quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

EXTRAÇÃO, A CHUMBO, DE MAXILAR

     Pouco antes das sete da manhã, Benvinda está chegando à casa em que trabalha há vários anos. Suas passadas demonstram uma vivacidade inabitual.

        Empregada doméstica, quarenta anos, bem morena, é esperta e ajuizada, apesar de pouco instruída. Tem uma única filha de dezoito anos, que é tão ajuizada quanto ela e que trabalha em um banco, estudando à noite.
        Caminhando, Benvinda experimenta uma euforia que não sentia há anos. Está apaixonada... E também surpresa. Como é que aquele “gatão”, bonito, másculo, de sotaque espanhol, “cismou” justamente com ela, uma simples doméstica e bem mais velha do que ele?
        — Coisas do amor? — ela se pergunta. — E por que não?! — Certa vez, ouvira sua patroa, exibindo uma revista, comentar com o marido, um juiz de direito, que determinado xeque das Arábias, de passagem pelo Brasil, apaixonara-se pela camareira do hotel em que estava hospedado, levando-a para se casarem no Oriente Médio.
        É certo, Benvinda se lembra, que o potentado árabe já tinha algumas esposas na terra dele. Mas isso era outra conversa, uma questão de país, de diferenças legais que deveriam ser respeitadas. Pelo que entendera, na terra dele o chefão podia ter tantas esposas quanto pudesse sustentar. O que a ela interessava é que a tal arrumadeira de hotel, num “estalo” — “as benditas loucuras do amor!” — havia se tornado a rica terceira, quarta ou quinta — não lembrava ao certo — “madame” de um homem importante. Com direito a luxo, empregadas, limusine, chofer, etc. E a foto dessa arrumadeira sortuda, na opinião dela, não mostrava nenhuma invulgar beleza. Era um rosto comum, mais ou menos como o dela, apenas mais jovem. Agora, comparando os machos, Benvinda sorria, superior. O xeque, na foto, era gordo, meio velhão, feio, enquanto seu amado era um apetitoso “gatão”, capaz de seduzir, com um pé nas costas, qualquer “dondoca” rica. E também não devia ser nenhum pobretão, tendo em vista as camisas caras e vistosas que usava.
        Por falar em “dondoca”, Benvinda nutre um intenso desprezo pelas moças que, de minissaia, ventilam demais suas “partes pudendas”... Por sinal, ela gosta dessa expressão, a seu ver bastante “chique”, usando-a com frequência... Acha-a elegante, desobrigando-a de mencionar palavras feias. E chocara-se ainda mais com os primeiros maiôs “fio dental” que, certamente, incomodariam, fariam cócegas “lá embaixo”, nas “partes pudendas”. Jamais usaria tais “indecências”. E a filha, milagrosamente — porque a segunda geração quase sempre reage contra a primeira — concordava com ela.
        Certa vez, no tanque, lavando um desses maiôs — ou corda? —, de propriedade de uma sobrinha de sua patroa, ficou impressionada com o diminuto tamanho da peça. Naquela ocasião, não pôde deixar de fazer algumas amargas especulações, de ordem odorífera, relacionadas com aquela corda que permitia mostrar a bun..., digo, as “partes pudendas” tão descaradamente. Mas o que mais a desconcertou foi o fato de que a usuária daquele maiô era uma mocinha direita, sensata. Se ela era direitinha, pensava Benvinda, por que não usava um maiô inteiro? Como podia a moda ter tanto poder? E por que o Governo não tomava alguma providência?
        Júlio — esse o nome do “gatão” — a estava paquerando há quase uma semana, mas, até agora, não fizera nenhum avanço mais apaixonado, um desses “amassos”, tão normais em todas as épocas. E isso a preocupava um pouco. O “lance” dele, parecia, era apenas conversar, preocupar-se com ela, um carinho mais próprio de homem velho, impossibilitado de algo mais primitivo, concreto, carnal. No máximo, pegava na sua mão, mas sem ficar assim muito tempo. E ela pensava: respeito é bom, claro, mas quando demais, encuca.
        Benvinda, não é uma sem-vergonha. É apenas carente. Sofre um pouco com a prolongada abstinência mas jamais se entregaria a um homem no primeiro ou no segundo encontro. Mas, após o terceiro ou quarto, digamos, não havia por que manter tanta formalidade, aquele respeito exagerado, que não mais é obedecido pelo resto da moçada. Aí já é demais! “Afinal, não sou nenhuma Rainha da Inglaterra!”
        Chegara a pensar, por um momento, que havia alguma coisa errada em tanto acanhamento: — “Caramba! Será que ele é “bicha’? Não tinha pensado nisso! Não, não é possível! Aquele jeitão másculo, antebraço peludo, peito com cabelo saindo na abertura da camisa, barba cerrada, voz de homem. Não. Bicha? De jeito nenhum!”
        Benvinda conhecera, à maneira bíblica, poucos homens, no máximo oito. Decepcionara-se terrivelmente quando, bem jovem, já grávida de sua filha, ficara sabendo que o namorado era casado e vivia com a mulher. O choque foi demais. Esperava casamento, ou pelo menos uma amigação decente, mas, em vez disso, restara-lhe apenas a solidão e um ventre crescido. Pensara até em se matar. Ou abortar. Mas fora amparada pela patroa de então, mulher bondosa, católica, esclarecida, firme nas suas convicções e que a dissuadiu de cometer um pecado. Mataria um ser inocente que ainda poderia vir a alegrar sua velhice. E, realmente, a filha só lhe dera alegrias, ajuizada como ela só.
        Desse relacionamento, restou uma opinião bem amarga quanto ao caráter dos homens em geral: “mentirosos e egoístas”. Depois do nascimento da filha, só “saía do sério” de vez em quando, quando sua libido começava a apitar igual a uma panela de pressão, quase explodindo. Chegando a coisa a esse ponto ia a alguns bailes populares — forrós, gafieiras, pagodes — onde sempre conseguia uma companhia provisória; igualmente necessitada de descarregar a libido sem responsabilidades.  Não obstante mais feia que bonita, tinha um corpo bem modelado pela involuntária ginástica doméstica, forçada, varrendo, lavando, esfregando — a “academia” dos pobres, que ganham para “malhar”.
       Infelizmente, saía desses encontros libidinosos apenas fisicamente satisfeita. Católica por instinto, sem qualquer doutrinação, não conseguia se livrar do sentimento de culpa após tais encontros. Para limpar a alma rezava e prometia não mais se permitir tais liberdades.  
       Já trocara três vezes de religião, em busca de uma paz que nunca era alcançada. E assim ia levando a vida até que, inesperadamente, surgira aquele rapaz atraente e respeitador. Conhecera-o casualmente, ao sair da residência em que trabalhava em um fim de tarde. Ele estava do outro lado da rua, procurando um endereço impossível de encontrar porque não havia aquele número. Vendo-a sair da casa, pedira sua ajuda. E assim começara o casto e inesperado romance.
        O que deixava Benvinda “encucada” era a mania dele de fazer perguntas. Impossível alguém mais curioso: — “Você é feliz? Tem certeza?” — Essa parte ela achava meio idiota. — “Ganha bem? Teu patrão não podia te pagar melhor? Soube que ele recebeu, de herança, alguns dias atrás, várias barras de ouro e milhares de dólares... Ele precisa ter cuidado e guardar bem, senão você sabe o que pode acontecer... Ele já pensou em guardar o ouro no banco?”
        Tais perguntas a deixaram preocupada. Perguntou como é que ele sabia da herança, mas o rapaz explicou que soubera desses fatos por pura coincidência, uma vez que tinha um amigo que era funcionário do Fórum, trabalhando justamente no cartório em que corria o processo de inventário do pai do juiz. Contando a esse funcionário que tinha uma namorada naquela rua, trabalhando na casa de um juiz, o rapaz perguntara o nome do juiz. Informado, mencionara a herança. O funcionário comentara o fato porque, no geral, os herdeiros não mencionam heranças em ouro e dólares.
        A explicação era plausível, mas mesmo assim Benvinda continuou inquieta. Mas, por outro lado, se Júlio fosse um bandido, um assaltante, não precisaria fazer tanto rodeio. Era só sacar um revólver e dominar o patrão na hora certa, quando chegasse de carro à noite ou quando saísse de manhã.
        Ela terminava tais reflexões quando chegava à casa da patroa, situada em bairro de classe média alta.
        Mal ela enfiou a chave na fechadura, sentiu uma mão, vinda de trás, apertar fortemente seu braço esquerdo, ao mesmo tempo em que o cano de um revólver comprimia sua costela.
        Atrás dela, estavam dois assaltantes, ambos com meias de seda envolvendo a cabeça. Foi empurrada para a frente e em segundos os três já estavam no interior da casa.
        Ao susto, seguiu-se uma difusa fraqueza. Benvinda sentiu as pernas moles. Por pouco não soltou a urina, reação que lhe era comum em momentos de grande medo. Apesar de sua esperteza natural, a cabeça emperrou, oca, dominada. Sua boca foi tapada com firmeza pelo mesmo homem que a agarrara por trás e agora a apertava de frente.
        — Nem um pio, tia! — foi a advertência firme, embora sussurrada, do bandido que a dominava. — Se eu atirar, teus miolos vão pro espaço! — E ela, imaginativa, “viu” nitidamente seus miolos sangrentos, aos pedaços, voando em câmera lenta pela sala de visitas.
        — Onde é que teu patrão guardou o ouro e os dólares? — indagou o mesmo bandido junto ao seu ouvido. Enquanto isso, o comparsa fazia uma rápida inspeção na parte térrea do belo sobrado.
        — Que ouro? — murmurou a doméstica, numa surpreendente retomada da esperteza.
        O bandido não pôde deixar de achar graça. Parecia pouco tenso. Com calma, sem desejo, bolinou-a com a mão esquerda, massageando seu seio, enquanto sorria por baixo do disfarce.
        — Parabéns! Nunca pensei que a tia se recuperasse tão depressa! Só que a hora da brincadeira acabou. Sei que teu patrão tá com ouro e dólar. Tu tá querendo bancar a Joana D’Arc? Olha que nós te estupramos e ainda torturamos todo mundo aqui! — E, dizendo isso, pressionou fortemente o cano do revólver contra a narina esquerda de Benvinda, machucando-a com a alça de mira. Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas não se atreveu a gritar.
