embriagado, indicou o Tico com o dedo, enquanto perguntava “Tá vendo?” Mas o barman, um bronco, tão logo viu aquela barata cascuda no balcão, a esmagou com um estrondoso tapa. Vê se pode... E assim, bestamente, morreu um grande artista. Quando nós, do Comitê, soubemos do caso, baixamos instrução proibindo, até segunda ordem, qualquer demonstração de inteligência na presença de humanos.
— Que estória mais triste... Um mártir! E como reagiu o ex-presidiário?
— Pulou o balcão na hora e esganou o barman, chorando e gargalhando como um louco. Foi o caso de reincidência criminal mais rápido da história da Criminologia. Criminólogos, desconhecendo nossa mutação, gastaram rios de tinta dissertando sobre o caso, até sugerindo possíveis ligações passionais e freudianas entre um homem e uma barata, que simbolizaria a própria mãe. Tudo consequência do isolamento brutal no regime carcerário. Fizeram até analogias com um tal de Kafka, um maluco que escreveu besteiras sobre um cara que se deitou como homem e acordou como barata, ou inseto. Como se fosse possível um aperfeiçoamento tão súbito. Ninguém acreditou na estória do Tico de que a barata dançava cancã e cantava em francês.
— Se dominarmos a Terra, você deveria, para homenagear esse herói, instituir um “Prêmio Tico”, o equivalente ao Oscar humano. Eu mesmo gostaria de concorrer. Adoro o palco, qualquer palco...
— Não é o seu caso, mas todo ator só pode ter mau caráter. Como é possível passar a vida toda fingindo sentir o que não sente, sem ter um parafuso frouxo, pelo menos no caráter?
— Estou começando a ficar zonza. Você é tão profundo que após uns dez minutos, escutando-o, sinto um torpor... Vou dormir um pouco e depois assistir um jornalzinho na televisão para me atualizar.
— Cuidado, não acredite muito em jornais! A imprensa também é ... — ele se interrompeu porque viu que Kiti roncava suavemente.
Sentiu pena dela. Parecia tão tolinha e desamparada... Delicadamente a despertou. Já tinha passado da hora de voltar.
Enlaçados, caminharam lentamente na direção do buraco embaixo da pia da casa em que viviam. Sem perceber que dois ratões esfomeados, de olhos maus, vinham logo atrás, na ponta dos pés, já salivando com as “tâmaras” que consideravam no papo.
Kiti, mais leve, menos glutona, escapou milagrosamente do ataque, mas perdeu duas pernas, uma antena e uma asa. E chorava, de luto, no dia seguinte, no enterro do marido. Ou melhor, das duas coxinhas cabeludas e uma asa, o que restou do grande líder, “Glutof, o Libertador”, que já ingressara na história.
Mas ela estava grávida e, logo, logo, todos aqueles projetos de heróis, ainda dormindo nos ovos, nasceriam e substituiriam o pai na criação heroica de uma nova civilização.

             FIM


Observação: 

Este meu conto, ou fábula, foi redigido cerca de dez anos atrás e publicado em meu antigo site.Como não foi difundido, dei uns pequenos retoques e agora o republico porque é uma espécie de súmula — gaiata, porém verdadeira —, da evolução do mundo, vista pelos mais pessimistas. Ou realistas.



quinta-feira, 7 de março de 2019

É possível, sim, um “Plano B”, se não aprovada a Reforma da Previdência.



Em toda dificuldade, ou derrota, lateja uma solução superior à que foi tentada sem sucesso. A civilização só avança porque há, periodicamente, reveses e problemas graves a serem solucionados. A hoje ubíqua e irreversível internet foi concebida pelo Departamento de Defesa dos EUA por causa de uma terrível preocupação com a sobrevivência do país: a Guerra Fria. Inicialmente denominada Arpanet, a internet visava a garantia de que a comunicação americana entre seus militares e cientistas persistiria, mesmo em caso de bombardeio do Pentágono pelos soviéticos. 

Como Paulo Guedes diz que o governo brasileiro não conta com uma alternativa para sanar o imenso rombo previdenciário e as previsões indicam  que parte dos congressistas — antigos e os novos —, condiciona a aprovação da Reforma à permanência, no cargo, de milhares de funcionários não concursados — por eles indicados —, a alternativa para salvar tanto a Previdência quanto as Finanças Públicas, será utilizar dois “remédios, um estritamente financeiro e outro “jurídico-financeiro” — de eficácia inegável — que mencionarei no decorrer do presente texto.

Se eu disser, aqui, já, qual a principal alternativa financeira sugerida, muitos leitores — que pensam com o fígado —, nem lerão o restante do artigo, e o país continuará pouco governável, apesar da boa intenção do presidente Bolsonaro. Votei nele porque seria o único candidato em condições de vencer a eleição presidencial. Meu candidato preferido era outro, mas Bolsonaro mostrava algumas boas e raras qualidades, entre as quais a coragem e a honestidade.

 Bolsonaro é bem intencionado, idealista, mas pouco se interessava, antes,  por política externa. Era tão focado no Brasil, no patriotismo, que esquecia o que estava fora de suas fronteiras. Seus pontos fracos, nesse item, ainda são a questão Palestina e a equivocada admiração por Trump. Tenho, porém, a certeza, ou esperança, de que à medida que Jair Bolsonaro — que não é tolo —, for constatando as complexas realidades do Oriente Médio, e a megalomania e volubilidade “trumpianas”, não hesitará em modificar sua política externa nos pontos essenciais. Se concordar sempre com as pretensões do presidente americano, além da nossa criminalidade interna terá que lidar também com o terrorismo islâmico, um mal que ainda não chegou aqui. 

Bolsonaro merece um crédito de confiança. Só não morreu por um triz. Seus inimigos, que são muitos, saudosos do petismo — ou ambicionando loucamente sua cadeira —, parecem torcer para que ele morra logo, com uma bela infecção bacteriana. Já falam até em parlamentarismo. Acusam-no de inércia — como que dormindo em “dolce far niente” na UTI — e por ter filhos demais na política, como se vocação de filho dependesse do pai. Seus filhos, legitimamente eleitos, não deveriam tomar posse porque o pai foi o escolhido? A inexperiência de algum deles, querendo “ajudar” quando o pai lutava contra a morte, não pode ser valorizada demais pela mídia, com segundas intenções, visando derrubar não o filho mas o pai.  

Juan Carlos Onetti, escritor uruguaio, já disse que “há diversas maneiras de mentir mas a mais repugnante de todas é a de dizer a verdade, toda a verdade, escondendo a alma dos fatos”. Essa “alma dos fatos” — a verdade verdadeira emergente de uma complexa situação global — anda ausente em alguns jornalistas que escrevem textos com a mal disfarçada intenção de enfraquecer um governo corajoso demais.

Para grandes males — Previdência e contas públicas — fortes remédios, desde que não matem o doente. Adote-se a velha sabedoria: “vão-se os anéis mas fiquem os dedos”, como faziam as senhoras paulistas, durante a revolução constitucionalista de 1932, quando doavam suas joias e alianças para financiar a luta contra Getúlio Vargas. A solução do problema previdenciário exige um sacrifício de todos.

Queiramos ou não, tudo indica que a aprovação da Reforma só será aprovada, com forte dose do “toma lá, dá cá”. A maioria dos novos e antigos congressistas tem parentes e amigos que foram ou serão nomeados, sem concurso, por solicitação de parlamentares. Se demitidos, ou não nomeados, não lhes será fácil, nesta conjuntura, conseguir trabalho na área privada. A maioria ficará desempregada por longos períodos. Talvez para sempre se hoje na faixa acima dos cinquenta anos. A simples ideia dessa futura dispensa em massa funcionará como um dilema terrível para o parlamentar em dúvida sobre como votar. —“Sigo a razão ou o coração?” 

Mesmo que ocorra, dentro de poucos meses, um aquecimento na economia, o avanço inevitável, mundial, da automação, da informática, da robótica e das novas técnicas que dispensam braços e cérebros, o desemprego atormentará parentes e pessoas amigas dos parlamentares. Problemas familiares difíceis surgirão envolvendo filhos, filhas, cunhados, etc., de deputados e senadores. Poucos demitidos terão dinheiro, ou vocação empresarial, para criar empresas próprias.

Muitos congressistas que aceitarem, sem reação, a dispensa próxima do filho, irmão, sogro, etc., levarão uma bronca da esposa, irritada: — “Como você, um deputado, aceita, sem reagir, que teu filho e teu neto vão p’ra rua nesta crise em que estamos? Você tem dinheiro suficiente para sustentar duas famílias da classe média? O que?! Precisamos pensar no ‘bem geral’? Também acho, em tese, que o governo não é cabide de empreso, mas é preciso pensar primeiro na família! O governo que dê tratos à bola para acabar com a roubalheira. E nosso filho não é ladrão! Ele apenas não prestou concurso. E muitos concursados nem são nomeados.  Você pode crer que teus colegas do Congresso farão forte pressão para evitar que os protegidos deles — “ só os deles! — escapem da degola. Será um salve-se quem puder! Quando a situação geral melhorar, nosso filho poderá arranjar uma colocação, ou prestar um concurso. Eu te imploro: pense no teu filho. Antes de ser deputado, lembre-se que você é pai”.

Nesse estilo será o apelo das esposas de muitos parlamentares.

Esclareço que não tenho parente em emprego público de livre nomeação, mas sei o que se passa na cabeça das pessoas. Entre uma angústia pessoal, familiar, e uma abstrata melhora “geral”, futura, é previsível que a família e os vínculos pessoais tenham mais peso na votação da Reforma da Previdência.

 Daí a alternativa do Plano B. 

Refiro-me ao temido, odiado e mal compreendido “imposto do cheque” — em nova versão —, isto é, acompanhado, simultaneamente, de uma redução — aquela possível, factível — do Imposto de Renda descontado na fonte dos assalariados. Ou talvez, eventualmente, reduzido também para a pessoa jurídica, se assim for cabível após avaliações técnicas, dosando os percentuais tanto do IR quanto do “imposto do cheque”.

Sugere-se a redução do IR dos assalariados porque, sendo eles milhões, se onerados no bolso pela nova CPMF, ficarão, por outro lado, desonerados, pagando um IR menor no holerite. Haverá, assim, menor resistência popular e política. E se, eventualmente, a redução do IR se estender, depois, às pessoas jurídicas, isso incentivará investimentos tanto internos quanto externos. Se direcionados ao Nordeste tais investimentos isso que motivaria nordestinos desempregados, no Sul e no Sudeste, a procurar trabalho nas regiões de origem, melhorando de condições.

Por que a CPMF foi tão antipatizada quando utilizada poucos anos atrás? Porque era apenas um tributo a mais. Doravante seria um tributo diferente, substitutivo de outros, o passo inicial para o ideal de um Imposto Único, ou quase isso — três ou quatro, talvez — simplificando a vida do contribuinte brasileiro, hoje atormentado por cerca de 60 tributos.