        — Nem precisa responder... Só pode estar no quarto... Vamos subir a escada bem devagarinho; você na frente, e eu com a arma na tua cabeça. Chegando na porta do quarto, você vai perguntar ao patrão se ele quer tomar café. Faz de conta que você tá levando uma bandeja  Entendeu? Ou precisa levar umas porradas? Se você obedecer, eu te deixo viva. Aliás, deixo todos vivos! Quero só os dólares e as barrinhas de ouro. Por isso, não banca a heroína.
        Ela assentiu com a cabeça, dominada, e foi sendo empurrada, sem ruído ou atropelo, enquanto subia a escada que conduzia ao andar superior.
        Os três pararam juntos à porta do quarto do casal, Benvinda na frente. Ela recebeu uma cutucada na nuca com a ponta da arma e um sinal de que estava na hora de representar o seu papel de garçonete. Perguntou, em voz bem alta:
        — Dr. Nelson... o senhor não quer tomar café? Trouxe na bandeja.
        Benvinda, apesar de esperta, ou justamente por isso, não foi uma boa atriz. A pergunta saiu com voz esganiçada, estranha, uma taquara rachada.
        Seu patrão, de pouco mais de quarenta anos, juiz de Vara Criminal, também professor de Direito Penal numa Faculdade particular, acordou com o som da taquara falante. Sem dificuldade, porque essa era a hora em que habitualmente acordava. E logo estranhou duas coisas: primeiro, a alteração na voz da empregada; segundo, o oferecimento do café na cama, coisa que nunca ocorria. Por que essa novidade agora? Mesmo assim, não pensou imediatamente em assalto, apenas agradeceu:
        — ... Obrigado, Benvinda, mas vou tomar o café lá em baixo, como sempre.
        Ouvindo isso, o bandido “principal”, segurando a empregada — o outro ainda não abrira a boca — hesitou um pouco. Não esperava essa resposta, mas pensando depressa sussurrou no ouvido da doméstica: — De novo... Oferece de novo!
        E Benvinda insistiu: — O senhor tem que tomaaaar! — gritou, quase gemendo, desesperada.
        Aí o “desconfiômetro” do juiz tocou como um despertador antigo, bem barulhento. — Aí tem coisa! — pensou, o coração batendo forte.
        O juiz saltou da cama e, sem calçar os chinelos, na ponta dos pés, aproximou-se da porta. Bem agachado, tanto quanto possível, espiou pela fresta. E constatou, só pelas sombras, que não sendo Benvinda um inseto, com várias pernas, havia outras pessoas no corredor. Essa conjugação de abundância “pernil” com a imposição berrada para que tomasse café na cama, só podia ser mais um capítulo das perigosas “histórias reais de crimes” que lia todos os dias nos autos de processo.         
— Um momento, já vou abrir a porta! — o juiz gritou, procurando dar à voz um timbre normal. Imediatamente aproximou-se da mulher que, já de pé, imóvel, o encarava com os olhos arregalados, consciente da situação. Junto ao ouvido dela, ele sussurrou: — Tranque-se no banheiro. Depressa! Sem barulho!
        Em seguida, deu alguns passos na direção do guarda-roupa embutido, onde mantinha uma espingarda de caça de dois canos, sempre carregada, apesar do risco implícito nessa prática. Assim fazia porque, como juiz, ouvira inúmeros relatos de vítimas de roubos que não tiveram tempo de carregar suas armas quando os ladrões já estavam dentro da casa.
        O juiz pegou a espingarda e voltou para a cama, onde se deitou e escorou a coronha contra a cabeceira. Armou o cão da arma e aguardou, direcionando os canos para o meio da porta. Nesse momento, sua mulher já estava trancada no banheiro.
        A excessiva demora e o suspeito silêncio convenceram o bandido principal que o dono da casa estava tramando alguma. Era agora ou nunca. Empurrou a empregada para o lado e desferiu três fortes pontapés na porta, chutes que estrondearam pela casa silenciosa. No quarto chute, a porta abriu-se violentamente.
        Nesse exato momento, o juiz apertou um dos gatilhos. Aí, aparentemente — pelo que se constatou depois nos autos do processo —, o bandido da frente, por uma razão qualquer, virou o rosto. Isso porque seu maxilar inferior foi arrancado, quase inteiro, pela pressão conjunta das pequenas esferas, de aço, projetadas pela potente arma de caça, em curta distância.
        O tiro teve também o efeito de um violento murro de “peso-pesado” em um combalido “peso-mosca”, pois o bandido da frente foi jogado para trás, levando de roldão o companheiro e a própria Benvinda, que não tivera tempo de descer a escada, porque estava meio abestalhada.
        Os três rolaram pela escada, aos trambolhões, enquanto o involuntário caçador de “queixadas” se levantava da cama e se preparava para um eventual segundo disparo.
        Do alto da escada, o dono da casa observou que, lá embaixo, nenhum dos dois bandidos segurava, naquele momento, qualquer arma. E estavam tontos. Um revólver estava caído junto à porta do quarto, no andar de cima, e um outro no degrau mais alto, ambos fora do alcance dos ladrões.
        Não obstante sem a mandíbula, o bandido que parecia liderar o roubo conseguiu se erguer, cambaleando, confuso, olhos arregalados, uma mão segurando o ponto mais baixo do corrimão. Com a outra mão, tateava o quase buraco onde antes havia um queixo. Do buraco, fluía grande quantidade de sangue. Seu companheiro, também ferido, mas não muito, procurou, solidário, arrastar para longe seu colega de empreitada, abraçando-o pela cintura e colocando o braço do ferido por cima de seu ombro. Arrastaram-se na direção da cozinha, certamente visando escapar pelo quintal da casa, onde havia um muro não muito alto. Só pensavam agora em escapar.
        Com máxima cautela, o patrão de Benvinda os seguia de longe, atento ao que acontecia, cauteloso quanto à eventualidade de haver um terceiro bandido dando apoio aos primeiros. Mas logo convenceu-se de que eles estavam sozinhos.
        Os ladrões chegaram até o muro do quintal, que dá para um terreno baldio. O bandido menos ferido rapidamente conseguiu trepar no muro e, montado a cavalo, com uma perna de cada lado, tentava erguer o companheiro. Mas seu esforço era inútil. O homem sem queixo não tinha força. Parecia zonzo. Mal conseguia ficar de pé. A perda de sangue, acrescida do violento trauma, o enfraquecera de tal modo, que ele não fazia mais que erguer debilmente os braços e emitir uns grunhidos — expressão de dor ou explicação de que lhe faltavam forças. Posteriormente, quando da autópsia, o dono da casa ficou sabendo que a carga de chumbo dilacerara sua língua.
        O bandido que estava em cima do muro explicou ao companheiro, aos gritos — foi o que o juiz entendeu — que precisava fugir, deixando-o ali, mas que ficasse sossegado porque retornaria em seguida, bem armado, para levá-lo.
        O outro, contudo, não parecia aceitar essa solução. Queria que o companheiro o levasse logo. Mesmo fraco, protestava, roncando e tossindo. Até que o homem de cima do muro, exasperado, fixou o olhar no dono da casa. Ergueu o punho com ódio e gritou: — Volto para te matar!
        Nem bem esse ladrão ergueu a perna, preparando-se para deixar o muro, o dono da casa efetuava o segundo disparo, acertando-o em cheio. Sendo maior agora a distância, a carga de chumbo pôde melhor se espalhar, atingindo também o seu companheiro, que, cambaleando, deu uns passos para longe do muro e caiu emborcado numa pequena piscina. O outro ladrão caiu morto do outro lado do muro.
        Quando a polícia chegou, meia hora depois, Benvinda já estava sendo medicada — nada grave — e narrava ao patrão o ligeiro e castíssimo “namoro” que mantivera com aquele rapaz, tão perguntador, e que estava morto do outro lado do muro. Arrancada a meia do rosto desse bandido, ela logo reconheceu o casto namorado. No início do roubo, ele não proferira uma só palavra justamente para evitar sua identificação. E no inquérito verificou-se que os dois bandidos eram irmãos, nascidos no Paraguai e com antecedentes criminais tanto aqui como lá.
        Quanto ao juiz, o traumático evento lhe foi particularmente amargo. Até então, no que se refere a mamíferos, só matara uma capivara em Mato Grosso. E sentira depois um certo mal-estar, observando o estado dilacerado do animal.
        Contra seus princípios — era um homem direito —, mas por compreensível instinto de defesa, viu-se obrigado a alterar um pouco os fatos quando os relatou ao Delegado de Polícia que compareceu ao local. Disse que o ladrão, no muro, fizera menção de sacar uma arma para nele atirar.
        Aquele segundo disparo de espingarda — ele sabia, estava escrito em todos os tratados de Direito Penal — não mais configurava a legítima defesa, pois já havia cessado o perigo. A ameaça do ladrão era uma simples hipótese. Mas, como cidadão, ele se perguntava, procurando tranquilizar a consciência: — “E se o bandido voltasse para cumprir sua promessa? Não era meu dever proteger meu lar, mulher e filhos?
        Alguns dias depois, pediu para ser removido para uma Vara Cível. Sentia-se traumatizado, sem equilíbrio para julgar assaltantes..
        Continuou lecionando Direito Penal, mas seus alunos queixavam-se de que, não obstante fosse um professor exigente, detalhista, tornava-se evasivo e sumário quando explicava os requisitos formais da legítima defesa. Notadamente o item “agressão atual ou eminente”. Não parecia se sentir bem explicando o ponto. E passava logo para outro tema.
        Um mês depois, mudaram para um apartamento, onde não foram assaltados até agora.
        Quanto à Benvinda, passou vários meses tristinha, decepcionada consigo mesma. Toda vez que se mirava num espelho, parecia-lhe que  uma jumenta a encarava.

FIM

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Mordida de Cachorro

Por que algumas mulheres só engordam em determinadas partes?
A senhora alta que gingava pelo corredor da velha repartição pública era um exemplo ambulante desse capricho genético: da cintura para baixo, era impressionantemente volumosa, com curvas bem feitas, mas um tanto gigantescas. Da cintura para cima, quase diríamos que era magra, ainda que com braços fortes. Digo fortes, não gordos. Praticamente não havia banhas no hemisfério norte de sua pessoa e seus dois ovos estrelados peitorais pouco apareciam por baixo da blusa de verão.
                    Seu rosto era curtido pelo sol, com muitas rugas nos cantos dos olhos, os tais “pés-de-galinha” que certas vaidosas de cabeça oca temem afastar os galos de seu selecionado galinheiro. Os braços também eram queimados, a sugerir trabalhos ao ar livre. Se o observador fosse desses maníacos que se deleitam com deduções de contos policiais, acertaria, com rápida espiada, se dissesse que essa mulher era lavadeira, bastando olhar para suas mãos avermelhadas.
                   Apesar do mau trato geral e vestes modestíssimas, essa moringa de carne tinha na face vestígios de uma beleza nobre e recôndita, só perceptível aos entendidos. Sua beleza estava impressa na caveira. Pelos ossos da face e formato do crânio, pode-se adivinhar se a mulher conservará ou não por muitos anos a beleza da mocidade. O essencial é examinar os ossos, não se compreendendo — em época de tantas inovações — por que não há ainda concurso de beleza de caveiras femininas, com legistas e cirurgiões plásticos funcionando como jurados. Carne e pele são produtos perecíveis, despencam, engelham, enquanto os ossos, com seu toque de eternidade, conservam a eventual beleza até o juízo final.

                   Não fosse a total ausência de vaidade, essa senhora poderia, com algum trato e lipoaspiração, incendiar muitos corações masculinos. Como, aliás, realmente incendiou mordentemente — repare, o leitor, o advérbio — consoante se verificará.

A mulher chegava para visitar a irmã, que trabalhava na seção do arquivo no quarto andar. Caminhava lentamente, ao mesmo tempo majestosa e humilde. Aproximava-se do elevador, vindo pelo corredor quase deserto, quando as coisas começaram a acontecer.