O que se sugere aqui é que com uma alíquota relativamente alta, de, digamos, 1% em cada pagamento com cheque — ou transferência bancária —, a arrecadação seria tão alta que o governo poderia, simultaneamente, reduzir o IR com alíquotas bem menores que as atuais e fazer seus pagamentos obrigatório.

A arrecadação desse novo tributo, diferente da anterior CPMF, não seria direcionada apenas à Previdência porque se isso ocorresse — havendo, como há, nela, muita distorção —, as atuais distorções na Previdência persistiriam. Toda a arrecadação da nova CPMF iria para o “caixa geral” do governo federal e eventualmente para os Estados, rvitando as complicadas e arriscadas manobras contábeis, ou orçamentárias, para contornar a rigidez constitucional. Manobras que podem resultar em cadeia ou impeachment.

A propósito, alguma razão tinha Napoleão Bonaparte quando dizia que as Constituições deveriam ser “curtas e vagas”. De fato, quanto mais detalhistas e carregadas de cláusulas pétreas, maior a trava imposta ao administrador, mesmo quando honesto e inteligente, na incumbência de manter a “máquina” em funcionamento. Ao redigir a Constituição, o constituinte não tem condições de prever, sem erro, como estará o país no futuro. Maus, ou mesmo bons futurólogos, acabam, sem querer, prejudicando o país, porque não é fácil a futuros governos, cumprir sua missão com tantas proibições na alocação do dinheiro disponível.

Voltando ao “imposto do cheque”, por que essa minha insistência, de leigo em economia, na criação de um imposto tão odiado? Porque esse tributo é o “ovo’ — também “de Colombo” — do Imposto Único (IU), o grande e distante sonho do contribuinte brasileiro. 

A mera ideia do “Imposto Único” é combatida com a alegação de que nenhum país, até agora, adotou essa forma de tributação. Não foi adotada porque seria irresponsabilidade de qualquer país baixar uma lei trocando, com uma canetada, todos os seus tributos por um único, sem antes conhecer a reação da economia. Seria um salto no escuro. Por isso, terá que ser progressiva sua adoção. E o Brasil, caso não consiga uma boa Reforma da Previdência, deveria fazer esse experimento. Que dará certo, embora com reclamações pontuais. Pessoas, físicas e jurídicas, que hoje não são tributadas, terão que pagar. Todos pagando, a carga individual será mais leve para os que hoje pagam.

O IU (imposto único) tem inúmeras vantagens: é praticamente insonegável; prático (é mais fácil fiscalizar algumas dezenas de instituições financeiras do que as finanças de todas as pessoas físicas e jurídicas do país); tributa a riqueza que — realmente — circula no país, diminuindo os complexos “truques” legais de investimentos que permitem que vultosos ganhos não sejam tributados, ou ridiculamente tributados; dispensa o suplício na hora da declaração anual exigida pelo leão.

É possível e compreensível que contadores e advogados tributaristas sejam contra o IU não só por motivos práticos e doutrinários. Podem temer que se os tributos forem desaparecendo, seus clientes precisarão menos de seus complexos e relevantes serviços. Esse receio não tem sentido porque uma nova concepção de tributação exigirá longo período de experimentação quanto às vantagens e desvantagens desse novo e “ambicioso” tributo, visando a simplificação. Se tais profissões forem perdendo relevância, no decorrer dos anos, seus inteligentes profissionais se prepararão para novos desafios. Talvez ainda mais úteis ao país. 

Não se alegue que os pobres serão os mais sacrificados com o IU. Pobre, mesmo, costuma usar dinheiro vivo em suas compras. E, se necessário, a lei poderá isentar o IU em saques e transferências de pequenas quantias, desde que limitadas a um número “x” de transferências, por mês, para cada correntista. E não se argumente que, com o IU, as pessoas passarão a carregar bolsos estufados com notas de cem reais, só para não pagar o tal imposto. Assaltantes logo saberão disso e tomarão providências bem dolorosas atravessando tais movimentações.

Tudo, neste planeta, caminha para a simplificação e unificação. Hoje com uma única injeção, vacina-se contra várias doenças. As obrigações fiscais terão que acompanhar essa tendência. Cálculos, comprovantes, pendências administrativas e judiciais, tomam tempo demais do cidadão.

Se o IU for de 1%, alguém sabe, hoje, quanto isto significaria em arrecadação? Mesmo reduzindo concomitantemente o percentual do IR-PF (pessoa física), quanto sobraria para fortalecer o caixa do governo?

Finalmente, quanto ao “remédio jurídico-financeiro”, referido no início do artigo, trata-se da propositura de uma lei que, nas ações judiciais de cobrança de dinheiro, após a decisão de segunda instância — dizendo quem deve a quem —, o devedor só poderá recorrer para aos tribunais superiores — STJ e/ou STF —, se depositar o valor mencionando no acórdão.  Com isso, comprovará que seus futuros recursos não visam apenas protelar. Se não tiver dinheiro para esse depósito, poderá obter um empréstimo, mas esse depósito não será levantado pelo credor. O depósito, judicial, renderá juros e correção monetária e será levantado ou por acordo entre as partes ou no final do processo, pela parte que ganhar a demanda.

Escrevi um artigo a respeito, com o título “Meta urgente: agilizar a Justiça Cível”. Trata-se de uma carta que enderecei ao Min. Sérgio Moro. Para lê-lo, clique aqui. Fala sobre dinheiro grosso, parado, só útil para o devedor que muitas vezes só quer protelar.