                   Antes que chegasse à porta, um homem de seus trinta anos, servente — e que já a observara em vezes anteriores — mal a viu, rapidamente se antecipou, entrando no elevador e mexendo rapidamente nos botões e alavanca do aparelho. Fingindo impaciência frente a um mecanismo defeituoso, ele disse à mulher que aquele elevador estava com defeito, sendo necessário utilizar o de carga, situado na outra ponta do corredor, normalmente bem mais deserto.

                   A mulher de nada desconfiou. O que, afinal, funcionava bem em certas repartições? Caminhou, resignada e ondulante — de modo algum fazendo charme — na direção indicada, enquanto ele a seguia logo atrás, com olhares gulosos e avaliativos de quem degusta por antecipação um substancioso pudim.

                     Entraram a sós no elevador de carga. As duas portas foram fechadas. A externa, de madeira, e a interna, de ferros trançados.
Ele perguntou a que andar ela queria ir. Informado, apertou o botão de subida.

                    Para que o leitor melhor visualize a cena, cumpre informar que o improvisado ascensorista era um homem muito feio. Bem mais baixo do que aquela mulher era magro, careca e cabeçudo, com uma boca enorme — seu apelido era “Jacaré”. Tinha olhos protuberantes, com uma permanente expressão de espanto e beiços volumosos, não obstante ser da raça branca.

                    Quando o elevador estava entre o terceiro e o quarto andares, um dedo masculino tremente apertou certo botão. A máquina parou. E com o elevador parado entre os andares, a porta não abria.

                   O homem, fingindo surpresa, mas péssimo ator, observou, com um sorriso amarelo:

                   — Puxa! Que azar! Falta de energia. É, não tem jeito... Vamos ter que esperar uns dez ou quinze minutos...

A mulher, com a desconfiança ancestral da espécie, sentiu que se algo estava errado não era com o elevador, mas com a cara do homem. Aquele sorriso de crocodilo que vê um leitãozinho apetitoso não a enganava.

                  — Não vou esperar minuto algum! — ela protestou, aproximando-se do painel. Com um enérgico “Dá licença!”, pediu ao homem que se afastasse. E quando ia apertar o botão vermelho de alarme, o homem, tentando sorrir, mas conseguindo, ao máximo, um esgar, segurou seu impulso, sussurrando: “Por favor...”.

                  O que se seguiu é difícil afirmar com segurança, pois no inquérito instaurado a respeito havia duas versões opostas e, se fosse possível um relato fiel, talvez não houvesse conveniência neste escrito de algumas precauções pudicas. O incontroverso é que, naquele pequeno espaço houve muita ação, mas de intenções não coincidentes. De parte dele, um entusiasmo amoroso, algo canibalesco. Da parte dela, cenas de violência explícita. Com seu treino diário como lavadeira de grandes peças, erguendo pesadas bacias, torcendo cortinas e cobertores, ela adquirira uma força considerável. Indignada, interpretava seu faminto admirador como uma espécie de cobertor escarrado, sujo em todos os sentidos. Por isso, “torceu-o” como pôde, esfregando-o raivosamente contra os ferros da porta pantográfica, como se esta fosse rampa ondulada de um tanque de lavar roupa. O rosto dele ficou escalavrado e suas orelhas quase se despregaram, na tentativa dela de imobilizá-lo, entalando seu coco tarado entre os ferros da porta.

                  A cabeça passava, mas havia o problema das orelhas grandes, quase resolvido
Nosso Romeu apressado viu as coisas pretas, mas, como era no fundo um amoroso, e não um agressivo, o máximo que conseguiu durante a luta foi dar uma senhora dentada por cima da saia, no gordo traseiro da lavadeira.

Com um “Aiii!” nem um pouco impregnado de volúpia, ela reuniu novas forças e o arremessou com violência contra a parede dos fundos, fazendo com que o elevador tremesse de pavor, tal o abalo sofrido em sua estrutura. Aí, o tarado — ou esfomeado — desistiu, gritando: “Está bem! Para! Socorro!”.

                   A mulher se recompôs, ofegando, enquanto ele fazia o elevador subir até o quarto andar. Mal abriu as portas, ele desceu correndo as escadas antes que ela fizesse novo escândalo.

                   A lavadeira procurou logo um banheiro no próprio andar. Já dentro, olhou-se no espelho e ajeitou o cabelo. Lavou o rosto e o pescoço — onde o tarado depositara um beijo molhado — e tentou examinar o lugar mordido. Mas por mais que se contorcesse, como um cachorro que tenta morder o próprio rabo, ficava difícil ver o ponto exato. Assim, pediu a uma moça que entrava que examinasse a mordida.

                  Após breve exame, a moça observou que havia uma leve marca de mordida, indagando em voz baixa o que acontecera.

                  — Foi aquele cachorro!... — berrou a mulher, indignada.

                 Ocorre que uma das paredes do banheiro público onde estava não chegava até o teto. Por isso, tais palavras exaltadas voaram como mariposas maldosas para o banheiro vizinho, usado apenas pelas funcionárias do prédio. E nesse momento ali se encontrava uma escriturária de imaginação viva, que se assustou tremendamente com a história da mordida, ouvida parcialmente.                
                  Cautelosa, a funcionária espiou o corredor e deu uma corridinha até sua sala. Mal entrou, fechou a porta, discando para o setor de segurança da repartição.
— Alô? Segurança? Aqui é a Mercedes, do arquivo. Olha, é preciso enviar, urgente, alguém até o quarto andar porque há um cachorro à solta! Já mordeu gente!
Do outro lado, a estranheza: — Cachorro! Aqui?!
— Pra você ver que nessa repartição não falta mais nada...
— Como é o tal cachorro?
— Eu não cheguei a ver...
— Ah, você quer brincar com a gente...
— Não estou brincando! Ouvi una conversa, sem querer, quando estava no banheiro. A mulher que foi mordida, mostrava o ferimento para uma outra. Há marcas de dentes do animal.
— Sim, senhor... A culpa é do Antônio, que nunca permanece no lugar dele na entrada. Pode ficar sossegada, que já mando dois seguranças.
Nem bem decorreram cinco minutos, dois guardas armados, munidos de paus e cordas, percorriam o quarto andar e em seguida os andares vizinhos.
O rebuliço foi geral. A própria senhora gorda foi impedida, por segurança, de sair da sala em que trabalhava a irmã. Mas como o “mordedor” de quatro pernas não era encontrado e corria a notícia, já ampliada, de que o animal “arrancara a nádega inteira de uma mulher”, a própria vítima acabou ligando uma coisa com outra e explicou tudo, o que resultou em hilaridade geral.
Pela descrição do taradinho, foi possível a sua localização. Ajudou nisso suas orelhas. De início, tentou negar, mas suas orelhas inchadas o denunciaram.
No inquérito, admitiu que “perdera a cabeça” porque naquele dia estava em jejum e tomara duas pingas. Além disso, fora abandonado pela mulher há quase um mês. — “Eu estava meio com fome de sexo... Isso, mais a pinga, desculpe...”
A vítima só compareceu depois de muita insistência. Quando examinada para a elaboração do laudo pericial, já não apresentava qualquer marca. A raiva dela já tinha passado. Até se gabara um pouco com amigas, contando a surra que dera no “tarado”.
O “lipófago”, como passou a ser conhecido, após uma punição disciplinar, foi removido para uma repartição de outra cidade.

                   Seu superior hierárquico, que quando contava qualquer caso supostamente engraçado a seus subordinados todo mundo guinchava de tanto rir, visando promoção, passou a espalhar que depois do acesso de fome no elevador, o “tarado do elevador” não mais andava desprevenido. Quando estava para cair em tentação, sacava depressa do bolso do paletó um volumoso sanduíche de presunto, logo devorado para salvação de sua alma.