Encerro pedindo aos eventuais leitores eruditos — economistas e juristas —,  escusa pelo estilo coloquial, mesmo porque, em Economia, não teria outro estilo a meu dispor.

(06/03/2019) 

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Meta urgente: agilizar a Justiça Cível


Foto: Felipe Lampe

(Resumo de sugestão enviada ao Min. da Justiça)

Prezado Ministro Sérgio Moro,

Aproveitando sua presença na reunião-almoço do IASP, no dia 07/02/2019, tomo a liberdade de lhe encaminhar, via assessoria,  uma sugestão que — se transformada em lei —, livrará a justiça cível da intolerável morosidade que tanto desanima aqueles que dela precisam, já que não é possível fazer justiça pelas próprias mãos. Não é sem motivo que a opinião pública — mal informada sobre as verdadeiras causas da demora no término dos processos cíveis — reclama contra os vencimentos da magistratura: — “Com tanta ‘moleza’ qualquer salário de juiz é imerecido...” . Mole não é o juiz, mas o atual sistema, imensamente ingênuo.

Em resumo, evitando minúcias técnicas, minha sugestão é que V.Exa. consiga no Congresso uma curta — embora difícil — alteração na  legislação processual civil que diminuirá a demora de tramitação dos processos cíveis. Essa alteração será, no cível, o equivalente, parcialmente já alcançado — falta apenas a lei —, na área penal: dar efetividade às condenações da segunda instância.

A proposta é no sentido de que decidido, na segunda instância cível, que o litigante — geralmente é o réu, mas nem sempre — deve pagar ao adversário a quantia “x” — ou aquela estimada pelo órgão de apelação —, o devedor só poderá recorrer aos tribunais superiores, se depositar em juízo o valor fixado no acórdão — ou pelo menos 50% dele, caso haja resistência insuperável do Congresso.  Isso porque sem um “desembolso” efetivo, “doloroso”, não haverá qualquer desestímulo contra a intenção do devedor de jogar para um distante e incerto futuro o pagamento de sua dívida.  

Há, nos recursos com essa intenção de demora uma espécie de “chantagem recursal” contra a parte credora: — “Caro credor: ou você concorda em receber, agora, só um terço do que lhe devo – e o caso está encerrado –, ou só receberá tudo em remoto futuro”.

Nossa legislação, no cível, já prevê a “sucumbência recursal” — nova condenação em honorários no julgamento de cada recurso — mas sem qualquer efeito desestimulador da protelação. Primeiro, porque todas as sucumbências somadas — nas quatro instâncias — não podem exceder a 20% do valor da causa, ou da condenação. Se, por exemplo, na sentença, o devedor for condenado a pagar 15%, nos três recursos posteriores a soma das novas sucumbências não poderá ir além de 5%, mesmo perdendo seus recursos de apelação, recurso ordinário (STJ) e extraordinário (STF) todos visando a demora. 

Segundo, porque todas as quantias relacionadas com a sucumbência só serão “desembolsadas” — sentidas “na alma”, o bolso — no final do processo, anos e anos depois, na fase de execução. O devedor pensa, tranquilizado: — “Daqui a cinco, dez ou mais anos, muita coisa pode acontecer. Talvez todos nós estaremos mortos”. E seu advogado, embora honrado, não pode se dar ao luxo de rejeitar ótimos clientes, “esticando o processo”,  porque se o fizer, o cliente procura outro advogado que dirá: —“Minha obrigação é defender os direitos de meus clientes, usando a legislação em vigor. Eu tenho família para sustentar”.

Essa brecha legal — a protelação como estímulo legal para não pagar o que é devido — explica o débito de tributos federais, não pagos, de bilhão de reais, que dormem nas pilhas de processos, beneficiando o devedor mas desmoralizando a justiça cível e seus operadores, chamados de “morosos”, quando a morosidade não é deles, mas do sistema defeituoso pela sua ingenuidade.

Alguém poderá argumentar que o devedor fiscal pode continuar insistindo em chegar ao distante STF, mesmo perdendo nas duas instâncias iniciais, porque está sinceramente convicto de suas razões, sendo injusto que o Estado lhe negue o direito de esgotar todas as instâncias só porque não tem o dinheiro para depositar em juízo a quantia fixada no julgamento da apelação.

Se esse for o caso o devedor, teimoso e incansável recorrente, poderá pedir um empréstimo bancário para fazer o depósito que lhe permitirá prosseguir recorrendo seguidamente. É previsível que os “teimosos”, conhecendo os juros cobrados pelos bancos para o depósito condicionador dos recursos após a apelação prefira fazer um acordo com o credor. Esclareça-se que o depósito (quantia) aqui sugerido para recorrer após a segunda instância, não será levantado pelo credor. Ficará, congelado, rendendo juros e correção monetária, até que o processo termine, decidindo quem, a final, tem razão; ou por acordo entre as partes. Quem ganhar a causa, não havendo antes um acordo, levantará o dinheiro. Detalhes sobre esse item descabe neste momento. Basta a ideia.

A exigência do depósito, referido neste texto, funcionará como um teste bem objetivo da sinceridade de quem recorre. Impossível concordar com a alternativa de o devedor apenas apresentar um papel onde está escrita a palavra “caução” de um imóvel ou uma garantia que não signifique um desembolso do devedor que perdeu na segunda instância, após examinar as provas. É essencial que o depósito referido seja feito em quantia. Se não for assim, perderá toda a eficácia.