FIM


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Did wars genetically lower intelligence?

Tradução: Engrácia Maria Victoria Fernandes.
e-mail: victoriafernandes@hotmail.com

I think so. In my opinion, this should’ve happened. I stress out that what I mean is the average intelligence - neither genius nor retarded - and also the one people are born with, which has nothing to do with the level of education. A man with higher education may be less "organically intelligent" than the other, with basic education incomplete, or even illiterate. In popular language, so to speak , some are born shrewd, quicker or more inventive than others. Even among educated people, the level of intelligence is variable.

I presume that wars - in addition to resulting deaths, cripples, chaos and material destruction - provoke within each country involved in the conflict a genetic setback in subsequent generations, since wars lead to the "survival of the less fit" and "extinction of the fit "- the opposite of Charles Darwin's theory of evolution. This is yet another argument against the stupidity of wars. Fortunately, so far, women have not participated massively in the fighting. They saved the best genes of their respective nations.In wars, it is precisely the youngest and the healthiest - recruited and approved by military service – are those who first die in combat, usually before they become parents. Only young people rejected by military service because of being disabled, leave offspring.

Inclined as a mere curious to inquire about possible biological nexus of cause and effect on social issues - in this case the deaths of millions of young soldiers and the non-advancement or setback of human beings throughout history - I wonder if periodic wars and other forms of massacres, chipping away the best "slice" from human species - its healthy youth, explain why mankind still remains unchanged, or worsened, in moral terms, despite its impressive technological advance. It should be remembered that scientific and technological inventions are relatively rare. I will discuss in this text only the global, statistical hypothesis, recognizing indeed, that many young people unfit to fight in wars can be unusually intelligent. I do not discuss the exceptions here.

How did this idea of periodic and frequent wars resulted in just a slight or even none evolution of mankind? I explain below.

After reading hundreds of quotations from Greek philosophers - Socrates, Plato, Aristotle and even the pre-Socratics - I kept asking myself: Socrates was probably born in 470 BC, that is to say about 2,500 years ago; what he said and his followers wrote - about ethics is by far superior to what we witness, on average, in our times. Even among the current "thinkers", many of whom are much more concerned with phrases of effect rather than the depths mixed with common sense. In politics, it's even worse. It’s a simple case of comparing the speeches from the presidents of nations presiding over the last hundred years, including the wealthiest nations. As for the speeches read, it is known that they are commonly written by ghostwriters. No progress in 2,500 years. Maybe even a setback, despite our impressive technical progress, most likely coming from a couple of innovators.

Despite so much reading available - with the invention of the press, computers, smartphones, free and instant availability of information, etc. - modern man continues to lie, deceive, kill and steal without shame, apparently more exacerbated than two and a half millennia ago. With an aggravating factor: after the mentioned philosophers, three religions emerged and being monotheistic should have fostered humankind towards the brotherhood of human species.

Of no avail. The carnage has only increased: The Crusades, the War of 30 years, the War of 100 years, Napoleonic Wars, Russian Civil War, American Civil War, the Dungan Revolution (in China), "Attacks" of Tamerlane ", World War I, World War II, Korean War, Vietnam War, Gulf Wars, "Syrian" War, Islamic State, Israeli-Palestinian fighting, etc. Not to mention a possible nuclear conflict if Kim Jong-Un and Trump continue to threaten each other. A push of a button, even accidental, and we will have chaos.

I said an "accidental" push because when Jimmy Carter was president, his suit was sent to the laundromat.

In one of the pockets of his jacket inadvertently a "mobile" or equivalent device that could fire atomic rockets at Russia. In retaliation, the latter could use its system of "immediate response", firing atomic missiles against the US, London and other capitals. Fortunately, no laundry employee, unaware of the danger, tried to "test" the buttons of the enigmatic "toy". Would it be a new smartphone?

I often remember that in evil lies good, and vice versa. If the US and Soviet Union, at the time of the Cold War, were not nuclear powers the 3rd. World War would have already occurred. Probably in 1962, in the well-known incident of Russian rockets, with nuclear warheads, sent to Cuba by the Soviet Union but intercepted at sea by the Americans.

The aim of this article was to present a new argument - the genetic one, of a future effect - against the stupidity of wars, all of them, except the strictly defensive wars, before the arrival of the "sheriff" who will arrest "the bandit."

In order to avoid wars, it is necessary to prohibit them, but to prohibit them nations need to be aware of the demand to give up part of their sovereignty when it collides with the sovereignty of another nation.

Collision that still today resolves itself by force, the most primitive way of solving any problem.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Global warming. The Paris Agreement. Should we get out of it?



On 04/08/2018 I published in my blog - franciscopinheirorodrigues.com.br – the article “Why is the Antarctica cooling down?”

My question – nosy headstrong - was related to the news that in the Antarctic there was a drop in temperature - the opposite of what is expected - because there was, and still is, an almost unanimous academic consensus that global warming is growing dangerously as a consequence of human activity. It was mandatory, I thought, without imagining the immense complexity of climatology, a global limitation of industrial activity, livestock, and deforestation and of everything else which would imply on an increase in carbon dioxide (CO2) in the atmosphere, even if such a restriction curbs the economic growth of countries ours included, rated among the ten most polluting countries.

Considering the rise in sea level - allegedly confirmed by the media - to be one of the serious consequences of the greenhouse effect flooding coastal areas, I concluded that the anomalous cooling, which occurred in part of the Antarctica, could be explained by the shift of the Earth's axis enabling the Sun's rays to warm certain areas while cooling others in the same continent, depending on the weight of the oceans and the Earth's rotational movement. This variation - I "deduced" - would be more noticeable near the Polar Regions in both hemispheres. Some areas, reiterating, warmer before, would become colder and vice versa, which would keep the average planetary temperature unchanged. If for example, winter is harsher in New York, probably in Siberia, on the opposite side of the planet, winter would be less severe; a phenomenon little publicized since it occurred in a sparsely inhabited region, thus not justifying headlines.

I wondered: what could explain this probable mutation of the Earth's axis tilt? Evaluating with a naked eye, the impressive mass of water of the Oceans on the globe the conclusion seemed obvious to me: with melting ice at the poles and peaks on the high mountains, millions of tons of melted ice, notably in the Antarctica, ended up in the seas and oceans, increasing its level, justifying the necessity of limitation in the human activity, given as responsible for the greenhouse effect.

I did not understand, however, why the media did not mention this explanation - of the axis shift - over the partial cooling at the south pole, an explanation that seemed to me "so obvious": if the Antarctica glaciers "visibly" melted - as suggested by the photos -, the resulting water would end up adding to the water of the oceans, increasing the flood of cities near the sea. Therefore, Brazil should remain firm in its decision to impose restrictions on its industrialists, ranchers and farmers, at the Paris Conference in 2015.
If readers want more details of my seemingly logical deduction, they can access my blog.
Now everything has changed. Or at least shuddered the technical understanding of a problem, which will affect the future of humanity, in the medium and long term.

After listening to "oceanic" and scholarly lectures and interviews by Ricardo Felício and Luiz Carlos Molion on YouTube, I am now aware and impressed by my total ignorance on this subject - Climatology - that I never imagined to have reached such a degree of sophistication and complexity.

From what I have heard from these two scientists, who are convinced that human activity does not influence the planetary climate, countries should think a little - or much more - about global treaties on reducing CO2. It is up to the academic majority - who maintains that man is the cause of the greenhouse effect and continuous global warming -, explain better the reason why they demand the signatory countries of the Paris Agreement the limitations on CO2 emissions, even if this means a decrease of GDP.

Three days ago, however, accessing YouTube, I watched the long interviews of USP professor Ricardo Felício, claiming in a calm assurance, that the human being is not responsible for the global warming, and there is no reason for Brazil to comply with the restrictions stemming from the Agreement of Paris 2015, ratified by our country on 09/12/2016.
In summary, Ricardo Felício says that a temperature variation on Earth depends only on changes in the Sun, following different periodic cycles on the surface of our star. He argues that the planet has already undergone ice ages and has withstood much higher temperature spells than today.

As for the rising sea level, Felicio says that El Nino is a natural phenomenon, even by changing the sea level by half a meter. He also reports that a famous oceanographer, Macaulay – if I’m not mistaken -, who has already died, said that "the last thing the sea has is a level", not justifying - in the words of Felício - the current global concern with an extra centimeter or even less because the seas always vary in their levels. He also claims that the melancholy images of thin bears - balancing themselves on pieces of floating ice at the North Pole - and the glaciers melting, or rather "crumbling" - in Antarctica - date back 20 years, being only false propaganda.

Felicio argues that glaciers melt and re-form in decades and centuries. He says that there are more than 160,000 glaciers and that the UN only monitors 50 or 60 of them, and cannot draw correct conclusions with such restricted research.

As for the aforementioned Luiz Carlos Molion - professor and researcher at the Federal University of Alagoas, in Meteorology, postdoctoral fellow in Hydrology of Forest, postgraduate in Physics and with numerous other distinctions -, he seemed to me, on YouTube, a live encyclopaedia when he shifts from one item to another related, with calm assurance and a courage rare in such a multifaceted subject. He also needs to say a few words about how to reconcile the "sanctity" of CO2 with the need to reduce environmental pollution. This cannot be totally unrelated to the Global Warming theme.

In order not to lengthen this text, already too long, it is convenient for the reader to watch the interviews of Felício and Molion on YouTube for a better understanding. I advise you to listen to them more than once, on different days - not to tire and give up, in frustration. This is a technical matter, with a conclusion of a very high relevance: the withdrawal of Brazil in a worldwide decision.

It's a pity - just for me, always eager and curious - that these two climate scientists have said nothing about the eventual tilt of the Earth's axis when the planet undergoes cooling in parts of the Antarctica when global warming occurs. Probably nothing has been said about the Earth's axis because the detail, if it occurred, was irrelevant. They need however to clarify how to reduce pollution, which kills people in the long run.

Global warming and environmental pollution are of course, distinct themes, but very closely related. Health should also matter heavily when discussing the economic effect of the mandatory reduction of carbon dioxide emissions in an international treaty.

Could the hasty Donald Trump exceptionally, be right when he declared that his country will withdraw from the Agreement?
The matter is especially important for Brazil since Jair Bolsonaro gives signs to follow Trump in that decision.

As long as the technical doubt about whether Brazil would walk out from the Paris Agreement, the most sensible solution would be for Bolsonaro to say he will wait for the formal black-and-white adhesion of countries with permanent seats in the Security Council prior to his decision. Felicio said that China has promised to sign but keeps winding, and has not yet signed. If the United States is the only one to leave, Brazil should continue in the Agreement. But Brazil must sign only after the super power countries, permanent members of the Security Council, besides Germany and Japan, have done so. Only then it becomes clear that the super powers would accept the restrictions required from Brazil and other smaller countries.

Molion insists with authority, in his talks on the economic interest of the rich nations in crippling the growth of developing nations. He lectures on patents, profits and losses, etc., which are behind a decision that should be solely technical.
Brazil needs to know, with more certainty, the pros and cons of variations of the Sun, the Earth and the insights of how human activities impacts, before leaving or remaining in the Paris Agreement.

(25/12/2018)

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Crimes, sovereignty and world government

I have highly illustrious precursors, including Kant, when I never tire of insisting that, to an ever greater extent, nations need to renounce large portions of their sovereignty in favor of a global democratic federation, in order that the world may be less chaotic, unjust and self-destructive (see pollution).

This is not “mere” idealism; utopian propensity; fanciful optimism (in the style of J. J. Rousseau, where man is born essentially good and subsequently corrupted by society); altruism and the like. Man is both good and evil, in varying proportions, according to genetic makeup, education (formal and informal), the cocktail of beatings and caresses received since childhood and assessment of the legal and social advantages or risks that surround his activities. If it is advantageous to be good, either here or in the afterlife, he is, even if basically not so. He dances according to the music being played. But that’s enough of generalizations; the reader has no time to waste.

When a law student, I was highly impressed by the fact that a foreign citizen, duly sentenced by the courts of his country, was able to move freely about Brazil, make a Brazilian woman pregnant, father a son and, as a result, free himself from the threat of extradition and completing his sentence. It seemed to me to be the easiest and most enjoyable preventive “habeas corpus” in the world. At liberty thanks to a gratuitous, illiterate, but for all that extremely effective, unqualified attorney, the respected “Mr. Spermatozoid”.

Ronald Biggs, an engaging Englishman, who took part in the multi-million pound Great Train Robbery of 1963, was one such case. After serving a few months of his prison sentence in the United Kingdom, he scaled the wall and fled to Australia. As he certainly did not feel safe in that country, which has strong ties with England, he ended up residing in Brazil, after becoming aware that several benevolent legal concessions exist here that are well-suited to his case. He became emotionally involved with a good-hearted nightclub dancer, made her pregnant and, as a result, guaranteed that he would be able to stay in the country. The British government sought his extradition, however, as Biggs’ son was his dependant (of course...), and no extradition treaty existed between the two countries (the old problem of sovereignties), the fugitive continued to live here for as long as he wanted. Free and (according the respective Wikipedia webpage) charging anyone who so desired sixty dollars to have lunch and a chat with a “celebrity”. According to information provided by the fugitive himself, his portion of the loot had been reduced to a minimal sum, as a result of attorney’s fees and other expenses related to his fight against returning to prison. Nevertheless, when his longing for his homeland became unsupportable, he returned to England and ended up being imprisoned. Now old, sick and debilitated, photos of him aroused compassion in those of a more sensitive disposition and inclined to pardon.

What is interesting here (someone needs to write an academic thesis on this sociological phenomenon) is that a large portion of society, principally Rio society, even adulated him, considering his personal appeal and audacity for having participated in a robbery the current value of which is equivalent to more than one hundred million reals. “Success”, in any of its forms - political, economic, sporting, artistic or “congenially criminal” - legitimizes any kind of act. In the First World, male cinema artists, in order to reinforce their reputation as “tough guys”, liked to be seen at shows and restaurants in the company of high-ranking members of the Mafia. The affectation of adding an air of shadowy danger to their status. This occurred in the case of Frank Sinatra, Alain Delon and other inflamers of female hearts. A fictional English politician, feeling that he was being more than a little blackmailed by the person who was speaking to him, mentioned, wishing to impress, that he had contacts “in high places”. To which the other replied, with assurance, that he also had contacts, but “in low places”. This is something far more intimidating, as evil can be inflicted with the power and speed of a lightning bolt, without any bureaucratic hindrances.

That which was mentioned regarding extradition only goes to show, in summary, that in the difficult harmonization of sovereignties, crime very often goes unpunished, or very nearly so. This, at least in theory, would not occur if there were a global federation or confederation, with worldwide jurisdiction.