Os devedores, aos milhões, e de milhões, sabem perfeitamente que quanto maior a demora melhor para o próprio bolso. Na área tributária, os contribuintes honestos, que pagam seus impostos regularmente, sentem-se uns tolos porque seus concorrentes, hábeis sonegadores mas incansáveis “inconformados”, só levam vantagem porque o fisco, desesperado com a baixa arrecadação, acaba concedendo aos devedores os benefícios de um Refis qualquer, com seu débito em grande parte perdoado e dividido em centenas de meses. Na maioria, tais acordos logo param de ser cumpridos. 

Essa vergonha precisa acabar. V. Exa. pode fazer mais esse trabalho para reabilitar a justiça brasileira. Como já disse antes, detalhes jurídicos processuais serão discutidos quando o projeto de lei for apresentado. V. Exa. saberá escolher uma comissão plenamente qualificada e sem interesse pessoal, profissional, de seus componentes.

Está em suas mãos transformar a justiça cível em orgulho dos brasileiros. Outras sugestões, relacionadas com a celeridade da nossa justiça podem contribuir para o mesmo fim, mas aqui, neste curto espaço, só atrapalhariam abordá-las.

Cordial abraço e parabéns pela sua nomeação.
S. Paulo, 06 de fevereiro de 2019.


Des. Francisco Cesar Pinheiro Rodrigues.
Desembargador aposentado do TJESP. 
E-mail: oripec@terra.com.br. 
Site: www.500toques.com.br. 
Blog:franciscopinheirorodrigues.com
 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

EXTRAÇÃO, A CHUMBO, DE MAXILAR

     Pouco antes das sete da manhã, Benvinda está chegando à casa em que trabalha há vários anos. Suas passadas demonstram uma vivacidade inabitual.