Another example facilitating impunity lies in the setbacks faced by state prosecutors when they are overruled or delayed in their attempts to recover large amounts of money deposited abroad. Given that the money can be transferred to another bank or even another country in a matter of seconds, with a simple mouse click on a computer, the diligent prosecutor almost always arrives too late with his petition for freezing deposits made by those availing themselves of public money. While the prosecutor studies the banking legislation of the country where the money is to be found - wrestling with a language in which he is not fluent - and once again prepares a request for its return, the money in question has already been sent to another bank. And so everything starts all over again. Even the private creditor of a millionaire debtor, who has financial resources scattered all over the world, cannot manage to make demands or even subpoena the important debtor, making his credit – even if judged to be without further recourse to appeal – a very nice sum without any real significance.

Extraditions are subject to the influence of the international prestige of the countries involved. In the case of the Canadians who were arrested and sentenced for kidnapping a famous São Paulo businessman, the Canadian government managed to arrange that they be repatriated in order to serve their sentence in their own country, with probably benevolent consequences. If, however, a group of Brazilians were arrested, in Canada or the United States, after carrying out kidnappings, it is highly probable that the Brazilian government will not be able to extradite them. With Bush as president, it would certainly not be possible.

Even horrendous homicides end up being almost unpunished as result of this “excess” of sovereignty, with each country living in its own isolated world – pure political schizophrenia.

Look at the 1981 case of the Japanese Issei Sagawa, who, in Paris, killed and “raped” (in fact, he technically violated a corpse) an attractive female Dutch student, a colleague of his at Université Censier in the city. He did this because the Dutch girl (who assisted him with translations at the time, in his apartment), refused his advances full of passion and libido. Issei, who has the appearance of a somewhat developed dwarf with a large head (I’ve seen a photo of him), was 1.48 m tall and weighed 44 kilos, very much less than the Dutch girl. The girl, seeing him as only a colleague, ordered him to concentrate on the work they were doing. The Japanese got up, took a 0.22 caliber rifle out of a cupboard behind the girl, and shot her in the back of the neck. Following this, he had sex with the cadaver and then cut off the lips, nose, breasts and private parts, storing them in the freezer of his refrigerator for future consumption. And he actually ate a large part of this flesh prior to being arrested. He had this strange compulsion, associating the sex act with the act of eating. The case in question is briefly described in the book written by Canadian writer Max Haines, in Book V of his series entitled “True Crime Stories”. The story appears on page 121, in the chapter “Fantasies Turn to Cannibalism”. It’s a pity that this series has not been translated into Portuguese.

After cutting up the girl’s body, the accused placed these mortal remains in two suitcases, which he transported by taxi. He intended to throw their macabre contents into a nearby lake. In the street, on leaving the taxi, he noted that people were looking with mistrust at that small Japanese figure dragging two suitcases that were much too heavy for him. Startled, he abandoned the suitcases on the sidewalk, thinking that there was no evidence of him being linked to the homicide. The police only found him because, on reading the newspaper headlines, the taxi driver remembered this strange oriental man and took the initiative of informing the authorities.

Following the gathering of irrefutable evidence against him (found in his small apartment, principally in the refrigerator), Issei confessed to the crime but was considered to be crazy and not responsible for his actions, even though he was a cultured and intelligent man. He was fluent in German and French, present in France for his doctorate degree in Japanese influence on French literature. The judge determine that he be committed to a psychiatric institution.

Issei was the son of a rich Japanese industrialist. After spending three years in an asylum, his father managed to arrange for his extradition to Japan, under the condition that he remain confined in a sanatorium for the mentally sick. However, following 15 months of internment, he was discharged. The Japanese doctors concluded that he was normal. France could do nothing as each country has its own sovereignty. And, after all, what does being “crazy” really signify?

After his release (according to Max Haines), Issei Sagawa wrote several books on his favorite topic - cannibalism. It is likely that the victim’s family (whose name I will not mention here, out of respect for the suffering of others) does not have a very high opinion of either the seriousness of Psychiatry as a profession or those intimate with the pompous word “sovereignty”, generally pronounced in a solemn tone of voice.

On the other hand, the family of Issei likely thought that everyone deserves a second chance. After all, the Japanese guy spent four and a half in asylums for the mentally sick as someone “normal” according to the psychiatrists of his country. In all certainty, there will be those that think Issei became crazy as a result of unrequited love. Someone once said that “Man is the fire, woman the tow, and the Devil comes and fans the flames.”

(4-12-2006)





Crimes, soberania e governo mundial.

Já não me acanho — tenho precursores ilustríssimos, Kant inclusive — em insistir que as nações precisam, cada vez mais, renunciar largas porções de sua soberania, em favor de uma federação democrática mundial, para que o mundo seja menos caótico, injusto e autodestrutivo.

Não se trata de “mero” idealismo; propensão à utopia; otimismo fantasioso (estilo J. J. Rousseau, de que o homem nasce essencialmente bom, sendo pervertido pela sociedade); altruísmo e coisas do gênero. O homem é bom e mau, em variadas proporções, conforme sua carga genética, educação — formal e informal —, o coquetel de pancadas e afagos recebidos desde pequeno e o cálculo das vantagens ou riscos, legais e sociais, que cercam sua atuação. Se é vantajoso ser “bom” — vantagem aqui ou no “além” —, ele o é, embora no fundo não o seja com naturalidade. “Dança” conforme a música. Mas deixemos de generalizações, porque o leitor não tem tempo a perder.

Quando estudante de Direito já me impressionava o fato de um cidadão qualquer, rico ou pobre, estrangeiro, condenado pela justiça de seu país, correr para o Brasil, engravidar uma brasileira, com isso livrando-se da extradição para o cumprimento da pena. Parecia-me o “habeas corpus biológico” mais fácil e prazeroso do mundo. Livre das grades graças a um “rábula” analfabeto e gratuito — o “doutor espermatozoide”. Ele tem realmente um rabo, que lhe permite nadar.

Ronald Biggs, um inglês simpático, participante do milionário “roubo do trem pagador”, de 1963, foi um dos casos. Após cumprir alguns meses de cadeia no Reino Unido, pulou o muro e fugiu para a Austrália. Certamente por não se sentir seguro naquele país, que mantém fortes vínculos com a Inglaterra — a Commonwealth — , acabou fixando-se no Brasil após saber que aqui havia algumas “benevolências” legais bem adequadas ao seu caso. Envolveu-se sentimentalmente com uma brasileira de bons sentimentos, engravidou-a e com isso garantiu sua permanência no país.

 A justiça inglesa tentou extraditá-lo mas como o filho de Biggs era seu dependente (claro...), e não havia um tratado de extradição entre os dois países — o velho problema das soberanias... —, o fugitivo continuou por aqui tanto quanto quis. Livre e — conforme a mídia —, cobrando sessenta dólares de quem quisesse almoçar e bater um papo com a celebridade.

Segundo informação do foragido, sua parte no roubo estava reduzida a quantia mínima, tais as despesas com advogados e outros gastos relacionados com sua luta para não retornar à prisão. Quando, porém, a saudade da pátria se tornou insuportável, voltou à Inglaterra e acabou encarcerado. Velho, doente, alquebrado. Fotos suas despertavam compaixão nas pessoas mais sensíveis e inclinadas ao perdão.

O interessante — alguém precisar escrever uma tese acadêmica sobre esse fenômeno sociológico — é que boa parte da sociedade, principalmente a carioca, até mesmo o bajulava, considerando sua simpatia pessoal e audácia por haver participado de um roubo cujo valor, atualizado, chega a mais de cem milhões de reais. O “sucesso”, em qualquer de suas formas — política, econômica, esportiva, artística ou “simpaticamente criminosa” — parece legitimar qualquer ato.

No Primeiro Mundo, artistas de cinema, para reforçar a fama de “durões”, gostavam de serem vistos, em restaurantes e shows, na companhia de mafiosos de alto coturno. O requinte de acrescentar, ao status de artistas, o frisson do vago perigo — no caso vaguíssimo.

Isso ocorria com Frank Sinatra, Alain Delon e outros incendiários de corações femininos. Um político inglês, personagem de ficção, sentindo-se um tanto chantageado por seu interlocutor, mencionou, querendo impressionar, que tinha relações “nas altas esferas”. Ao que o interlocutor respondeu, confiante, que também tinha relações, mas “nas baixas esferas”. Algo bem mais intimidante, porque nas baixas esferas o mal pode ser infligido com a brutalidade e velocidade do raio, sem as peias burocráticas e jurídicas.

O que foi dito sobre extradição apenas mostra, em breve resumo, que na difícil ou impossível harmonização das soberanias, o crime fica muitas vezes impune, ou quase isso. O que não aconteceria, pelo menos em tese, com uma federação mundial, com jurisdição em todo o planeta.

Outro exemplo de favorecimento da impunidade está na lentidão com que a acusação estatal é derrotada ou atrasada quando tenta reaver verbas vultosas depositadas no Exterior. Como o dinheiro pode, em segundos, mudar de banco e de país, com um simples clicar no computador, o esforçado promotor de justiça quase sempre chega atrasado no seu pedido de congelamento de depósitos feitos por ladrões do dinheiro público. Enquanto o promotor estuda — lutando com a língua que não conhece bem — a legislação bancária do país onde está o dinheiro e redige o pedido de retorno de verbas, o dinheiro já foi enviado para outro banco, em outro país. E aí começa tudo de novo. Mesmo o credor particular do devedor milionário que tem recursos espalhados no mundo não consegue cobrar — por vezes nem mesmo citar — o grande devedor, tornando-se seu crédito uma elevada cifra, mas sem significado real.

Extradições sofrem a influência do prestígio internacional dos países envolvidos. No caso dos canadenses que foram presos e condenado pelo sequestro de um famoso empresário de São Paulo, o governo canadense conseguiu que os condenados fossem repatriados para cumprimento da pena no país deles, com consequências benevolentes. Se, porém, um grupo de brasileiros for preso, no Canadá ou nos EUA, após realizar sequestros, é altamente provável que o governo brasileiro não consiga a extradição. Com o presidente Bush, certamente não conseguia.

Mesmo homicídios horrendos acabam quase impunes em razão do “excesso” de soberania, cada país vivendo em um mundo isolado, apenas seu — puro “autismo” político.

Veja-se o caso do japonês Issei Sagawa, de 1981, que, em Paris, matou, “estuprou” ­— na verdade, tecnicamente, “violou o cadáver” — uma bonita e vistosa estudante holandesa, sua colega, na Université Censier, de Paris. Fez isso porque a holandesa — que o ajudava em traduções naquele momento, no studio dele —, recusou suas propostas cheias de paixão e de libido.

Issei, que tem a aparência de um anão mais crescidinho, cabeçudo — vi uma foto dele —, media 1,48 m e pesava 44 quilos, certamente menos que a holandesa. Esta, vendo no oriental apenas um colega, mandou que ele se concentrasse no trabalho que estavam fazendo. O japonês então se levantou, pegou um rifle calibre 0.22 que estava num armário, atrás da moça, e disparou um tiro na nuca da estudante. Em seguida fez amor com o cadáver e depois cortou seus lábios, nariz, seios e partes pudendas, guardando-as no “freeze’ da geladeira para consumo futuro. E realmente comeu boa parte dessa carne até ser preso. Ele tinha essa estranha compulsão, ligando o ato sexual ao ato de comer. O caso é descrito resumidamente no livro do escritor canadense Max Haines, no “Book V” de sua série de “True Crime Stories”. O relato está na página 121, no capítulo “Fantasies Turn to Cannibalism”. Pena que essa série não tenha sido traduzida para o português.

O réu, após esquartejar o cadáver, colocou os pedaços em duas malas, que transportou de táxi. Pretendia jogar a carga macabra em um lago ou rio próximo. Na rua, dispensado o táxi, notou que as pessoas olhavam com desconfiança aquele japonês pequeno arrastando duas malas, pesadas demais para ele. Assustado, abandonou os volumes na calçada, pensando não haver prova de sua vinculação com o homicídio. Com o passar das horas, o sangue das malas começou a escorrer pelas frestas, despertando suspeita e exame do conteúdo. A polícia só chegou a ele porque o motorista do táxi, lendo as manchetes dos jornais, lembrou-se do estranho oriental e tomou a iniciativa de procurar as autoridades.

Reunidas as provas irretorquíveis contra ele — encontradas em seu pequeno apartamento, principalmente na geladeira —, Issei confessou o crime mas foi considerado irresponsável, louco, não obstante ser homem culto e inteligente. Era fluente em alemão e francês. Estava na França para um doutorado sobre a influência japonesa na literatura francesa. O juiz determinou sua internação em uma instituição psiquiátrica.

Issei era filho de um rico industrial japonês. Passados três anos de manicômio seu pai conseguiu que fosse extraditado para o Japão, sob condição de ficar confinado em um sanatório para doentes mentais. A proximidade da família seria útil para seu “tratamento”. Decorridos, porém, 15 meses de internação foi dispensado. Os médicos nipônicos concluíram que ele era normal. A França nada pôde fazer porque cada país tem sua soberania. E, afinal, o que é “ser louco?”

Após sua liberação — diz Max Haines —,  Issei Sagawa escreveu diversos livros sobre seu assunto favorito — o canibalismo. “Um saber de experiência feito”, como diria Camões. A família da vítima holandesa — cujo nome não menciono aqui por respeito à dor alheia — não deve ter boa opinião nem sobre a seriedade da Psiquiatria, nem sobre os bastidores dessa pomposa palavra — “soberania’ — geralmente pronunciada com a boca cheia de ignorância inflada.

Por outro lado, a família de Issei deve ter pensado que todo homem merece uma segunda chance. Afinal, o oriental passou quatro anos e meio em manicômios, embora sendo “normal”, segundo os psiquiatras de seu país. Certamente, haverá quem defenda que Issei foi enlouquecido pela paixão rejeitada. Já disse alguém que “O homem é fogo e a mulher, estopa. Vem o diabo e sopra.”

Pelo que se vê acima, enquanto não houver um governo mundial, sem ditadura — é possível conciliar federação, mundial ou não, com democracia — presenciaremos casos de impunidade, fruto da soberania sem limites, ou caprichosa. Basta o criminoso pular de um país para outra antes que seja preso em definitivo. E, fugindo da prisão, sempre haverá um país disposto a exercer sua “soberana proteção” a qualquer criminoso — ou simpático ao governante local ou em condições de pagar a “hospedagem” —, o que provavelmente não foi o caso do Ronald Biggs no Brasil.

Isso não é racional nos tempos modernos, nem o era antes, e favorece tanto o crime organizado quanto o desorganizado. Mesmo que o país acolhedor apresente justificativas frágeis para não conceder a extradição do criminoso, isso não terá a menor importância. A soberania sem limites dispensa coerência.

Milhares de “presos comuns” — a “plebe” brasileira — certamente exigirão igual benevolência, se a libertação do foragido for confirmada. Gritarão que neste mundo tão contraditório, alguns poucos são “filhos de Deus”, mas a grande massa é, sem dúvida, filha do diabo.

(29-10-2014)