        Empregada doméstica, quarenta anos, bem morena, é esperta e ajuizada, apesar de pouco instruída. Tem uma única filha de dezoito anos, que é tão ajuizada quanto ela e que trabalha em um banco, estudando à noite.
        Caminhando, Benvinda experimenta uma euforia que não sentia há anos. Está apaixonada... E também surpresa. Como é que aquele “gatão”, bonito, másculo, de sotaque espanhol, “cismou” justamente com ela, uma simples doméstica e bem mais velha do que ele?
        — Coisas do amor? — ela se pergunta. — E por que não?! — Certa vez, ouvira sua patroa, exibindo uma revista, comentar com o marido, um juiz de direito, que determinado xeque das Arábias, de passagem pelo Brasil, apaixonara-se pela camareira do hotel em que estava hospedado, levando-a para se casarem no Oriente Médio.
        É certo, Benvinda se lembra, que o potentado árabe já tinha algumas esposas na terra dele. Mas isso era outra conversa, uma questão de país, de diferenças legais que deveriam ser respeitadas. Pelo que entendera, na terra dele o chefão podia ter tantas esposas quanto pudesse sustentar. O que a ela interessava é que a tal arrumadeira de hotel, num “estalo” — “as benditas loucuras do amor!” — havia se tornado a rica terceira, quarta ou quinta — não lembrava ao certo — “madame” de um homem importante. Com direito a luxo, empregadas, limusine, chofer, etc. E a foto dessa arrumadeira sortuda, na opinião dela, não mostrava nenhuma invulgar beleza. Era um rosto comum, mais ou menos como o dela, apenas mais jovem. Agora, comparando os machos, Benvinda sorria, superior. O xeque, na foto, era gordo, meio velhão, feio, enquanto seu amado era um apetitoso “gatão”, capaz de seduzir, com um pé nas costas, qualquer “dondoca” rica. E também não devia ser nenhum pobretão, tendo em vista as camisas caras e vistosas que usava.
        Por falar em “dondoca”, Benvinda nutre um intenso desprezo pelas moças que, de minissaia, ventilam demais suas “partes pudendas”... Por sinal, ela gosta dessa expressão, a seu ver bastante “chique”, usando-a com frequência... Acha-a elegante, desobrigando-a de mencionar palavras feias. E chocara-se ainda mais com os primeiros maiôs “fio dental” que, certamente, incomodariam, fariam cócegas “lá embaixo”, nas “partes pudendas”. Jamais usaria tais “indecências”. E a filha, milagrosamente — porque a segunda geração quase sempre reage contra a primeira — concordava com ela.
        Certa vez, no tanque, lavando um desses maiôs — ou corda? —, de propriedade de uma sobrinha de sua patroa, ficou impressionada com o diminuto tamanho da peça. Naquela ocasião, não pôde deixar de fazer algumas amargas especulações, de ordem odorífera, relacionadas com aquela corda que permitia mostrar a bun..., digo, as “partes pudendas” tão descaradamente. Mas o que mais a desconcertou foi o fato de que a usuária daquele maiô era uma mocinha direita, sensata. Se ela era direitinha, pensava Benvinda, por que não usava um maiô inteiro? Como podia a moda ter tanto poder? E por que o Governo não tomava alguma providência?
        Júlio — esse o nome do “gatão” — a estava paquerando há quase uma semana, mas, até agora, não fizera nenhum avanço mais apaixonado, um desses “amassos”, tão normais em todas as épocas. E isso a preocupava um pouco. O “lance” dele, parecia, era apenas conversar, preocupar-se com ela, um carinho mais próprio de homem velho, impossibilitado de algo mais primitivo, concreto, carnal. No máximo, pegava na sua mão, mas sem ficar assim muito tempo. E ela pensava: respeito é bom, claro, mas quando demais, encuca.
        Benvinda, não é uma sem-vergonha. É apenas carente. Sofre um pouco com a prolongada abstinência mas jamais se entregaria a um homem no primeiro ou no segundo encontro. Mas, após o terceiro ou quarto, digamos, não havia por que manter tanta formalidade, aquele respeito exagerado, que não mais é obedecido pelo resto da moçada. Aí já é demais! “Afinal, não sou nenhuma Rainha da Inglaterra!”
        Chegara a pensar, por um momento, que havia alguma coisa errada em tanto acanhamento: — “Caramba! Será que ele é “bicha’? Não tinha pensado nisso! Não, não é possível! Aquele jeitão másculo, antebraço peludo, peito com cabelo saindo na abertura da camisa, barba cerrada, voz de homem. Não. Bicha? De jeito nenhum!”
        Benvinda conhecera, à maneira bíblica, poucos homens, no máximo oito. Decepcionara-se terrivelmente quando, bem jovem, já grávida de sua filha, ficara sabendo que o namorado era casado e vivia com a mulher. O choque foi demais. Esperava casamento, ou pelo menos uma amigação decente, mas, em vez disso, restara-lhe apenas a solidão e um ventre crescido. Pensara até em se matar. Ou abortar. Mas fora amparada pela patroa de então, mulher bondosa, católica, esclarecida, firme nas suas convicções e que a dissuadiu de cometer um pecado. Mataria um ser inocente que ainda poderia vir a alegrar sua velhice. E, realmente, a filha só lhe dera alegrias, ajuizada como ela só.
        Desse relacionamento, restou uma opinião bem amarga quanto ao caráter dos homens em geral: “mentirosos e egoístas”. Depois do nascimento da filha, só “saía do sério” de vez em quando, quando sua libido começava a apitar igual a uma panela de pressão, quase explodindo. Chegando a coisa a esse ponto ia a alguns bailes populares — forrós, gafieiras, pagodes — onde sempre conseguia uma companhia provisória; igualmente necessitada de descarregar a libido sem responsabilidades.  Não obstante mais feia que bonita, tinha um corpo bem modelado pela involuntária ginástica doméstica, forçada, varrendo, lavando, esfregando — a “academia” dos pobres, que ganham para “malhar”.
       Infelizmente, saía desses encontros libidinosos apenas fisicamente satisfeita. Católica por instinto, sem qualquer doutrinação, não conseguia se livrar do sentimento de culpa após tais encontros. Para limpar a alma rezava e prometia não mais se permitir tais liberdades.  
       Já trocara três vezes de religião, em busca de uma paz que nunca era alcançada. E assim ia levando a vida até que, inesperadamente, surgira aquele rapaz atraente e respeitador. Conhecera-o casualmente, ao sair da residência em que trabalhava em um fim de tarde. Ele estava do outro lado da rua, procurando um endereço impossível de encontrar porque não havia aquele número. Vendo-a sair da casa, pedira sua ajuda. E assim começara o casto e inesperado romance.
        O que deixava Benvinda “encucada” era a mania dele de fazer perguntas. Impossível alguém mais curioso: — “Você é feliz? Tem certeza?” — Essa parte ela achava meio idiota. — “Ganha bem? Teu patrão não podia te pagar melhor? Soube que ele recebeu, de herança, alguns dias atrás, várias barras de ouro e milhares de dólares... Ele precisa ter cuidado e guardar bem, senão você sabe o que pode acontecer... Ele já pensou em guardar o ouro no banco?”
        Tais perguntas a deixaram preocupada. Perguntou como é que ele sabia da herança, mas o rapaz explicou que soubera desses fatos por pura coincidência, uma vez que tinha um amigo que era funcionário do Fórum, trabalhando justamente no cartório em que corria o processo de inventário do pai do juiz. Contando a esse funcionário que tinha uma namorada naquela rua, trabalhando na casa de um juiz, o rapaz perguntara o nome do juiz. Informado, mencionara a herança. O funcionário comentara o fato porque, no geral, os herdeiros não mencionam heranças em ouro e dólares.
        A explicação era plausível, mas mesmo assim Benvinda continuou inquieta. Mas, por outro lado, se Júlio fosse um bandido, um assaltante, não precisaria fazer tanto rodeio. Era só sacar um revólver e dominar o patrão na hora certa, quando chegasse de carro à noite ou quando saísse de manhã.
        Ela terminava tais reflexões quando chegava à casa da patroa, situada em bairro de classe média alta.
        Mal ela enfiou a chave na fechadura, sentiu uma mão, vinda de trás, apertar fortemente seu braço esquerdo, ao mesmo tempo em que o cano de um revólver comprimia sua costela.
        Atrás dela, estavam dois assaltantes, ambos com meias de seda envolvendo a cabeça. Foi empurrada para a frente e em segundos os três já estavam no interior da casa.
        Ao susto, seguiu-se uma difusa fraqueza. Benvinda sentiu as pernas moles. Por pouco não soltou a urina, reação que lhe era comum em momentos de grande medo. Apesar de sua esperteza natural, a cabeça emperrou, oca, dominada. Sua boca foi tapada com firmeza pelo mesmo homem que a agarrara por trás e agora a apertava de frente.
        — Nem um pio, tia! — foi a advertência firme, embora sussurrada, do bandido que a dominava. — Se eu atirar, teus miolos vão pro espaço! — E ela, imaginativa, “viu” nitidamente seus miolos sangrentos, aos pedaços, voando em câmera lenta pela sala de visitas.
        — Onde é que teu patrão guardou o ouro e os dólares? — indagou o mesmo bandido junto ao seu ouvido. Enquanto isso, o comparsa fazia uma rápida inspeção na parte térrea do belo sobrado.
        — Que ouro? — murmurou a doméstica, numa surpreendente retomada da esperteza.
        O bandido não pôde deixar de achar graça. Parecia pouco tenso. Com calma, sem desejo, bolinou-a com a mão esquerda, massageando seu seio, enquanto sorria por baixo do disfarce.
        — Parabéns! Nunca pensei que a tia se recuperasse tão depressa! Só que a hora da brincadeira acabou. Sei que teu patrão tá com ouro e dólar. Tu tá querendo bancar a Joana D’Arc? Olha que nós te estupramos e ainda torturamos todo mundo aqui! — E, dizendo isso, pressionou fortemente o cano do revólver contra a narina esquerda de Benvinda, machucando-a com a alça de mira. Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas não se atreveu a gritar.
        — Nem precisa responder... Só pode estar no quarto... Vamos subir a escada bem devagarinho; você na frente, e eu com a arma na tua cabeça. Chegando na porta do quarto, você vai perguntar ao patrão se ele quer tomar café. Faz de conta que você tá levando uma bandeja  Entendeu? Ou precisa levar umas porradas? Se você obedecer, eu te deixo viva. Aliás, deixo todos vivos! Quero só os dólares e as barrinhas de ouro. Por isso, não banca a heroína.
        Ela assentiu com a cabeça, dominada, e foi sendo empurrada, sem ruído ou atropelo, enquanto subia a escada que conduzia ao andar superior.
        Os três pararam juntos à porta do quarto do casal, Benvinda na frente. Ela recebeu uma cutucada na nuca com a ponta da arma e um sinal de que estava na hora de representar o seu papel de garçonete. Perguntou, em voz bem alta:
        — Dr. Nelson... o senhor não quer tomar café? Trouxe na bandeja.
        Benvinda, apesar de esperta, ou justamente por isso, não foi uma boa atriz. A pergunta saiu com voz esganiçada, estranha, uma taquara rachada.
        Seu patrão, de pouco mais de quarenta anos, juiz de Vara Criminal, também professor de Direito Penal numa Faculdade particular, acordou com o som da taquara falante. Sem dificuldade, porque essa era a hora em que habitualmente acordava. E logo estranhou duas coisas: primeiro, a alteração na voz da empregada; segundo, o oferecimento do café na cama, coisa que nunca ocorria. Por que essa novidade agora? Mesmo assim, não pensou imediatamente em assalto, apenas agradeceu:
        — ... Obrigado, Benvinda, mas vou tomar o café lá em baixo, como sempre.
        Ouvindo isso, o bandido “principal”, segurando a empregada — o outro ainda não abrira a boca — hesitou um pouco. Não esperava essa resposta, mas pensando depressa sussurrou no ouvido da doméstica: — De novo... Oferece de novo!
        E Benvinda insistiu: — O senhor tem que tomaaaar! — gritou, quase gemendo, desesperada.
        Aí o “desconfiômetro” do juiz tocou como um despertador antigo, bem barulhento. — Aí tem coisa! — pensou, o coração batendo forte.
        O juiz saltou da cama e, sem calçar os chinelos, na ponta dos pés, aproximou-se da porta. Bem agachado, tanto quanto possível, espiou pela fresta. E constatou, só pelas sombras, que não sendo Benvinda um inseto, com várias pernas, havia outras pessoas no corredor. Essa conjugação de abundância “pernil” com a imposição berrada para que tomasse café na cama, só podia ser mais um capítulo das perigosas “histórias reais de crimes” que lia todos os dias nos autos de processo.         
— Um momento, já vou abrir a porta! — o juiz gritou, procurando dar à voz um timbre normal. Imediatamente aproximou-se da mulher que, já de pé, imóvel, o encarava com os olhos arregalados, consciente da situação. Junto ao ouvido dela, ele sussurrou: — Tranque-se no banheiro. Depressa! Sem barulho!
        Em seguida, deu alguns passos na direção do guarda-roupa embutido, onde mantinha uma espingarda de caça de dois canos, sempre carregada, apesar do risco implícito nessa prática. Assim fazia porque, como juiz, ouvira inúmeros relatos de vítimas de roubos que não tiveram tempo de carregar suas armas quando os ladrões já estavam dentro da casa.
        O juiz pegou a espingarda e voltou para a cama, onde se deitou e escorou a coronha contra a cabeceira. Armou o cão da arma e aguardou, direcionando os canos para o meio da porta. Nesse momento, sua mulher já estava trancada no banheiro.
        A excessiva demora e o suspeito silêncio convenceram o bandido principal que o dono da casa estava tramando alguma. Era agora ou nunca. Empurrou a empregada para o lado e desferiu três fortes pontapés na porta, chutes que estrondearam pela casa silenciosa. No quarto chute, a porta abriu-se violentamente.
        Nesse exato momento, o juiz apertou um dos gatilhos. Aí, aparentemente — pelo que se constatou depois nos autos do processo —, o bandido da frente, por uma razão qualquer, virou o rosto. Isso porque seu maxilar inferior foi arrancado, quase inteiro, pela pressão conjunta das pequenas esferas, de aço, projetadas pela potente arma de caça, em curta distância.
        O tiro teve também o efeito de um violento murro de “peso-pesado” em um combalido “peso-mosca”, pois o bandido da frente foi jogado para trás, levando de roldão o companheiro e a própria Benvinda, que não tivera tempo de descer a escada, porque estava meio abestalhada.
        Os três rolaram pela escada, aos trambolhões, enquanto o involuntário caçador de “queixadas” se levantava da cama e se preparava para um eventual segundo disparo.
        Do alto da escada, o dono da casa observou que, lá embaixo, nenhum dos dois bandidos segurava, naquele momento, qualquer arma. E estavam tontos. Um revólver estava caído junto à porta do quarto, no andar de cima, e um outro no degrau mais alto, ambos fora do alcance dos ladrões.
        Não obstante sem a mandíbula, o bandido que parecia liderar o roubo conseguiu se erguer, cambaleando, confuso, olhos arregalados, uma mão segurando o ponto mais baixo do corrimão. Com a outra mão, tateava o quase buraco onde antes havia um queixo. Do buraco, fluía grande quantidade de sangue. Seu companheiro, também ferido, mas não muito, procurou, solidário, arrastar para longe seu colega de empreitada, abraçando-o pela cintura e colocando o braço do ferido por cima de seu ombro. Arrastaram-se na direção da cozinha, certamente visando escapar pelo quintal da casa, onde havia um muro não muito alto. Só pensavam agora em escapar.
        Com máxima cautela, o patrão de Benvinda os seguia de longe, atento ao que acontecia, cauteloso quanto à eventualidade de haver um terceiro bandido dando apoio aos primeiros. Mas logo convenceu-se de que eles estavam sozinhos.
        Os ladrões chegaram até o muro do quintal, que dá para um terreno baldio. O bandido menos ferido rapidamente conseguiu trepar no muro e, montado a cavalo, com uma perna de cada lado, tentava erguer o companheiro. Mas seu esforço era inútil. O homem sem queixo não tinha força. Parecia zonzo. Mal conseguia ficar de pé. A perda de sangue, acrescida do violento trauma, o enfraquecera de tal modo, que ele não fazia mais que erguer debilmente os braços e emitir uns grunhidos — expressão de dor ou explicação de que lhe faltavam forças. Posteriormente, quando da autópsia, o dono da casa ficou sabendo que a carga de chumbo dilacerara sua língua.
        O bandido que estava em cima do muro explicou ao companheiro, aos gritos — foi o que o juiz entendeu — que precisava fugir, deixando-o ali, mas que ficasse sossegado porque retornaria em seguida, bem armado, para levá-lo.
        O outro, contudo, não parecia aceitar essa solução. Queria que o companheiro o levasse logo. Mesmo fraco, protestava, roncando e tossindo. Até que o homem de cima do muro, exasperado, fixou o olhar no dono da casa. Ergueu o punho com ódio e gritou: — Volto para te matar!
        Nem bem esse ladrão ergueu a perna, preparando-se para deixar o muro, o dono da casa efetuava o segundo disparo, acertando-o em cheio. Sendo maior agora a distância, a carga de chumbo pôde melhor se espalhar, atingindo também o seu companheiro, que, cambaleando, deu uns passos para longe do muro e caiu emborcado numa pequena piscina. O outro ladrão caiu morto do outro lado do muro.
        Quando a polícia chegou, meia hora depois, Benvinda já estava sendo medicada — nada grave — e narrava ao patrão o ligeiro e castíssimo “namoro” que mantivera com aquele rapaz, tão perguntador, e que estava morto do outro lado do muro. Arrancada a meia do rosto desse bandido, ela logo reconheceu o casto namorado. No início do roubo, ele não proferira uma só palavra justamente para evitar sua identificação. E no inquérito verificou-se que os dois bandidos eram irmãos, nascidos no Paraguai e com antecedentes criminais tanto aqui como lá.
        Quanto ao juiz, o traumático evento lhe foi particularmente amargo. Até então, no que se refere a mamíferos, só matara uma capivara em Mato Grosso. E sentira depois um certo mal-estar, observando o estado dilacerado do animal.
        Contra seus princípios — era um homem direito —, mas por compreensível instinto de defesa, viu-se obrigado a alterar um pouco os fatos quando os relatou ao Delegado de Polícia que compareceu ao local. Disse que o ladrão, no muro, fizera menção de sacar uma arma para nele atirar.
        Aquele segundo disparo de espingarda — ele sabia, estava escrito em todos os tratados de Direito Penal — não mais configurava a legítima defesa, pois já havia cessado o perigo. A ameaça do ladrão era uma simples hipótese. Mas, como cidadão, ele se perguntava, procurando tranquilizar a consciência: — “E se o bandido voltasse para cumprir sua promessa? Não era meu dever proteger meu lar, mulher e filhos?
        Alguns dias depois, pediu para ser removido para uma Vara Cível. Sentia-se traumatizado, sem equilíbrio para julgar assaltantes..
        Continuou lecionando Direito Penal, mas seus alunos queixavam-se de que, não obstante fosse um professor exigente, detalhista, tornava-se evasivo e sumário quando explicava os requisitos formais da legítima defesa. Notadamente o item “agressão atual ou eminente”. Não parecia se sentir bem explicando o ponto. E passava logo para outro tema.
        Um mês depois, mudaram para um apartamento, onde não foram assaltados até agora.
        Quanto à Benvinda, passou vários meses tristinha, decepcionada consigo mesma. Toda vez que se mirava num espelho, parecia-lhe que  uma jumenta a encarava.

FIM